30.5.09

UMA CAIXA CHEIA DE BEIJOS


Sara Pessoa

Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos. Uma caixa quadrada, fechada e completa. Tem por fora muitas cores que formam espaços vazios e espaços cheios de sentido. Tem frases com lógica e pequenos dizeres fora do comum. Quando lhe retiro a tampa vejo os beijos, são pequenos e muitos, enfileirados em cadeia, organizados por intensidades e tamanhos. Vêm de perto, daqui do lado, da menina a crescer que decidiu oferecê-los em caixa completa de coisas úteis.
As frases dispõem preferências, as imagens denunciam gostos e as pessoas ilustram desejos.
Peguei na caixa e li-a, por dentro e por fora. Com tudo o que podia interpretar fiz um texto. Mastiguei os rebuçados com as palavras que não se ouvem. O chocolate espalhou-se em guloso palato. O livro, as Breves Notas Sobre o Medo, foi lido de noite, à luz de um candeeiro novo.
Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos e um livro. Sabia, quem a fez, que os beijos não se embrulham em caixas, mas sabia também que há desejos sempre realizáveis.
Quando era muito pequena, recebia beijos encarnados, verdes, brancos e amarelos. Sabia que, quem lhos dava, os enfeitava com imaginação. Ria muito. A cada cor mudava o tom, a textura e o tempo do beijo oferecido. Fez uma espécie de devolução com tampa, acrescentou o que lhe pareceu ajustado e colocou num embrulho.
As caixas que nos entregam são quase sempre dispensáveis, trazem dentro qualquer coisa e vão para o lixo depois de as esvaziarmos. Há caixas com importância, quando dentro trazem o que pedimos, o tudo que desvela amor imenso, partilha plena e total cumplicidade.

29.5.09

"DESENCANTO"

"Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo."

Retirado daqui.

28.5.09

O ACTOR ENTRA NUM PALCO DIFERENTE



Tinha os olhos postos na plateia que o aguardava para conversa que não se ensaiou. Eram poucas as pessoas que, reunidas na sala da escola, esperavam as palavras e os gestos de quem soube viver todos os dias na loucura da dádiva e do espanto. Sentou-se. Reparou nos olhos que o fixavam e sorriu. A conversa decorreu num encontro intimista.
Em palco imaginado, a cadeira do actor serviu-lhe de suporte, como se o corpo estivesse pronto para momentos que não eram espectáculo. As palavras são lindas, disse, é preciso darmos atenção à forma como as usamos, ao seu significado na frase e na vida.
O silêncio foi escolhido por quem precisava de ouvir, sem distracções. O actor falou do teatro, da entrega, do amor, da disciplina, do rigor e do crescimento de quem se dedica a um trabalho diferente. Personagens que se vivem, luzes que se acendem, panos que caem e textos na memória. É preciso falar alto, claro e não deixar cair os finais, repetiu aos aprendizes que continuavam no silêncio da expectativa e do entusiasmo.
A pouco e pouco, as vozes de quem o olhava, foram tendo eco nas perguntas, nas inquietações de gente nova capaz de abraçar profissão futura com as dúvidas próprias de quem viveu pouco tempo. O actor respondeu, com o mesmo amor com que sorriu a todos quantos o interpelaram. Alunos inquietos colocaram palavras certas em questões com sentido: a família, a profissão, o texto, as pessoas que não somos nós, o carácter, os limites, a loucura e a exposição, toda a exposição que, de um corpo, surge na voz: alta, clara e sem deixar cair os finais.
Foi um bocado de tarde diferente. No lugar do conhecimento, momentos de sabedoria. Todos entenderam a verdade nas palavras bonitas, distribuídas uma a uma, por quem esteve e sentiu o prazer de uma conversa recheada. Obrigada, Raul.

