15.6.09

DEBAIXO DE OUTRO SOL


Chirico

Regressei. Dois livros lidos e muito silêncio. Voltam os dias e as noites. Sob o sol e a lua de Lisboa.

9.6.09

INTERVALO


Vou-me embora. Depois das festas, este blog volta ao movimento diário das palavras. Fica um texto magnífico. Tenho pena de não o ter escrito.

Foda-se
Millôr Fernandes (Adaptado)

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. "Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes? No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça. E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"? Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor - íntimo nos lábios. E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”.

Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
E foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!

8.6.09

AFECTO


Chirico

Acreditar no que não se vê é sempre sinal de afecto.

7.6.09

Eleições

yesssssss!!

CUSPIR A MORTE


Chirico

Os que têm olhos postos no nada e percorrem ruas de uma cidade pouco vivida. Os que vivem como se o amanhã não fosse e o ontem não tivesse existido. Não te deixes ir com eles, não adormeças no formigueiro dos que se entregam à vida gelatinosa que subsiste nas veias cansadas dos que morrem a caminho, dos que não respiram a literatura, não ouvem a música e pensam em si como coisa feita.
Não te deixes morrer à espera do fim, da noite sem conteúdo ou do dia sem tempero. Grita. Esfrega a alma nas costas. Levanta-te. Carrega a abundância das perguntas, dos relatos, das palavras e dos bolos cheios de recheio de chocolate negro.
Não te deixes ir com eles, não cales, não adormeças na matéria, não te afogues em mentiras. Olha, deita a língua para fora, troça do imbecil que quer ser imbecil, ri-te do tolo que quer ser tolo, ignora o estúpido que faz gala em ser estúpido. Caminha com as costas direitas.
Não te deixes morrer no tédio. Não te afundes. Faz dos braços instrumentos de boa empreitada.
Quando cuspires a morte que te persegue e o pó que te invade, perceberás a urgência do grito e do espanto.
Os que têm olhos postos no nada e percorrem ruas de uma cidade pouco vivida, os que estão como se o amanhã não fosse, os que morrem vivos, os que comem pão endurecido pela raiva, os que mastigam palavras usadas, os que se curvam ao vulgar dos gestos, os que vomitam tristezas, os que correm atrás de tudo o que se não pensa, os que não riem de nada, os que se gabam da desgraça, os que fazem pouca ginástica, os que pouco querem, os que pouco são, os que pouco pensam, os que pouco pensam. A todos desejo o que se não vê, por impedimento ou distracção.

4.6.09

3.6.09

36 - GIORGIO DE CHIRICO



Após estudar na Grécia e em Munique instala-se em Paris, onde estabelece fortes relações de amizade com Apollinaire. No início dos anos 20, a sua obra obtém um êxito considerável nos meios vanguardistas. Em 1925, participa na primeira exposição surrealista. Posteriormente, e para surpresa geral, exalta-se por um academismo vácuo que cultiva durante o resto da sua longa vida.
A pintura metafísica de Giorgio de Chirico antecipa elementos que aparecem depois na pintura surrealista: padrões arquitectónicos, grandes espaços nus, manequins anónimos e ambientes oníricos. Do dadaísmo, os pintores surrealistas e, com eles, De Chirico, herdam directamente as atitudes destrutivas e niilistas. O que o próprio artista qualifica de «pintura metafísica» corresponde à necessidade de sonho, de mistério e de erotismo próprios do surrealismo. E assim, desde que este movimento vê a luz, a obra de De Chirico conhece um êxito considerável.

30.5.09

UMA CAIXA CHEIA DE BEIJOS


Sara Pessoa

Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos. Uma caixa quadrada, fechada e completa. Tem por fora muitas cores que formam espaços vazios e espaços cheios de sentido. Tem frases com lógica e pequenos dizeres fora do comum. Quando lhe retiro a tampa vejo os beijos, são pequenos e muitos, enfileirados em cadeia, organizados por intensidades e tamanhos. Vêm de perto, daqui do lado, da menina a crescer que decidiu oferecê-los em caixa completa de coisas úteis.
As frases dispõem preferências, as imagens denunciam gostos e as pessoas ilustram desejos.
Peguei na caixa e li-a, por dentro e por fora. Com tudo o que podia interpretar fiz um texto. Mastiguei os rebuçados com as palavras que não se ouvem. O chocolate espalhou-se em guloso palato. O livro, as Breves Notas Sobre o Medo, foi lido de noite, à luz de um candeeiro novo.
Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos e um livro. Sabia, quem a fez, que os beijos não se embrulham em caixas, mas sabia também que há desejos sempre realizáveis.
Quando era muito pequena, recebia beijos encarnados, verdes, brancos e amarelos. Sabia que, quem lhos dava, os enfeitava com imaginação. Ria muito. A cada cor mudava o tom, a textura e o tempo do beijo oferecido. Fez uma espécie de devolução com tampa, acrescentou o que lhe pareceu ajustado e colocou num embrulho.
As caixas que nos entregam são quase sempre dispensáveis, trazem dentro qualquer coisa e vão para o lixo depois de as esvaziarmos. Há caixas com importância, quando dentro trazem o que pedimos, o tudo que desvela amor imenso, partilha plena e total cumplicidade.

