9.9.09

FELIZ ANIVERSÁRIO

Um ano de excelência. Parabéns ao PNet Literatura.

HÁ VIZINHOS ASSIM



Um simpático vizinho que se dedica à pintura. A troca de impressões sobre os livros e a vida, numa mesa de café perto de casa, levaram à publicação de um dos seus muitos trabalhos. Ali em cima, num andar alto de onde se avista a torre da igreja e o sino que bate as badaladas em compasso. Obrigada, vizinho!

8.9.09

ASSIM NÃO DÁ


José Gil já o tinha escrito. Sobre os Portugueses, o medo, a identidade perdida e uma certa forma de agir que, mais não é que reflexo da história mal resolvida.
O filósofo volta a escrever sobre os portugueses e o modo como o governo manipula a consciência colectiva.

O Chico espertismo típico de um povo que prefere contornar a lei a tomá-la como regra de conduta. Um povo que escolhe furar o sistema a impor-se, quando a necessidade de afirmação se deveria sobrepor à maquinação nojenta debaixo da engrenagem, sem ninguém ver. A história velha de que o problema não é roubar, é ser apanhado. Não soubemos gerir a revolução e, em vez de um “homem novo”, nasceu um homem que anda para trás, como se preferisse o autoritarismo à individual responsabilização.

Aqui, José Gil fala da educação, como mais ninguém o fez. Quando a afectividade é castrada no processo de ensino/aprendizagem, tudo está perdido. O Chico espertismo entrou na escola. Não interessa saber, interessa o diploma. Nada mais a declarar!

7.9.09

O QUE É QUE EU FAÇO COM A SAUDADE


O sentimento que rói cá dentro é muitas vezes sentido como provisório, uma espécie de bicho que entra para nos atormentar as entranhas. Vagueia por onde quer, passeia pela alma e corrói o corpo devagar. A saudade de um cheiro, de uma casa, de uma cama, de um lugar bonito, de um objecto, de uma viagem. A saudade do que se vive e não mais se encontra. Os lugares podem ser revisitados, mesmo quando o jardim já se transformou em prédio. Podem refazer-se viagens e a procura de cheiros de infância é possível, quando queremos encontrá-los lá, onde há muitos anos deixamos cair a bola pela ravina ou a boneca se estragou nas escadas estreitas de um corpo pequeno debruçado na sensação de brancura.



Quando a saudade é infinita, o bicho deambulará na alma até que o corpo desapareça. A saudade definitiva, fatal, irreversível. A saudade dos que morrem, daqueles a quem não podemos voltar a telefonar para dizer que estamos bem, os que não podemos voltar a abraçar, oferecer bombons para o café depois do almoço. A saudade incontornável, fora do tempo, de controlo e de escolha, para lá do que podemos revisitar, rever, voltar a ir, a estúpida sensação de impotência, o imbecil vazio que nos enche de raiva e de grito.


Já não posso beijar, já ninguém atende o telefone, já não posso rir e dar as mãos, dizer que gosto muito, enviar e-mails, conversar, tirar uma foto à socapa, enquanto arrumas os talheres depois da refeição. Já não posso vestir a tua camisa de flanela quando está frio, ver-te abrir a porta com um sorriso, pedir-te opinião, ajudar-te a procurar os óculos no escuro do cinema.


Agora a saudade é a sério, sem transitoriedade, vivida dentro, com o bicho a roer as entranhas de cada vez que lembro tudo o que eras. Agora já não existem mãos para agarrar. Os lugares estão lá, como quando os ocupávamos. Os cheiros recordam-se em tempo e espaço semelhantes aos que tínhamos. Os objectos perduram, enquanto nós quisermos olhá-los.


Os que morrem só voltam em momentos de riso e de lágrimas, como que a lembrar-nos que, apesar da ausência, permanecem numa saudade que ainda não aprendemos a ter como eterna companheira.


Talvez essa coisa triste que aperta a alma contra as costas seja aquilo que mandam os ausentes para nos ensinarem a lembrança.

