19.9.09

TONTURA


Juan Muñoz

Assim não vamos lá, amigo. Fica com as tuas palavras que eu fico com as minhas pessoas. Podemos rir os dois mas, só eu permaneço na tontura das ideias alheias.

18.9.09

A INTELIGÊNCIA DO RICARDO


Juan Muñoz

Não fosse Ricardo Araújo Pereira tão inteligente e, julgo, a beleza do comediante restaria na cave de um edifício soberbamente construído.

17.9.09

PERMISSÃO


Juan Muñoz

Sentaram-se. O cansaço do corpo pedia. Apesar de nada poder ser como devia, a paragem do riso era permitida.

16.9.09

POSSIBILIDADE DE RIR


Juan Muñoz

Eles estavam contentes. Apesar do tédio da campanha eleitoral, do marasmo das entrevistas e da conversa repetitiva, agora tinham, no programa do Gato Fedorento, possibilidade de rir, mesmo que as caras fossem iguais.

14.9.09

QUIMERAS SIM, SEXO NÃO


Paul Klee

Como um camponês que se dedica ao seu trabalho o ano inteiro, Kant não tinha férias. Criado no seio de uma família numerosa e modesta, o seu estatuto de intelectual era já um triunfo. Queriam que ele viajasse e que se casasse. A sexualidade de Kant intrigava os seus contemporâneos. Face à pergunta: “terá alguma criada de quarto gozado dos favores do filósofo?” Kant nem se dignou responder.
Melancólico e alucinado, com um regime de vida obsessivo e patológico, afirmava: “deixem-me com as minhas quimeras, são elas que garantem a minha sobrevivência”.
Sabe-se do seu celibato. Nunca ninguém entendeu se ele manteve a castidade. A certeza é a de que conhecia a sensualidade porque apreciava comida.

13.9.09

ETERNAS MELODIAS



Há melodias que nunca foram início de programa. Ficam aqui. Para lá do tempo, há a permanência no espaço, seja ele qual for.

12.9.09

"UM VAZIO NO TEMPO"


"Numa das últimas vezes que estive na Expo em Lisboa, descobri estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que tinha descoberto, que aquele espaço se tratava de um templo grandioso.
Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma enorme vontade de rezar não sei a quê ou a quem. Fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto e tudo o que pensava, só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me ia envolvendo no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.
Quando os meus olhos se abriram, aquele meu Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do Tejo para dar um berro de gratidão com a minha alma e sorri para o Universo.
Aquela virgula no tempo, foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida, que me fez reencontrar, e me deu a esperança, que num tempo, que seja breve, me volte a acontecer.
Que esse meu Deus assim queira."

Raúl Solnado

CEDO E DEVAGAR


Sairá de casa cedo. Para perto de quem amou com a alma cheia de riso e o corpo parado às palavras e às mãos. De quem sabia entregar a sabedoria inteira. A paz ficará com quem a disse. Sempre.

10.9.09

QUE IMPORTA?


(Foto de Robert Doisneau)

Se a vida fosse muito curta, se tivéssemos tempo contado para estar com as pessoas e num espaço de eleição, o medo desaparecia, a raiva não existia e a morte era aceite com naturalidade. Depois ninguém se lembrava de nós mas… que importa?

9.9.09

FELIZ ANIVERSÁRIO

Um ano de excelência. Parabéns ao PNet Literatura.

HÁ VIZINHOS ASSIM



Um simpático vizinho que se dedica à pintura. A troca de impressões sobre os livros e a vida, numa mesa de café perto de casa, levaram à publicação de um dos seus muitos trabalhos. Ali em cima, num andar alto de onde se avista a torre da igreja e o sino que bate as badaladas em compasso. Obrigada, vizinho!

8.9.09

ASSIM NÃO DÁ


José Gil já o tinha escrito. Sobre os Portugueses, o medo, a identidade perdida e uma certa forma de agir que, mais não é que reflexo da história mal resolvida.
O filósofo volta a escrever sobre os portugueses e o modo como o governo manipula a consciência colectiva.

