20.5.09

CAUSAS


Caravaggio

"Hoje em dia já não existe ninguém à procura de causas"
(Musil)

18.5.09

MUNDO (2)


Caravaggio

"Deveríamos ser proibidos de entrar no mundo como certos jovens imberbes são proibidos de entrar em sessões de cinema para mais de 18 anos." (Gonçalo M. Tavares)

16.5.09

MUNDO


Caravaggio

"Há muito que eu e o mundo não temos amizade nenhuma um pelo outro" (
Musil)

15.5.09

34 - CARAVAGGIO



Lombardia, 1573 - Porto Ercole, 1610

Michelangelo Merisi estuda inicialmente em Milão com o maneirista Peterzano, contra cuja estética reage asperamente. Autodidacta, a sua pintura suscita violentas reacções. Apesar da crítica dos artistas, o público aprecia as suas telas rugosas, encrespadas de pastosidades e dominadas pelo que, a partir dele, se chama «tenebrismo». Estabelece-se em Roma até que, obrigado a fugir por se ter envolvido numa sangrenta rixa, se refugia em Nápoles (1606). Percorre o Sul do país perseguido pela justiça até que vai para Malta (1607), onde é recebido na Ordem de S. João. Encarcerado um ano mais tarde por ofensas a um cavaleiro da ordem, consegue fugir para a Sicília e, dali, para Messina (1609). Regressa a Nápoles, até onde o perseguem os seus inimigos malteses, que o deixam gravemente ferido. Amnistiado por Roma, dirige-se a Porto Ercole, onde é detido por erro. Uma vez libertado, morre obscuramente (segundo certas versões, de umas febres).
A atitude artística deste pintor é de franca rebeldia contra os convencionalismos do momento. O estranho realismo de Caravaggio consiste não em copiar e observar a natureza, mas em contrapor o valor moral da prática ao valor intelectual da teoria.
O aspecto mais notável da sua obra é o tratamento da luz, que recebe o nome de tenebrismo. Consiste em projectar a luz sobre as formas com violência e em contraste intenso e brusco com as sombras. O seu precoce domínio dos efeitos claro-escuro marca o início de uma das grandes conquistas da pintura barroca. Outra característica primordial do estilo de Caravaggio é o naturalismo exacerbado como reacção face ao idealismo renascentista. Naturalismo que, por outro lado, não está em duelo com a grandiosidade da composição.
A influência de Caravaggio sente-se poderosamente em Itália e no resto da Europa durante todo o século xvii, e os seus seguidores continuam a cultivar o tenebrismo e o naturalismo no século seguinte.

14.5.09

ROUBAR MATÉRIA AO MUNDO


Cargaleiro


A estética como tema. Catorze alunos presentes. Carteiras pretas. Sala nova. Computador. Internet. Quadro interactivo. Início da aula e a frase dita pela Catarina, depois do dedo no ar: o mundo tem muitas coisas feias, talvez os artistas tenham surgido para lhe dar beleza.

Eu tinha o livro do Gonçalo M. Tavares em cima da mesa e o plano era tudo menos o texto escrito no quadro:
“No início o mundo era repleto de matéria. Matéria compacta, espessa. A violência – ou seja – a criação – passou por retirar fatias. A escultura - e todo o ser vivo é uma escultura – não é assunto de acrescentar ou acumular, mas sim assunto de retirar, esburacar. Qualquer criador não traz matéria para acrescentar ao mundo, rouba-a, faz as fendas certas, inventa as ausências intensas, percebe onde os intervalos podem ser mais profundos.” (Gonçalo M. Tavares; A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil.)

Foi pedido um comentário. Olhem para o que está escrito, discutam a ideia, clarifiquem-na e escrevam. É precisa a solitária reflexão sobre a questão da matéria roubada ao mundo, as fatias que se retiram à pedra, ao barro, à madeira. O roubo que se faz porque a beleza o exige ou porque é preciso expressar qualquer coisa. A violência exercida no acto de criar, a necessidade da matéria do mundo para que a criação aconteça e o acrescentar, ou não, alguma coisa a um mundo de matéria espessa.

À minha frente, a Inês acaba primeiro e pergunta-me:
- Posso ler? Faço-lhe sinal para que espere pelos colegas.
O tempo decorre em algum silêncio interrompido pelo João: esculpir é uma coisa, moldar é outra. Mesmo quando se molda já se roubou matéria ao mundo.
A Cláudia intervém: é como se os artistas não roubassem propriamente mas dessem ao mundo uma forma nova, uma reconstrução onde os desperdícios são postos fora de jogo.