5.9.09

SPENCER TUNICK


Desde 1992 que Spencer Tunick documenta a nudez das multidões. As suas instalações consistem de dezenas ou mesmo centenas de figurantes voluntários que posam em locais públicos. A massa de indivíduos sem roupa, agrupados num qualquer cenário, dá-lhes um significado completamente diferente. Segundo o autor, esse grupo de pessoas torna-se uma abstracção que desafia e reconfigura a nossa visão da nudez e da própria privacidade.
Spencer Tunick (Middeltown, 1967) é um fotógrafo americano, conhecido por este tipo de fotografia. Como curiosidade, refira-se que em 2005 foi detido pela polícia de Nova Iorque quando fotografava uma modelo que posava nua perto de uma árvore de Natal no Rockfeller Center.


4.9.09

DOBRAS E GRITOS (36)


Quando os dias começam a restaurar rotinas perdidas, vem a saudade de encontrar a casa que não voltarei a ver.

3.9.09

SENTADA NAS ESCADAS


Brancusi

Estava sentada nas escadas que dão acesso ao centro comercial. A perna esquerda esticada até ao passeio e a mão estendida. Olhava nos olhos de quem lhe punha uma moeda na mão. Todos os que paravam tinham direito a um sorriso e três palavras: “Deus o abençoe”.
A mulher devia ter mais de setenta anos, vestia roupa limpa e muito usada. As meias tinham borbotos antigos. Trazia consigo um pequeno livro que denunciava uma doença: diabetes.

Depois de muitos passarem sem olhar, o homem atravessou a rua e sentou-se ao lado da mulher sozinha. Cumprimentou-a e ficou a conversar.
- De que precisa?
- De paz, meu senhor, de paz.
- Mas não pede paz a quem passa, pede dinheiro.
- Peço dinheiro para que o meu estômago possa ter paz. A reforma não me chega para pagar todas as contas, preciso de pedir para comer. E a paz não se pede a ninguém, busca-se com muita firmeza.
- Já a encontrou?
- Quem?
- A paz de que precisa.
- Não consigo. Ando nesta vida sem paz nenhuma, meu senhor.
- Quer contar-me?
- Tenho três filhos que não me ajudam e uma neta que me impedem de ver.
Começou a chorar sem medida. As lágrimas surgiram para calar as palavras que já não pronunciava com clareza.

O homem ficou sentado ao lado da velha mulher, traçou as pernas e ofereceu-lhe o lanche. Desembrulhou um pão e foi buscar dois pacotinhos de sumo. Ficaram longos minutos a conversar.

Ouvi a mulher a sorrir enquanto partilhava o lanche, vi o senhor a entregar-lhe o número de telemóvel e a morada de uma instituição de apoio aos sem abrigo, vi os dois a trocar experiências e afectos.
- Sabe uma coisa meu senhor?
- Diga.
- Nós não somos nada, nós estamos na vida de passagem e não entendemos isso.
- Porque diz isso?
- Porque eu também não entendi. Foi preciso chegar a isto para abrir os olhos e agora é tarde demais.
- Nunca é tarde.
- É, meu senhor, é.

2.9.09

AO LADO DO BALNEÁRIO


Helen Frankenthaler

Encostou a cabeça e fechou os olhos. O jacuzzi estava vazio. Relaxou todos os músculos e manteve os olhos bem dentro de si. Não se ouvia mais que água, bolhas que lhe iam percorrendo o corpo. Continuou quieta com as costas em frente ao jacto mais forte. Parou o gesto. Lembrou as senhoras e os senhores que se reuniam no meio dos cacifos do balneário, os que tinham toalha branca enrolada ao corpo e falavam muito. Lembrou-se das conversas sobre textos e livros e deixou-se ficar, a mastigar todas as sílabas que não eram suas.

O apetite das recordações era sempre o maior apetite. Das senhoras recordava o riso, a elegância no trato, a inteligência. Dos senhores, mantinha viva a memória do charme, o raciocínio pronto e a ironia. Queria, um dia, juntar-se à mesa do balneário misto, intrometer-se, ouvir e falar, dizer e escrever. Iria propor às senhoras temas sobre o feminino da existência, a eles declararia guerra, postura assertiva nas palavras com testosterona. Iria dizer a todos que os lia, que queria continuar a lê-los.

