16.4.09

COM OU SEM DEUS


Um dos principais defeitos do período contemporâneo é o de reduzir a filosofia a uma simples reflexão crítica ou a uma teoria da argumentação. Os biólogos, os artistas, os físicos, os escritores, os jornalistas, os matemáticos, os teólogos e até os políticos, reflectem e colocam questões. A argumentação é, sem dúvida, importante e altamente desejável na formação de qualquer tipo de actividade, indispensável à formação de bons cidadãos capazes de participar com autonomia na vida do país. Estas são formas de alcançar outros fins, longe do que a filosofia pretende, ela não é bengala da moral nem instrumento da política.
O Homem interroga-se sobre a sua finitude, sobre uma situação que, a priori, é absurda e insuportável. Ao lado de concepções religiosas, “salvação” designa, antes de mais, “acto de ser salvo, de escapar a um grande perigo”. O perigo da morte a que as religiões nos ajudam a escapar por via da vida eterna é, para a filosofia, a interrogação essencial. Epicuro define a filosofia como a “medicina da alma” fazendo-nos entender que “a morte não é temível”; Montaigne declara que “filosofar é aprender a morrer”; Espinosa reflecte sobre o “sábio que morre menos do que o louco” e Kant questiona-se sobre “o que nos é permitido esperar”.
Aos olhos de alguns filósofos, o receio da morte impede-nos de viver bem, gera angústia. A irreversibilidade do curso das coisas ameaça arrastar-nos para uma dimensão do tempo que corrompe a existência.
As religiões prometem-nos a salvação por via da fé. Filosofar em vez de acreditar é, do ponto de vista dos filósofos não crentes, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé. A filosofia pretende uma salvação por meios próprios, pela via da racionalidade, uma busca de salvação sem Deus. A mortalidade e a consciência da finitude são sempre fonte de interrogação. A religião, como a filosofia, são caminhos de busca de salvação.
Entender a natureza do mundo que nos rodeia e do tempo que passa para poder desvendar enigmas humanos e outros, é preciso. Há, na filosofia, um caminho para o entendimento e para a sabedoria. Para além das considerações tomadas às ciências positivas, discernir a natureza do conhecimento enquanto tal, compreender os seus métodos e os seus limites são tarefas milenares e configuradas ao campo filosófico.
Desde os gregos que preocupações comuns embalam a humanidade. Depois do domínio dos grandes impérios, depois do cristianismo, depois do renascimento e da pós-modernidade, a partir da corrosiva lucidez de Nietzsche, a filosofia contemporânea pode também encaminhar-se para uma qualquer busca de salvação.
Qualquer grande filosofia resume a experiência fundamental da humanidade, como qualquer grande pintura ou obra literária que, traduzindo de forma mais sensível a existência e a atitude, denunciam a marca de quem pensou e sentiu o mundo e a história.

15.4.09

CONSEQUÊNCIA

De tanto ouvir a palavra crise passei a padecer dos ouvidos.

31 - CONCEIÇÃO RAMOS




Maria da Conceição Fernandes Ramos nasceu na Beira (Moçambique) em 1960, onde viveu até aos 15 anos de idade. Obteve a Licenciatura em Artes Plásticas - Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1985. Concluiu o Doutoramento em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes de Barcelona em 2006. É Professora de Artes Visuais na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. Desenvolve uma carreira artística, tendo realizado diversas exposições individuais e colectivas desde 1992. Obteve o 1º Prémio na Bienal Cardoso Lopes em 1996 e uma Menção Honrosa em pintura no VIII Salão de Primavera da Galeria de Arte do Casino do Estoril. Realizou, por convite, os painéis alusivos à vida dos santos da Igreja de Massamá.Publicou em 2007, conjuntamente com Matilde Rosa Araújo, o livro “Nascer Mãe”.

Retirado de:
www.pnetartes.pt

13.4.09

O TEMPO QUE NÃO EXISTE


Lucien Freud

O passado, tempo que já não existe, pega-se a nós em jeito de nostalgia, remorso ou culpa. O futuro pega-se em jeito de esperança por um tempo que ainda não aconteceu. Como dizia Séneca, "enquanto esperamos viver a vida passa por nós."
O peso do passado e a miragem do futuro, os dois grandes males da existência.

11.4.09

A NORTE DE COIMBRA

Lucien Freud

A norte de Coimbra, o ar cheira a limpo, as pessoas passam devagar e o céu não consegue ver-se sem nuvens. É um lugar de sonhos adiados. Tudo parece ter parado no tempo de D. Sebastião, quando partiu sem regresso. As árvores contam-nos histórias compridas em frente à piscina de um hotel antigo. Espreguiço-me todas as manhãs sem mais nada para fazer. É o portátil que permite o contacto com o mundo lá fora, depois da estrada comprida de pedra escura que me trouxe ao meio do que não é ruído.

O pequeno-almoço serve-se em sala estendida no meio de um jardim repleto de heras, as que são verdes e trepam furiosamente em cima da pedra gasta da parede secular. São ideias as que voam de manhã, ao pé do riacho que faz um barulhinho meigo e me convida a molhar a cara com água gélida, mais transparente que a da torneira. As manhãs são compridas, como o resto dos dias. Três livros para ler. Ténis que acompanham caminhadas longas ao final da tarde, antes do sol se esconder para renascer em mais um dia sem barulho que não seja o das pessoas que me olham intrigadas. Converso pouco. Quase nada. Olham-me cheias de perguntas que guardam atenciosamente no bolso semi-aberto, à espera que lhes toque, para poderem fazer-mas, todas de uma vez.

Ontem, um cavalheiro de meia-idade olhou de relance para o que estava a escrever, sorriu e sentou-se na poltrona atrás de mim. Não sei se queria espreitar as letras no monitor ou a parte de trás da minha t-shirt que dizia: Sorry, I’m Busy. Hoje ainda não o vi, suponho que saiu com as calças pretas vestidas por baixo da camisa mais preta ainda. Os olhos estão postos longe do espaço que ocupa, traz um livro bem encadernado debaixo do braço. Não sei o título mas parece-me que a Psicopatologia da Vida Quotidiana de Freud lhe assentaria como uma luva. Amanhã, quando vestir a t-shirt que não tem letras nas costas, talvez lhe pergunte o que faz aqui, tão alheado do mundo quanto eu. Sei que não me responderá. Porque perguntas dessas não se fazem a ninguém.

3.4.09

MEIA DÚZIA DE MANIAS


Lucien Freud


1 – Deitar tarde é hábito antigo.
2 – Nunca usar brincos com óculos.
3 – Ler em silêncio.
4 – Usar a música como companhia de odiáveis limpezas caseiras.
5 – Abraçar sempre os amigos à chegada e à partida.
6 – Viajar com caneta e papel, mesmo quando o destino é perto de casa.

I HAD A DREAM



Era uma vivenda num bairro ajardinado e limpo. A entrada dava acesso a uma sala em tons de encarnado esmorecido, mais ou menos velho. Poltronas de veludo gasto e bonito, enormes bancos rente ao chão convidavam quem chegava a sentar-se confortavelmente. A dona da casa distribuía elegância e bom senso. Palavras ditas em inglês que eu ia percebendo mal. O marido, homem bonito e com classe, convidava-me a sentar num gesto amigável e quente. Parecia que nos conhecíamos há muito. Visita regular da casa, eu era recebida em jeito informal, como se não fosse preciso muito tempo para entender a amizade que nos unia. As filhas estavam de férias com os avós, a minha e as do casal. Três meninas que conviviam como irmãs e que, muitas vezes, partilhavam os mesmos brinquedos.