A Catarina leu o texto em voz alta: a preocupação centra-se na matéria humana, não na matéria do mundo. A primeira também é roubada, quando a dignidade é posta em causa, por exemplo.

A Ana pede-me para ler o que fez: somos todos escultores de um mundo que transformamos, de certa forma os pássaros, não sendo artistas, também roubam alimento ao mundo sem que haja criação artística.

Ao canto, de cabelo a tapar um olhar atento, o Frederico não se mexe: não executo o trabalho porque não tenho material de escrita – o costume!

A Marta ri alto e pensa da mesma maneira, não teve tempo para acabar, foi com o caderno debaixo do braço e a mala na mão. Em jeito de “tia” por crescer disse-me:
- Trago na próxima aula, professora, prometo.

Saíram. Contentes. Despediram-se afavelmente, como todos os dias.
Vou deixá-los, vou-me embora porque quero, porque preciso, porque a vida é assim. Tenho pena. Pelo Alim que ri sincero, Pelo Fred que não executa quase nada mas pensa bem, Pelo Miguel que fala baixinho, pelo Rodrigo que é rapaz feliz, pelo Paulo de atacadores diferentes e estilo descontraído. Já tenho saudades de todas as Anas, da Patrícia que gosta de falar para o lado e da Cátia que dá beijinhos à chegada.

Tenho saudades porque, poucas turmas nos entram no coração. Gente boa que, para lá de um trabalho sério, desenvolve afectos. Com eles trabalha-se melhor. Todos sabemos disso.

13.5.09

EDUCAÇÃO SEXUAL FORA DE CASA

No próximo ano lectivo a Educação Sexual vai entrar nas escolas do país. Tenho que ficar atenta aos dias e horas em que a minha filha vai ouvir falar daquilo que eu tenho obrigação de lhe explicar.

DIÁLOGO


Só gosto de azulejos que falem comigo.

12.5.09

ALTOS

Os prédios muito altos assustam os pássaros. Querem voar raso, ver as pessoas antes de partirem para longe.

11.5.09

DOBRAS E GRITOS (34)

Às vezes é preciso queimar, rasgar, deitar no esgoto, cuspir, bater e clamar. A vida ensina-nos a deitar fora o que não interessa. Depois, o banho.

RIO


Cargaleiro

Fomos ver o rio. Estavam lá as gaivotas. Tinham vindo da praia distante. Precisávamos encontrar o riso trazido do mar.

10.5.09

ESSE FIM


Cargaleiro

- És sempre bonita quando chegas a esse fim.
- Sabia-te aí. Esperei pelo fim para que o visses.
- Não te agradeço.
- Não precisas. O teu olhar já o fez.

9.5.09

AO OUVIDO


Cargaleiro

Cheguei com a história na mão. Pedro tinha-se recostado no sofá, em frente à janela de onde o mar se avista:
- Fica atrás de mim. Conta-ma baixinho. Encosta-te ao meu ouvido, ainda não a ouvi dessa forma.

8.5.09

VIAGEM


Cargaleiro

- Quando vamos a Montmartre?
- Quando acabar de ler a história que inventaste para mim.
- Podemos ir em breve. A história é pequena, já a leste milhares de vezes.
- Ler muitas vezes uma história não significa ter acabado de a ler. É preciso o tempo.

7.5.09

ACTO


Cargaleiro

Nenhum de nós arriscava ir ao sótão ver as memórias e as imagens. Todos os dias eram novos. Urgente eternizar o amor, fazer aparecer o céu inventado e receber as palmas das gaivotas na praia. Era urgente molhar os pés no mar e dizer coisas quentes que demoram a acontecer porque, todos os dias precisam de vida para se fazerem sentir. Não podia haver quietude, a única coisa que permitia a vida era o acto.

6.5.09

RISO E SILÊNCIO


Cargaleiro

Pedro estava embrenhado em mais um livro de Haruki Murakami. Não o interrompi. Dancei até à cozinha, ao ritmo das palavras de Vinicius: eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia.
Havia, naquela tarde, um sol comprometedor, uma luz bonita e incómoda para os que, nas esquinas da vida, seguem o erro do grito calado, da fala muda, da cama fria, do prato vazio. A claridade dos que, nas esquinas do dia, seguem na ausência de gente, de beijo, de abraço, de sorriso e de pranto. Sabia-o tranquilo em frente ao livro. Preferi ficar quieta. Debaixo da mesa, estiquei as pernas e fechei-me no riso e no silêncio.