Abriu os olhos por entre as bolhas grossas de água que se espalhavam na gigante banheira. O Jacuzzi já não estava vazio, todos os que antes eram memória tinham entrado no mesmo lugar de onde, agora, ela saia envergonhada.

1.9.09

BALNEÁRIO MISTO


Num balneário de Lisboa, homens e mulheres estão para conversar, depois do treino intenso, da música batida, dos corpos em desassossego, dos gritos com as palmas, do step subido, do step descido. A alegria espalha-se pelas janelas que dão acesso ao jardim no meio da cidade.


As mulheres entram com toalhas enroladas na cabeça e no corpo, os homens usam-nas para atar à cintura, depois do duche. Há música e aquecimento, risos e cremes, cheiros e pés descalços, cabelos e braços que se secam do estar transpirado.

No centro de um corredor de cacifos, os corpos treinados recostam-se em poltronas de pele falsa. Laranja em sumo, amêndoas sem casca, queijos diversos, canetas, papel e livros. Todos se olham para entender o sexo das palavras, escrevem enquanto sílabas entram numa espécie de corrida literária. Eles têm o prazer do dito, elas desenham o escrito, depois de goles de sumo espesso.

Em intenção escrita é posto o sentido, o que se materializa dentro de cada gesto.
As palavras têm o masculino e o feminino, como as pessoas. As palavras desenham-se com as mãos, intensificam-se no diálogo.

Em balneário misto há gente que treina ideias, pessoas que ajustam as letras ao seu significado, há o treino do estar pouco quieto, do estar para escrever. Depois cria-se o texto, o que antes era pó e solidifica em folha.

Sabem todos que palavras não vivem sem gente, nelas, o sexo define-se pelo desenho na frase. Sabem todos que palavras são bocados de pessoas num balneário aberto ao que se escreve em formato diverso, conforme são diversas as formas de traçar a perna, quando os corpos se sentam.

30.8.09

VIVER



Viajar me deixa tenso antes de embarcar,
mas depois rejuvenesço uns cinco anos.

Viagens aéreas não me incham as pernas;
incham-me o cérebro, volto cheio de ideias.

Luis Fernando Veríssimo.

17.8.09

VAZIO DE AGOSTO


"Deus nunca nos pisca o olho para nos avisar quando devemos abandonar o palco."
Raúl Solnado

Acabou o riso com corpo, nunca o que guardo na alma, a que muitas vezes desenhaste com gestos.
Muito Obrigada, Raúl.


Mikkel Solnado

25.7.09

FIM DE UM CICLO


Férias. Novo ciclo. Publicações datadas, biografias, autores catalogados e postos em arquivo. Tudo ficará na memória. A seguir, tudo será disperso. Novas formas entrarão na Dobra Do Grito. Depois de um ano e meio de método, outras regras.
Até Setembro.

PASSADO (1)


Tapiés

Tinha, na velha secretária, memórias rendidas. Esqueceu-se de abrir as gavetas a tempo e... as recordações morreram cedo.

24.7.09

PASSADO


Tapiés

Havia, na terra onde nasci, uma senhora gorda. Guardava as tardes de sol para estar sentada. Cruzava as pernas gordas em cima de uma cadeira estreita. Colocava o rabo gordo dentro de um sofá muito velho e espirrava como se nada mais a incomodasse.

23.7.09

OS LIVROS QUE NÃO LI


Tapiés

No tempo em que eu achava que o tempo não tinha importância, vivia numa terra pequena de ruas estreitas de calçada gasta e casas baixinhas pintadas de branco. Brincava na rua com as vizinhas e ia para a escola a pé, com os livros de Aritmética cheios de correcções e os imaculados livros de Português. Acreditava que a leitura era apenas tarefa de escola. Não havia mais que uma dúzia de livros na estante lá de casa e todos muito grandes para que lhes pegasse. Os dias passavam ao lado dos hábitos das letras porque, depois da escola, as bonecas ocupavam o espaço de um quarto branco com cama de ferro cor-de-rosa velho. A minha mãe contava-me que tinha lido muito enquanto jovem e o meu pai ausentava-se de conversas sobre letras em papéis.

