11.5.09

RIO


Cargaleiro

Fomos ver o rio. Estavam lá as gaivotas. Tinham vindo da praia distante. Precisávamos encontrar o riso trazido do mar.

10.5.09

ESSE FIM


Cargaleiro

- És sempre bonita quando chegas a esse fim.
- Sabia-te aí. Esperei pelo fim para que o visses.
- Não te agradeço.
- Não precisas. O teu olhar já o fez.

9.5.09

AO OUVIDO


Cargaleiro

Cheguei com a história na mão. Pedro tinha-se recostado no sofá, em frente à janela de onde o mar se avista:
- Fica atrás de mim. Conta-ma baixinho. Encosta-te ao meu ouvido, ainda não a ouvi dessa forma.

8.5.09

VIAGEM


Cargaleiro

- Quando vamos a Montmartre?
- Quando acabar de ler a história que inventaste para mim.
- Podemos ir em breve. A história é pequena, já a leste milhares de vezes.
- Ler muitas vezes uma história não significa ter acabado de a ler. É preciso o tempo.

7.5.09

ACTO


Cargaleiro

Nenhum de nós arriscava ir ao sótão ver as memórias e as imagens. Todos os dias eram novos. Urgente eternizar o amor, fazer aparecer o céu inventado e receber as palmas das gaivotas na praia. Era urgente molhar os pés no mar e dizer coisas quentes que demoram a acontecer porque, todos os dias precisam de vida para se fazerem sentir. Não podia haver quietude, a única coisa que permitia a vida era o acto.

6.5.09

RISO E SILÊNCIO


Cargaleiro

Pedro estava embrenhado em mais um livro de Haruki Murakami. Não o interrompi. Dancei até à cozinha, ao ritmo das palavras de Vinicius: eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia.
Havia, naquela tarde, um sol comprometedor, uma luz bonita e incómoda para os que, nas esquinas da vida, seguem o erro do grito calado, da fala muda, da cama fria, do prato vazio. A claridade dos que, nas esquinas do dia, seguem na ausência de gente, de beijo, de abraço, de sorriso e de pranto. Sabia-o tranquilo em frente ao livro. Preferi ficar quieta. Debaixo da mesa, estiquei as pernas e fechei-me no riso e no silêncio.

5.5.09

33 - MANUEL CARGALEIRO



Manuel Cargaleiro é um dos mais importantes artistas plásticos portugueses. A sua obra é reconhecida em todo o mundo. A paixão pela arte levou-o a reunir, desde há vários anos, uma colecção de obras de artistas consagrados, na qual se podem encontrar peças de Pablo Picasso e Vieira da Silva. É actualmente um dos mais valiosos espólios do país. Natural de Chão das Servas, concelho de Vila Velha de Ródão, na Beira Baixa, onde nasceu a 16 de Março de 1927, veio com a família para o Fogueteiro no ano seguinte e aqui se manteve por 15 anos. Primeiro numa casa situada na Quinta de Vale de Chícharos, junto ao local onde hoje está implantada a Escola Secundária com o seu nome, e mais tarde, num prédio na antiga Rua do Grémio, hoje denominada Rua General Humberto Delgado, onde montou um ateliê.
A autarquia apresenta publicamente, em Março de 2008, o projecto para a instalação do espólio do Mestre, na Quinta da Fidalga. Um local com seis séculos de história, junto à Baía do Seixal, que foi um espaço frequentado pelo Mestre Cargaleiro durante a sua juventude.
O projecto Museu-oficina de Artes Manuel Cargaleiro pretende ser um instrumento pedagógico de memória, divulgação, investigação e experiência na área das artes. O objectivo principal é preservar e divulgar a obra do Mestre Manuel Cargaleiro e da sua Fundação, dando continuidade à sua obra, através de actividades pedagógico-didácticas, que incluem a produção, conservação curativa e o restauro de artes decorativas.Com a instalação deste novo equipamento os cidadãos de todo o país passam a usufruir de uma instituição artístico-cultural de grande qualidade, com um acervo que incluirá desenhos, pinturas, óleos, gravuras, cerâmicas, tapeçarias e várias obras recolhidas pelo Mestre ao longo dos anos.
Com o Museu Manuel Cargaleiro, propõe-se criar uma unidade museológica que cumpra essa vocação didáctica e criativa, no campo das artes decorativas, através de exposições de carácter permanente e temporário, bem como através do funcionamento de oficinas.Esta unidade compreenderá ainda uma extensão didáctico-pedagógica que se desenvolverá através das oficinas de cerâmica, marcenaria, tapeçaria, papel/encadernação, e, ainda, de uma tipografia. Terá também espaços de formação e aprendizagem, de criatividade e de restauro.
O único equipamento a construir de raiz será a Galeria de Exposições. Um projecto de Álvaro Siza Vieira a crescer a sul da Quinta da Fidalga, com uma área de 500m2.

4.5.09

A LUZ


Andy Warhol

"- A luz! A luz!
Se existisse uma electricidade para fazer aparecer o escuro como existe uma electricidade para fazer aparecer a luz, o número de possibilidades duplicaria, mas também duplicaria a conta do mês.
No entanto parece-me desagradável – pensava o senhor Juarroz – que baste desligar a luz para aparecer a escuridão.
Para darmos a devida importância ao escuro – tanto, pelo menos, como damos à claridade – deveria ser necessário o acto de ligar a escuridão.
Assim, quando se apagasse a luz, não surgia logo o escuro, mas sim um qualquer estado intermédio.
Só se dá importância ao que tem um custo: ligar a escuridão e pagar por ela, parece-me urgente – pensava o senhor Juarroz, um segundo antes de bater com o joelho contra uma mesa.
- Quem desligou a porcaria da luz?! – Gritou irritado o senhor Juarroz."