29.5.09

"DESENCANTO"

"Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo."

Retirado daqui.

28.5.09

O ACTOR ENTRA NUM PALCO DIFERENTE



Tinha os olhos postos na plateia que o aguardava para conversa que não se ensaiou. Eram poucas as pessoas que, reunidas na sala da escola, esperavam as palavras e os gestos de quem soube viver todos os dias na loucura da dádiva e do espanto. Sentou-se. Reparou nos olhos que o fixavam e sorriu. A conversa decorreu num encontro intimista.
Em palco imaginado, a cadeira do actor serviu-lhe de suporte, como se o corpo estivesse pronto para momentos que não eram espectáculo. As palavras são lindas, disse, é preciso darmos atenção à forma como as usamos, ao seu significado na frase e na vida.
O silêncio foi escolhido por quem precisava de ouvir, sem distracções. O actor falou do teatro, da entrega, do amor, da disciplina, do rigor e do crescimento de quem se dedica a um trabalho diferente. Personagens que se vivem, luzes que se acendem, panos que caem e textos na memória. É preciso falar alto, claro e não deixar cair os finais, repetiu aos aprendizes que continuavam no silêncio da expectativa e do entusiasmo.
A pouco e pouco, as vozes de quem o olhava, foram tendo eco nas perguntas, nas inquietações de gente nova capaz de abraçar profissão futura com as dúvidas próprias de quem viveu pouco tempo. O actor respondeu, com o mesmo amor com que sorriu a todos quantos o interpelaram. Alunos inquietos colocaram palavras certas em questões com sentido: a família, a profissão, o texto, as pessoas que não somos nós, o carácter, os limites, a loucura e a exposição, toda a exposição que, de um corpo, surge na voz: alta, clara e sem deixar cair os finais.
Foi um bocado de tarde diferente. No lugar do conhecimento, momentos de sabedoria. Todos entenderam a verdade nas palavras bonitas, distribuídas uma a uma, por quem esteve e sentiu o prazer de uma conversa recheada. Obrigada, Raul.

27.5.09

NÃO EMPRESTO LIVROS

Sara Pessoa
- “Quando alguém tem medo deve correr para casa ou para a parte de fora da noite”. (*)
- Que dizes?
- Digo que “a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo”.(*)
- Estás parva?
- Não. “Um verso que um homem saiba de cor só se elimina com a brutal amnésia”(*)
- Mas estás a falar de quê?
- Estou a dizer-te a importância da poesia.
- A que propósito?
- A propósito da informação.
- Que informação?
- “O excesso de informação que o mundo imbecil te obriga a guardar”. (*)
- Mas a poesia é informação.
- Não é. “O verso não tem o timbre de uma informação.” (*)
- Dás-me um exemplo?
- “Os homens que se erguem não são da mesma espécie animal que os homens que são derrubados e aí ficam”. (*)
- Isso depende da anatomia.
- “A anatomia é algo que existe escondido dentro do corpo”. (*)
- Como?
- “É interior, como as imagens mentais, apesar de menos interior do que as imagens mentais”. (*)
- Estás a comparar ideias com ossos?
- “Um osso existe, apesar de tudo, em sítios menos fundos do que as ideias ou raciocínios (…). Se escavarmos com instinto arqueológico, descobriremos primeiro a tíbia e o perónio e só depois certas células inteligentes.” (*)
- Defendes, então, que as ideias são pesadas.
- Sim. “Na balança, a memória pesa mais do que os projectos. Uma deficiência na rapidez de sentir: eis o ressentimento ou o remorso.” (*)
- E para que servem os ossos?
- Para dançar, por exemplo.
- Como?- “Um homem a dançar pode ser bonito mas um homem a pensar nunca é bonito. E se um homem dançar enquanto pensa esse homem terá pensamentos estúpidos, e se um homem pensar enquanto dança, trocará os pés e acabará por tropeçar.” (*)
- É uma regra?
- “Não é uma regra mas poderia ser uma regra: dançar é incompatível com a resolução de uma equação de segundo grau”. (*)
- Para que livro olhas?
- Para O Senhor Breton
- Empresta-mo.
- Não empresto.

(*) Gonçalo M. Tavares; O Senhor Breton. Editorial Caminho

26.5.09

MEU VIZINHO

Hoje é o Dia Europeu do Vizinho. Vou lá acima entregar umas farófias acabadinhas de fazer.

ESPANTAR SENTIMENTOS


Sara Pessoa

Os abraços genuínos são silenciosos. Porque os outros não são abraços, são gestos ruidosos que servem para espantar sentimentos.

25.5.09

UMA FORMA DE ESTAR CALADA


Sara Pessoa

Escrever é uma forma de estar calada. Quando as palavras não são mais que meros instrumentos de sons não pronunciados.

24.5.09

IRONIA


Noventa pessoas apanham a "gripe suína" e toda a gente quer usar uma máscara.
Um milhão de pessoas tem SIDA e ninguém quer usar um preservativo.

35 - SARA PESSOA




"O meu método de trabalho, enquanto tal, pode ser descrito como "sobreposição". As imagens são colocadas umas sobre as outras. A intenção e o contexto estão em contínua mudança dado as imagens se sobreporem. O resultado traduz-se em vestígios que se referem apenas aos elementos que funcionaram como catalisador, mas que depois desapareceram. Sinais dos elementos extintos tomam o lugar do motivo original."