O Chico espertismo típico de um povo que prefere contornar a lei a tomá-la como regra de conduta. Um povo que escolhe furar o sistema a impor-se, quando a necessidade de afirmação se deveria sobrepor à maquinação nojenta debaixo da engrenagem, sem ninguém ver. A história velha de que o problema não é roubar, é ser apanhado. Não soubemos gerir a revolução e, em vez de um “homem novo”, nasceu um homem que anda para trás, como se preferisse o autoritarismo à individual responsabilização.

Aqui, José Gil fala da educação, como mais ninguém o fez. Quando a afectividade é castrada no processo de ensino/aprendizagem, tudo está perdido. O Chico espertismo entrou na escola. Não interessa saber, interessa o diploma. Nada mais a declarar!

7.9.09

O QUE É QUE EU FAÇO COM A SAUDADE


O sentimento que rói cá dentro é muitas vezes sentido como provisório, uma espécie de bicho que entra para nos atormentar as entranhas. Vagueia por onde quer, passeia pela alma e corrói o corpo devagar. A saudade de um cheiro, de uma casa, de uma cama, de um lugar bonito, de um objecto, de uma viagem. A saudade do que se vive e não mais se encontra. Os lugares podem ser revisitados, mesmo quando o jardim já se transformou em prédio. Podem refazer-se viagens e a procura de cheiros de infância é possível, quando queremos encontrá-los lá, onde há muitos anos deixamos cair a bola pela ravina ou a boneca se estragou nas escadas estreitas de um corpo pequeno debruçado na sensação de brancura.



Quando a saudade é infinita, o bicho deambulará na alma até que o corpo desapareça. A saudade definitiva, fatal, irreversível. A saudade dos que morrem, daqueles a quem não podemos voltar a telefonar para dizer que estamos bem, os que não podemos voltar a abraçar, oferecer bombons para o café depois do almoço. A saudade incontornável, fora do tempo, de controlo e de escolha, para lá do que podemos revisitar, rever, voltar a ir, a estúpida sensação de impotência, o imbecil vazio que nos enche de raiva e de grito.


Já não posso beijar, já ninguém atende o telefone, já não posso rir e dar as mãos, dizer que gosto muito, enviar e-mails, conversar, tirar uma foto à socapa, enquanto arrumas os talheres depois da refeição. Já não posso vestir a tua camisa de flanela quando está frio, ver-te abrir a porta com um sorriso, pedir-te opinião, ajudar-te a procurar os óculos no escuro do cinema.


Agora a saudade é a sério, sem transitoriedade, vivida dentro, com o bicho a roer as entranhas de cada vez que lembro tudo o que eras. Agora já não existem mãos para agarrar. Os lugares estão lá, como quando os ocupávamos. Os cheiros recordam-se em tempo e espaço semelhantes aos que tínhamos. Os objectos perduram, enquanto nós quisermos olhá-los.


Os que morrem só voltam em momentos de riso e de lágrimas, como que a lembrar-nos que, apesar da ausência, permanecem numa saudade que ainda não aprendemos a ter como eterna companheira.


Talvez essa coisa triste que aperta a alma contra as costas seja aquilo que mandam os ausentes para nos ensinarem a lembrança.

5.9.09

SPENCER TUNICK


Desde 1992 que Spencer Tunick documenta a nudez das multidões. As suas instalações consistem de dezenas ou mesmo centenas de figurantes voluntários que posam em locais públicos. A massa de indivíduos sem roupa, agrupados num qualquer cenário, dá-lhes um significado completamente diferente. Segundo o autor, esse grupo de pessoas torna-se uma abstracção que desafia e reconfigura a nossa visão da nudez e da própria privacidade.
Spencer Tunick (Middeltown, 1967) é um fotógrafo americano, conhecido por este tipo de fotografia. Como curiosidade, refira-se que em 2005 foi detido pela polícia de Nova Iorque quando fotografava uma modelo que posava nua perto de uma árvore de Natal no Rockfeller Center.