Gonçalo M. Tavares; O Senhor Juarroz


3.5.09

CAIXA DE BEIJOS


Andy Warhol

Hoje recebi uma caixa cheia de beijos. De cada um que havia dentro dela, fiz um ramo. Juntei-os todos às flores e coloquei o vaso no centro da sala, ao lado ficaram os abraços.

2.5.09

DEPOIS DO TRABALHO


Chegou a casa. O feriado tinha sido cansativo. Nunca o trabalho o dilacerara como ontem. Colocou os pés em cima da banqueta em jeito de repouso quase eterno.

30.4.09

PEDE-SE AOS TOLOS QUE NÃO PROCRIEM

Somos a última geração de pais decididos a não repetir com os filhos os erros dos nossos progenitores. Fazemos esforço, abolimos os abusos do passado, somos mais dedicados e compreensivos mas, os mais tolos pais da história. Obedecemos aos nossos pais no passado e aos nossos filhos no presente. Tivemos medo dos nossos pais e somos os primeiros a temer os filhos. Crescemos sob o controlo dos pais e vivemos sob o jugo dos filhos. Respeitamos os nossos pais e deixamos que os nossos filhos nos faltem ao respeito. A permissividade substituiu o autoritarismo, as relações familiares mudaram radicalmente, para o bem e para o mal.
Quando éramos pequenos, os bons pais eram os que tinham filhos que se portavam bem e obedeciam às suas ordens. Os bons filhos eram os que veneravam os pais e os tratavam com respeito. As fronteiras hierárquicas foram-se desvanecendo. Hoje, os bons pais são os que conseguem o amor dos filhos ainda que pouco os respeitem. Os bons filhos esperam agora o respeito dos pais, exigem a aceitação das suas ideias e das suas preferências, dos seus modos de agir e viver, exigem ainda que os pais patrocinem no que for necessário.
Os papéis inverteram-se. Hoje são os pais que têm que agradar aos filhos para “ganhar” o seu amor e apreço. O esforço das famílias para tudo oferecer às crianças fez com que, sem rumo, a debilidade dos pais desencadeasse no desnorte dos filhos. O autoritarismo deu lugar à total permissividade, em vez de irmos à frente dos filhos para os podermos libertar, vamos atrás, rendidos às suas vontades. Aboliram-se os limites, ferramenta indispensável ao abrigo e à segurança do indivíduo.
Por causa da mudança da opacidade para a transparência, vemos os filhos crescer sem rumo e sem regras. Somos nós, pais permissivos e tolos, os únicos responsáveis pelo estado da educação em Portugal.
Aos que julgam que criar é sinónimo de educar, aos que confundem instrução com educação, permitam-me um pedido: não procriem! Que a qualidade supere a quantidade.

29.4.09

OBJECTOS


Limão, martelo, copo, planta. Carro, chávena, cadeira, garrafa. Os objectos ensinam-nos a perceber os limites de tudo quanto vemos.

27.4.09

A MENINA DESCOBRE COISAS


Andy Warhol

A menina, como lhe chamam no cabeleireiro, não sabia que, colocando os phones num buraquinho que o computador tem, podia ouvir as músicas todas sem incomodar vizinhos. A menina, distraída e alheada de tecnologias, descobriu numa tarde de domingo que o Roy Orbison cantado ao ouvido é muito mais romântico. Agora, a menina passa o tempo todo com os ditos colocados dentro dos ouvidos para, concentradamente escrever sobre o amor, as flores, as andorinhas, os sonhos e todas as coisas bonitas que as músicas lhe segredam directamente nos tímpanos.
A menina queria ter um mp3, daqueles coloridos que os alunos têm postos ao pescoço, os que se apreendem em dias de teste ou em aulas substituídas por sons debaixo do gorro de lã.
Depois de uma tarde cheia de escrita, o fígado, o estômago, os pulmões, o coração e o pâncreas entupiram de música. O limite não foi ponderado e os dedos não pararam nas teclas, nem o som na cabeça, nem o chá na mesa, nem coisas indizíveis no meio de todo um aglomerado viscoso de circunstâncias.
A menina percebeu que o desejo do aparelhinho sonoro que a esperava na prateleira da Fnac tinha esmorecido ali, naquela tarde sobrelotada de palavras cantadas, ditas, escritas e postas na gaveta.
No dia em que a menina adquirisse um, corria riscos sérios, não ouviria mais nada no mundo. Entre a casa e o ginásio, entre a escola e o shopping, entre a praia e o campo, não existiriam sons fora do aparelho que lhe entupiria os dias.
Depois… as memórias do ruído da rua desapareceriam e, a menina esqueceria de ser gente como dantes.

25.4.09

DIA DA ESPERANÇA

Não sei se morreu a esperança de há 35 anos. Eu era pequena quando as tropas saíram de Santarém. Hoje entendo que, mais do que o ideal, deveria ter sido encontrado o objectivo, aquele que ainda não se descobriu.

24.4.09

32 - ANDY WARHOL




Andy Warhol, nasceu em Pittsburgh a 6 de Agosto de 1928.
Foi pintor e cineasta, bem como figura maior do movimento da pop art.
Nos anos sessenta começou a pintar produtos americanos famosos, como latas da sopa Campbell's e Coca-Cola e ícones de popularidade, como Marilyn Monroe.

É de sua autoria a expressão "um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama” ao comentar obras próprias baseadas em acidentes automobilísticos, em especial o de uma ambulância.
Em 1987 foi operado em Nova Iorque à vesícula biliar. A operação correu bem mas Andy Warhol morreu no dia seguinte.