23.5.09

We Will Survive: Igudesman & Joo + Kremer & Kremerata

BEM DITAS PALAVRAS

Há quem diga as verdades:

(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)

COISAS QUE ME INQUIETAM (13)

Depois do meu reparo sobre a falta indecente do cumprimento dos horários marcados, indecência que implica espera por parte dos que cumprem, a frase cai em mim como bomba:
“A solidão é o que resta aos que acreditam na pontualidade”.
Vim para casa a pensar que, ou eu estou maluca, ou o mundo já não tem remédio!

DEVERES


Caravaggio

"Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto"
(Conçalo M. Tavares)

21.5.09

PÃO


Caravaggio

"Quanto tempo ficas a admirar uma jóia e, quanto tempo ficas a admirar o pão que comes?" (Gonçalo M. Tavares)

20.5.09

CAUSAS


Caravaggio

"Hoje em dia já não existe ninguém à procura de causas"
(Musil)

18.5.09

MUNDO (2)


Caravaggio

"Deveríamos ser proibidos de entrar no mundo como certos jovens imberbes são proibidos de entrar em sessões de cinema para mais de 18 anos." (Gonçalo M. Tavares)

16.5.09

MUNDO


Caravaggio

"Há muito que eu e o mundo não temos amizade nenhuma um pelo outro" (
Musil)

15.5.09

34 - CARAVAGGIO



Lombardia, 1573 - Porto Ercole, 1610

Michelangelo Merisi estuda inicialmente em Milão com o maneirista Peterzano, contra cuja estética reage asperamente. Autodidacta, a sua pintura suscita violentas reacções. Apesar da crítica dos artistas, o público aprecia as suas telas rugosas, encrespadas de pastosidades e dominadas pelo que, a partir dele, se chama «tenebrismo». Estabelece-se em Roma até que, obrigado a fugir por se ter envolvido numa sangrenta rixa, se refugia em Nápoles (1606). Percorre o Sul do país perseguido pela justiça até que vai para Malta (1607), onde é recebido na Ordem de S. João. Encarcerado um ano mais tarde por ofensas a um cavaleiro da ordem, consegue fugir para a Sicília e, dali, para Messina (1609). Regressa a Nápoles, até onde o perseguem os seus inimigos malteses, que o deixam gravemente ferido. Amnistiado por Roma, dirige-se a Porto Ercole, onde é detido por erro. Uma vez libertado, morre obscuramente (segundo certas versões, de umas febres).
A atitude artística deste pintor é de franca rebeldia contra os convencionalismos do momento. O estranho realismo de Caravaggio consiste não em copiar e observar a natureza, mas em contrapor o valor moral da prática ao valor intelectual da teoria.
O aspecto mais notável da sua obra é o tratamento da luz, que recebe o nome de tenebrismo. Consiste em projectar a luz sobre as formas com violência e em contraste intenso e brusco com as sombras. O seu precoce domínio dos efeitos claro-escuro marca o início de uma das grandes conquistas da pintura barroca. Outra característica primordial do estilo de Caravaggio é o naturalismo exacerbado como reacção face ao idealismo renascentista. Naturalismo que, por outro lado, não está em duelo com a grandiosidade da composição.
A influência de Caravaggio sente-se poderosamente em Itália e no resto da Europa durante todo o século xvii, e os seus seguidores continuam a cultivar o tenebrismo e o naturalismo no século seguinte.

14.5.09

ROUBAR MATÉRIA AO MUNDO


Cargaleiro


A estética como tema. Catorze alunos presentes. Carteiras pretas. Sala nova. Computador. Internet. Quadro interactivo. Início da aula e a frase dita pela Catarina, depois do dedo no ar: o mundo tem muitas coisas feias, talvez os artistas tenham surgido para lhe dar beleza.

Eu tinha o livro do Gonçalo M. Tavares em cima da mesa e o plano era tudo menos o texto escrito no quadro:
“No início o mundo era repleto de matéria. Matéria compacta, espessa. A violência – ou seja – a criação – passou por retirar fatias. A escultura - e todo o ser vivo é uma escultura – não é assunto de acrescentar ou acumular, mas sim assunto de retirar, esburacar. Qualquer criador não traz matéria para acrescentar ao mundo, rouba-a, faz as fendas certas, inventa as ausências intensas, percebe onde os intervalos podem ser mais profundos.” (Gonçalo M. Tavares; A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil.)

Foi pedido um comentário. Olhem para o que está escrito, discutam a ideia, clarifiquem-na e escrevam. É precisa a solitária reflexão sobre a questão da matéria roubada ao mundo, as fatias que se retiram à pedra, ao barro, à madeira. O roubo que se faz porque a beleza o exige ou porque é preciso expressar qualquer coisa. A violência exercida no acto de criar, a necessidade da matéria do mundo para que a criação aconteça e o acrescentar, ou não, alguma coisa a um mundo de matéria espessa.

