10.7.09

VINCENT VAN GOGH




Vincent Willem Van Gogh - 1853 - 1890
Pintor pós-impressionista, frequentemente considerado um dos maiores de todos os tempos.
A sua vida foi marcada por fracassos. Incapaz de constituir família, custear a própria subsistência ou até mesmo manter contactos sociais, sucumbiu a uma doença mental, suicidando-se aos 37 anos.
A sua fama póstuma cresceu após a exibição de 71 das suas telas em Paris, a 17 de Março de 1901. Depois da sua morte a sua obra foi amplamente reconhecida.
Van Gogh é considerado pioneiro na ligação das tendências impressionistas com as aspirações modernistas, sendo a sua influência reconhecida em variadas frentes da arte do século XX, como por exemplo o expressionismo, o fauvismo e o abstraccionismo.
O Museu Van Gogh em Amsterdão é dedicado aos seus trabalhos e aos dos seus contemporâneos.

9.7.09

AO LONGE


Keith Haring

Os mosquitos infestaram o vidro. A matrícula ficou pouco visível. A mortandade dos insectos contrastou com a vida do dia esticado debaixo do vento.
Depois das pernas frias e das costas molhadas, depois da luz que foi embora, Lisboa continuou longe.

8.7.09

DOBRAS E GRITOS (35)

Eu sei que ninguém tem nada a ver com isso. Ninguém se interessa e todos se estão nas tintas mas... vou para a praia do peixe fresco, do melão partido aos bocadinhos, da água agitada e do sol radioso. Depois volto, cansada de recheios de alma e contente com todas as coisas.

7.7.09

QUE A MÚSICA SE OIÇA


Keith Haring

Depois de muito tempo, depois de muitos lugares, depois de muita gente, depois de tudo, a segurança de um lugar efectivo. Finalmente!

6.7.09

ESTAR NO TEMPO


Keith Haring

Fora da cidade, o tempo passa mais devagar, dizem. O tempo é o contínuo movimento da consciência e, como tal, não passa de um vaivém subjectivo de acontecimentos que presenciamos ou nos quais participamos, com maior ou menor intensidade. Quando o prazer é imenso, o estar permite ao tempo pouco mais que instantes. Quando o desprazer acontece, o estar permite ao tempo sensação de eternidade.

3.7.09

DA CINTURA PARA CIMA


Há os que vivem da cintura para cima, como se o corpo servisse apenas para transportar a cabeça cheia de ideias.

2.7.09

30.6.09

À PORTA DO PRÉDIO


Keith Haring

Nem sempre a chuva causa transtorno. Na cidade, os dias de chuva e lazer são os dias em que se dança à porta do prédio, com os ténis do ginásio e a blusa transpirada.

28.6.09

38 - KEITH HARING



4 de Maio de 1958. 16 De Fevereiro de 1990.
Artista gráfico. O Seu trabalho reflecte a cultura nova-iorquina dos anos 80.
Nascido no estado de Pensilvânia, cedo mostra interesse pelas artes plásticas. De 1976 até 1978 estuda design gráfico numa escola de arte em Pittsburgh. Antes de acabar o curso, transfere-se para Nova Iorque, onde será grandemente influenciado pelos graffitis, inscrevendo-se na School of Visual Arts.


Keith Haring começa a ganhar notoriedade ao desenhar a giz nas estações de metro de Nova Iorque. As suas primeiras exposições formais acontecem a partir de 1980 no Club 57, que se torna um ponto de encontro da elite vanguardista. Na mesma década, participa em diversas bienais e pinta diversos murais pelo mundo.

Em 1988, abre uma Pop Shop em Tóquio. Na ocasião, afirma:
"Na minha vida fiz muitas coisas, ganhei muito dinheiro e diverti-me muito. Mas também vivi em Nova Iorque nos anos do ápice da promiscuidade sexual. Se eu não contrair HIV, ninguém mais contrairá."
Meses depois declara em entrevista à revista Rolling Stone que tem o vírus HIV. Cria a Keith Haring Foundation, em favor das crianças vítimas de sida.

Em 1989, perto da igreja de Sant'Antonio Abate, em Pisa, Itália, executa a sua última obra pública – o grande mural intitulado Tuttomondo, dedicado à paz universal.

Haring morre aos 31 anos.

26.6.09

PERCEPÇÃO


José de Guimarães

Nos dias de menor calor, a minha percepção da realidade volta ao normal. Julgo.