4.9.09

DOBRAS E GRITOS (36)


Quando os dias começam a restaurar rotinas perdidas, vem a saudade de encontrar a casa que não voltarei a ver.

3.9.09

SENTADA NAS ESCADAS


Brancusi

Estava sentada nas escadas que dão acesso ao centro comercial. A perna esquerda esticada até ao passeio e a mão estendida. Olhava nos olhos de quem lhe punha uma moeda na mão. Todos os que paravam tinham direito a um sorriso e três palavras: “Deus o abençoe”.
A mulher devia ter mais de setenta anos, vestia roupa limpa e muito usada. As meias tinham borbotos antigos. Trazia consigo um pequeno livro que denunciava uma doença: diabetes.

Depois de muitos passarem sem olhar, o homem atravessou a rua e sentou-se ao lado da mulher sozinha. Cumprimentou-a e ficou a conversar.
- De que precisa?
- De paz, meu senhor, de paz.
- Mas não pede paz a quem passa, pede dinheiro.
- Peço dinheiro para que o meu estômago possa ter paz. A reforma não me chega para pagar todas as contas, preciso de pedir para comer. E a paz não se pede a ninguém, busca-se com muita firmeza.
- Já a encontrou?
- Quem?
- A paz de que precisa.
- Não consigo. Ando nesta vida sem paz nenhuma, meu senhor.
- Quer contar-me?
- Tenho três filhos que não me ajudam e uma neta que me impedem de ver.
Começou a chorar sem medida. As lágrimas surgiram para calar as palavras que já não pronunciava com clareza.

O homem ficou sentado ao lado da velha mulher, traçou as pernas e ofereceu-lhe o lanche. Desembrulhou um pão e foi buscar dois pacotinhos de sumo. Ficaram longos minutos a conversar.

Ouvi a mulher a sorrir enquanto partilhava o lanche, vi o senhor a entregar-lhe o número de telemóvel e a morada de uma instituição de apoio aos sem abrigo, vi os dois a trocar experiências e afectos.
- Sabe uma coisa meu senhor?
- Diga.
- Nós não somos nada, nós estamos na vida de passagem e não entendemos isso.
- Porque diz isso?
- Porque eu também não entendi. Foi preciso chegar a isto para abrir os olhos e agora é tarde demais.
- Nunca é tarde.
- É, meu senhor, é.

2.9.09

AO LADO DO BALNEÁRIO


Helen Frankenthaler

Encostou a cabeça e fechou os olhos. O jacuzzi estava vazio. Relaxou todos os músculos e manteve os olhos bem dentro de si. Não se ouvia mais que água, bolhas que lhe iam percorrendo o corpo. Continuou quieta com as costas em frente ao jacto mais forte. Parou o gesto. Lembrou as senhoras e os senhores que se reuniam no meio dos cacifos do balneário, os que tinham toalha branca enrolada ao corpo e falavam muito. Lembrou-se das conversas sobre textos e livros e deixou-se ficar, a mastigar todas as sílabas que não eram suas.

O apetite das recordações era sempre o maior apetite. Das senhoras recordava o riso, a elegância no trato, a inteligência. Dos senhores, mantinha viva a memória do charme, o raciocínio pronto e a ironia. Queria, um dia, juntar-se à mesa do balneário misto, intrometer-se, ouvir e falar, dizer e escrever. Iria propor às senhoras temas sobre o feminino da existência, a eles declararia guerra, postura assertiva nas palavras com testosterona. Iria dizer a todos que os lia, que queria continuar a lê-los.

Abriu os olhos por entre as bolhas grossas de água que se espalhavam na gigante banheira. O Jacuzzi já não estava vazio, todos os que antes eram memória tinham entrado no mesmo lugar de onde, agora, ela saia envergonhada.