23.4.09

PARABÉNS


Conceição Ramos

Parabéns mãe. Parabéns sobrinha. Em breve cozinharei para as duas.

22.4.09

PROCURA


Conceição Ramos

- Senta-te aqui.

- Estou à procura da caixa.

- Qual caixa?

- A dos beijos.

21.4.09

PISCINA ABANDONADA


Conceição Ramos

- Vamos nadar?
- Prefiro ir ao cinema.
- Porquê?
- Porque hoje já podes dar-me as palavras.

20.4.09

SEM FOME


Conceição Ramos

- O jantar está pronto.
- Não tenho fome.
- Porquê?
- Porque estive muito tempo a olhar para ti.

19.4.09

FORA DAS PALAVRAS


Conceição Ramos

- Foste ao cinema?
- Não.
- Porquê?
- Porque não tinha a tua companhia.
- Isso é motivo?
- É, faltaram-me as tuas palavras.

18.4.09

DE PÉ


Conceição Ramos

Cadeiras são objectos úteis, mesmo quando, de pé, ouvimos os sons de uma escuridão escondida.

17.4.09

SENTADA


Conceição Ramos

Há cadeiras especiais, originais, intimas, onde nos sentamos todos os dias para ver a luz.

16.4.09

COM OU SEM DEUS


Um dos principais defeitos do período contemporâneo é o de reduzir a filosofia a uma simples reflexão crítica ou a uma teoria da argumentação. Os biólogos, os artistas, os físicos, os escritores, os jornalistas, os matemáticos, os teólogos e até os políticos, reflectem e colocam questões. A argumentação é, sem dúvida, importante e altamente desejável na formação de qualquer tipo de actividade, indispensável à formação de bons cidadãos capazes de participar com autonomia na vida do país. Estas são formas de alcançar outros fins, longe do que a filosofia pretende, ela não é bengala da moral nem instrumento da política.
O Homem interroga-se sobre a sua finitude, sobre uma situação que, a priori, é absurda e insuportável. Ao lado de concepções religiosas, “salvação” designa, antes de mais, “acto de ser salvo, de escapar a um grande perigo”. O perigo da morte a que as religiões nos ajudam a escapar por via da vida eterna é, para a filosofia, a interrogação essencial. Epicuro define a filosofia como a “medicina da alma” fazendo-nos entender que “a morte não é temível”; Montaigne declara que “filosofar é aprender a morrer”; Espinosa reflecte sobre o “sábio que morre menos do que o louco” e Kant questiona-se sobre “o que nos é permitido esperar”.
Aos olhos de alguns filósofos, o receio da morte impede-nos de viver bem, gera angústia. A irreversibilidade do curso das coisas ameaça arrastar-nos para uma dimensão do tempo que corrompe a existência.
As religiões prometem-nos a salvação por via da fé. Filosofar em vez de acreditar é, do ponto de vista dos filósofos não crentes, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé. A filosofia pretende uma salvação por meios próprios, pela via da racionalidade, uma busca de salvação sem Deus. A mortalidade e a consciência da finitude são sempre fonte de interrogação. A religião, como a filosofia, são caminhos de busca de salvação.
Entender a natureza do mundo que nos rodeia e do tempo que passa para poder desvendar enigmas humanos e outros, é preciso. Há, na filosofia, um caminho para o entendimento e para a sabedoria. Para além das considerações tomadas às ciências positivas, discernir a natureza do conhecimento enquanto tal, compreender os seus métodos e os seus limites são tarefas milenares e configuradas ao campo filosófico.
Desde os gregos que preocupações comuns embalam a humanidade. Depois do domínio dos grandes impérios, depois do cristianismo, depois do renascimento e da pós-modernidade, a partir da corrosiva lucidez de Nietzsche, a filosofia contemporânea pode também encaminhar-se para uma qualquer busca de salvação.
Qualquer grande filosofia resume a experiência fundamental da humanidade, como qualquer grande pintura ou obra literária que, traduzindo de forma mais sensível a existência e a atitude, denunciam a marca de quem pensou e sentiu o mundo e a história.

15.4.09

CONSEQUÊNCIA

De tanto ouvir a palavra crise passei a padecer dos ouvidos.

31 - CONCEIÇÃO RAMOS




Maria da Conceição Fernandes Ramos nasceu na Beira (Moçambique) em 1960, onde viveu até aos 15 anos de idade. Obteve a Licenciatura em Artes Plásticas - Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1985. Concluiu o Doutoramento em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes de Barcelona em 2006. É Professora de Artes Visuais na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. Desenvolve uma carreira artística, tendo realizado diversas exposições individuais e colectivas desde 1992. Obteve o 1º Prémio na Bienal Cardoso Lopes em 1996 e uma Menção Honrosa em pintura no VIII Salão de Primavera da Galeria de Arte do Casino do Estoril. Realizou, por convite, os painéis alusivos à vida dos santos da Igreja de Massamá.Publicou em 2007, conjuntamente com Matilde Rosa Araújo, o livro “Nascer Mãe”.

Retirado de:
www.pnetartes.pt

13.4.09

O TEMPO QUE NÃO EXISTE


Lucien Freud

O passado, tempo que já não existe, pega-se a nós em jeito de nostalgia, remorso ou culpa. O futuro pega-se em jeito de esperança por um tempo que ainda não aconteceu. Como dizia Séneca, "enquanto esperamos viver a vida passa por nós."
O peso do passado e a miragem do futuro, os dois grandes males da existência.