À minha frente, a Inês acaba primeiro e pergunta-me:
- Posso ler? Faço-lhe sinal para que espere pelos colegas.
O tempo decorre em algum silêncio interrompido pelo João: esculpir é uma coisa, moldar é outra. Mesmo quando se molda já se roubou matéria ao mundo.
A Cláudia intervém: é como se os artistas não roubassem propriamente mas dessem ao mundo uma forma nova, uma reconstrução onde os desperdícios são postos fora de jogo.

A Catarina leu o texto em voz alta: a preocupação centra-se na matéria humana, não na matéria do mundo. A primeira também é roubada, quando a dignidade é posta em causa, por exemplo.

A Ana pede-me para ler o que fez: somos todos escultores de um mundo que transformamos, de certa forma os pássaros, não sendo artistas, também roubam alimento ao mundo sem que haja criação artística.

Ao canto, de cabelo a tapar um olhar atento, o Frederico não se mexe: não executo o trabalho porque não tenho material de escrita – o costume!

A Marta ri alto e pensa da mesma maneira, não teve tempo para acabar, foi com o caderno debaixo do braço e a mala na mão. Em jeito de “tia” por crescer disse-me:
- Trago na próxima aula, professora, prometo.

Saíram. Contentes. Despediram-se afavelmente, como todos os dias.
Vou deixá-los, vou-me embora porque quero, porque preciso, porque a vida é assim. Tenho pena. Pelo Alim que ri sincero, Pelo Fred que não executa quase nada mas pensa bem, Pelo Miguel que fala baixinho, pelo Rodrigo que é rapaz feliz, pelo Paulo de atacadores diferentes e estilo descontraído. Já tenho saudades de todas as Anas, da Patrícia que gosta de falar para o lado e da Cátia que dá beijinhos à chegada.

Tenho saudades porque, poucas turmas nos entram no coração. Gente boa que, para lá de um trabalho sério, desenvolve afectos. Com eles trabalha-se melhor. Todos sabemos disso.

13.5.09

EDUCAÇÃO SEXUAL FORA DE CASA

No próximo ano lectivo a Educação Sexual vai entrar nas escolas do país. Tenho que ficar atenta aos dias e horas em que a minha filha vai ouvir falar daquilo que eu tenho obrigação de lhe explicar.

DIÁLOGO


Só gosto de azulejos que falem comigo.

12.5.09

ALTOS

Os prédios muito altos assustam os pássaros. Querem voar raso, ver as pessoas antes de partirem para longe.

11.5.09

DOBRAS E GRITOS (34)

Às vezes é preciso queimar, rasgar, deitar no esgoto, cuspir, bater e clamar. A vida ensina-nos a deitar fora o que não interessa. Depois, o banho.

RIO


Cargaleiro

Fomos ver o rio. Estavam lá as gaivotas. Tinham vindo da praia distante. Precisávamos encontrar o riso trazido do mar.

10.5.09

ESSE FIM


Cargaleiro

- És sempre bonita quando chegas a esse fim.
- Sabia-te aí. Esperei pelo fim para que o visses.
- Não te agradeço.
- Não precisas. O teu olhar já o fez.

9.5.09

AO OUVIDO


Cargaleiro

Cheguei com a história na mão. Pedro tinha-se recostado no sofá, em frente à janela de onde o mar se avista:
- Fica atrás de mim. Conta-ma baixinho. Encosta-te ao meu ouvido, ainda não a ouvi dessa forma.

8.5.09

VIAGEM


Cargaleiro

- Quando vamos a Montmartre?
- Quando acabar de ler a história que inventaste para mim.
- Podemos ir em breve. A história é pequena, já a leste milhares de vezes.
- Ler muitas vezes uma história não significa ter acabado de a ler. É preciso o tempo.

7.5.09

ACTO


Cargaleiro

Nenhum de nós arriscava ir ao sótão ver as memórias e as imagens. Todos os dias eram novos. Urgente eternizar o amor, fazer aparecer o céu inventado e receber as palmas das gaivotas na praia. Era urgente molhar os pés no mar e dizer coisas quentes que demoram a acontecer porque, todos os dias precisam de vida para se fazerem sentir. Não podia haver quietude, a única coisa que permitia a vida era o acto.

6.5.09

RISO E SILÊNCIO


Cargaleiro

Pedro estava embrenhado em mais um livro de Haruki Murakami. Não o interrompi. Dancei até à cozinha, ao ritmo das palavras de Vinicius: eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia.
Havia, naquela tarde, um sol comprometedor, uma luz bonita e incómoda para os que, nas esquinas da vida, seguem o erro do grito calado, da fala muda, da cama fria, do prato vazio. A claridade dos que, nas esquinas do dia, seguem na ausência de gente, de beijo, de abraço, de sorriso e de pranto. Sabia-o tranquilo em frente ao livro. Preferi ficar quieta. Debaixo da mesa, estiquei as pernas e fechei-me no riso e no silêncio.