Cresci com poucos livros. A adolescência trouxe a curiosidade pelas letras e a colecção dos Cinco e dos Sete sucedeu a alguns volumes da Anita oferecidos na infância. As aulas de Português faziam as delícias de uma adolescente tímida que usava as composições para espalhar o desencanto ou o entusiasmo. Descobri Eça de Queirós e li os Contos; O Primo Basílio, Os Maias, A Relíquia.

A minha mãe comprava os livros quando vínhamos a Lisboa ao médico ou à Revista no Parque Mayer. Comecei a entender a leitura como tarefa quotidiana nos anos que antecederam a faculdade. Os grandes clássicos da literatura foram ficando para os dias em que, a viver em Lisboa, me debruçava no balcão de madeira da Livraria Portugal e espreitava as estantes por trás do empregado.
A faculdade foi tempo de novas descobertas. Lisboa começava a ser a minha cidade e, com ela, novos livros no quarto de um apartamento em Benfica.

A ternura de uma infância feliz mas distante dos livros fez com que entendesse, mais tarde, a razão de ser de muitas e belas existências. A leitura como aprendizagem e actividade diárias foi, na minha vida, acontecendo ao sabor de vivências e necessidades. Não fui educada com volumes à cabeceira, não cresci numa casa com biblioteca, não vivi encantamentos literários até aos dezoito anos. Mau por um lado, bom por outro. Mau porque adiei prazeres, bom porque adiei inquietações.
Hoje, depois de entender que o tempo tem importância, entendo também a importância da leitura na vida. Muito melhor não adiar inquietações, o prazer de ler supera-as. Sempre.

22.7.09

DEPOIS


Tapiés

Depois da luta. Depois dos livros. Depois do trânsito. Depois das obras. Depois do pó. Depois do ruído. Depois... foi-se embora para quase perto de si.

21.7.09

QUASE


Tapiés

Quase férias. Quase vento. Quase mar. Quase finais de tarde perto de tudo. Quase o riso das gaivotas. Quase longe da internet. Quase indecisa entre o sol e o mar. Quase o tempo de escolher entre o ver e o olhar.

20.7.09

40 - Antoni Tapiés




O seu pai era advogado e a sua mãe era filha de uma família de políticos catalães. A profissão do pai e as relações políticas do lado da mãe, proporcionaram-lhe um ambiente liberal durante a infância.

Em 1942, devido a uma doença pulmonar, passa algum tempo a convalescer num sanatório. Durante esse período, dedica-se a copiar obras de artistas como Picasso e Van Gogh.
Lê Nietzsche e Dostoievsky ao mesmo tempo que ouve a música de Richard Wagner. Estuda Direito na Universidade de Barcelona e dedica-se à pintura e às colagens de conteúdo existencialista e surrealista.

Em 1945, abandona os estudos e, no ano seguinte, instala-se num estúdio em Barcelona. A década de 70 foi de prestígio internacional. A obra de Tàpies foi exposta nos principais museus de arte moderna de todo o mundo.

Doutorado por diversas vezes Honoris Causa, recebeu inúmeros prémios, dos quais se destacam a Medalha de Ouro da Generalidade da Catalunha (1983), e o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes (1990). Em 1990, é inaugurada a Fundação Antoni Tàpies, instituição fundada pelo próprio para divulgar a arte contemporânea.

19.7.09

DIA SEGUINTE


Van Gogh

O dia a seguir é sempre pleno de verde. Depois do almoço.

18.7.09

RITMOS FELIZES


Van Gogh

Quando a família se reúne. Longe dos monitores e dos trabalhos de espécie diversa, a música e o canto são comuns diversões. O piano está no canto da sala, despido para mãos femininas, pronto para gritos afinados de quem, com mestria, desenvolve ritmos felizes.