25.6.09

ERUDITO E PORNOGRÁFICO


Traz o sorriso dentro de um bolso. Usa-o em correcta medida. Cansa-se em corridas pela cidade, coisa de muita importância para quem acredita. Entra na sala cheia de poucas pessoas e encosta-se ao balcão. Ao canto olha melhor para todos. A tatuagem escondida na perna significa muito, tudo.
É cordial. Tira o sorriso do bolso quando a conversa inquieta. Escolhe o momento. Em silêncio diz que está, para continuar o caminho ou para travar a fundo.
Todos os dias de manhã, o copo de leite serve de desculpa. Bebe em goles pequenos, enquanto olha para o que à volta lhe interessa. Coisa pouca o interrompe. Dentro, para lá da cara bonita e do corpo vitaminado, existe outro, bem mais inteiro.
A gargalhada é ferramenta de trabalho e de alguma defesa. Encetou vida muito cedo, construiu valores sólidos. Olha para a frente com a convicção conduzida pelas pernas que correm todos os dias.
As mãos são sinal de um trabalho na alma e na terra, capaz de agarrar mundos distintos. Quando pega no copo cheio do que pediu e lhe foi concedido, percebem-se as intenções.
A atitude ocupa espaço. Perto de quem se encosta ao balcão, a energia é diferente. Agora é tempo de convívio, pensa. Ouvem-se dislates e todas os risos se soltam, todos os corpos balançam. A sala alheia-se do que, no canto, acontece. Melhor assim.
Olha nos olhos de quem lhe fala. Atento. Disse-me, um dia, que a erudição e a pornografia se podem ver no sorriso das pessoas. Assenti.

24.6.09

OBRAS


José de Guimarães

Não me bastava a alergia, o nariz a pingar, a tosse e a falta de paciência, ainda insistem, os energúmenos das obras, em por-me a cabeça doida todos os dias com martelos, picaretas e trepidações. Apre!!

23.6.09

ALERGIA


José de Guimarães

Há reacções alérgicas que impossibilitam a escrita.

20.6.09

FESTA


José de Guimarães

Em festa. Coisa de muita importância. Final de ano lectivo para pequenos seres que riem.

19.6.09

NADA PARA DIZER


José de Guimarães

O calor que se faz sentir e que, na pele, derrama, pode muito bem ser motivo de não ter mais nada para dizer.

18.6.09

37 - JOSÉ DE GUIMARÃES




Nasceu em 1939. José de Guimarães é considerado um dos principais artistas plásticos portugueses de Arte Contemporânea.
Com uma obra notável, particularmente na pintura, fez também incursões na escultura e noutras actividades criativas a nível estético, quer nacional, quer internacionalmente.
Na sua obra, a cor desempenha um papel fundamental e a sua temática principal é o corpo humano.Um dos mais galardoados estetas portugueses, José de Guimarães encontra-se representado
em museus e colecções públicas espalhados por todo o Mundo.

17.6.09

GRITO


Cara Amiga;



Peço-te desculpa. Não tens que ler nem gerir as palavras que escrevo. Não tens sequer que dispor do tempo para mastigar o que não é teu. “Do silêncio faço um grito, que o corpo todo me dói”, oiço em manhã cheia de nuvens, como convém aos poetas, aos que sofrem, aos que fingem, aos que roem palavras em silêncio.

Esta carta é para alguém que ouve, sabe ler e sente. Estes parágrafos são os de quem não tem sede do que já foi, de quem usa a poesia para cobrir a epiderme. Apenas.

Não me peças para explicar porque te escrevo, não sei. Em pedaços de manhã com um sumo de laranja e um queijo fresco em pão saloio, pude verificar que os ouvidos de alguém estão despertos. Talvez a vida nos leve para perto dos que estão em energia densa e completa de esperança. O tempo do desencanto profissional é, também, o tempo do projecto que fervilha em neurónios inquietos.

Poucas vezes percebi pessoas como eu e não sei se isso é bom ou mau. Não interessa. Sou muito mais do que fui e isso leva-me a lugares que ainda não vi, quero ir. A vida depois dos quarenta adensa-se, fica muito mais quente.

Talvez a ausência me tenha feito sentar aqui, numa manhã depois de treino intenso em máquinas estúpidas, e antes do cheiro posto no corpo preparado para sair.

Estas palavras são importantes. Tenho ideias espalhadas numa cabeça lúcida, tão lúcida que me assusta. Acredito que a lucidez pode levar à loucura. Entre os dois estados me tento manter para que a sobrevivência seja possível e saudável.