5.5.09

33 - MANUEL CARGALEIRO



Manuel Cargaleiro é um dos mais importantes artistas plásticos portugueses. A sua obra é reconhecida em todo o mundo. A paixão pela arte levou-o a reunir, desde há vários anos, uma colecção de obras de artistas consagrados, na qual se podem encontrar peças de Pablo Picasso e Vieira da Silva. É actualmente um dos mais valiosos espólios do país. Natural de Chão das Servas, concelho de Vila Velha de Ródão, na Beira Baixa, onde nasceu a 16 de Março de 1927, veio com a família para o Fogueteiro no ano seguinte e aqui se manteve por 15 anos. Primeiro numa casa situada na Quinta de Vale de Chícharos, junto ao local onde hoje está implantada a Escola Secundária com o seu nome, e mais tarde, num prédio na antiga Rua do Grémio, hoje denominada Rua General Humberto Delgado, onde montou um ateliê.
A autarquia apresenta publicamente, em Março de 2008, o projecto para a instalação do espólio do Mestre, na Quinta da Fidalga. Um local com seis séculos de história, junto à Baía do Seixal, que foi um espaço frequentado pelo Mestre Cargaleiro durante a sua juventude.
O projecto Museu-oficina de Artes Manuel Cargaleiro pretende ser um instrumento pedagógico de memória, divulgação, investigação e experiência na área das artes. O objectivo principal é preservar e divulgar a obra do Mestre Manuel Cargaleiro e da sua Fundação, dando continuidade à sua obra, através de actividades pedagógico-didácticas, que incluem a produção, conservação curativa e o restauro de artes decorativas.Com a instalação deste novo equipamento os cidadãos de todo o país passam a usufruir de uma instituição artístico-cultural de grande qualidade, com um acervo que incluirá desenhos, pinturas, óleos, gravuras, cerâmicas, tapeçarias e várias obras recolhidas pelo Mestre ao longo dos anos.
Com o Museu Manuel Cargaleiro, propõe-se criar uma unidade museológica que cumpra essa vocação didáctica e criativa, no campo das artes decorativas, através de exposições de carácter permanente e temporário, bem como através do funcionamento de oficinas.Esta unidade compreenderá ainda uma extensão didáctico-pedagógica que se desenvolverá através das oficinas de cerâmica, marcenaria, tapeçaria, papel/encadernação, e, ainda, de uma tipografia. Terá também espaços de formação e aprendizagem, de criatividade e de restauro.
O único equipamento a construir de raiz será a Galeria de Exposições. Um projecto de Álvaro Siza Vieira a crescer a sul da Quinta da Fidalga, com uma área de 500m2.

4.5.09

A LUZ


Andy Warhol

"- A luz! A luz!
Se existisse uma electricidade para fazer aparecer o escuro como existe uma electricidade para fazer aparecer a luz, o número de possibilidades duplicaria, mas também duplicaria a conta do mês.
No entanto parece-me desagradável – pensava o senhor Juarroz – que baste desligar a luz para aparecer a escuridão.
Para darmos a devida importância ao escuro – tanto, pelo menos, como damos à claridade – deveria ser necessário o acto de ligar a escuridão.
Assim, quando se apagasse a luz, não surgia logo o escuro, mas sim um qualquer estado intermédio.
Só se dá importância ao que tem um custo: ligar a escuridão e pagar por ela, parece-me urgente – pensava o senhor Juarroz, um segundo antes de bater com o joelho contra uma mesa.
- Quem desligou a porcaria da luz?! – Gritou irritado o senhor Juarroz."

Gonçalo M. Tavares; O Senhor Juarroz


3.5.09

CAIXA DE BEIJOS


Andy Warhol

Hoje recebi uma caixa cheia de beijos. De cada um que havia dentro dela, fiz um ramo. Juntei-os todos às flores e coloquei o vaso no centro da sala, ao lado ficaram os abraços.

2.5.09

DEPOIS DO TRABALHO


Chegou a casa. O feriado tinha sido cansativo. Nunca o trabalho o dilacerara como ontem. Colocou os pés em cima da banqueta em jeito de repouso quase eterno.

30.4.09

PEDE-SE AOS TOLOS QUE NÃO PROCRIEM

Somos a última geração de pais decididos a não repetir com os filhos os erros dos nossos progenitores. Fazemos esforço, abolimos os abusos do passado, somos mais dedicados e compreensivos mas, os mais tolos pais da história. Obedecemos aos nossos pais no passado e aos nossos filhos no presente. Tivemos medo dos nossos pais e somos os primeiros a temer os filhos. Crescemos sob o controlo dos pais e vivemos sob o jugo dos filhos. Respeitamos os nossos pais e deixamos que os nossos filhos nos faltem ao respeito. A permissividade substituiu o autoritarismo, as relações familiares mudaram radicalmente, para o bem e para o mal.
Quando éramos pequenos, os bons pais eram os que tinham filhos que se portavam bem e obedeciam às suas ordens. Os bons filhos eram os que veneravam os pais e os tratavam com respeito. As fronteiras hierárquicas foram-se desvanecendo. Hoje, os bons pais são os que conseguem o amor dos filhos ainda que pouco os respeitem. Os bons filhos esperam agora o respeito dos pais, exigem a aceitação das suas ideias e das suas preferências, dos seus modos de agir e viver, exigem ainda que os pais patrocinem no que for necessário.
Os papéis inverteram-se. Hoje são os pais que têm que agradar aos filhos para “ganhar” o seu amor e apreço. O esforço das famílias para tudo oferecer às crianças fez com que, sem rumo, a debilidade dos pais desencadeasse no desnorte dos filhos. O autoritarismo deu lugar à total permissividade, em vez de irmos à frente dos filhos para os podermos libertar, vamos atrás, rendidos às suas vontades. Aboliram-se os limites, ferramenta indispensável ao abrigo e à segurança do indivíduo.
Por causa da mudança da opacidade para a transparência, vemos os filhos crescer sem rumo e sem regras. Somos nós, pais permissivos e tolos, os únicos responsáveis pelo estado da educação em Portugal.
Aos que julgam que criar é sinónimo de educar, aos que confundem instrução com educação, permitam-me um pedido: não procriem! Que a qualidade supere a quantidade.