5.5.09

33 - MANUEL CARGALEIRO



Manuel Cargaleiro é um dos mais importantes artistas plásticos portugueses. A sua obra é reconhecida em todo o mundo. A paixão pela arte levou-o a reunir, desde há vários anos, uma colecção de obras de artistas consagrados, na qual se podem encontrar peças de Pablo Picasso e Vieira da Silva. É actualmente um dos mais valiosos espólios do país. Natural de Chão das Servas, concelho de Vila Velha de Ródão, na Beira Baixa, onde nasceu a 16 de Março de 1927, veio com a família para o Fogueteiro no ano seguinte e aqui se manteve por 15 anos. Primeiro numa casa situada na Quinta de Vale de Chícharos, junto ao local onde hoje está implantada a Escola Secundária com o seu nome, e mais tarde, num prédio na antiga Rua do Grémio, hoje denominada Rua General Humberto Delgado, onde montou um ateliê.
A autarquia apresenta publicamente, em Março de 2008, o projecto para a instalação do espólio do Mestre, na Quinta da Fidalga. Um local com seis séculos de história, junto à Baía do Seixal, que foi um espaço frequentado pelo Mestre Cargaleiro durante a sua juventude.
O projecto Museu-oficina de Artes Manuel Cargaleiro pretende ser um instrumento pedagógico de memória, divulgação, investigação e experiência na área das artes. O objectivo principal é preservar e divulgar a obra do Mestre Manuel Cargaleiro e da sua Fundação, dando continuidade à sua obra, através de actividades pedagógico-didácticas, que incluem a produção, conservação curativa e o restauro de artes decorativas.Com a instalação deste novo equipamento os cidadãos de todo o país passam a usufruir de uma instituição artístico-cultural de grande qualidade, com um acervo que incluirá desenhos, pinturas, óleos, gravuras, cerâmicas, tapeçarias e várias obras recolhidas pelo Mestre ao longo dos anos.
Com o Museu Manuel Cargaleiro, propõe-se criar uma unidade museológica que cumpra essa vocação didáctica e criativa, no campo das artes decorativas, através de exposições de carácter permanente e temporário, bem como através do funcionamento de oficinas.Esta unidade compreenderá ainda uma extensão didáctico-pedagógica que se desenvolverá através das oficinas de cerâmica, marcenaria, tapeçaria, papel/encadernação, e, ainda, de uma tipografia. Terá também espaços de formação e aprendizagem, de criatividade e de restauro.
O único equipamento a construir de raiz será a Galeria de Exposições. Um projecto de Álvaro Siza Vieira a crescer a sul da Quinta da Fidalga, com uma área de 500m2.

4.5.09

A LUZ


Andy Warhol

"- A luz! A luz!
Se existisse uma electricidade para fazer aparecer o escuro como existe uma electricidade para fazer aparecer a luz, o número de possibilidades duplicaria, mas também duplicaria a conta do mês.
No entanto parece-me desagradável – pensava o senhor Juarroz – que baste desligar a luz para aparecer a escuridão.
Para darmos a devida importância ao escuro – tanto, pelo menos, como damos à claridade – deveria ser necessário o acto de ligar a escuridão.
Assim, quando se apagasse a luz, não surgia logo o escuro, mas sim um qualquer estado intermédio.
Só se dá importância ao que tem um custo: ligar a escuridão e pagar por ela, parece-me urgente – pensava o senhor Juarroz, um segundo antes de bater com o joelho contra uma mesa.
- Quem desligou a porcaria da luz?! – Gritou irritado o senhor Juarroz."

Gonçalo M. Tavares; O Senhor Juarroz


3.5.09

CAIXA DE BEIJOS


Andy Warhol

Hoje recebi uma caixa cheia de beijos. De cada um que havia dentro dela, fiz um ramo. Juntei-os todos às flores e coloquei o vaso no centro da sala, ao lado ficaram os abraços.

2.5.09

DEPOIS DO TRABALHO


Chegou a casa. O feriado tinha sido cansativo. Nunca o trabalho o dilacerara como ontem. Colocou os pés em cima da banqueta em jeito de repouso quase eterno.