Sentei-me na poltrona que me reservavam e fiquei em frente ao dono da casa. Tentei falar um inglês compreensível de modo a ser entendida. Ele ria das minhas “concordâncias gramaticais” e afirmava perceber-me, ao mesmo tempo que ia pronunciando lentas palavras em português. Dizia que tinha aprendido em pequeno, com amigos filhos de emigrantes que, na escola, lhe tinham ensinado “pois”, “claro”, “com certeza”, “obrigado” e “boa noite”.

Assim nos íamos entendendo enquanto a senhora mandava preparar um chá verde sabendo-me apreciadora do líquido quente e desintoxicante. Os três em frente a uma lareira alta que iluminava a noite desenrolávamos ideias em cima do riso. Ele, alto, bonito e inteligente, fazia-me sentir a urgência da reflexão sobre o mundo, sobre a economia, a fome, a guerra e o desenvolvimento sustentável. Ela, mulher de elevada classe, fazia-me entender que as escadas se devem subir devagar, desde o primeiro degrau, sem pressa de chegar ao cimo porque, de lá, se podem sentir vertigens.



O serão atravessou horas de beleza e tranquilidade. A dada altura, o dono da casa pediu para sair, tinha que retomar um trabalho importante no escritório do primeiro andar onde se recolhia sempre que compromissos políticos o chamavam. Ela ficou, mastigando bolinhos de areia comigo, cúmplices, amigas e mulheres. Continuei sentada a conversar com Michelle, enquanto Barack Obama cumpria, no andar de cima de uma casa que não era branca, compromissos oficiais importantes.

2.4.09

30 - LUCIEN FREUD




Nascido em Berlim em 8 de Dezembro de 1922, Lucien Freud, neto de Sigmund Freud, foi para Inglaterra, juntamente com a sua família, em 1931, tornando-se cidadão inglês em 1939. Desde muito jovem teve uma tendência enorme para o desenho. Tornou-se artista a tempo inteiro e como profissional depois de ficar inválido num ataque a um navio da Marinha Mercante onde trabalhava. Em 1951, o seu quadro "Interior at Paddington" (Walker Art Gallery, Liverpool) ganhou o primeiro prémio no festivalde Arte Britânica e, desde netão, ganhou uma reputação enorme como um dos principais pintores de arte figurativa contemporânea. Retratos e nus são a sua especialidade, vistos muitas vezes como chocantes. As suas primeiras obras eram meticulosamente pintadas. Ele próprio as classificava como "realistas ou Superrealistas. Mais tarde, adptou uma atitude mais visceral. Substituindo os pincéis de zibelina pelos de pêlo de porco, menos bons e precisos, Freud começou a esculpir com a tinta, alarganda o observação meticulosa a novos horizontes. O sua obra tem sido alvo de numerosas retrospectivas por todo o mundo. Lucien Freud nasceu em Berlim em 1922 e está naturalizado inglês.

Retirado de: www.oseculoprodigioso.blogspot.com

1.4.09

DOBRAS E GRITOS (33)


A solidão encerra-nos no silêncio purificador, retira-nos de exteriores poluídos e fornece-nos energias alternativas.

31.3.09

AMOR DE PLÁSTICO

Parece que um casal de namorados ou, neste momento, ex-namorados, não se entende na divisão do euro-milhões ganho há dois anos. Ela quer mais de metade da quantia porque preencheu a chave, ele contenta-se com a divisão equitativa de quinze milhões de euros, apesar de ter pago a maior parte da aposta.

Este casal que partilhou o amor, o quotidiano e os fluidos corporais, não percebe que a divisão da quantia é muito mais fácil de resolver do que as partilhas anteriores. Como a estupidez não tem limites, convencem-se que, em tribunal, se podem tratar assuntos do foro psicológico. Eu defendo uma terapia comparticipada pelo estado neste tipo de casos. Afinal é preciso solidariedade para com os insanos.

DORIDA


Jorge Martins

Fiquei muito tempo sem tempo. Doem-me as pernas e os braços.

30.3.09

PERMANÊNCIA


Jorge Martins

Tentar parar o tempo com atitude. O corpo ajuda muito. A alma dificulta o acesso à permanência.

27.3.09

PARAR O TEMPO


Jorge Martins

Vou-me embora. Parar o tempo e perceber que, dias como os que aí vêm, não são comuns.

25.3.09

FRINCHA


Jorge Martins

Espreita-se pela frincha para fingir que se vê. Não há alternativa para olhos semi-cerrados. São olhos mortos.

24.3.09

JANELAS FECHADAS


Jorge Martins

Não são as janelas fechadas que impedem a visão. São as pessoas que não querem olhar para as coisas. As primeiras podem abrir-se, as segundas não. Porque olhar interfere com ser e disso fogem os que fecham os olhos.

23.3.09

COISAS QUE ME INQUIETAM (12)


Em final de tarde, reunida com vinte colegas de trabalho, oiço: a avaliação de professores deveria passar pela verificação do conhecimento de leis e pela análise exaustiva das mesmas.
Há gente muito pequena. Mais um passo e estou a ouvir: a avaliação de professores deveria passar pela verificação do conhecimento da anatomia humana e pela análise exaustiva da forma como cada docente procede face à postura não erecta do aluno em sala de aula.Há gente que não tem vida. Um passo mais à frente e ouvirei: a avaliação de professores deveria passar pela verificação das condições sócio-económicas dos estudantes de forma a proceder a uma avaliação igualitária que não produza discriminação.Não são as ideias que perturbam, perturba perceber que há pessoas que deviam mudar de profissão já.

22.3.09

REVOLUCIONARY ROAD

Angústia, insatisfação, medo, aflição e desejo, escondidos sob a capa de uma normalidade podre. A morte, em vida ou depois dela, é a única saída.

21.3.09

GRAN TORINO

O problema dos filmes de Clint Eastwood é que nos tiram o sono.

29 - JORGE MARTINS




Jorge Martins nasce em Lisboa, no dia 4 de Fevereiro de 1940. Entre 1957 e 1961, frequenta os cursos de Arquitectura e Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.Em 1958, inicia-se na técnica de gravura, na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses - Gravura, a convite do pintor Júlio Pomar. Nesse mesmo ano, estabelece-se num atelier e inicia a sua carreira como artista plástico. Vê o seu trabalho exposto em Lisboa, Nova Iorque, Chicago, Paris, Bruxelas, entre outras cidades. O seu interesse pela literatura leva-o a ilustrar várias obras, como O Ciclópico Acto de Luiza Neto Jorge, Mensagem de Fernando Pessoa ou O Livro das Sete Cores de Maria Alberta Meneres e António Torrado, pelo qual recebe o Prémio Gulbenkian de Ilustração de Literatura Infantil.
Em 1985, participa na representação portuguesa da 18ª Bienal de São Paulo. Em 1986, recebe o Prémio de Desenho da IIIª Exposição de Artes Plásticas da Fundação Gulbenkian. Em 1995, é inaugurado, na estação de metro Archives/navy Memorial de Washington, o alto-relevo Ocean Piece da sua autoria.
Tão Só O Fim do Mundo foi a sua primeira experiência no teatro.