11.4.09

A NORTE DE COIMBRA

Lucien Freud

A norte de Coimbra, o ar cheira a limpo, as pessoas passam devagar e o céu não consegue ver-se sem nuvens. É um lugar de sonhos adiados. Tudo parece ter parado no tempo de D. Sebastião, quando partiu sem regresso. As árvores contam-nos histórias compridas em frente à piscina de um hotel antigo. Espreguiço-me todas as manhãs sem mais nada para fazer. É o portátil que permite o contacto com o mundo lá fora, depois da estrada comprida de pedra escura que me trouxe ao meio do que não é ruído.

O pequeno-almoço serve-se em sala estendida no meio de um jardim repleto de heras, as que são verdes e trepam furiosamente em cima da pedra gasta da parede secular. São ideias as que voam de manhã, ao pé do riacho que faz um barulhinho meigo e me convida a molhar a cara com água gélida, mais transparente que a da torneira. As manhãs são compridas, como o resto dos dias. Três livros para ler. Ténis que acompanham caminhadas longas ao final da tarde, antes do sol se esconder para renascer em mais um dia sem barulho que não seja o das pessoas que me olham intrigadas. Converso pouco. Quase nada. Olham-me cheias de perguntas que guardam atenciosamente no bolso semi-aberto, à espera que lhes toque, para poderem fazer-mas, todas de uma vez.

Ontem, um cavalheiro de meia-idade olhou de relance para o que estava a escrever, sorriu e sentou-se na poltrona atrás de mim. Não sei se queria espreitar as letras no monitor ou a parte de trás da minha t-shirt que dizia: Sorry, I’m Busy. Hoje ainda não o vi, suponho que saiu com as calças pretas vestidas por baixo da camisa mais preta ainda. Os olhos estão postos longe do espaço que ocupa, traz um livro bem encadernado debaixo do braço. Não sei o título mas parece-me que a Psicopatologia da Vida Quotidiana de Freud lhe assentaria como uma luva. Amanhã, quando vestir a t-shirt que não tem letras nas costas, talvez lhe pergunte o que faz aqui, tão alheado do mundo quanto eu. Sei que não me responderá. Porque perguntas dessas não se fazem a ninguém.

3.4.09

MEIA DÚZIA DE MANIAS


Lucien Freud


1 – Deitar tarde é hábito antigo.
2 – Nunca usar brincos com óculos.
3 – Ler em silêncio.
4 – Usar a música como companhia de odiáveis limpezas caseiras.
5 – Abraçar sempre os amigos à chegada e à partida.
6 – Viajar com caneta e papel, mesmo quando o destino é perto de casa.

I HAD A DREAM



Era uma vivenda num bairro ajardinado e limpo. A entrada dava acesso a uma sala em tons de encarnado esmorecido, mais ou menos velho. Poltronas de veludo gasto e bonito, enormes bancos rente ao chão convidavam quem chegava a sentar-se confortavelmente. A dona da casa distribuía elegância e bom senso. Palavras ditas em inglês que eu ia percebendo mal. O marido, homem bonito e com classe, convidava-me a sentar num gesto amigável e quente. Parecia que nos conhecíamos há muito. Visita regular da casa, eu era recebida em jeito informal, como se não fosse preciso muito tempo para entender a amizade que nos unia. As filhas estavam de férias com os avós, a minha e as do casal. Três meninas que conviviam como irmãs e que, muitas vezes, partilhavam os mesmos brinquedos.

Sentei-me na poltrona que me reservavam e fiquei em frente ao dono da casa. Tentei falar um inglês compreensível de modo a ser entendida. Ele ria das minhas “concordâncias gramaticais” e afirmava perceber-me, ao mesmo tempo que ia pronunciando lentas palavras em português. Dizia que tinha aprendido em pequeno, com amigos filhos de emigrantes que, na escola, lhe tinham ensinado “pois”, “claro”, “com certeza”, “obrigado” e “boa noite”.

Assim nos íamos entendendo enquanto a senhora mandava preparar um chá verde sabendo-me apreciadora do líquido quente e desintoxicante. Os três em frente a uma lareira alta que iluminava a noite desenrolávamos ideias em cima do riso. Ele, alto, bonito e inteligente, fazia-me sentir a urgência da reflexão sobre o mundo, sobre a economia, a fome, a guerra e o desenvolvimento sustentável. Ela, mulher de elevada classe, fazia-me entender que as escadas se devem subir devagar, desde o primeiro degrau, sem pressa de chegar ao cimo porque, de lá, se podem sentir vertigens.



O serão atravessou horas de beleza e tranquilidade. A dada altura, o dono da casa pediu para sair, tinha que retomar um trabalho importante no escritório do primeiro andar onde se recolhia sempre que compromissos políticos o chamavam. Ela ficou, mastigando bolinhos de areia comigo, cúmplices, amigas e mulheres. Continuei sentada a conversar com Michelle, enquanto Barack Obama cumpria, no andar de cima de uma casa que não era branca, compromissos oficiais importantes.

2.4.09

30 - LUCIEN FREUD




Nascido em Berlim em 8 de Dezembro de 1922, Lucien Freud, neto de Sigmund Freud, foi para Inglaterra, juntamente com a sua família, em 1931, tornando-se cidadão inglês em 1939. Desde muito jovem teve uma tendência enorme para o desenho. Tornou-se artista a tempo inteiro e como profissional depois de ficar inválido num ataque a um navio da Marinha Mercante onde trabalhava. Em 1951, o seu quadro "Interior at Paddington" (Walker Art Gallery, Liverpool) ganhou o primeiro prémio no festivalde Arte Britânica e, desde netão, ganhou uma reputação enorme como um dos principais pintores de arte figurativa contemporânea. Retratos e nus são a sua especialidade, vistos muitas vezes como chocantes. As suas primeiras obras eram meticulosamente pintadas. Ele próprio as classificava como "realistas ou Superrealistas. Mais tarde, adptou uma atitude mais visceral. Substituindo os pincéis de zibelina pelos de pêlo de porco, menos bons e precisos, Freud começou a esculpir com a tinta, alarganda o observação meticulosa a novos horizontes. O sua obra tem sido alvo de numerosas retrospectivas por todo o mundo. Lucien Freud nasceu em Berlim em 1922 e está naturalizado inglês.

