Após estudar na Grécia e em Munique instala-se em Paris, onde estabelece fortes relações de amizade com Apollinaire. No início dos anos 20, a sua obra obtém um êxito considerável nos meios vanguardistas. Em 1925, participa na primeira exposição surrealista. Posteriormente, e para surpresa geral, exalta-se por um academismo vácuo que cultiva durante o resto da sua longa vida. A pintura metafísica de Giorgio de Chirico antecipa elementos que aparecem depois na pintura surrealista: padrões arquitectónicos, grandes espaços nus, manequins anónimos e ambientes oníricos. Do dadaísmo, os pintores surrealistas e, com eles, De Chirico, herdam directamente as atitudes destrutivas e niilistas. O que o próprio artista qualifica de «pintura metafísica» corresponde à necessidade de sonho, de mistério e de erotismo próprios do surrealismo. E assim, desde que este movimento vê a luz, a obra de De Chirico conhece um êxito considerável.
Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos. Uma caixa quadrada, fechada e completa. Tem por fora muitas cores que formam espaços vazios e espaços cheios de sentido. Tem frases com lógica e pequenos dizeres fora do comum. Quando lhe retiro a tampa vejo os beijos, são pequenos e muitos, enfileirados em cadeia, organizados por intensidades e tamanhos. Vêm de perto, daqui do lado, da menina a crescer que decidiu oferecê-los em caixa completa de coisas úteis. As frases dispõem preferências, as imagens denunciam gostos e as pessoas ilustram desejos. Peguei na caixa e li-a, por dentro e por fora. Com tudo o que podia interpretar fiz um texto. Mastiguei os rebuçados com as palavras que não se ouvem. O chocolate espalhou-se em guloso palato. O livro, as Breves Notas Sobre o Medo, foi lido de noite, à luz de um candeeiro novo. Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos e um livro. Sabia, quem a fez, que os beijos não se embrulham em caixas, mas sabia também que há desejos sempre realizáveis. Quando era muito pequena, recebia beijos encarnados, verdes, brancos e amarelos. Sabia que, quem lhos dava, os enfeitava com imaginação. Ria muito. A cada cor mudava o tom, a textura e o tempo do beijo oferecido. Fez uma espécie de devolução com tampa, acrescentou o que lhe pareceu ajustado e colocou num embrulho. As caixas que nos entregam são quase sempre dispensáveis, trazem dentro qualquer coisa e vão para o lixo depois de as esvaziarmos. Há caixas com importância, quando dentro trazem o que pedimos, o tudo que desvela amor imenso, partilha plena e total cumplicidade.
"Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo."
Tinha os olhos postos na plateia que o aguardava para conversa que não se ensaiou. Eram poucas as pessoas que, reunidas na sala da escola, esperavam as palavras e os gestos de quem soube viver todos os dias na loucura da dádiva e do espanto. Sentou-se. Reparou nos olhos que o fixavam e sorriu. A conversa decorreu num encontro intimista.
Em palco imaginado, a cadeira do actor serviu-lhe de suporte, como se o corpo estivesse pronto para momentos que não eram espectáculo. As palavras são lindas, disse, é preciso darmos atenção à forma como as usamos, ao seu significado na frase e na vida.
O silêncio foi escolhido por quem precisava de ouvir, sem distracções. O actor falou do teatro, da entrega, do amor, da disciplina, do rigor e do crescimento de quem se dedica a um trabalho diferente. Personagens que se vivem, luzes que se acendem, panos que caem e textos na memória. É preciso falar alto, claro e não deixar cair os finais, repetiu aos aprendizes que continuavam no silêncio da expectativa e do entusiasmo.
A pouco e pouco, as vozes de quem o olhava, foram tendo eco nas perguntas, nas inquietações de gente nova capaz de abraçar profissão futura com as dúvidas próprias de quem viveu pouco tempo. O actor respondeu, com o mesmo amor com que sorriu a todos quantos o interpelaram. Alunos inquietos colocaram palavras certas em questões com sentido: a família, a profissão, o texto, as pessoas que não somos nós, o carácter, os limites, a loucura e a exposição, toda a exposição que, de um corpo, surge na voz: alta, clara e sem deixar cair os finais.
Foi um bocado de tarde diferente. No lugar do conhecimento, momentos de sabedoria. Todos entenderam a verdade nas palavras bonitas, distribuídas uma a uma, por quem esteve e sentiu o prazer de uma conversa recheada. Obrigada, Raul.
- “Quando alguém tem medo deve correr para casa ou para a parte de fora da noite”. (*)
- Que dizes?
- Digo que “a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo”.(*)
- Estás parva?
- Não. “Um verso que um homem saiba de cor só se elimina com a brutal amnésia”(*)
- Mas estás a falar de quê?
- Estou a dizer-te a importância da poesia. - A que propósito?
- A propósito da informação. - Que informação? - “O excesso de informação que o mundo imbecil te obriga a guardar”. (*)
- Mas a poesia é informação. - Não é. “O verso não tem o timbre de uma informação.” (*)
- Dás-me um exemplo? - “Os homens que se erguem não são da mesma espécie animal que os homens que são derrubados e aí ficam”. (*) - Isso depende da anatomia.
- “A anatomia é algo que existe escondido dentro do corpo”. (*) - Como? - “É interior, como as imagens mentais, apesar de menos interior do que as imagens mentais”. (*) - Estás a comparar ideias com ossos? - “Um osso existe, apesar de tudo, em sítios menos fundos do que as ideias ou raciocínios (…). Se escavarmos com instinto arqueológico, descobriremos primeiro a tíbia e o perónio e só depois certas células inteligentes.” (*)
- Defendes, então, que as ideias são pesadas.
- Sim. “Na balança, a memória pesa mais do que os projectos. Uma deficiência na rapidez de sentir: eis o ressentimento ou o remorso.” (*)
- E para que servem os ossos? - Para dançar, por exemplo.
- Como?- “Um homem a dançar pode ser bonito mas um homem a pensar nunca é bonito. E se um homem dançar enquanto pensa esse homem terá pensamentos estúpidos, e se um homem pensar enquanto dança, trocará os pés e acabará por tropeçar.” (*) - É uma regra? - “Não é uma regra mas poderia ser uma regra: dançar é incompatível com a resolução de uma equação de segundo grau”. (*) - Para que livro olhas? - Para O Senhor Breton - Empresta-mo. - Não empresto.
(*) Gonçalo M. Tavares; O Senhor Breton. Editorial Caminho
"O meu método de trabalho, enquanto tal, pode ser descrito como "sobreposição". As imagens são colocadas umas sobre as outras. A intenção e o contexto estão em contínua mudança dado as imagens se sobreporem. O resultado traduz-se em vestígios que se referem apenas aos elementos que funcionaram como catalisador, mas que depois desapareceram. Sinais dos elementos extintos tomam o lugar do motivo original."
(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)
Depois do meu reparo sobre a falta indecente do cumprimento dos horários marcados, indecência que implica espera por parte dos que cumprem, a frase cai em mim como bomba:
“A solidão é o que resta aos que acreditam na pontualidade”.
Vim para casa a pensar que, ou eu estou maluca, ou o mundo já não tem remédio!