Ennio Morricone - Cinema Paradiso

20.3.09

AO RITMO DO DJEMBÊ


Walter Vale, professor de economia na Universidade de Connecticut, perdeu a paixão pelo ensino. A vida é preenchida por rotinas. O vazio da existência caminha para as teclas de um piano que já não se ama. As aulas preenchem objectivos que desapareceram. Uma deslocação a Nova York leva Walter ao reconhecimento de que a vida pode passar a fronteira do hábito. Dois jovens ilegais que ocupam, por engano, o seu apartamento, fazem com que Walter perceba, por detrás de um sorriso que não se revela, a importância dos dias com ritmo. Tarek, músico dotado (para além dos dotes com que a natureza o presenteou), ensina a Walter os segredos do djembê.
Aos poucos, Walter recupera a alegria da qual que se tinha esquecido. Amigos e cúmplices, os dois homens percorrem o metro e os bairros de Nova York com o objectivo de viver ao ritmo da exaltação.
Noite fria. Avenida de Roma. Do cinema King à praça de táxis, dois amigos circulam em passos fumados de riso e luxúria:
- Walter percebeu que se pode morrer antes do cérebro e o coração pararem.
- Coisas que todos temos obrigação de entender.
- A morte é sempre entendida como física.
- Não fossem desatentas as gentes, perceberiam que morrem todos os dias, sem o som do djembê e sem as teclas do piano.
O vento cortante de uma cidade silenciosa, longe do poder cosmopolita de Nova York e do cheiro das bijutarias vendidas em Washington Square. A noite sem lua:
- Gostaste do desempenho dele?
- A falta de sorriso, a incapacidade de um corpo que morre e deixa a alma ir junto. Gostei da forma como o disse, em todos os gestos e frases.
- O piano era o encontro possível com a mulher.
- Era. Embora Walter tivesse tomado consciência que, encontros depois da morte, podem desenrolar memórias pouco bonitas.
O vento parou na cidade silenciosa, ao mesmo tempo que o táxi encostou na berma para que entrassem:
- Por favor, leve-nos ao Café Malaca.
- Onde fica?
- No clube naval do Cais do Sodré, uma casinha velha que espreita o rio com vergonha.
- Estão com pressa?
- Não. Acabámos de perceber a importância das noites que não se apressam.

19.3.09

ANIMAÇÃO PREMIADA

En Tus Brazos

DOR


Goya

A dor é um sinal inequívoco de que alguma coisa está errada. Dependendo da força de espírito da vítima, a dor poderá provocar um bom ou um mau resultado.

18.3.09

FORÇAS


Goya

No mundo dos humanos, crescemos acreditando que podemos alterar o nosso destino. As nossas esperanças viajam em função disso. Conclui-se, do contínuo movimento dos oceanos e do voo dos cometas que, forças completamente alheias aos nossos desejos, existem.

17.3.09

ESTRADAS LAMACENTAS


Goya


Teríamos muito poucos amigos se aceitássemos todas as frustrações. Os romanos eram perfeitos na recusa de frustrações, detestavam o frio e desenvolveram um aquecimento instalado debaixo do soalho. Não queriam caminhar em estradas lamacentas e por isso pavimentaram-nas.
Para Séneca, a sabedoria assenta em sermos capazes de discernir correctamente quando é que somos livres de moldar a realidade de acordo com os nossos desejos e quando é que devemos aceitar o inalterável com tranquilidade.

16.3.09

RUÍDO


Goya

Em ruas ruidosas, devemos acalmar-nos e convencermo-nos que todos os que fazem barulho, nada sabem a nosso respeito. O ruído nunca será agradável mas não é por isso que nos vamos enfurecer. O que se passa no exterior não pode perturbar-nos.

14.3.09

SER DEMONÍACO


Goya

Schopenhauer considerou que, este mundo, não podia ser obra de um Ser que nos amasse, mas em vez disso de um ser demoníaco que dera existência às criaturas para se deliciar com a visão dos seus sofrimentos.

13.3.09

COITADINHOS DOS MENINOS


É notória a comiseração oferecida aos meninos que vagueiam entre a família e a escola sem que o rumo para a vida surja como objectivo primeiro. Os meninos, coitadinhos, crescem no seio familiar com a sensação quotidiana de que a excessiva protecção e a permanente oferta de bens materiais de quinta necessidade é, sempre, prioridade dos que os acompanham ao longe.
Os meninos, coitadinhos, não estão habituados a lutar por coisa nenhuma. Não sabem realizar tarefas sem ajuda, não sabem organizar a mochila nem os cadernos, não sabem gerir o horário escolar semanal, não sabem estudar mais do que 5 minutos seguidos, não sabem sentar-se direitos. Coitadinhos dos meninos, não têm culpa. Os pais estão fora o dia inteiro, não podem oferecer-lhes tempo nem paciência. Os que escolheram a carreira antes dos filhos, oferecem-lhes tudo o que lhes permite pensar que o mundo é uma construção tipo lego. Depois, na escola, os meninos, coitadinhos, arregalam os olhos ao professor que lhes exige trabalho e esforço, indignam-se face à exigência que não conhecem, espantam-se perante a “intransigência” de um atraso, reclamam por não poderem infringir regras básicas de comportamento, gritam com quem não permite o uso de telemóvel em locais de trabalho, esperneiam quando repreendidas posturas, consideram inimigo quem lhes diz não.
Os meninos, coitadinhos, não sabem ouvir um não, não têm culpa, nunca o ouviram antes. Percebem, muito tarde, que há pessoas que dizem não e que, mais grave, não voltam atrás na resposta depois de birra afincada. Os meninos, coitadinhos, são vítimas de um sistema incoerente e perverso. No início, quando a infância exige disciplina, não a têm, não aprendem nada sobre regras. A escola chega depois para confundir, contradizer aquilo que antes aprenderam. Não é justo que um monte de desconhecidos os obriguem a ser e estar como nunca lhes tinham ensinado. A incoerência dita, na cabeça dos meninos, alguma revolta, o vazio de referências, a confusão de registos a que não sabem apegar-se.
Antes, na casa aquecida onde a empregada ditava os sabores das refeições escolhidas por capricho, os meninos podiam mandar. Agora, na escola fria onde funcionários e professores ditam leis, os meninos têm que obedecer. É confuso, percebe-se que os meninos, coitadinhos, precisem de apoio psicológico, terapias dirigidas, acompanhamento escolar extraordinário.
Percebe-se que, depois da ausência de tudo, esbarrar num monte de presenças incómodas, possa desencadear, a uma vida desprovida, graves problemas de inadaptação. São meninos, coitadinhos, mereciam o tempo e o conteúdo dos que escolheram ter filhos. Não tiveram nada e agora, os que escolheram ensinar, pagam a factura da comiseração indecente que, aos coitadinhos, é oferecida todos os dias.

12.3.09

PROSA SIMPLES


Goya

Um estilo de escrita incompreensível pode, eventualmente, resultar mais da preguiça do que da inteligência. Às vezes, prosa difícil, disfarça ausência de conteúdo. Ser incompreensível oferece uma enorme protecção contra o facto de não ter nada para dizer. Escrever com simplicidade requer coragem, porque existe o perigo de que não nos prestem atenção, de que sejamos colocados de parte por sermos simples de espírito por aqueles que acreditam que, a prosa impossível de compreender, é o grande marco da inteligência. Montaigne perguntava-se se a maioria dos académicos teriam apreciado Sócrates se o tivessem conhecido pessoalmente, desprovido de complexidade e prestígio, vestido com a sua capa cheia de nódoas e falando uma linguagem vulgar.