Estou óptimo, não te assustes. Fui ler o texto acima e pareceu-me deprimente. Não o é. Partilho um estado de alma, se me permites. Coisas de gajo sem mais nada para fazer.

Vou ver o vento.
Um beijo.
A.

16.6.09

PARTO ORGÁSTICO

Foi em casa, dentro de água, que Amber Hartnell deu à luz. Ria e chorava. O parto durou doze horas, oito das quais em estado de êxtase. Vagas orgásticas acompanharam a mulher que afirma nunca ter tido um prazer tão forte. Não fez preparação para o acto mas pratica ioga e meditação para que o corpo permaneça aberto e flexível.

Esta mãe figura no documentário “orgasmic birth” projectado no mundo inteiro. As reacções são diversas, entre o horror e a admiração, há quem se pronuncie contra o prazer no acto de parir. O corpo deve abandonar-se o mais possível para que o sofrimento menorize mas, defendem alguns, quem tem orgasmos no parto deve ir ao médico. Chegam-se a fazer afirmações do tipo: “não gostaria de pensar que a minha mãe gozou ao dar-me à luz”.

Amber tem recebido inúmeras mensagens de grávidas que pensam mudar os seus planos de parto após terem visto o documentário. Muitas mulheres garantem ter tido orgasmos durante o trabalho de parto em casa. Trata-se de um parto não assistido, natural, sem medicamentos nem anestesias químicas. Só neste ambiente as mulheres podem atingir o êxtase porque é necessário um clima de tranquilidade que transmita segurança, sem interrupções, como quando se faz amor. A cada esforço de expulsão, a pressão da cabeça do bebé pode provocar sensação inesperada de excitação sexual, explica Sheila Kitzinger, guru britânica do nascimento.

Afirma ainda a realizadora do documentário, Debra Pascali Bonaro que a capacidade da mulher sentir um prazer físico intenso é o “segredo mais bem guardado de sempre”. Parece que dar à luz não é assim tão diferente de ter relações sexuais, defende mestra de parteiras na Universidade do Vale do Tamisa.

Experiências de êxtase em momentos que se espera serem de dor baralham referências. A ideia de um orgasmo no parto confunde modelos culturais e comportamentais. Não me parece abusivo afirmar que a natureza presenteia as que, em atitude paralela, vivem momentos únicos.

15.6.09

DEBAIXO DE OUTRO SOL


Chirico

Regressei. Dois livros lidos e muito silêncio. Voltam os dias e as noites. Sob o sol e a lua de Lisboa.

9.6.09

INTERVALO


Vou-me embora. Depois das festas, este blog volta ao movimento diário das palavras. Fica um texto magnífico. Tenho pena de não o ter escrito.

Foda-se
Millôr Fernandes (Adaptado)

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. "Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes? No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça. E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"? Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor - íntimo nos lábios. E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”.

Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
E foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!

8.6.09

AFECTO


Chirico

Acreditar no que não se vê é sempre sinal de afecto.

7.6.09

Eleições

yesssssss!!

CUSPIR A MORTE


Chirico

Os que têm olhos postos no nada e percorrem ruas de uma cidade pouco vivida. Os que vivem como se o amanhã não fosse e o ontem não tivesse existido. Não te deixes ir com eles, não adormeças no formigueiro dos que se entregam à vida gelatinosa que subsiste nas veias cansadas dos que morrem a caminho, dos que não respiram a literatura, não ouvem a música e pensam em si como coisa feita.
Não te deixes morrer à espera do fim, da noite sem conteúdo ou do dia sem tempero. Grita. Esfrega a alma nas costas. Levanta-te. Carrega a abundância das perguntas, dos relatos, das palavras e dos bolos cheios de recheio de chocolate negro.
Não te deixes ir com eles, não cales, não adormeças na matéria, não te afogues em mentiras. Olha, deita a língua para fora, troça do imbecil que quer ser imbecil, ri-te do tolo que quer ser tolo, ignora o estúpido que faz gala em ser estúpido. Caminha com as costas direitas.
Não te deixes morrer no tédio. Não te afundes. Faz dos braços instrumentos de boa empreitada.
Quando cuspires a morte que te persegue e o pó que te invade, perceberás a urgência do grito e do espanto.
Os que têm olhos postos no nada e percorrem ruas de uma cidade pouco vivida, os que estão como se o amanhã não fosse, os que morrem vivos, os que comem pão endurecido pela raiva, os que mastigam palavras usadas, os que se curvam ao vulgar dos gestos, os que vomitam tristezas, os que correm atrás de tudo o que se não pensa, os que não riem de nada, os que se gabam da desgraça, os que fazem pouca ginástica, os que pouco querem, os que pouco são, os que pouco pensam, os que pouco pensam. A todos desejo o que se não vê, por impedimento ou distracção.