Retirado de: www.oseculoprodigioso.blogspot.com

1.4.09

DOBRAS E GRITOS (33)


A solidão encerra-nos no silêncio purificador, retira-nos de exteriores poluídos e fornece-nos energias alternativas.

31.3.09

AMOR DE PLÁSTICO

Parece que um casal de namorados ou, neste momento, ex-namorados, não se entende na divisão do euro-milhões ganho há dois anos. Ela quer mais de metade da quantia porque preencheu a chave, ele contenta-se com a divisão equitativa de quinze milhões de euros, apesar de ter pago a maior parte da aposta.

Este casal que partilhou o amor, o quotidiano e os fluidos corporais, não percebe que a divisão da quantia é muito mais fácil de resolver do que as partilhas anteriores. Como a estupidez não tem limites, convencem-se que, em tribunal, se podem tratar assuntos do foro psicológico. Eu defendo uma terapia comparticipada pelo estado neste tipo de casos. Afinal é preciso solidariedade para com os insanos.

DORIDA


Jorge Martins

Fiquei muito tempo sem tempo. Doem-me as pernas e os braços.

30.3.09

PERMANÊNCIA


Jorge Martins

Tentar parar o tempo com atitude. O corpo ajuda muito. A alma dificulta o acesso à permanência.

27.3.09

PARAR O TEMPO


Jorge Martins

Vou-me embora. Parar o tempo e perceber que, dias como os que aí vêm, não são comuns.

25.3.09

FRINCHA


Jorge Martins

Espreita-se pela frincha para fingir que se vê. Não há alternativa para olhos semi-cerrados. São olhos mortos.

24.3.09

JANELAS FECHADAS


Jorge Martins

Não são as janelas fechadas que impedem a visão. São as pessoas que não querem olhar para as coisas. As primeiras podem abrir-se, as segundas não. Porque olhar interfere com ser e disso fogem os que fecham os olhos.

23.3.09

COISAS QUE ME INQUIETAM (12)


Em final de tarde, reunida com vinte colegas de trabalho, oiço: a avaliação de professores deveria passar pela verificação do conhecimento de leis e pela análise exaustiva das mesmas.
Há gente muito pequena. Mais um passo e estou a ouvir: a avaliação de professores deveria passar pela verificação do conhecimento da anatomia humana e pela análise exaustiva da forma como cada docente procede face à postura não erecta do aluno em sala de aula.Há gente que não tem vida. Um passo mais à frente e ouvirei: a avaliação de professores deveria passar pela verificação das condições sócio-económicas dos estudantes de forma a proceder a uma avaliação igualitária que não produza discriminação.Não são as ideias que perturbam, perturba perceber que há pessoas que deviam mudar de profissão já.

22.3.09

REVOLUCIONARY ROAD

Angústia, insatisfação, medo, aflição e desejo, escondidos sob a capa de uma normalidade podre. A morte, em vida ou depois dela, é a única saída.

21.3.09

GRAN TORINO

O problema dos filmes de Clint Eastwood é que nos tiram o sono.

29 - JORGE MARTINS




Jorge Martins nasce em Lisboa, no dia 4 de Fevereiro de 1940. Entre 1957 e 1961, frequenta os cursos de Arquitectura e Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.Em 1958, inicia-se na técnica de gravura, na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses - Gravura, a convite do pintor Júlio Pomar. Nesse mesmo ano, estabelece-se num atelier e inicia a sua carreira como artista plástico. Vê o seu trabalho exposto em Lisboa, Nova Iorque, Chicago, Paris, Bruxelas, entre outras cidades. O seu interesse pela literatura leva-o a ilustrar várias obras, como O Ciclópico Acto de Luiza Neto Jorge, Mensagem de Fernando Pessoa ou O Livro das Sete Cores de Maria Alberta Meneres e António Torrado, pelo qual recebe o Prémio Gulbenkian de Ilustração de Literatura Infantil.
Em 1985, participa na representação portuguesa da 18ª Bienal de São Paulo. Em 1986, recebe o Prémio de Desenho da IIIª Exposição de Artes Plásticas da Fundação Gulbenkian. Em 1995, é inaugurado, na estação de metro Archives/navy Memorial de Washington, o alto-relevo Ocean Piece da sua autoria.
Tão Só O Fim do Mundo foi a sua primeira experiência no teatro.