10.3.09

CASA DE LOUCOS


Goya

Pode ser problemático ter, simultaneamente, um corpo e um espírito. O primeiro apresenta-se como contraste ao segundo. Os corpos sentem dor, fraqueza, pulsam e envelhecem. Os nossos corpos arrotam, suam, libertam odores intensos. Os nossos corpos mantêm os espiritos como reféns dos seus caprichos. Toda a nossa perspectiva de vida pode ser alterada pela digetão de um pesado almoço.

Dizia Montaigne: "Quando uma boa saúde e um lindo dia de sol me sorriem, sinto-me perfeitamente jovial; se tiver uma unha encravada sinto-me susceptível, mal disposto e intratável".

9.3.09

DISTÂNCIA


“Enquanto nevava a favor de um vento forte guiado pelo Danúbio, junto ao lago conheceu Orsolya, por mero acaso ou porque ela assim quis, mais de ingénua do que curiosa.”

László, não tinha esquecido Luísa. Sabia-a longe, perto do Tejo que via à distância. Perguntava-se, todos os dias, se a voltaria a ver. Sabia que, de repente, era possível o reencontro em Lisboa.

8.3.09

28 - FRANCISCO DE GOYA



Goya iniciou a sua aprendizagem como pintor em 1759, aos treze anos, com Don José Luzan y Martinez. Como era costume na época, começou por fazer cópias de pinturas de vários mestres. Aos dezassete anos foi para Madrid, onde tentou, por duas vezes, entrar para a Academia de Belas Artes, sendo rejeitado em ambas as tentativas. Os biógrafos atribuem a Goya todo o tipo de aventuras nos anos que se seguiram, como a de ter-se tornado toureiro em Roma e ter-se envolvido em inúmeras aventuras amorosas.
No final de 1771, inscreveu-se no concurso da Academia de Belas Artes de Parma, recebendo uma menção honrosa e a sua primeira encomenda: o fresco na Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Saragoça. A partir de então, seguiram-se encomendas para o Palácio de Sobradiel e o Monastério Aula Dei. Entre os anos de 1773 e 1774 foram executadas, provavelmente, as últimas pinturas desse período em que esteve em Saragoça.

Goya casou com Josefa Bayeu, irmã dos artistas Francisco e Ramon Bayeu. Enquanto esteve em Madrid, trabalhou para várias fábricas, fazendo desenhos para tapeçarias. São desse período os desenhos que ganharam fama, com reprodução de cenas folclóricas e de paisagens. Contudo, ele não era um artista interessado em paisagens e o fundo de suas obras mostra o pouco interesse que tinha por elas.
Depois de estabelecido em Madrid, começou a pintar retratos. O mais antigo que se conhece data de 1774.
No ano de
1780, entrou para a Academia de San Fernando e apresentou a obra "La Crucificada". Nessa pintura, Goya seguiu as regras académicas, provando que era um mestre do estilo convencional. Em 1785, começou a receber encomendas da aristocracia. Foi nomeado "Primeiro Pintor da Câmara do Rei", tornando-se o pintor oficial do monarca e da sua família.

Em 1792, numa viagem a Andaluzia, contraiu uma doença séria e desconhecida, ficando temporariamente paralítico, parcialmente cego e totalmente surdo. A alegria desapareceu lentamente das suas pinturas, as cores tornaram-se mais escuras e o seu modo de pintar ficou mais livre e expressivo. Parcialmente recuperado, regressou a Madrid no verão de 1793 e continuou a trabalhar como artista da Corte. Buscou então outras inspirações para expressar a sua fantasia e invenção sem limites.Entre 1810 e 1814, produziu a famosa série de pinturas "Los Desastres de la Guerra"; "El Segundo de Mayo 1808" e "El Tercero de Mayo 1808". Nestas obras demonstrou um uso de cores extremamente poderoso e expressivo. Pela primeira vez, a guerra foi descrita como fútil e sem glória, e pela primeira vez não havia heróis, somente assassinos e mortos.
Em 1821, a Inquisição abriu um processo contra Goya por considerar obscenas as suas "Majas", mas o pintor conseguiu livrar-se, sendo-lhe restituída a função de "Primeiro Pintor da Câmara".

Durante a última parte da sua vida, Goya cobriu as paredes da sua Quinta del Sordo com as famosas "pinturas negras", as últimas e mais misteriosas de seu génio atormentado, como "Saturno devorando a un hijo" que se encontra, actualmente ,no Museu do Prado. Esta pintura constitui uma referência aos conflitos internos de Espanha, durante o reinado absolutista de Fernando VII, mas será também um reflexo da degradação da sua saúde física e mental.
Em
1824, Goya exilou-se em Bordeaux, vindo a morrer quatro anos depois.

ENSINAR


Homer


Parar de ensinar é, também, parar de aprender.

7.3.09

PARAR PARA OLHAR


Homer

Na terra onde nasci, havia uma casa abandonada. Eu era muito pequena para perceber que, ali, tinha vivido gente. Um dia, depois da ingenuidade, dei comigo a imaginar a vida desaparecida nas paredes em ruínas. Percebi que há lugares onde é preciso parar para olhar.

5.3.09

O LEITE CONDENSADO DAS OPINIÕES


Homer

Eu não tenho opiniões. Eu não quero ter opiniões. Eu quero ter corpo e mãos e pés e braços e pernas e entendimento. As opiniões impedem-me de ter corpo e mãos e braços e pernas e entendimento. As noites põem a música mais nítida e as opiniões impedem o corpo de agir, as mãos de fazer, as pernas de andar, o entendimento de criar.
Que se eleve a forma ao momento da transcendência do corpo, muito longe das nojentas frases opinativas. Operam em mim sensação de arrepio, as opiniões que não dizem mais que nada. Escrever opiniões é dizer coisa nenhuma. Quem se interessa pelo que eu julgo? Quem quer ler as minhas opiniões? Quem se debruça para papéis incertos?
Eu quero o corpo e os braços e as pernas e os olhos que vêem, eu não quero peganhentas opiniões.
Há vida no entendimento da criação, a que o sofrimento ou o prazer arrancam à alma. Há vida nas coisas criadas depois dos gritos e dos arrepios, quando a elevação acontece. As opiniões não surgem de gritos nem de arrepios, nem de frio nem de calor, aparecem do vazio sem corpo e sem prazer. As ideias são outra coisa, são o berro de um espírito ocupado com prazer e dor, com corrida e desmaio, com quente e frio.
Que fiquem longe juízos opinativos que uso para preencher folhas em branco, para usar de falsa atenção e inteligência construída sem critério. Que se guardem opiniões para os dias de semana que são domingos, longos e chatos, cheios de corridas sem regresso e passeios sem olhares. Que fiquem, os sons, longe de mim, para os poder ouvir com maior intensidade.
Eu não quero ter opiniões, mas tenho-as. Perseguem-me, viscosas como a baba de camelo que tem sabor a leite condensado. Odeio leite condensado. Odeio as minhas opiniões, andam atrás de mim sem que as consiga colocar em frente dos pés, como uma bola que se chuta para longe. Assiste-se ao seu caminho para trás das árvores, esconde-se mas não desaparece…como as minhas opiniões.