4.6.09

3.6.09

36 - GIORGIO DE CHIRICO



Após estudar na Grécia e em Munique instala-se em Paris, onde estabelece fortes relações de amizade com Apollinaire. No início dos anos 20, a sua obra obtém um êxito considerável nos meios vanguardistas. Em 1925, participa na primeira exposição surrealista. Posteriormente, e para surpresa geral, exalta-se por um academismo vácuo que cultiva durante o resto da sua longa vida.
A pintura metafísica de Giorgio de Chirico antecipa elementos que aparecem depois na pintura surrealista: padrões arquitectónicos, grandes espaços nus, manequins anónimos e ambientes oníricos. Do dadaísmo, os pintores surrealistas e, com eles, De Chirico, herdam directamente as atitudes destrutivas e niilistas. O que o próprio artista qualifica de «pintura metafísica» corresponde à necessidade de sonho, de mistério e de erotismo próprios do surrealismo. E assim, desde que este movimento vê a luz, a obra de De Chirico conhece um êxito considerável.

30.5.09

UMA CAIXA CHEIA DE BEIJOS


Sara Pessoa

Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos. Uma caixa quadrada, fechada e completa. Tem por fora muitas cores que formam espaços vazios e espaços cheios de sentido. Tem frases com lógica e pequenos dizeres fora do comum. Quando lhe retiro a tampa vejo os beijos, são pequenos e muitos, enfileirados em cadeia, organizados por intensidades e tamanhos. Vêm de perto, daqui do lado, da menina a crescer que decidiu oferecê-los em caixa completa de coisas úteis.
As frases dispõem preferências, as imagens denunciam gostos e as pessoas ilustram desejos.
Peguei na caixa e li-a, por dentro e por fora. Com tudo o que podia interpretar fiz um texto. Mastiguei os rebuçados com as palavras que não se ouvem. O chocolate espalhou-se em guloso palato. O livro, as Breves Notas Sobre o Medo, foi lido de noite, à luz de um candeeiro novo.
Ofereceram-me uma caixa cheia de beijos e um livro. Sabia, quem a fez, que os beijos não se embrulham em caixas, mas sabia também que há desejos sempre realizáveis.
Quando era muito pequena, recebia beijos encarnados, verdes, brancos e amarelos. Sabia que, quem lhos dava, os enfeitava com imaginação. Ria muito. A cada cor mudava o tom, a textura e o tempo do beijo oferecido. Fez uma espécie de devolução com tampa, acrescentou o que lhe pareceu ajustado e colocou num embrulho.
As caixas que nos entregam são quase sempre dispensáveis, trazem dentro qualquer coisa e vão para o lixo depois de as esvaziarmos. Há caixas com importância, quando dentro trazem o que pedimos, o tudo que desvela amor imenso, partilha plena e total cumplicidade.

29.5.09

"DESENCANTO"

"Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo."

Retirado daqui.

28.5.09

O ACTOR ENTRA NUM PALCO DIFERENTE



Tinha os olhos postos na plateia que o aguardava para conversa que não se ensaiou. Eram poucas as pessoas que, reunidas na sala da escola, esperavam as palavras e os gestos de quem soube viver todos os dias na loucura da dádiva e do espanto. Sentou-se. Reparou nos olhos que o fixavam e sorriu. A conversa decorreu num encontro intimista.
Em palco imaginado, a cadeira do actor serviu-lhe de suporte, como se o corpo estivesse pronto para momentos que não eram espectáculo. As palavras são lindas, disse, é preciso darmos atenção à forma como as usamos, ao seu significado na frase e na vida.
O silêncio foi escolhido por quem precisava de ouvir, sem distracções. O actor falou do teatro, da entrega, do amor, da disciplina, do rigor e do crescimento de quem se dedica a um trabalho diferente. Personagens que se vivem, luzes que se acendem, panos que caem e textos na memória. É preciso falar alto, claro e não deixar cair os finais, repetiu aos aprendizes que continuavam no silêncio da expectativa e do entusiasmo.
A pouco e pouco, as vozes de quem o olhava, foram tendo eco nas perguntas, nas inquietações de gente nova capaz de abraçar profissão futura com as dúvidas próprias de quem viveu pouco tempo. O actor respondeu, com o mesmo amor com que sorriu a todos quantos o interpelaram. Alunos inquietos colocaram palavras certas em questões com sentido: a família, a profissão, o texto, as pessoas que não somos nós, o carácter, os limites, a loucura e a exposição, toda a exposição que, de um corpo, surge na voz: alta, clara e sem deixar cair os finais.
Foi um bocado de tarde diferente. No lugar do conhecimento, momentos de sabedoria. Todos entenderam a verdade nas palavras bonitas, distribuídas uma a uma, por quem esteve e sentiu o prazer de uma conversa recheada. Obrigada, Raul.