Ennio Morricone - Cinema Paradiso

20.3.09

AO RITMO DO DJEMBÊ


Walter Vale, professor de economia na Universidade de Connecticut, perdeu a paixão pelo ensino. A vida é preenchida por rotinas. O vazio da existência caminha para as teclas de um piano que já não se ama. As aulas preenchem objectivos que desapareceram. Uma deslocação a Nova York leva Walter ao reconhecimento de que a vida pode passar a fronteira do hábito. Dois jovens ilegais que ocupam, por engano, o seu apartamento, fazem com que Walter perceba, por detrás de um sorriso que não se revela, a importância dos dias com ritmo. Tarek, músico dotado (para além dos dotes com que a natureza o presenteou), ensina a Walter os segredos do djembê.
Aos poucos, Walter recupera a alegria da qual que se tinha esquecido. Amigos e cúmplices, os dois homens percorrem o metro e os bairros de Nova York com o objectivo de viver ao ritmo da exaltação.
Noite fria. Avenida de Roma. Do cinema King à praça de táxis, dois amigos circulam em passos fumados de riso e luxúria:
- Walter percebeu que se pode morrer antes do cérebro e o coração pararem.
- Coisas que todos temos obrigação de entender.
- A morte é sempre entendida como física.
- Não fossem desatentas as gentes, perceberiam que morrem todos os dias, sem o som do djembê e sem as teclas do piano.
O vento cortante de uma cidade silenciosa, longe do poder cosmopolita de Nova York e do cheiro das bijutarias vendidas em Washington Square. A noite sem lua:
- Gostaste do desempenho dele?
- A falta de sorriso, a incapacidade de um corpo que morre e deixa a alma ir junto. Gostei da forma como o disse, em todos os gestos e frases.
- O piano era o encontro possível com a mulher.
- Era. Embora Walter tivesse tomado consciência que, encontros depois da morte, podem desenrolar memórias pouco bonitas.
O vento parou na cidade silenciosa, ao mesmo tempo que o táxi encostou na berma para que entrassem:
- Por favor, leve-nos ao Café Malaca.
- Onde fica?
- No clube naval do Cais do Sodré, uma casinha velha que espreita o rio com vergonha.
- Estão com pressa?
- Não. Acabámos de perceber a importância das noites que não se apressam.

19.3.09

ANIMAÇÃO PREMIADA

En Tus Brazos

DOR


Goya

A dor é um sinal inequívoco de que alguma coisa está errada. Dependendo da força de espírito da vítima, a dor poderá provocar um bom ou um mau resultado.

18.3.09

FORÇAS


Goya

No mundo dos humanos, crescemos acreditando que podemos alterar o nosso destino. As nossas esperanças viajam em função disso. Conclui-se, do contínuo movimento dos oceanos e do voo dos cometas que, forças completamente alheias aos nossos desejos, existem.

17.3.09

ESTRADAS LAMACENTAS


Goya


Teríamos muito poucos amigos se aceitássemos todas as frustrações. Os romanos eram perfeitos na recusa de frustrações, detestavam o frio e desenvolveram um aquecimento instalado debaixo do soalho. Não queriam caminhar em estradas lamacentas e por isso pavimentaram-nas.
Para Séneca, a sabedoria assenta em sermos capazes de discernir correctamente quando é que somos livres de moldar a realidade de acordo com os nossos desejos e quando é que devemos aceitar o inalterável com tranquilidade.

16.3.09

RUÍDO


Goya

Em ruas ruidosas, devemos acalmar-nos e convencermo-nos que todos os que fazem barulho, nada sabem a nosso respeito. O ruído nunca será agradável mas não é por isso que nos vamos enfurecer. O que se passa no exterior não pode perturbar-nos.

14.3.09

SER DEMONÍACO


Goya

Schopenhauer considerou que, este mundo, não podia ser obra de um Ser que nos amasse, mas em vez disso de um ser demoníaco que dera existência às criaturas para se deliciar com a visão dos seus sofrimentos.

13.3.09

COITADINHOS DOS MENINOS


É notória a comiseração oferecida aos meninos que vagueiam entre a família e a escola sem que o rumo para a vida surja como objectivo primeiro. Os meninos, coitadinhos, crescem no seio familiar com a sensação quotidiana de que a excessiva protecção e a permanente oferta de bens materiais de quinta necessidade é, sempre, prioridade dos que os acompanham ao longe.
Os meninos, coitadinhos, não estão habituados a lutar por coisa nenhuma. Não sabem realizar tarefas sem ajuda, não sabem organizar a mochila nem os cadernos, não sabem gerir o horário escolar semanal, não sabem estudar mais do que 5 minutos seguidos, não sabem sentar-se direitos. Coitadinhos dos meninos, não têm culpa. Os pais estão fora o dia inteiro, não podem oferecer-lhes tempo nem paciência. Os que escolheram a carreira antes dos filhos, oferecem-lhes tudo o que lhes permite pensar que o mundo é uma construção tipo lego. Depois, na escola, os meninos, coitadinhos, arregalam os olhos ao professor que lhes exige trabalho e esforço, indignam-se face à exigência que não conhecem, espantam-se perante a “intransigência” de um atraso, reclamam por não poderem infringir regras básicas de comportamento, gritam com quem não permite o uso de telemóvel em locais de trabalho, esperneiam quando repreendidas posturas, consideram inimigo quem lhes diz não.
Os meninos, coitadinhos, não sabem ouvir um não, não têm culpa, nunca o ouviram antes. Percebem, muito tarde, que há pessoas que dizem não e que, mais grave, não voltam atrás na resposta depois de birra afincada. Os meninos, coitadinhos, são vítimas de um sistema incoerente e perverso. No início, quando a infância exige disciplina, não a têm, não aprendem nada sobre regras. A escola chega depois para confundir, contradizer aquilo que antes aprenderam. Não é justo que um monte de desconhecidos os obriguem a ser e estar como nunca lhes tinham ensinado. A incoerência dita, na cabeça dos meninos, alguma revolta, o vazio de referências, a confusão de registos a que não sabem apegar-se.
Antes, na casa aquecida onde a empregada ditava os sabores das refeições escolhidas por capricho, os meninos podiam mandar. Agora, na escola fria onde funcionários e professores ditam leis, os meninos têm que obedecer. É confuso, percebe-se que os meninos, coitadinhos, precisem de apoio psicológico, terapias dirigidas, acompanhamento escolar extraordinário.
Percebe-se que, depois da ausência de tudo, esbarrar num monte de presenças incómodas, possa desencadear, a uma vida desprovida, graves problemas de inadaptação. São meninos, coitadinhos, mereciam o tempo e o conteúdo dos que escolheram ter filhos. Não tiveram nada e agora, os que escolheram ensinar, pagam a factura da comiseração indecente que, aos coitadinhos, é oferecida todos os dias.