4.3.09

NOJO


Espremo a saia como espremo tudo o que me enjoa. Carros que andam depressa, motas que curvam bocados de estrada escorregadia, guinchos de crianças mal dispostas, pessoas com dentes mal tratados. Espremo a saia como espremo tudo o que me enoja. Preços fora de prazo, dinheiro escondido debaixo de pastas, risos disfarçados, beijos a fingir. Espremo a saia com força e não consigo que tudo o que me enjoa ou me enoja desapareça.

3.3.09

MÃOS FORA


Homer

Tocar no mundo com a cabeça leva-te aos sentimentos paralelos de um universo pouco importante. Há uma intensidade a que as mãos nos habituam, são elas que nos tornam intensos.
"Com as mãos nos bolsos o homem percebe que não é Deus. Não chega às coisas. Com as mãos nos bolsos sente-se mais, pensa-se menos". (Gonçalo M. Tavares)

2.3.09

PALAVRAS QUE ADORMECEM


Homer

Ver adormecer as palavras no branco e áspero papel:
toda a gente entende que, à noite, a música é mais nítida.
As mãos são orgãos susceptíveis de se emocionarem e ... ouvir mantem-me distante das coisas.

1.3.09

DOMINGOS

Há dois tipos de domingos: os que servem para tudo e os que servem para coisa nenhuma.

SABARBIAN


Homer

A noite no fim de Lisboa foi verde. Gentes postas em elegante mesa. Pato escondido em arroz branco e muito riso. Ciência, Filosofia e Arte em partes certas. A curvatura de uma onda à passagem por um obstáculo, foi tema de conversa entre letras e ciências. Em maior ou menor grau, dependendo das dimensões do obstáculo, ocorre a curvatura da onda. Como nas pessoas: em maior ou menor grau, conforme capacidade de entendimento, ocorrem juízos ou certezas. À noite, no fim de uma Lisboa verde, as certezas gritaram mais alto, em uníssono comprimento de onda.

27 - WINSLOW HOMER



Nascido em Boston, Massachusetts, um dos mais expressivos representantes do realismo norte-americano em fins do século XIX. Viveu a sua infância numa área rural de Cambridge, após a falência dos negócios do pai. Não recebeu educação formal e, influenciado pelos dons artísticos da mãe, iniciou sua carreira na arte aos 19 anos como aprendiz de litógrafo. Mudou-se para Nova York , onde estudou pintura na National Gallery of Design.
Durante a guerra de secessão, dedicou-se à temática militar. Viajou para França onde conheceu novas estéticas que não chegaram a influenciar a sua obra.
De volta a América, montou um estúdio em New York City e começou a pintar aguarelas. Com o passar dos anos, mudou para telas caracterizadas por figuras solitárias, com acentuado detalhe e efeitos atmosféricos.
Voltou à Europa, passando dois anos no Reino Unido e, de volta aos Estados Unidos, o mar passou a ser o tema predominante na sua obra.
Nos seus últimos quadros demonstrou um crescente interesse pelo abstracto.

28.2.09

"EXERCÍCIOS"


Menez

"Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é outra forma de exercitar a verdade. Klaus comandava pela primeira vez os negócios da família. Não tinha medo, nem fome, nem estava apaixonado. Cada dia era, pois, um exercício novo da mentira."

Gonçalo M. Tavares; Um Homem: Klaus Klump

27.2.09

JARDIM


Menez

Era uma vez um jardim. As flores murchavam quando as meninas olhavam desatentas. As árvores sumiam quando, ao acaso, os passos se distanciavam.

26.2.09

ENTRE AS DUAS PONTAS DA CORDA


Menez

Entre o sujeito e o objecto, a viagem. Arranco de mim as palavras, para longe, para o branco do papel que se desenrola, como tapete em dia de festa… Há viagem entre as duas pontas. De um lado eu, do outro, no vazio que se completa, a ponta da corda viajada por mim, o texto que, sendo meu, não sou eu.
No caminho de ida, deixo as ideias e as coisas. No regresso, tudo muito mais limpo, como em banho de pétalas brancas. Quando levo as pétalas perfumadas, regresso com carga imensa, pesada. O caminho que não acaba enquanto o ponto final não chega, é seco e íngreme. Cansa.
Entre o sujeito e o objecto, a viagem. Atiro fora os sentidos, restam distantes, não incomodam nem presenteiam, ficam lá, para que outros leiam. Pouco sabem de mim. Resta no objecto, o detalhe que não se escondeu, o acento que não se evitou, a vírgula da qual se fugiu, interjeição que nunca foi escolha.
Entre os dois, a viagem. Atiram-se ideias para serem lidas. Alguns comentam-nas, outros confundem-nas, outros trocam-nas e, os mais atentos agarram-nas para construírem outros mundos.
Eu sou sujeito, não sou objecto, por isso, aquilo que arranco de mim e coloco na outra ponta da corda, sendo meu, não sou eu.

25.2.09

COISAS QUE ME INQUIETAM (11)

Estou farta de ver a vagina cabeluda de Gustave Courbet na maioria dos blogues que visito.

O REINO


Menez

Gonçalo M. Tavares tem sido descoberta portentosa, das que, poucas vezes, acontecem. Agora, com O Reino nas mãos, pouco tempo resta para imagens fora dos livros.

THE READER

O melhor filme de um ano que ainda não acabou. Seguramente.

24.2.09

LEGUMES EM ÁGUA CORRENTE


Alguns dias seis, outros dias sete. Mulheres novas, com a experiência parada e a vida por preencher. Saem de casa com os sacos cheios. Manhã cedo, saias compridas e casacos cor cinza, escondem pernas em botas altas. Pulam para o autocarro com a ideia num almoço partilhado em sala que acolhe profissionais atarefados. Todas as semanas se juntam para falar de comida. Receitas trocadas, bolos de chocolate, frangos assados no Sr. Joaquim do Bairro do Rego e muito apetite. Juntas dividem tarefas, combinam o almoço da semana seguinte e riem de quem se junta para a sopa de feijão que o Bar da empresa oferece. São simpáticas. A sua vontade de comer faz lembrar a vontade de correr para longe, como quem foge de um cão raivoso e veloz.

As mulheres ocupam pausas com interesses culinários diversos, os que lhes ocupam, naturalmente, as vidas. Imagino-as ao final do dia, em casa, perto de um marido barrigudo e rezingão que espera o jantar sentado no sofá, com os filhos de gatas e pingo no nariz a clamarem biberão. As mesmas que, ao almoço, dividem os pratos de plástico, estão ali, em frente a um fogão topo de gama, olhando para o refogado que o marido aguarda a salivar, enquanto coça o bigode e vê o jogo do Benfica. São simpáticas. Umas esperam da vida, sucesso no lar e ordenado capaz de comprar casa em telheiras. Outras esperam poder usar Yves saint Laurent nas festas com casais que organizam aos fins-de-semana.