27.5.09

NÃO EMPRESTO LIVROS

Sara Pessoa
- “Quando alguém tem medo deve correr para casa ou para a parte de fora da noite”. (*)
- Que dizes?
- Digo que “a poesia, que parece uma coisa parada, resolve, ao mesmo tempo, o tédio e o medo”.(*)
- Estás parva?
- Não. “Um verso que um homem saiba de cor só se elimina com a brutal amnésia”(*)
- Mas estás a falar de quê?
- Estou a dizer-te a importância da poesia.
- A que propósito?
- A propósito da informação.
- Que informação?
- “O excesso de informação que o mundo imbecil te obriga a guardar”. (*)
- Mas a poesia é informação.
- Não é. “O verso não tem o timbre de uma informação.” (*)
- Dás-me um exemplo?
- “Os homens que se erguem não são da mesma espécie animal que os homens que são derrubados e aí ficam”. (*)
- Isso depende da anatomia.
- “A anatomia é algo que existe escondido dentro do corpo”. (*)
- Como?
- “É interior, como as imagens mentais, apesar de menos interior do que as imagens mentais”. (*)
- Estás a comparar ideias com ossos?
- “Um osso existe, apesar de tudo, em sítios menos fundos do que as ideias ou raciocínios (…). Se escavarmos com instinto arqueológico, descobriremos primeiro a tíbia e o perónio e só depois certas células inteligentes.” (*)
- Defendes, então, que as ideias são pesadas.
- Sim. “Na balança, a memória pesa mais do que os projectos. Uma deficiência na rapidez de sentir: eis o ressentimento ou o remorso.” (*)
- E para que servem os ossos?
- Para dançar, por exemplo.
- Como?- “Um homem a dançar pode ser bonito mas um homem a pensar nunca é bonito. E se um homem dançar enquanto pensa esse homem terá pensamentos estúpidos, e se um homem pensar enquanto dança, trocará os pés e acabará por tropeçar.” (*)
- É uma regra?
- “Não é uma regra mas poderia ser uma regra: dançar é incompatível com a resolução de uma equação de segundo grau”. (*)
- Para que livro olhas?
- Para O Senhor Breton
- Empresta-mo.
- Não empresto.

(*) Gonçalo M. Tavares; O Senhor Breton. Editorial Caminho

26.5.09

MEU VIZINHO

Hoje é o Dia Europeu do Vizinho. Vou lá acima entregar umas farófias acabadinhas de fazer.

ESPANTAR SENTIMENTOS


Sara Pessoa

Os abraços genuínos são silenciosos. Porque os outros não são abraços, são gestos ruidosos que servem para espantar sentimentos.

25.5.09

UMA FORMA DE ESTAR CALADA


Sara Pessoa

Escrever é uma forma de estar calada. Quando as palavras não são mais que meros instrumentos de sons não pronunciados.

24.5.09

IRONIA


Noventa pessoas apanham a "gripe suína" e toda a gente quer usar uma máscara.
Um milhão de pessoas tem SIDA e ninguém quer usar um preservativo.

35 - SARA PESSOA




"O meu método de trabalho, enquanto tal, pode ser descrito como "sobreposição". As imagens são colocadas umas sobre as outras. A intenção e o contexto estão em contínua mudança dado as imagens se sobreporem. O resultado traduz-se em vestígios que se referem apenas aos elementos que funcionaram como catalisador, mas que depois desapareceram. Sinais dos elementos extintos tomam o lugar do motivo original."

23.5.09

We Will Survive: Igudesman & Joo + Kremer & Kremerata

BEM DITAS PALAVRAS

Há quem diga as verdades:

(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)

COISAS QUE ME INQUIETAM (13)

Depois do meu reparo sobre a falta indecente do cumprimento dos horários marcados, indecência que implica espera por parte dos que cumprem, a frase cai em mim como bomba:
“A solidão é o que resta aos que acreditam na pontualidade”.
Vim para casa a pensar que, ou eu estou maluca, ou o mundo já não tem remédio!