29.4.09

OBJECTOS


Limão, martelo, copo, planta. Carro, chávena, cadeira, garrafa. Os objectos ensinam-nos a perceber os limites de tudo quanto vemos.

27.4.09

A MENINA DESCOBRE COISAS


Andy Warhol

A menina, como lhe chamam no cabeleireiro, não sabia que, colocando os phones num buraquinho que o computador tem, podia ouvir as músicas todas sem incomodar vizinhos. A menina, distraída e alheada de tecnologias, descobriu numa tarde de domingo que o Roy Orbison cantado ao ouvido é muito mais romântico. Agora, a menina passa o tempo todo com os ditos colocados dentro dos ouvidos para, concentradamente escrever sobre o amor, as flores, as andorinhas, os sonhos e todas as coisas bonitas que as músicas lhe segredam directamente nos tímpanos.
A menina queria ter um mp3, daqueles coloridos que os alunos têm postos ao pescoço, os que se apreendem em dias de teste ou em aulas substituídas por sons debaixo do gorro de lã.
Depois de uma tarde cheia de escrita, o fígado, o estômago, os pulmões, o coração e o pâncreas entupiram de música. O limite não foi ponderado e os dedos não pararam nas teclas, nem o som na cabeça, nem o chá na mesa, nem coisas indizíveis no meio de todo um aglomerado viscoso de circunstâncias.
A menina percebeu que o desejo do aparelhinho sonoro que a esperava na prateleira da Fnac tinha esmorecido ali, naquela tarde sobrelotada de palavras cantadas, ditas, escritas e postas na gaveta.
No dia em que a menina adquirisse um, corria riscos sérios, não ouviria mais nada no mundo. Entre a casa e o ginásio, entre a escola e o shopping, entre a praia e o campo, não existiriam sons fora do aparelho que lhe entupiria os dias.
Depois… as memórias do ruído da rua desapareceriam e, a menina esqueceria de ser gente como dantes.

25.4.09

DIA DA ESPERANÇA

Não sei se morreu a esperança de há 35 anos. Eu era pequena quando as tropas saíram de Santarém. Hoje entendo que, mais do que o ideal, deveria ter sido encontrado o objectivo, aquele que ainda não se descobriu.

24.4.09

32 - ANDY WARHOL




Andy Warhol, nasceu em Pittsburgh a 6 de Agosto de 1928.
Foi pintor e cineasta, bem como figura maior do movimento da pop art.
Nos anos sessenta começou a pintar produtos americanos famosos, como latas da sopa Campbell's e Coca-Cola e ícones de popularidade, como Marilyn Monroe.

É de sua autoria a expressão "um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama” ao comentar obras próprias baseadas em acidentes automobilísticos, em especial o de uma ambulância.
Em 1987 foi operado em Nova Iorque à vesícula biliar. A operação correu bem mas Andy Warhol morreu no dia seguinte.

23.4.09

PARABÉNS


Conceição Ramos

Parabéns mãe. Parabéns sobrinha. Em breve cozinharei para as duas.

22.4.09

PROCURA


Conceição Ramos

- Senta-te aqui.

- Estou à procura da caixa.

- Qual caixa?

- A dos beijos.

21.4.09

PISCINA ABANDONADA


Conceição Ramos

- Vamos nadar?
- Prefiro ir ao cinema.
- Porquê?
- Porque hoje já podes dar-me as palavras.

20.4.09

SEM FOME


Conceição Ramos

- O jantar está pronto.
- Não tenho fome.
- Porquê?
- Porque estive muito tempo a olhar para ti.

19.4.09

FORA DAS PALAVRAS


Conceição Ramos

- Foste ao cinema?
- Não.
- Porquê?
- Porque não tinha a tua companhia.
- Isso é motivo?
- É, faltaram-me as tuas palavras.

18.4.09

DE PÉ


Conceição Ramos

Cadeiras são objectos úteis, mesmo quando, de pé, ouvimos os sons de uma escuridão escondida.

17.4.09

SENTADA


Conceição Ramos

Há cadeiras especiais, originais, intimas, onde nos sentamos todos os dias para ver a luz.