A dúvida instala-se quando não entendem a crónica escrita pela Maya na revista semanal que compram e folheiam como se não houvesse amanhã. A existência é posta em causa por momentos, quando as imagens dançam nas páginas da Caras. As unhas pintadas de vermelho carmim oferecem-lhes expectativas, prometem-lhes futuro, engendram-lhes sonhos. Nos dias em que são seis, sentam-se umas em frente às outras na mesa rectangular de um refeitório frio. Nos dias em que são sete, a cabeceira é ocupada pela primeira que chega, na ilusão de poder gerir a conversa apimentada e fresca, como os legumes que lavou bem cedo, em água corrente.

In: PnetMulher

23.2.09

NÃO


Menez

Não me entusiasmam figuras angélicas, nem caras perfeitas, nem corpos sem mácula, nem mãos sem sinais de vida.

21.2.09

IMAGENS CARNAVALESCAS


Menez

É Carnaval quando, na imaginação, construimos imagens para lá do que conseguimos ser. Depois vestimos roupas, rimos muito e fingimos que estamos contentes.

20.2.09

RECRIAÇÃO DO DESEJO

Menez

Quando alguém se vai embora, quando alguma coisa se perde, fica o sentimento vazio da ausência que queríamos presença. É o momento em que, privados do sentir e do ver, longe do tocar e do ouvir, mantemos o desejo encarnado de sangue e vivo de lágrimas. Aquilo, aquele ou aquela, ficaram longe, fizeram viagem para fora de nós, abandonaram presenças sentidas. Restam as palavras no espelho, as memórias na música e o suor nos dias que não voltarão.

A saudade é o desejo despido. O fervor e a vontade ficam sem água, sobrevivem por conta do sentir enclausurado, alimentam-se de uma recriação de imagens, de sons, de cheiros e de toques. Refaz-se a presença, ouvem-se os gestos, como se estivéssemos perto. É esse longe que fica nas mãos que agarram o nada e persistem na escura espera.

A génese do vocábulo está ligada à tradição marítima lusitana. Saudade descreve mistura de sentimentos: dor, tristeza, ausência ou perda. Do latim solitáte, voltamos à ideia inicial: perda que esbarra em solidão. Fortuna para os que dela retiram bem maior, força dos que sobrevivem com o querer sozinho (...).

Sentei-me aqui, com o espelho longe e a musica calada. A água transformou-se em chá. Verde. A saudade dos que não tenho puxou-me para o texto. A procura do desejo recriado e a força da vontade e do querer, fizeram deste branco, aquilo que leio e defino. Por desvario ou loucura, saudade pode ser triste. Por apego ou por amor, saudade pode ser contentamento. A escolha está na alma, quando o desejo se despe.

In: PnetMulher

19.2.09

DANÇA NA ESTAÇÃO DE METRO

Segunda feira, 15 de Jan 2009 11 am na estação de metro deLiverpool St., 70 bailarinos misturados dançaram e acabaram interagindo com passageiros.

O "show" foi planeado e ensaiado durante 8 semanas, sem o conhecimento do público.

PÁGINAS

Páginas não acabadas. Constroem-se personagens à distância. Dois amantes de palavras conhecem o prazer desmedido da troca de cumplicidades. E-mail em frente aos olhos que se querem prontos.

Talvez o livro, a possível materialização das ideias que se cruzam e dos corpos que não se encontram. Talvez o tempo e o desejo de perceber, até ao fim, o sentido de tudo isto. A espera de Luísa, a que um dia decidiu viajar para perto de um rio com nome de música.

18.2.09

26- MENEZ



Maria Inês Ribeiro da Fonseca nasceu em 1926.
Teve uma infância cosmopolita, seguindo as colocações do padrasto, o diplomata Jorge Rodrigues dos Santos. Até aos 20 anos, conheceu Buenos Aires, Estocolmo, Paris, Suíça e Roma.Em 1946, casou com Ruy Leitão, e mudou-se para Washington, onde residiu até 1949.

Menez nunca frequentou qualquer escola de arte, tendo começado a pintar por iniciativa própria aos 26 anos. O escritor Ruben A., que era seu amigo, apresentou-a em 1954 a José Augusto França, que dirigia nessa época a Galeria de Março, onde realizou a sua primeira exposição individual, de óleos e guaches.
A crítica de então referia-se ao seu expressionismo lírico e abstracto de influência francesa e atribuía a Menez autoria fundadora desta tendência em Portugal.
As obras desta época afirmavam-se por um sentido agudo da luz e da cor, em composições abstractas onde as vagas geometrias introduziam um ritmo exclusivamente plástico na abstracção. A influência de Vieira da Silva, marcante para a geração de Menez, era evidente nestas primeiras obras, mas também as de Bonnard, Rothko e Matisse.

Em 1990 é-lhe atribuído o Prémio Pessoa.
São muito conhecidos os trabalhos deste período, correspondendo à encomenda que Menez recebeu para a realização de painéis de azulejos para a estação do Metropolitano de Lisboa da Rotunda. Esses painéis, que retomam a antiga monocromia oitocentista do azul e branco, desenham, sobre as paredes do átrio principal da estação, cenas relacionadas com a vida do Marquês de Pombal e alguns acontecimentos e personagens marcantes do seu tempo. Menez adapta à pintura o desenho em monocromia (azul, laranja, sépia, por exemplo), que aplicou em cenas de grande teatralidade, de onde a paisagem quase desaparece.
Morreu em 1995.

17.2.09

"Amassos e retórica"


Quem escreve desta forma sobre as mulheres, só pode estar a brincar.

"FIM DE SEMANA EM BUDAPESTE"


"Luísa subia e descia a mesma calçada de uma Lisboa que a tornava mais e mais cansada, mas não como a da poesia no Teatro do Mundo, simplesmente esgotada e farta da redundante mediocridade de um povo que a deixou construir. A sua vida, por assim dizer, tornou-se numa rotina de hábitos e missões, costumes e obrigações, de uma tolerância demasiado impávida ou simples falta de coragem, chamemos comodismo.
Numa manhã débil de Janeiro, daquelas sem alvorada ou somente disfarçada por uma chuva que desaba depois num repentino mas óbvio momento, saltou Luísa do quentinho com maior vontade de regular os ponteiros do relógio de modo a iludir o tempo ou as distâncias que o medem, mas não, seguiu nos afazeres da rotina, ensinou afectivamente a quem tinha de ensinar sobre aquilo que lhe disseram ter que ser a verdade factual ou por vezes suposta e nada de interessante aconteceu, nada apareceu como novo ou sem aviso do tipo, digamos, prévio. As horas passaram com a mesma indiferença que a ausência tem pela espera e fez-se noite.
Na companhia do seu outro eu, aquele que se compromete a existir em caixas de correio electrónicas e afins, deixa-se anestesiar por pensamentos e leituras, caracterizando por palavras as análises que faz a formas geométricas e movimentos contínuos por simples prazer ou simpatia, descobre a curiosidade de sentir Budapeste.
O taxi que apanhou Luísa no Terminal 2B do aeroporto Ferihegy era preto e igual a todos os que pertencem à única companhia autorizada a transportar passageiros desde essa praça. Durante todo o percurso somente o silêncio total e absoluto fez memória porque tanto o motorista como a cliente não verbalizavam um idioma comum, o destino havia sido indicado por escrito.
A língua Magyar é de facto muito única, a quantidade enorme de vogais torna-a fácil de ler embora fossem poucas as palavras que Luísa entendia. Perto do hotel existe uma Gyógyszertár, pela montra percebeu tratar-se de uma farmácia. Numa esquina observou estacionado um carro da Rendőrség, pela pintura percebeu ser da polícia.
O Hotel New York Palace estava completo, apenas sorte foi ter sido destinado a Luísa um quarto com janela na fachada frontal, virada para a Nagy Körút. A relação entre o edifício e a cidade de Nova Iorque é nenhuma, pois nem o arquitecto era americano, tampouco essa cidade tem edifícios tão belos. O tempo voava entre check-outs e chek-ins e às quatro da tarde, após um banho quente e aromático rematado com toalha bordada e um Pöttyös óriás, a noite já estava instalada numa capital que se comportava igualmente, como se dia se tratasse.