DEVERES


Caravaggio

"Nada é tão perigoso como teres cumprido todos os teus deveres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto"
(Conçalo M. Tavares)

21.5.09

PÃO


Caravaggio

"Quanto tempo ficas a admirar uma jóia e, quanto tempo ficas a admirar o pão que comes?" (Gonçalo M. Tavares)

20.5.09

CAUSAS


Caravaggio

"Hoje em dia já não existe ninguém à procura de causas"
(Musil)

18.5.09

MUNDO (2)


Caravaggio

"Deveríamos ser proibidos de entrar no mundo como certos jovens imberbes são proibidos de entrar em sessões de cinema para mais de 18 anos." (Gonçalo M. Tavares)

16.5.09

MUNDO


Caravaggio

"Há muito que eu e o mundo não temos amizade nenhuma um pelo outro" (
Musil)

15.5.09

34 - CARAVAGGIO



Lombardia, 1573 - Porto Ercole, 1610

Michelangelo Merisi estuda inicialmente em Milão com o maneirista Peterzano, contra cuja estética reage asperamente. Autodidacta, a sua pintura suscita violentas reacções. Apesar da crítica dos artistas, o público aprecia as suas telas rugosas, encrespadas de pastosidades e dominadas pelo que, a partir dele, se chama «tenebrismo». Estabelece-se em Roma até que, obrigado a fugir por se ter envolvido numa sangrenta rixa, se refugia em Nápoles (1606). Percorre o Sul do país perseguido pela justiça até que vai para Malta (1607), onde é recebido na Ordem de S. João. Encarcerado um ano mais tarde por ofensas a um cavaleiro da ordem, consegue fugir para a Sicília e, dali, para Messina (1609). Regressa a Nápoles, até onde o perseguem os seus inimigos malteses, que o deixam gravemente ferido. Amnistiado por Roma, dirige-se a Porto Ercole, onde é detido por erro. Uma vez libertado, morre obscuramente (segundo certas versões, de umas febres).
A atitude artística deste pintor é de franca rebeldia contra os convencionalismos do momento. O estranho realismo de Caravaggio consiste não em copiar e observar a natureza, mas em contrapor o valor moral da prática ao valor intelectual da teoria.
O aspecto mais notável da sua obra é o tratamento da luz, que recebe o nome de tenebrismo. Consiste em projectar a luz sobre as formas com violência e em contraste intenso e brusco com as sombras. O seu precoce domínio dos efeitos claro-escuro marca o início de uma das grandes conquistas da pintura barroca. Outra característica primordial do estilo de Caravaggio é o naturalismo exacerbado como reacção face ao idealismo renascentista. Naturalismo que, por outro lado, não está em duelo com a grandiosidade da composição.
A influência de Caravaggio sente-se poderosamente em Itália e no resto da Europa durante todo o século xvii, e os seus seguidores continuam a cultivar o tenebrismo e o naturalismo no século seguinte.

14.5.09

ROUBAR MATÉRIA AO MUNDO


Cargaleiro


A estética como tema. Catorze alunos presentes. Carteiras pretas. Sala nova. Computador. Internet. Quadro interactivo. Início da aula e a frase dita pela Catarina, depois do dedo no ar: o mundo tem muitas coisas feias, talvez os artistas tenham surgido para lhe dar beleza.

Eu tinha o livro do Gonçalo M. Tavares em cima da mesa e o plano era tudo menos o texto escrito no quadro:
“No início o mundo era repleto de matéria. Matéria compacta, espessa. A violência – ou seja – a criação – passou por retirar fatias. A escultura - e todo o ser vivo é uma escultura – não é assunto de acrescentar ou acumular, mas sim assunto de retirar, esburacar. Qualquer criador não traz matéria para acrescentar ao mundo, rouba-a, faz as fendas certas, inventa as ausências intensas, percebe onde os intervalos podem ser mais profundos.” (Gonçalo M. Tavares; A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil.)

Foi pedido um comentário. Olhem para o que está escrito, discutam a ideia, clarifiquem-na e escrevam. É precisa a solitária reflexão sobre a questão da matéria roubada ao mundo, as fatias que se retiram à pedra, ao barro, à madeira. O roubo que se faz porque a beleza o exige ou porque é preciso expressar qualquer coisa. A violência exercida no acto de criar, a necessidade da matéria do mundo para que a criação aconteça e o acrescentar, ou não, alguma coisa a um mundo de matéria espessa.