1.9.09

BALNEÁRIO MISTO


Num balneário de Lisboa, homens e mulheres estão para conversar, depois do treino intenso, da música batida, dos corpos em desassossego, dos gritos com as palmas, do step subido, do step descido. A alegria espalha-se pelas janelas que dão acesso ao jardim no meio da cidade.


As mulheres entram com toalhas enroladas na cabeça e no corpo, os homens usam-nas para atar à cintura, depois do duche. Há música e aquecimento, risos e cremes, cheiros e pés descalços, cabelos e braços que se secam do estar transpirado.

No centro de um corredor de cacifos, os corpos treinados recostam-se em poltronas de pele falsa. Laranja em sumo, amêndoas sem casca, queijos diversos, canetas, papel e livros. Todos se olham para entender o sexo das palavras, escrevem enquanto sílabas entram numa espécie de corrida literária. Eles têm o prazer do dito, elas desenham o escrito, depois de goles de sumo espesso.

Em intenção escrita é posto o sentido, o que se materializa dentro de cada gesto.
As palavras têm o masculino e o feminino, como as pessoas. As palavras desenham-se com as mãos, intensificam-se no diálogo.

Em balneário misto há gente que treina ideias, pessoas que ajustam as letras ao seu significado, há o treino do estar pouco quieto, do estar para escrever. Depois cria-se o texto, o que antes era pó e solidifica em folha.

Sabem todos que palavras não vivem sem gente, nelas, o sexo define-se pelo desenho na frase. Sabem todos que palavras são bocados de pessoas num balneário aberto ao que se escreve em formato diverso, conforme são diversas as formas de traçar a perna, quando os corpos se sentam.

30.8.09

VIVER



Viajar me deixa tenso antes de embarcar,
mas depois rejuvenesço uns cinco anos.

Viagens aéreas não me incham as pernas;
incham-me o cérebro, volto cheio de ideias.

Luis Fernando Veríssimo.

17.8.09

VAZIO DE AGOSTO


"Deus nunca nos pisca o olho para nos avisar quando devemos abandonar o palco."
Raúl Solnado

Acabou o riso com corpo, nunca o que guardo na alma, a que muitas vezes desenhaste com gestos.
Muito Obrigada, Raúl.


Mikkel Solnado

25.7.09

FIM DE UM CICLO


Férias. Novo ciclo. Publicações datadas, biografias, autores catalogados e postos em arquivo. Tudo ficará na memória. A seguir, tudo será disperso. Novas formas entrarão na Dobra Do Grito. Depois de um ano e meio de método, outras regras.
Até Setembro.

PASSADO (1)


Tapiés

Tinha, na velha secretária, memórias rendidas. Esqueceu-se de abrir as gavetas a tempo e... as recordações morreram cedo.

24.7.09

PASSADO


Tapiés

Havia, na terra onde nasci, uma senhora gorda. Guardava as tardes de sol para estar sentada. Cruzava as pernas gordas em cima de uma cadeira estreita. Colocava o rabo gordo dentro de um sofá muito velho e espirrava como se nada mais a incomodasse.

23.7.09

OS LIVROS QUE NÃO LI


Tapiés

No tempo em que eu achava que o tempo não tinha importância, vivia numa terra pequena de ruas estreitas de calçada gasta e casas baixinhas pintadas de branco. Brincava na rua com as vizinhas e ia para a escola a pé, com os livros de Aritmética cheios de correcções e os imaculados livros de Português. Acreditava que a leitura era apenas tarefa de escola. Não havia mais que uma dúzia de livros na estante lá de casa e todos muito grandes para que lhes pegasse. Os dias passavam ao lado dos hábitos das letras porque, depois da escola, as bonecas ocupavam o espaço de um quarto branco com cama de ferro cor-de-rosa velho. A minha mãe contava-me que tinha lido muito enquanto jovem e o meu pai ausentava-se de conversas sobre letras em papéis.