16.4.09

COM OU SEM DEUS


Um dos principais defeitos do período contemporâneo é o de reduzir a filosofia a uma simples reflexão crítica ou a uma teoria da argumentação. Os biólogos, os artistas, os físicos, os escritores, os jornalistas, os matemáticos, os teólogos e até os políticos, reflectem e colocam questões. A argumentação é, sem dúvida, importante e altamente desejável na formação de qualquer tipo de actividade, indispensável à formação de bons cidadãos capazes de participar com autonomia na vida do país. Estas são formas de alcançar outros fins, longe do que a filosofia pretende, ela não é bengala da moral nem instrumento da política.
O Homem interroga-se sobre a sua finitude, sobre uma situação que, a priori, é absurda e insuportável. Ao lado de concepções religiosas, “salvação” designa, antes de mais, “acto de ser salvo, de escapar a um grande perigo”. O perigo da morte a que as religiões nos ajudam a escapar por via da vida eterna é, para a filosofia, a interrogação essencial. Epicuro define a filosofia como a “medicina da alma” fazendo-nos entender que “a morte não é temível”; Montaigne declara que “filosofar é aprender a morrer”; Espinosa reflecte sobre o “sábio que morre menos do que o louco” e Kant questiona-se sobre “o que nos é permitido esperar”.
Aos olhos de alguns filósofos, o receio da morte impede-nos de viver bem, gera angústia. A irreversibilidade do curso das coisas ameaça arrastar-nos para uma dimensão do tempo que corrompe a existência.
As religiões prometem-nos a salvação por via da fé. Filosofar em vez de acreditar é, do ponto de vista dos filósofos não crentes, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé. A filosofia pretende uma salvação por meios próprios, pela via da racionalidade, uma busca de salvação sem Deus. A mortalidade e a consciência da finitude são sempre fonte de interrogação. A religião, como a filosofia, são caminhos de busca de salvação.
Entender a natureza do mundo que nos rodeia e do tempo que passa para poder desvendar enigmas humanos e outros, é preciso. Há, na filosofia, um caminho para o entendimento e para a sabedoria. Para além das considerações tomadas às ciências positivas, discernir a natureza do conhecimento enquanto tal, compreender os seus métodos e os seus limites são tarefas milenares e configuradas ao campo filosófico.
Desde os gregos que preocupações comuns embalam a humanidade. Depois do domínio dos grandes impérios, depois do cristianismo, depois do renascimento e da pós-modernidade, a partir da corrosiva lucidez de Nietzsche, a filosofia contemporânea pode também encaminhar-se para uma qualquer busca de salvação.
Qualquer grande filosofia resume a experiência fundamental da humanidade, como qualquer grande pintura ou obra literária que, traduzindo de forma mais sensível a existência e a atitude, denunciam a marca de quem pensou e sentiu o mundo e a história.

15.4.09

CONSEQUÊNCIA

De tanto ouvir a palavra crise passei a padecer dos ouvidos.

31 - CONCEIÇÃO RAMOS




Maria da Conceição Fernandes Ramos nasceu na Beira (Moçambique) em 1960, onde viveu até aos 15 anos de idade. Obteve a Licenciatura em Artes Plásticas - Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1985. Concluiu o Doutoramento em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes de Barcelona em 2006. É Professora de Artes Visuais na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. Desenvolve uma carreira artística, tendo realizado diversas exposições individuais e colectivas desde 1992. Obteve o 1º Prémio na Bienal Cardoso Lopes em 1996 e uma Menção Honrosa em pintura no VIII Salão de Primavera da Galeria de Arte do Casino do Estoril. Realizou, por convite, os painéis alusivos à vida dos santos da Igreja de Massamá.Publicou em 2007, conjuntamente com Matilde Rosa Araújo, o livro “Nascer Mãe”.

Retirado de:
www.pnetartes.pt

13.4.09

O TEMPO QUE NÃO EXISTE


Lucien Freud

O passado, tempo que já não existe, pega-se a nós em jeito de nostalgia, remorso ou culpa. O futuro pega-se em jeito de esperança por um tempo que ainda não aconteceu. Como dizia Séneca, "enquanto esperamos viver a vida passa por nós."
O peso do passado e a miragem do futuro, os dois grandes males da existência.

11.4.09

A NORTE DE COIMBRA

Lucien Freud

A norte de Coimbra, o ar cheira a limpo, as pessoas passam devagar e o céu não consegue ver-se sem nuvens. É um lugar de sonhos adiados. Tudo parece ter parado no tempo de D. Sebastião, quando partiu sem regresso. As árvores contam-nos histórias compridas em frente à piscina de um hotel antigo. Espreguiço-me todas as manhãs sem mais nada para fazer. É o portátil que permite o contacto com o mundo lá fora, depois da estrada comprida de pedra escura que me trouxe ao meio do que não é ruído.

O pequeno-almoço serve-se em sala estendida no meio de um jardim repleto de heras, as que são verdes e trepam furiosamente em cima da pedra gasta da parede secular. São ideias as que voam de manhã, ao pé do riacho que faz um barulhinho meigo e me convida a molhar a cara com água gélida, mais transparente que a da torneira. As manhãs são compridas, como o resto dos dias. Três livros para ler. Ténis que acompanham caminhadas longas ao final da tarde, antes do sol se esconder para renascer em mais um dia sem barulho que não seja o das pessoas que me olham intrigadas. Converso pouco. Quase nada. Olham-me cheias de perguntas que guardam atenciosamente no bolso semi-aberto, à espera que lhes toque, para poderem fazer-mas, todas de uma vez.

