7.10.09

ASSIM É QUE É BONITO


(Foto de Robert Doisneau)

Quando saíram do lugar dos anseios, perceberam que a vida não existe sem caminho. Em frente ao que não sabiam, os pés seguiam por ruas movediças. Porque o passado lhes permitia a crença de que eram felizes. Depois, quando a claridade chegou, fechou-se a porta dos sonhos e foram embora. Cada um seguiu ruas distintas. Porque assim é que é bonito.

6.10.09

CURTO DEPOIS



Passearam numa cidade perto da praia. Tinham viajado o tempo suficiente para entenderem a urgência de um beijo. Não sabiam que o depois era curto.

5.10.09

COISAS BONITAS E MORTAS


(Foto André Kertész)

Há 18 anos houve um casamento. A terra pequena acolheu o noivo que vinha de fora. A noiva estava à espera, numa igreja bonita, com um vestido bonito, convidados bonitos e flores bonitas. Naquele dia ninguém sabia que a beleza é efémera. Depois foram embora, num carro bonito, com sentimentos bonitos e esperanças bonitas. E a beleza acabou, quando todos perceberam a inquietude que suscitam as profundas convicções.

3.10.09

A PROPÓSITO DE MONÓLOGOS


Fernand Léger

A propósito do post anterior, diria que monólogos são conversas que, de solitárias só têm o nome. Olhamos para o eu de frente, por entre as janelas. Se fechadas, as palavras devolvem o medo. Quando abertas, soltam-se em bandos que voam para fora, como se nunca tivessem sido nossas.

2.10.09

MONÓLOGO DA VAGINA EMBRIAGADA


Fernand Léger

Uma mulher bonita e elegante sai de um bar com uma enorme bebedeira.
Caminha em direcção do seu automóvel, um BMW novíssimo e, com a chave, tenta abrir a porta mas o seu estado alcoólico não o permite.
Quando se baixa um pouco para se aproximar da fechadura acaba por cair e ficar sentada de pernas abertas ao lado da porta.
Desesperada com a situação, olha para baixo e reparando que não tem cuecas começa a falar com a sua própria vagina:
- Tu pagaste o carro... tu pagaste as jóias... tu dás-me tanto dinheiro.... tu permites que escolha o homem que me apetecer...tu pagas a casa que comprei... tu...
De repente começa a fazer xixi e diz:
- Não precisas de chorar que eu não estou zangada contigo!

30.9.09

TESTE DO BALÃO DEPOIS DE ALMODÔVAR


(Foto de Jet)

Passava das duas horas da manhã. O carro ia com ela, devagar, sem drogas e sem álcool. As luzes acenderam-se ao fundo da rua, antes de entrar no túnel da João XXI. Um senhor fardado com uma espécie de pirilampo na mão acenou para que encostasse. Ficou nervosa:
- Boa noite, os documentos da viatura por favor.
- Com certeza.
Entregou-lhos com um sorriso e apagou o cigarro no cinzeiro, não fosse ser multada por poluir a cidade.
- Bilhete de identidade, por favor.
- Com certeza, mas olhe que é fotocópia.
- Fotocópia? Porquê?
- Queria ter apenas fotocópias comigo por causa dos assaltos, mas parece que é ilegal.
- Não, não é, desde que autenticadas.
Rodopiou em volta do carro e sorriu:
- Alguma vez fez o teste do álcool?
- Nunca.
- Bebeu?
- Não, acabei apenas de consumir o último filme do Almodôvar, não sei se isso acusará alguma coisa.
Fingiu não ter entendido, ou não entendeu mesmo. Levou-a para junto de mais dois polícias com ar porreiro e mandou soprar no tubinho transparente. Zero.
- Afinal, o consumo de filmes do Almodôvar não acusa na máquina.
- Pelos vistos não.
Entregou-lhe os documentos e desejou noite feliz.
Chegou a casa sem entender se o polícia lhe sorria por causa da fotocópia do bilhete de identidade ou por razões de incultura cinéfila.

29.9.09

COISAS QUE ME INQUIETAM (15)

Não saber quem vai mandar na minha vida profissional. Ficar em ausência durante semanas, com os papéis na mão e as pastas por arquivar. Permanecer num limbo que, deixando de existir, permitirá o avanço ou o recuo.