Cresci com poucos livros. A adolescência trouxe a curiosidade pelas letras e a colecção dos Cinco e dos Sete sucedeu a alguns volumes da Anita oferecidos na infância. As aulas de Português faziam as delícias de uma adolescente tímida que usava as composições para espalhar o desencanto ou o entusiasmo. Descobri Eça de Queirós e li os Contos; O Primo Basílio, Os Maias, A Relíquia.

A minha mãe comprava os livros quando vínhamos a Lisboa ao médico ou à Revista no Parque Mayer. Comecei a entender a leitura como tarefa quotidiana nos anos que antecederam a faculdade. Os grandes clássicos da literatura foram ficando para os dias em que, a viver em Lisboa, me debruçava no balcão de madeira da Livraria Portugal e espreitava as estantes por trás do empregado.
A faculdade foi tempo de novas descobertas. Lisboa começava a ser a minha cidade e, com ela, novos livros no quarto de um apartamento em Benfica.

A ternura de uma infância feliz mas distante dos livros fez com que entendesse, mais tarde, a razão de ser de muitas e belas existências. A leitura como aprendizagem e actividade diárias foi, na minha vida, acontecendo ao sabor de vivências e necessidades. Não fui educada com volumes à cabeceira, não cresci numa casa com biblioteca, não vivi encantamentos literários até aos dezoito anos. Mau por um lado, bom por outro. Mau porque adiei prazeres, bom porque adiei inquietações.
Hoje, depois de entender que o tempo tem importância, entendo também a importância da leitura na vida. Muito melhor não adiar inquietações, o prazer de ler supera-as. Sempre.

22.7.09

DEPOIS


Tapiés

Depois da luta. Depois dos livros. Depois do trânsito. Depois das obras. Depois do pó. Depois do ruído. Depois... foi-se embora para quase perto de si.

21.7.09

QUASE


Tapiés

Quase férias. Quase vento. Quase mar. Quase finais de tarde perto de tudo. Quase o riso das gaivotas. Quase longe da internet. Quase indecisa entre o sol e o mar. Quase o tempo de escolher entre o ver e o olhar.

20.7.09

40 - Antoni Tapiés




O seu pai era advogado e a sua mãe era filha de uma família de políticos catalães. A profissão do pai e as relações políticas do lado da mãe, proporcionaram-lhe um ambiente liberal durante a infância.

Em 1942, devido a uma doença pulmonar, passa algum tempo a convalescer num sanatório. Durante esse período, dedica-se a copiar obras de artistas como Picasso e Van Gogh.
Lê Nietzsche e Dostoievsky ao mesmo tempo que ouve a música de Richard Wagner. Estuda Direito na Universidade de Barcelona e dedica-se à pintura e às colagens de conteúdo existencialista e surrealista.

Em 1945, abandona os estudos e, no ano seguinte, instala-se num estúdio em Barcelona. A década de 70 foi de prestígio internacional. A obra de Tàpies foi exposta nos principais museus de arte moderna de todo o mundo.

Doutorado por diversas vezes Honoris Causa, recebeu inúmeros prémios, dos quais se destacam a Medalha de Ouro da Generalidade da Catalunha (1983), e o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes (1990). Em 1990, é inaugurada a Fundação Antoni Tàpies, instituição fundada pelo próprio para divulgar a arte contemporânea.

19.7.09

DIA SEGUINTE


Van Gogh

O dia a seguir é sempre pleno de verde. Depois do almoço.

18.7.09

RITMOS FELIZES


Van Gogh

Quando a família se reúne. Longe dos monitores e dos trabalhos de espécie diversa, a música e o canto são comuns diversões. O piano está no canto da sala, despido para mãos femininas, pronto para gritos afinados de quem, com mestria, desenvolve ritmos felizes.

17.7.09

VOU


Van Gogh

Vou longe, oferecer o presente. Ficar contente com a música e as gentes que dançam.