12.3.09

PROSA SIMPLES


Goya

Um estilo de escrita incompreensível pode, eventualmente, resultar mais da preguiça do que da inteligência. Às vezes, prosa difícil, disfarça ausência de conteúdo. Ser incompreensível oferece uma enorme protecção contra o facto de não ter nada para dizer. Escrever com simplicidade requer coragem, porque existe o perigo de que não nos prestem atenção, de que sejamos colocados de parte por sermos simples de espírito por aqueles que acreditam que, a prosa impossível de compreender, é o grande marco da inteligência. Montaigne perguntava-se se a maioria dos académicos teriam apreciado Sócrates se o tivessem conhecido pessoalmente, desprovido de complexidade e prestígio, vestido com a sua capa cheia de nódoas e falando uma linguagem vulgar.

10.3.09

CASA DE LOUCOS


Goya

Pode ser problemático ter, simultaneamente, um corpo e um espírito. O primeiro apresenta-se como contraste ao segundo. Os corpos sentem dor, fraqueza, pulsam e envelhecem. Os nossos corpos arrotam, suam, libertam odores intensos. Os nossos corpos mantêm os espiritos como reféns dos seus caprichos. Toda a nossa perspectiva de vida pode ser alterada pela digetão de um pesado almoço.

Dizia Montaigne: "Quando uma boa saúde e um lindo dia de sol me sorriem, sinto-me perfeitamente jovial; se tiver uma unha encravada sinto-me susceptível, mal disposto e intratável".

9.3.09

DISTÂNCIA


“Enquanto nevava a favor de um vento forte guiado pelo Danúbio, junto ao lago conheceu Orsolya, por mero acaso ou porque ela assim quis, mais de ingénua do que curiosa.”

László, não tinha esquecido Luísa. Sabia-a longe, perto do Tejo que via à distância. Perguntava-se, todos os dias, se a voltaria a ver. Sabia que, de repente, era possível o reencontro em Lisboa.

8.3.09

28 - FRANCISCO DE GOYA



Goya iniciou a sua aprendizagem como pintor em 1759, aos treze anos, com Don José Luzan y Martinez. Como era costume na época, começou por fazer cópias de pinturas de vários mestres. Aos dezassete anos foi para Madrid, onde tentou, por duas vezes, entrar para a Academia de Belas Artes, sendo rejeitado em ambas as tentativas. Os biógrafos atribuem a Goya todo o tipo de aventuras nos anos que se seguiram, como a de ter-se tornado toureiro em Roma e ter-se envolvido em inúmeras aventuras amorosas.
No final de 1771, inscreveu-se no concurso da Academia de Belas Artes de Parma, recebendo uma menção honrosa e a sua primeira encomenda: o fresco na Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Saragoça. A partir de então, seguiram-se encomendas para o Palácio de Sobradiel e o Monastério Aula Dei. Entre os anos de 1773 e 1774 foram executadas, provavelmente, as últimas pinturas desse período em que esteve em Saragoça.

Goya casou com Josefa Bayeu, irmã dos artistas Francisco e Ramon Bayeu. Enquanto esteve em Madrid, trabalhou para várias fábricas, fazendo desenhos para tapeçarias. São desse período os desenhos que ganharam fama, com reprodução de cenas folclóricas e de paisagens. Contudo, ele não era um artista interessado em paisagens e o fundo de suas obras mostra o pouco interesse que tinha por elas.
Depois de estabelecido em Madrid, começou a pintar retratos. O mais antigo que se conhece data de 1774.
No ano de
1780, entrou para a Academia de San Fernando e apresentou a obra "La Crucificada". Nessa pintura, Goya seguiu as regras académicas, provando que era um mestre do estilo convencional. Em 1785, começou a receber encomendas da aristocracia. Foi nomeado "Primeiro Pintor da Câmara do Rei", tornando-se o pintor oficial do monarca e da sua família.

Em 1792, numa viagem a Andaluzia, contraiu uma doença séria e desconhecida, ficando temporariamente paralítico, parcialmente cego e totalmente surdo. A alegria desapareceu lentamente das suas pinturas, as cores tornaram-se mais escuras e o seu modo de pintar ficou mais livre e expressivo. Parcialmente recuperado, regressou a Madrid no verão de 1793 e continuou a trabalhar como artista da Corte. Buscou então outras inspirações para expressar a sua fantasia e invenção sem limites.Entre 1810 e 1814, produziu a famosa série de pinturas "Los Desastres de la Guerra"; "El Segundo de Mayo 1808" e "El Tercero de Mayo 1808". Nestas obras demonstrou um uso de cores extremamente poderoso e expressivo. Pela primeira vez, a guerra foi descrita como fútil e sem glória, e pela primeira vez não havia heróis, somente assassinos e mortos.
Em 1821, a Inquisição abriu um processo contra Goya por considerar obscenas as suas "Majas", mas o pintor conseguiu livrar-se, sendo-lhe restituída a função de "Primeiro Pintor da Câmara".

Durante a última parte da sua vida, Goya cobriu as paredes da sua Quinta del Sordo com as famosas "pinturas negras", as últimas e mais misteriosas de seu génio atormentado, como "Saturno devorando a un hijo" que se encontra, actualmente ,no Museu do Prado. Esta pintura constitui uma referência aos conflitos internos de Espanha, durante o reinado absolutista de Fernando VII, mas será também um reflexo da degradação da sua saúde física e mental.
Em
1824, Goya exilou-se em Bordeaux, vindo a morrer quatro anos depois.