À minha frente, a Inês acaba primeiro e pergunta-me:
- Posso ler? Faço-lhe sinal para que espere pelos colegas.
O tempo decorre em algum silêncio interrompido pelo João: esculpir é uma coisa, moldar é outra. Mesmo quando se molda já se roubou matéria ao mundo.
A Cláudia intervém: é como se os artistas não roubassem propriamente mas dessem ao mundo uma forma nova, uma reconstrução onde os desperdícios são postos fora de jogo.

A Catarina leu o texto em voz alta: a preocupação centra-se na matéria humana, não na matéria do mundo. A primeira também é roubada, quando a dignidade é posta em causa, por exemplo.

A Ana pede-me para ler o que fez: somos todos escultores de um mundo que transformamos, de certa forma os pássaros, não sendo artistas, também roubam alimento ao mundo sem que haja criação artística.

Ao canto, de cabelo a tapar um olhar atento, o Frederico não se mexe: não executo o trabalho porque não tenho material de escrita – o costume!

A Marta ri alto e pensa da mesma maneira, não teve tempo para acabar, foi com o caderno debaixo do braço e a mala na mão. Em jeito de “tia” por crescer disse-me:
- Trago na próxima aula, professora, prometo.

Saíram. Contentes. Despediram-se afavelmente, como todos os dias.
Vou deixá-los, vou-me embora porque quero, porque preciso, porque a vida é assim. Tenho pena. Pelo Alim que ri sincero, Pelo Fred que não executa quase nada mas pensa bem, Pelo Miguel que fala baixinho, pelo Rodrigo que é rapaz feliz, pelo Paulo de atacadores diferentes e estilo descontraído. Já tenho saudades de todas as Anas, da Patrícia que gosta de falar para o lado e da Cátia que dá beijinhos à chegada.

Tenho saudades porque, poucas turmas nos entram no coração. Gente boa que, para lá de um trabalho sério, desenvolve afectos. Com eles trabalha-se melhor. Todos sabemos disso.

13.5.09

EDUCAÇÃO SEXUAL FORA DE CASA

No próximo ano lectivo a Educação Sexual vai entrar nas escolas do país. Tenho que ficar atenta aos dias e horas em que a minha filha vai ouvir falar daquilo que eu tenho obrigação de lhe explicar.

DIÁLOGO


Só gosto de azulejos que falem comigo.

12.5.09

ALTOS

Os prédios muito altos assustam os pássaros. Querem voar raso, ver as pessoas antes de partirem para longe.

11.5.09

DOBRAS E GRITOS (34)

Às vezes é preciso queimar, rasgar, deitar no esgoto, cuspir, bater e clamar. A vida ensina-nos a deitar fora o que não interessa. Depois, o banho.

RIO


Cargaleiro

Fomos ver o rio. Estavam lá as gaivotas. Tinham vindo da praia distante. Precisávamos encontrar o riso trazido do mar.

10.5.09

ESSE FIM


Cargaleiro

- És sempre bonita quando chegas a esse fim.
- Sabia-te aí. Esperei pelo fim para que o visses.
- Não te agradeço.
- Não precisas. O teu olhar já o fez.

9.5.09

AO OUVIDO


Cargaleiro

Cheguei com a história na mão. Pedro tinha-se recostado no sofá, em frente à janela de onde o mar se avista:
- Fica atrás de mim. Conta-ma baixinho. Encosta-te ao meu ouvido, ainda não a ouvi dessa forma.

8.5.09

VIAGEM


Cargaleiro

- Quando vamos a Montmartre?
- Quando acabar de ler a história que inventaste para mim.
- Podemos ir em breve. A história é pequena, já a leste milhares de vezes.
- Ler muitas vezes uma história não significa ter acabado de a ler. É preciso o tempo.

7.5.09

ACTO


Cargaleiro

Nenhum de nós arriscava ir ao sótão ver as memórias e as imagens. Todos os dias eram novos. Urgente eternizar o amor, fazer aparecer o céu inventado e receber as palmas das gaivotas na praia. Era urgente molhar os pés no mar e dizer coisas quentes que demoram a acontecer porque, todos os dias precisam de vida para se fazerem sentir. Não podia haver quietude, a única coisa que permitia a vida era o acto.