Três dias, duas noites era o programa, embora a verdade significasse duas metades "queimadas" entre a chegada e a partida que as agências não relevam mas de facto só pode ser um óbvio como óbvias são as contingências das distâncias e trâmites legais ou acordados.
O porteiro abriu a porta e responde "szívesen" ao "thank you" que posteriormente passou a "köszönöm", Luísa entrou no primeiro eléctrico que parou, um número 4, desconhecendo o sistema de tarifas e controlo, simplesmente ao acaso e por curiosidade primária subiu, ajustou a saia púrpura e naturalmente sentou-se. O eléctrico manteve-se estático e de portas abertas durante uns cinco minutos ou mais até uma voz de altifalante provocar um êxodo total. Os mesmos olhares, tão sisudos e imóveis como o próprio eléctrico estavam agora na paragem, alguns fixados em Luísa que se mantinha sentada, mas só, dentro da carruagem. "Algo se passou, alguma coisa importante disseram ao microfone porque todos estão lá fora... em Roma sê romano, logo em Budapeste faz como vires fazer", terá pensado e o mais prudente seja abandonar também. Neste entretanto de indecisão, um leve toque no vidro e um sorriso do lado de fora... "The tram is stopped because of... some kind of problem… perhaps an accident in the track". O jovem continuou prestável e cortês, auxiliou Luísa a descer por uma mão quente já sem luva. Acertaram no idioma, que a outra opção seria o alemão, menos prático para ela mas indiferente para ele, num diálogo suficientemente extenso para as devidas apresentações terminarem num convite, Kávé és sütemény numa cukrászda.
László expressava-se num inglês fluído e com um sotaque mínimo, apenas incapaz de pronunciar correctamente o W, que sempre dizia V. Nos primeiros momentos a coisa era irritante principalmente quando o "vére" aparecia no lugar de "where", mas depois passou a ser engraçado e até motivo de graçolas, onde Luísa repetia o seu sotaque propositadamente sem que László desse conta.
Na outra mão ainda coberta por luva, o jovem transportava um dvd, Anything Goes, o musical. Obviamente Luísa aceitou o convite. László arqueou o cotovêlo e iniciou a caminhada. Luísa enrubesceu mas entregou a mão no seu braço e seguiram juntos.
I've got you under my skin era a composição de Cole Porter ditada pelo piano do Lukács à chegada, mas László fez questão de segredar ao ouvido do músico e de seguida surge Bossa-Nova numa melodia de António Carlos Jobim, Luíza.
O vislumbre da paixão enchia um coração devolvido de lembrança ou simplesmente uma nova esperança fez seus olhos brilhar e a pulsação saltitar... por um amador, aprendiz do seu amor... e desejou tanto um beijo.
Juntos visitaram o Szépművészeti Múzeum, um museu riquíssimo onde se encontram expostas peças de pintores e escultores de toda a Europa, pouca quantidade é certo, mas mais do que em todos os museus de Portugal, juntos. A exibição extraordinária de El Greco foi uma boa oportunidade também e por fim a iluminação da Praça dos Heróis emprestava magia ou poderes acrescidos ao Arcanjo Gabriel na sua tarefa de proteger com mais empenho os Magyarok, desde o topo da coluna ao centro.
László seduzia pela oportunidade e destreza de seus comentários e movimentos, um espécime masculino raro. História, literatura, poesia, pintura, música, cinema... eram motivo de conversa e domínio, diálogo nunca interrompido sequer para perceberem que as suas mãos já agarravam como se eternamente fossem par.
Caminharam até à Szent István basilika, de facto enorme e bela, mas não a igreja mais bela que alguma vez Luísa vira, faltavam-lhe os azulejos. Lá dentro sentiu-se novamente perto de Deus, aproveitou para pedir protecção e perdão por pecados, para já os do pensamento ou desejo.
O perfume doce na brisa que o Danúbio transportava excitava os sentidos e a imaginação para palavras mais belas, percorreram a margem de Pest até ao Nemzeti Színház, o teatro nacional. O frio e a estatuária do jardim contíguo resultaram em abraço, terno e macio. O jantar aconteceu no barco Spoon, com vista para o palácio real e a manhã apareceu com o encerramento da discoteca Buddha Beach, assim grande como o Lux, mas num armazém parecido com os das docas de Lisboa. Luísa regressou ao hotel onde descansou até ser noite novamente, o seu cansaço era diferente agora, parcialmente físico mas fortemente emocional.
Junto ao aparador, um ramo de rosas frescas devolveu o sorriso a Luísa e logo uma expressão facial indefinida de curiosidade estupefacta, um cartão dizia Szeretlek e um número de telefone.

Luísa não voltou a ver László mas sentiu Budapest na sua essência, romântica, tal qual imaginava. A sua história não chegou a ser de amor porque simplesmente preferiu desconhecer um final arrebatador.
László procurou por Luísa, três vezes esteve em Lisboa e outros milhares no mundo virtual, mas nada de Luísa... fosse outro o seu verdadeiro nome."
Hétvége Budapesten (Fim de semana em Budapeste).

Texto de James Stuart.

FLASH


O instante pequeno em que a máquina dispara. O momento do click é o espaço intermédio entre o ser e o não ser, entre o movimento e a paragem.



16.2.09

JAMES


James era um homem muito novo. Não chegara aos quarenta. Sabia a importância da ficção, quando a realidade se movimentava ao ritmo da vida dispersa. Tinha, em si, o desejo de mudança. Reuniões, negócios, gravatas, trocas comerciais e fatos engomados, faziam-no entender o valor da arte acima do enfado cinzento e monótono de uma vida profissional insonsa. Não conhecia Luísa, apenas a sombra de uma história pequena lhe ocupara os dias de um fim-de-semana de Inverno.
László era outro alguém, a quem James tinha emprestado existência, no instante de um flash fotográfico.

15.2.09

LÁSZLÓ


László já não esperava por Luísa. A certeza incómoda de que não a voltaria a ver. Sabia-a longe, talvez em Lisboa ou em outra cidade da Europa, perto do que ele considerava belo: a poesia e a música. O bilhete que lhe deixara no toucador era prova de que o amor subsistiria sem os corpos.

14.2.09

DE VOLTA A BUDAPESTE


Depois de mais uma noite em casa de Miguel, a inevitabilidade dos encontros e das ausências. Considerou voltar a Budapeste. O fim-de-semana das rosas no toucador do quarto do New York Palace tinha-a feito entender a importância da solidão no amor. No dia em que saiu sozinha para visitar o parlamento da cidade, supôs que o jovem a podia ter procurado no hotel. Até hoje não sabe se o fez.
Tinha como certo que um grande amor nunca acaba, mesmo quando a separação é eterna.