ENSINAR


Homer


Parar de ensinar é, também, parar de aprender.

7.3.09

PARAR PARA OLHAR


Homer

Na terra onde nasci, havia uma casa abandonada. Eu era muito pequena para perceber que, ali, tinha vivido gente. Um dia, depois da ingenuidade, dei comigo a imaginar a vida desaparecida nas paredes em ruínas. Percebi que há lugares onde é preciso parar para olhar.

5.3.09

O LEITE CONDENSADO DAS OPINIÕES


Homer

Eu não tenho opiniões. Eu não quero ter opiniões. Eu quero ter corpo e mãos e pés e braços e pernas e entendimento. As opiniões impedem-me de ter corpo e mãos e braços e pernas e entendimento. As noites põem a música mais nítida e as opiniões impedem o corpo de agir, as mãos de fazer, as pernas de andar, o entendimento de criar.
Que se eleve a forma ao momento da transcendência do corpo, muito longe das nojentas frases opinativas. Operam em mim sensação de arrepio, as opiniões que não dizem mais que nada. Escrever opiniões é dizer coisa nenhuma. Quem se interessa pelo que eu julgo? Quem quer ler as minhas opiniões? Quem se debruça para papéis incertos?
Eu quero o corpo e os braços e as pernas e os olhos que vêem, eu não quero peganhentas opiniões.
Há vida no entendimento da criação, a que o sofrimento ou o prazer arrancam à alma. Há vida nas coisas criadas depois dos gritos e dos arrepios, quando a elevação acontece. As opiniões não surgem de gritos nem de arrepios, nem de frio nem de calor, aparecem do vazio sem corpo e sem prazer. As ideias são outra coisa, são o berro de um espírito ocupado com prazer e dor, com corrida e desmaio, com quente e frio.
Que fiquem longe juízos opinativos que uso para preencher folhas em branco, para usar de falsa atenção e inteligência construída sem critério. Que se guardem opiniões para os dias de semana que são domingos, longos e chatos, cheios de corridas sem regresso e passeios sem olhares. Que fiquem, os sons, longe de mim, para os poder ouvir com maior intensidade.
Eu não quero ter opiniões, mas tenho-as. Perseguem-me, viscosas como a baba de camelo que tem sabor a leite condensado. Odeio leite condensado. Odeio as minhas opiniões, andam atrás de mim sem que as consiga colocar em frente dos pés, como uma bola que se chuta para longe. Assiste-se ao seu caminho para trás das árvores, esconde-se mas não desaparece…como as minhas opiniões.

4.3.09

NOJO


Espremo a saia como espremo tudo o que me enjoa. Carros que andam depressa, motas que curvam bocados de estrada escorregadia, guinchos de crianças mal dispostas, pessoas com dentes mal tratados. Espremo a saia como espremo tudo o que me enoja. Preços fora de prazo, dinheiro escondido debaixo de pastas, risos disfarçados, beijos a fingir. Espremo a saia com força e não consigo que tudo o que me enjoa ou me enoja desapareça.

3.3.09

MÃOS FORA


Homer

Tocar no mundo com a cabeça leva-te aos sentimentos paralelos de um universo pouco importante. Há uma intensidade a que as mãos nos habituam, são elas que nos tornam intensos.
"Com as mãos nos bolsos o homem percebe que não é Deus. Não chega às coisas. Com as mãos nos bolsos sente-se mais, pensa-se menos". (Gonçalo M. Tavares)

2.3.09

PALAVRAS QUE ADORMECEM


Homer

Ver adormecer as palavras no branco e áspero papel:
toda a gente entende que, à noite, a música é mais nítida.
As mãos são orgãos susceptíveis de se emocionarem e ... ouvir mantem-me distante das coisas.

1.3.09

DOMINGOS

Há dois tipos de domingos: os que servem para tudo e os que servem para coisa nenhuma.

SABARBIAN


Homer

A noite no fim de Lisboa foi verde. Gentes postas em elegante mesa. Pato escondido em arroz branco e muito riso. Ciência, Filosofia e Arte em partes certas. A curvatura de uma onda à passagem por um obstáculo, foi tema de conversa entre letras e ciências. Em maior ou menor grau, dependendo das dimensões do obstáculo, ocorre a curvatura da onda. Como nas pessoas: em maior ou menor grau, conforme capacidade de entendimento, ocorrem juízos ou certezas. À noite, no fim de uma Lisboa verde, as certezas gritaram mais alto, em uníssono comprimento de onda.

27 - WINSLOW HOMER



Nascido em Boston, Massachusetts, um dos mais expressivos representantes do realismo norte-americano em fins do século XIX. Viveu a sua infância numa área rural de Cambridge, após a falência dos negócios do pai. Não recebeu educação formal e, influenciado pelos dons artísticos da mãe, iniciou sua carreira na arte aos 19 anos como aprendiz de litógrafo. Mudou-se para Nova York , onde estudou pintura na National Gallery of Design.
Durante a guerra de secessão, dedicou-se à temática militar. Viajou para França onde conheceu novas estéticas que não chegaram a influenciar a sua obra.
De volta a América, montou um estúdio em New York City e começou a pintar aguarelas. Com o passar dos anos, mudou para telas caracterizadas por figuras solitárias, com acentuado detalhe e efeitos atmosféricos.
Voltou à Europa, passando dois anos no Reino Unido e, de volta aos Estados Unidos, o mar passou a ser o tema predominante na sua obra.
Nos seus últimos quadros demonstrou um crescente interesse pelo abstracto.