6.5.09

RISO E SILÊNCIO


Cargaleiro

Pedro estava embrenhado em mais um livro de Haruki Murakami. Não o interrompi. Dancei até à cozinha, ao ritmo das palavras de Vinicius: eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia.
Havia, naquela tarde, um sol comprometedor, uma luz bonita e incómoda para os que, nas esquinas da vida, seguem o erro do grito calado, da fala muda, da cama fria, do prato vazio. A claridade dos que, nas esquinas do dia, seguem na ausência de gente, de beijo, de abraço, de sorriso e de pranto. Sabia-o tranquilo em frente ao livro. Preferi ficar quieta. Debaixo da mesa, estiquei as pernas e fechei-me no riso e no silêncio.

5.5.09

33 - MANUEL CARGALEIRO



Manuel Cargaleiro é um dos mais importantes artistas plásticos portugueses. A sua obra é reconhecida em todo o mundo. A paixão pela arte levou-o a reunir, desde há vários anos, uma colecção de obras de artistas consagrados, na qual se podem encontrar peças de Pablo Picasso e Vieira da Silva. É actualmente um dos mais valiosos espólios do país. Natural de Chão das Servas, concelho de Vila Velha de Ródão, na Beira Baixa, onde nasceu a 16 de Março de 1927, veio com a família para o Fogueteiro no ano seguinte e aqui se manteve por 15 anos. Primeiro numa casa situada na Quinta de Vale de Chícharos, junto ao local onde hoje está implantada a Escola Secundária com o seu nome, e mais tarde, num prédio na antiga Rua do Grémio, hoje denominada Rua General Humberto Delgado, onde montou um ateliê.
A autarquia apresenta publicamente, em Março de 2008, o projecto para a instalação do espólio do Mestre, na Quinta da Fidalga. Um local com seis séculos de história, junto à Baía do Seixal, que foi um espaço frequentado pelo Mestre Cargaleiro durante a sua juventude.
O projecto Museu-oficina de Artes Manuel Cargaleiro pretende ser um instrumento pedagógico de memória, divulgação, investigação e experiência na área das artes. O objectivo principal é preservar e divulgar a obra do Mestre Manuel Cargaleiro e da sua Fundação, dando continuidade à sua obra, através de actividades pedagógico-didácticas, que incluem a produção, conservação curativa e o restauro de artes decorativas.Com a instalação deste novo equipamento os cidadãos de todo o país passam a usufruir de uma instituição artístico-cultural de grande qualidade, com um acervo que incluirá desenhos, pinturas, óleos, gravuras, cerâmicas, tapeçarias e várias obras recolhidas pelo Mestre ao longo dos anos.
Com o Museu Manuel Cargaleiro, propõe-se criar uma unidade museológica que cumpra essa vocação didáctica e criativa, no campo das artes decorativas, através de exposições de carácter permanente e temporário, bem como através do funcionamento de oficinas.Esta unidade compreenderá ainda uma extensão didáctico-pedagógica que se desenvolverá através das oficinas de cerâmica, marcenaria, tapeçaria, papel/encadernação, e, ainda, de uma tipografia. Terá também espaços de formação e aprendizagem, de criatividade e de restauro.
O único equipamento a construir de raiz será a Galeria de Exposições. Um projecto de Álvaro Siza Vieira a crescer a sul da Quinta da Fidalga, com uma área de 500m2.

4.5.09

A LUZ


Andy Warhol

"- A luz! A luz!
Se existisse uma electricidade para fazer aparecer o escuro como existe uma electricidade para fazer aparecer a luz, o número de possibilidades duplicaria, mas também duplicaria a conta do mês.
No entanto parece-me desagradável – pensava o senhor Juarroz – que baste desligar a luz para aparecer a escuridão.
Para darmos a devida importância ao escuro – tanto, pelo menos, como damos à claridade – deveria ser necessário o acto de ligar a escuridão.
Assim, quando se apagasse a luz, não surgia logo o escuro, mas sim um qualquer estado intermédio.
Só se dá importância ao que tem um custo: ligar a escuridão e pagar por ela, parece-me urgente – pensava o senhor Juarroz, um segundo antes de bater com o joelho contra uma mesa.
- Quem desligou a porcaria da luz?! – Gritou irritado o senhor Juarroz."

Gonçalo M. Tavares; O Senhor Juarroz


3.5.09

CAIXA DE BEIJOS


Andy Warhol

Hoje recebi uma caixa cheia de beijos. De cada um que havia dentro dela, fiz um ramo. Juntei-os todos às flores e coloquei o vaso no centro da sala, ao lado ficaram os abraços.

2.5.09

DEPOIS DO TRABALHO


Chegou a casa. O feriado tinha sido cansativo. Nunca o trabalho o dilacerara como ontem. Colocou os pés em cima da banqueta em jeito de repouso quase eterno.