16.7.09

15.7.09

DIA DOS CINQUENTA


Van Gogh

Feliz aniversário ao que bem cozinha, ao que ouve Jazz e ao que ri de piadas quentes.

14.7.09

DEPOIS


Van Gogh

Depois dos pés descalços, despejou a água suja da bacia. Depois do corpo dorido, o riso de uma noite sem sono. Porque a vida dos cansados também tem momentos.

13.7.09

O TEMPO, O TÉDIO E A VIDA


Van Gogh

O livro que leio proporciona noites longas. A história existe além do escrito. Todas as páginas são lugar de paragem. A vida de Hans Castorp no cume de uma montanha foi conselho de um simpático colaborador do espaço Leya da Feira do Livro. Disse-me, depois de interpelação minha:
- Anda a ler Musil e não leu A Montanha Mágica? Acha normal?
- Só li A Morte em Veneza.
- E leu muito bem mas falta-lhe “A Obra”.
Dei uma gargalhada e trouxe o volume para casa com mais sete e um cesto de verga que serve para transportar hortaliças do mercado de Alvalade. Sempre que lhe pego lembro o sorriso adolescente que me falava da “obra” com o entusiasmo de leitor atento.
Há três páginas sublinhadas, notas sobre o tédio e o tempo aglomeram-se nas margens. A relação entre o tempo e as nossas vidas, a lesão que o tempo pode causar na vida ou a vida no tempo. Inquietante. Thomas Mann leva-nos à ideia de que a monotonia e o vazio fazem com que a percepção do tempo seja a de um período fastidioso e lento, contudo, os enormes e vazios períodos de tempo dissipam-se até ao nada, o que leva a que tempo do nada seja um tempo não preenchido que passa depressa demais.
Por outro lado, há a convicção de que um conteúdo interessante pode acelerar a hora ou até o dia, no entanto, o conteúdo confere peso, solidez e amplitude à marcha do tempo. Assim, os momentos ricos em acontecimentos acabam por passar mais devagar que os momentos leves e vazios “que o vento arrasta consigo como se folhas fossem”.
O nada de uma vida sem acontecimentos, pode levar-nos à sensação de lenta passagem. Errado. O vazio de circunstâncias é a marcha para a vida atravessada depressa e sem recheio. A ideia de recheio, de uma vida com acontecimentos e perspectivas, pode levar-nos à sensação de rápida corrida . Errado. Circunstâncias recheadas de ser e estar são a marcha para a vida atravessada devagar porque, muitas coisas acontecem. O tempo preenchido é mais longo, ou a sensação que dele temos.O tédio é, portanto, uma “abreviação doentia do tempo decorrente da monotonia”. Quando um dia é igual a todos os outros, a vida é igual a todos os dias e, assim, a vida é sentida como extraordinariamente curta, esgota-se na habituação quotidiana a um aglomerado de nadas vividos com sensação de lentidão que acabam por se evaporar.
Apenas a mudança pode preservar a nossa vida e dar-nos, do tempo, a ideia de que, por ser e estar recheado de conteúdos, nos permite uma passagem mais lenta e saborosa. Como os que afirmam: “tenho 80 anos mas vivi 200”. Esta é a sensação perfeita de quem passa pela vida e preenche o tempo sem dar lugar ao tédio. Porque o vazio causa sempre amargo de boca.

12.7.09

SONO


Van Gogh

A cada dia que passa, a percepção do sono é mais limpa. Ao acordar, espreguiçam-se todos os desejos, depois de uma Lisboa contente.

11.7.09

PIROSO


Van Gogh

Piroso é o cor-de-rosa. A única cor que não identifica o feminino porque ser mulher não pode, nunca, significar cor-de-rosa.
Piroso é a flor pintada em sala cor-de-rosa. O único objecto que não devia poder pintar-se é a flor. É genuína demais para se plagiar.
Piroso é o som lamecha de Mariah Carey em aparelhagem cor-de-rosa. A única música que causa brotoeja a quem não usa essa cor e não pinta flores em quadros
.