Ontem, um cavalheiro de meia-idade olhou de relance para o que estava a escrever, sorriu e sentou-se na poltrona atrás de mim. Não sei se queria espreitar as letras no monitor ou a parte de trás da minha t-shirt que dizia: Sorry, I’m Busy. Hoje ainda não o vi, suponho que saiu com as calças pretas vestidas por baixo da camisa mais preta ainda. Os olhos estão postos longe do espaço que ocupa, traz um livro bem encadernado debaixo do braço. Não sei o título mas parece-me que a Psicopatologia da Vida Quotidiana de Freud lhe assentaria como uma luva. Amanhã, quando vestir a t-shirt que não tem letras nas costas, talvez lhe pergunte o que faz aqui, tão alheado do mundo quanto eu. Sei que não me responderá. Porque perguntas dessas não se fazem a ninguém.

3.4.09

MEIA DÚZIA DE MANIAS


Lucien Freud


1 – Deitar tarde é hábito antigo.
2 – Nunca usar brincos com óculos.
3 – Ler em silêncio.
4 – Usar a música como companhia de odiáveis limpezas caseiras.
5 – Abraçar sempre os amigos à chegada e à partida.
6 – Viajar com caneta e papel, mesmo quando o destino é perto de casa.

I HAD A DREAM



Era uma vivenda num bairro ajardinado e limpo. A entrada dava acesso a uma sala em tons de encarnado esmorecido, mais ou menos velho. Poltronas de veludo gasto e bonito, enormes bancos rente ao chão convidavam quem chegava a sentar-se confortavelmente. A dona da casa distribuía elegância e bom senso. Palavras ditas em inglês que eu ia percebendo mal. O marido, homem bonito e com classe, convidava-me a sentar num gesto amigável e quente. Parecia que nos conhecíamos há muito. Visita regular da casa, eu era recebida em jeito informal, como se não fosse preciso muito tempo para entender a amizade que nos unia. As filhas estavam de férias com os avós, a minha e as do casal. Três meninas que conviviam como irmãs e que, muitas vezes, partilhavam os mesmos brinquedos.

Sentei-me na poltrona que me reservavam e fiquei em frente ao dono da casa. Tentei falar um inglês compreensível de modo a ser entendida. Ele ria das minhas “concordâncias gramaticais” e afirmava perceber-me, ao mesmo tempo que ia pronunciando lentas palavras em português. Dizia que tinha aprendido em pequeno, com amigos filhos de emigrantes que, na escola, lhe tinham ensinado “pois”, “claro”, “com certeza”, “obrigado” e “boa noite”.

Assim nos íamos entendendo enquanto a senhora mandava preparar um chá verde sabendo-me apreciadora do líquido quente e desintoxicante. Os três em frente a uma lareira alta que iluminava a noite desenrolávamos ideias em cima do riso. Ele, alto, bonito e inteligente, fazia-me sentir a urgência da reflexão sobre o mundo, sobre a economia, a fome, a guerra e o desenvolvimento sustentável. Ela, mulher de elevada classe, fazia-me entender que as escadas se devem subir devagar, desde o primeiro degrau, sem pressa de chegar ao cimo porque, de lá, se podem sentir vertigens.



O serão atravessou horas de beleza e tranquilidade. A dada altura, o dono da casa pediu para sair, tinha que retomar um trabalho importante no escritório do primeiro andar onde se recolhia sempre que compromissos políticos o chamavam. Ela ficou, mastigando bolinhos de areia comigo, cúmplices, amigas e mulheres. Continuei sentada a conversar com Michelle, enquanto Barack Obama cumpria, no andar de cima de uma casa que não era branca, compromissos oficiais importantes.

2.4.09

30 - LUCIEN FREUD




Nascido em Berlim em 8 de Dezembro de 1922, Lucien Freud, neto de Sigmund Freud, foi para Inglaterra, juntamente com a sua família, em 1931, tornando-se cidadão inglês em 1939. Desde muito jovem teve uma tendência enorme para o desenho. Tornou-se artista a tempo inteiro e como profissional depois de ficar inválido num ataque a um navio da Marinha Mercante onde trabalhava. Em 1951, o seu quadro "Interior at Paddington" (Walker Art Gallery, Liverpool) ganhou o primeiro prémio no festivalde Arte Britânica e, desde netão, ganhou uma reputação enorme como um dos principais pintores de arte figurativa contemporânea. Retratos e nus são a sua especialidade, vistos muitas vezes como chocantes. As suas primeiras obras eram meticulosamente pintadas. Ele próprio as classificava como "realistas ou Superrealistas. Mais tarde, adptou uma atitude mais visceral. Substituindo os pincéis de zibelina pelos de pêlo de porco, menos bons e precisos, Freud começou a esculpir com a tinta, alarganda o observação meticulosa a novos horizontes. O sua obra tem sido alvo de numerosas retrospectivas por todo o mundo. Lucien Freud nasceu em Berlim em 1922 e está naturalizado inglês.

Retirado de: www.oseculoprodigioso.blogspot.com

1.4.09

DOBRAS E GRITOS (33)


A solidão encerra-nos no silêncio purificador, retira-nos de exteriores poluídos e fornece-nos energias alternativas.