28.9.09

NADA FÁCIL


Foto de João Azevedo

Não está fácil gerir este blog. As publicações diárias têm saído a ferros. Não sei se por causa de mim se por motivos profissionais densos. De qualquer forma existo. É o que me vale.

27.9.09

NÃO HÁ QUEM AGUENTE

Então agora que eu ia votar e descansar dos dias de campanha que me deixaram exaurida e com sensação de entupimento intelectual, dizem-me que amanhã começa nova campanha para as autárquicas? Mas há alguém que aguente? Vou desligar a televisão da ficha até dia 10 de Outubro. Apre!!

ALTIVEZ DE PLÁSTICO


Helen Frankenthaler

Sempre constatei que, para as meninas dos guichets de hospital, vestir bata branca entranhava sentido de poder e domínio. Sem formação que alicerce um bom atendimento ao público, assumem postura de uma qualquer parola “poderosa” que, na posse do tempo alheio, debitam frases de alto como “vai ter que aguardar”.
Sem quererem dizer quanto tempo vamos ter que esperar, a altiva postura adensa-se por trás dos óculos de marca bem visível, não vá o doente ou cliente do consultório pensar que a menina de bata branca não tem carteira recheada de euros. Os que, à mercê de quem não sabe gerir o tempo, se sentam a olhar para o ponteiro das horas, ali ficam, entre a estupidez escondida na caneta que usam e a altivez patente em cada frase que ditam, de cabeça baixa.

26.9.09

DOBRAS E GRITOS (37)

Profissionais na era da tecnologia, em pleno século XXI fogem a sete pés do correio electrónico. Parecem enguias a esbarrar por entre água turva, com medo que o e-mail infeste a sua identidade.
No meio de semelhantes gentes, quem quer vingar por via de uma comunicação rápida, eficaz e sem ruído, passa por controlador maléfico e manipulador execrável.
Põem Magalhães nas mãos de criancinhas que, mais não fazem, que jogar super tux e depois, as mães e os pais das ditas, resvalam na falsa ignorância informática para que a incompetência não fique registada nas páginas do correio electrónico. Cambada de retrógrados que ainda não aprenderam nem a usar a Internet nem a perceber que pode, a mesma, facilitar o trabalho e o tempo a quem já não o tem.

25.9.09

SEM EXPERIÊNCIA


João Cutileiro


No dia em que foi mãe, percebeu que o medo que não viu no rio tinha fugido. Para perto das mulheres sem experiência.

24.9.09

O MEDO NO RIO


João Cutileiro

No dia em que soube que estava grávida, foi sozinha para perto do rio. Julgava que podia ver o medo reflectido na água.

23.9.09

PASTA CASTANHA


Marcel Duchamp

Era uma vez uma professora morena. Tinha uma pasta de cabedal castanho e usava sapatos da mesma cor. O cabelo preto denunciava, pelo penteado certo, a previsibilidade dos gestos. As palavras, estudadas com detalhe, nada de novo traziam à sala. Porque a vida daquela pasta e daqueles cabelos era igual, desde o dia em que o mundo se lhe apresentara como monótono.

22.9.09

BODAS DE PRATA


Marcel Duchamp

Divorciado há 25 anos, pensou ser importante brindar a uma data que não chegou a existir. As bodas de prata de um casamento há muito acabado.

21.9.09

ESPUMA AMARELA


Marcel Duchamp


Todos os dias de manhã, enquanto fuma o cigarro e bebe o café, olha pela janela. Vê pessoas ausentes numa subida íngreme que dá acesso ao barracão procurado pelos que fazem do tráfico e do consumo, modo de vida. Depois, o homem encosta-se à parede e urina, em espalhafatoso banho de espuma amarela!

19.9.09

TONTURA


Juan Muñoz

Assim não vamos lá, amigo. Fica com as tuas palavras que eu fico com as minhas pessoas. Podemos rir os dois mas, só eu permaneço na tontura das ideias alheias.

18.9.09

A INTELIGÊNCIA DO RICARDO


Juan Muñoz

Não fosse Ricardo Araújo Pereira tão inteligente e, julgo, a beleza do comediante restaria na cave de um edifício soberbamente construído.