13.2.09

MIGUEL


Ela dizia-o antes que falasse. Ele lia-a antes que olhasse. Os dois, em Lisboa, pouco sabiam da vida um do outro. Encontros eram comuns. Em casa dela havia chá. Em casa dele vinho tinto. As taças de ambos tinham sido compradas longe, na cidade da luz maior.
As viagens eram solitárias. Os dois preferiam a não companhia. A nudez era partilhada em Lisboa. Apenas.
Miguel tinha a mania das conversas à lareira. No Verão, o clima quente não o fazia desistir do mesmo lugar. Cadeirão em frente ao espaço apagado e escuro. O quadro de Vasarely na parede branca chamava-o, mesmo quando a temperatura subia. Luísa podia, ou não, estar com ele. As conversas que dispunha na taça de vinho eram silenciosas, quando um livro era o interlocutor. Agradável ruído acontecia quando, além do vinho, Luísa se sentava em frente ao quadro e percebia que, para lá das cores, o movimento podia levá-la longe no pensamento. Miguel sabia-a distante e isso despoletava mais o desejo que sempre acontecia entre duas pessoas. Uma em frente à outra.

12.2.09

NUS


- Desculpa o meu silêncio de ontem.
- A nudez provoca quietude. Eu entendo.
- Eu não estava nua.
- Eu sei, Luísa. Tinhas apenas chegado de viagem. Conheço os teus hábitos. Saia na cadeira, corpo deitado, fotografia na mesa e olhos cheios de memórias.
- Tenho pena que saibas tudo sobre mim.
- Também eu.

11.2.09

QUASE NUA


Regressou de Budapeste. Despiu a saia púrpura à entrada de casa, em Lisboa. Tinha-a colocado na cadeira do quarto quanto o telemóvel tocou.
- Chegaste hoje?
- Agora mesmo.
- Sei-te nua.
- Quase.
- Ligo mais tarde.
- Não. Eu ligo-te amanhã. Hoje preciso do tempo.
Pousou o telemóvel em cima da cama e descansou. As pernas arrefeciam devagar. Puxou o edredão e aconchegou-se ao lado da fotografia a preto e branco que guardava na cabeceira. Era dia frio. A visita à cidade Húngara tinha-a deixado coberta de beleza. Não esquecia as flores postas no quarto do hotel. A palavra que deixaram no toucador começava a fazer sentido: “Amo-te”. Sabia-o longe e isso deixava-a tranquila. Levantou-se e preparou o banho quente.

Luísa sabia que, longe, havia outra história para contar.

10.2.09

CRIATURA RARA


Chamaram-lhe “criatura rara”. Deram-lhe a escolha de um assunto a publicar. Luísa assentiu. O e-mail caiu em saco pronto a encher-se de coisas novas. Sempre.O museu Vasarely, fica junto à ponte Árpád, no distrito III, em Budapest. Luísa sabia da existência de alguns “nus graciosos” desenhados pelo artista. Procurou, enquanto ouvia Liszt Ferenc. Nada viu. Depois da procura do nu, inverteu expectativas e formas. Cliques sucessivos a levaram à geometria.
A instabilidade dos universos, a impressão do movimento, o sentido por trás dos quadros. Uma forma de ver o mundo muito mais científica que humanista. Apesar da ausência da forma despida, Luísa avançou para lá do movimento. A ousadia era desafio. Em jeito de resposta, começou a publicação de Vasarely com as mãos a tremer de medo. Nus que não se encontram, autor Húngaro que nunca visitou e uma enorme vontade de continuar…

9.2.09

COMO OS POETAS

QUANDO OS OLHOS ESTIVEREM PRONTOS


Têm a distância e o tempo. Trocam mensagens por via de uma caixa de correio virtual que existe em lugares unidos por fio comum: A Arte e a Cidade. A primeira é dela, posta entre palavras. A segunda é dele, vivida entre momentos com piano e cinema.Conhecem espaços construídos com os dedos e com o pensamento. Lugares de visita e contemplação. Têm a companhia de outros eus que constroem em blogues individuais. Conhecem o tempo da imagem e a textura das ideias. Combinam trocas. Investigam pessoas que já morreram. Ouvem compositores desaparecidos mas presentes.
Num dia em que a chuva desabou sobre Lisboa, ela recebeu um e-mail:
- Sei-a capaz de escrever sobre formas geométricas e movimentos contínuos. Ilusões e amores desmedidos, visões mais ou menos científicas da realidade inventada pelos olhos. Publique. Eu republicarei com o seu nome.
- Sei-o capaz de escrever sobre o amor na cidade. Publique.
- Dê-me um nome.
- Luísa.
Os dois, entre a distância e o tempo. As mensagens, entre a ausência e a espera. Em dois blogues, as histórias de amor inventado e de insistentes movimentos.
Cruzam-se duas cidades da Europa. As pessoas não se conhecem. As palavras não adormecem.

8.2.09

25 -VICTOR VASARELY


Nasceu a 9 de Abril de 1908 em Pécs na Hungria, e morreu a 15 de Março de 1997 em Paris.
Estudou em
Budapeste e foi para Paris, onde trabalhou como designer gráfico em várias empresas de publicidade. Entre 1946 e 1948, depois de um período de expressão figurativa, optou pela arte construtivista e geométrica abstracta.
Experimentou o uso de transparências e cores em projecções, produziu tapeçarias e publicou as suas primeiras gravuras. Os seus quadros combinam variações de círculos, quadrados e triângulos, por vezes com gradações de cores puras, para criar imagens abstractas e ondulantes. Viajou por muitos países e recebeu vários prémios.
É considerado um dos principais artistas do movimento Op Art . A expressão vem do inglês (optical art) e significa “arte óptica”. Apesar do rigor com que é construída, simboliza um mundo mutável e instável, que não se mantém nunca o mesmo. Mais próxima das ciências do que das humanidades, as suas possibilidades parecem ser tão ilimitadas quanto as da ciência e da tecnologia.
Outros artistas Op Art dignos de nota são Alexander Calder e Youri Messen-Jaschin.
A arte que explora a falibilidade do olho através do uso de ilusões ópticas.

6.2.09

LUVAS COR DE CHOCOLATE

O uso de luvas, requer delicado trato com mãos e objectos. Para os que negam o preto, mãos escondidas em luvas castanhas são as que, na cidade, procuram encantos.

AVESSO


Os espelhos podem ser inquietantes. Quando olhamos o que não queremos.

5.2.09

LIMPEZA


Magritte

A limpeza dos espaços é equivalente à dos corpos. As almas voam pela janela e os pêlos, limpos de suor, desencaminham os desejos de pureza.

3.2.09

LUÍSA (Hétvége Budapesten)



László conheceu Luísa em Budapeste. Auxiliou-a a descer do eléctrico. ve got you under my skin era a composição de Cole Porter ditada pelo piano do Lukács. A melodia de António Carlos Jobim foi pedida em segredo. Os dois permaneceram atentos ao beijo que não existiu.
"(...)História, literatura, poesia, pintura, música e cinema... eram motivo de conversa e domínio, diálogo nunca interrompido sequer para perceberem que as suas mãos já agarravam como se eternamente fossem par(...)".

1.2.09

PARAGEM


A cara inchada, uma dor lancinante e a espera para a consulta, fazem-me parar a postagem por uns dias.