27.5.09

NÃO EMPRESTO LIVROS

Sara Pessoa
- “Quando alguém tem medo deve correr para casa ou para a parte de fora da noite”. (*)
- Que dizes?
- Digo que “a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo”.(*)
- Estás parva?
- Não. “Um verso que um homem saiba de cor só se elimina com a brutal amnésia”(*)
- Mas estás a falar de quê?
- Estou a dizer-te a importância da poesia.
- A que propósito?
- A propósito da informação.
- Que informação?
- “O excesso de informação que o mundo imbecil te obriga a guardar”. (*)
- Mas a poesia é informação.
- Não é. “O verso não tem o timbre de uma informação.” (*)
- Dás-me um exemplo?
- “Os homens que se erguem não são da mesma espécie animal que os homens que são derrubados e aí ficam”. (*)
- Isso depende da anatomia.
- “A anatomia é algo que existe escondido dentro do corpo”. (*)
- Como?
- “É interior, como as imagens mentais, apesar de menos interior do que as imagens mentais”. (*)
- Estás a comparar ideias com ossos?
- “Um osso existe, apesar de tudo, em sítios menos fundos do que as ideias ou raciocínios (…). Se escavarmos com instinto arqueológico, descobriremos primeiro a tíbia e o perónio e só depois certas células inteligentes.” (*)
- Defendes, então, que as ideias são pesadas.
- Sim. “Na balança, a memória pesa mais do que os projectos. Uma deficiência na rapidez de sentir: eis o ressentimento ou o remorso.” (*)
- E para que servem os ossos?
- Para dançar, por exemplo.
- Como?- “Um homem a dançar pode ser bonito mas um homem a pensar nunca é bonito. E se um homem dançar enquanto pensa esse homem terá pensamentos estúpidos, e se um homem pensar enquanto dança, trocará os pés e acabará por tropeçar.” (*)
- É uma regra?
- “Não é uma regra mas poderia ser uma regra: dançar é incompatível com a resolução de uma equação de segundo grau”. (*)
- Para que livro olhas?
- Para O Senhor Breton
- Empresta-mo.
- Não empresto.

(*) Gonçalo M. Tavares; O Senhor Breton. Editorial Caminho

26.5.09

MEU VIZINHO

Hoje é o Dia Europeu do Vizinho. Vou lá acima entregar umas farófias acabadinhas de fazer.

ESPANTAR SENTIMENTOS


Sara Pessoa

Os abraços genuínos são silenciosos. Porque os outros não são abraços, são gestos ruidosos que servem para espantar sentimentos.

25.5.09

UMA FORMA DE ESTAR CALADA


Sara Pessoa

Escrever é uma forma de estar calada. Quando as palavras não são mais que meros instrumentos de sons não pronunciados.

24.5.09

IRONIA


Noventa pessoas apanham a "gripe suína" e toda a gente quer usar uma máscara.
Um milhão de pessoas tem SIDA e ninguém quer usar um preservativo.

35 - SARA PESSOA




"O meu método de trabalho, enquanto tal, pode ser descrito como "sobreposição". As imagens são colocadas umas sobre as outras. A intenção e o contexto estão em contínua mudança dado as imagens se sobreporem. O resultado traduz-se em vestígios que se referem apenas aos elementos que funcionaram como catalisador, mas que depois desapareceram. Sinais dos elementos extintos tomam o lugar do motivo original."

23.5.09

We Will Survive: Igudesman & Joo + Kremer & Kremerata

BEM DITAS PALAVRAS

Há quem diga as verdades:

(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)

COISAS QUE ME INQUIETAM (13)

Depois do meu reparo sobre a falta indecente do cumprimento dos horários marcados, indecência que implica espera por parte dos que cumprem, a frase cai em mim como bomba:
“A solidão é o que resta aos que acreditam na pontualidade”.
Vim para casa a pensar que, ou eu estou maluca, ou o mundo já não tem remédio!

DEVERES


Caravaggio

"Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto"
(Conçalo M. Tavares)

21.5.09

PÃO


Caravaggio

"Quanto tempo ficas a admirar uma jóia e, quanto tempo ficas a admirar o pão que comes?" (Gonçalo M. Tavares)

20.5.09

CAUSAS


Caravaggio

"Hoje em dia já não existe ninguém à procura de causas"
(Musil)

18.5.09

MUNDO (2)


Caravaggio

"Deveríamos ser proibidos de entrar no mundo como certos jovens imberbes são proibidos de entrar em sessões de cinema para mais de 18 anos." (Gonçalo M. Tavares)

16.5.09

MUNDO


Caravaggio

"Há muito que eu e o mundo não temos amizade nenhuma um pelo outro" (
Musil)