10.7.09

VINCENT VAN GOGH




Vincent Willem Van Gogh - 1853 - 1890
Pintor pós-impressionista, frequentemente considerado um dos maiores de todos os tempos.
A sua vida foi marcada por fracassos. Incapaz de constituir família, custear a própria subsistência ou até mesmo manter contactos sociais, sucumbiu a uma doença mental, suicidando-se aos 37 anos.
A sua fama póstuma cresceu após a exibição de 71 das suas telas em Paris, a 17 de Março de 1901. Depois da sua morte a sua obra foi amplamente reconhecida.
Van Gogh é considerado pioneiro na ligação das tendências impressionistas com as aspirações modernistas, sendo a sua influência reconhecida em variadas frentes da arte do século XX, como por exemplo o expressionismo, o fauvismo e o abstraccionismo.
O Museu Van Gogh em Amsterdão é dedicado aos seus trabalhos e aos dos seus contemporâneos.

9.7.09

AO LONGE


Keith Haring

Os mosquitos infestaram o vidro. A matrícula ficou pouco visível. A mortandade dos insectos contrastou com a vida do dia esticado debaixo do vento.
Depois das pernas frias e das costas molhadas, depois da luz que foi embora, Lisboa continuou longe.

8.7.09

DOBRAS E GRITOS (35)

Eu sei que ninguém tem nada a ver com isso. Ninguém se interessa e todos se estão nas tintas mas... vou para a praia do peixe fresco, do melão partido aos bocadinhos, da água agitada e do sol radioso. Depois volto, cansada de recheios de alma e contente com todas as coisas.

7.7.09

QUE A MÚSICA SE OIÇA


Keith Haring

Depois de muito tempo, depois de muitos lugares, depois de muita gente, depois de tudo, a segurança de um lugar efectivo. Finalmente!

6.7.09

ESTAR NO TEMPO


Keith Haring

Fora da cidade, o tempo passa mais devagar, dizem. O tempo é o contínuo movimento da consciência e, como tal, não passa de um vaivém subjectivo de acontecimentos que presenciamos ou nos quais participamos, com maior ou menor intensidade. Quando o prazer é imenso, o estar permite ao tempo pouco mais que instantes. Quando o desprazer acontece, o estar permite ao tempo sensação de eternidade.

3.7.09

DA CINTURA PARA CIMA


Há os que vivem da cintura para cima, como se o corpo servisse apenas para transportar a cabeça cheia de ideias.

2.7.09

30.6.09

À PORTA DO PRÉDIO


Keith Haring

Nem sempre a chuva causa transtorno. Na cidade, os dias de chuva e lazer são os dias em que se dança à porta do prédio, com os ténis do ginásio e a blusa transpirada.

28.6.09

38 - KEITH HARING



4 de Maio de 1958. 16 De Fevereiro de 1990.
Artista gráfico. O Seu trabalho reflecte a cultura nova-iorquina dos anos 80.
Nascido no estado de Pensilvânia, cedo mostra interesse pelas artes plásticas. De 1976 até 1978 estuda design gráfico numa escola de arte em Pittsburgh. Antes de acabar o curso, transfere-se para Nova Iorque, onde será grandemente influenciado pelos graffitis, inscrevendo-se na School of Visual Arts.


Keith Haring começa a ganhar notoriedade ao desenhar a giz nas estações de metro de Nova Iorque. As suas primeiras exposições formais acontecem a partir de 1980 no Club 57, que se torna um ponto de encontro da elite vanguardista. Na mesma década, participa em diversas bienais e pinta diversos murais pelo mundo.

Em 1988, abre uma Pop Shop em Tóquio. Na ocasião, afirma:
"Na minha vida fiz muitas coisas, ganhei muito dinheiro e diverti-me muito. Mas também vivi em Nova Iorque nos anos do ápice da promiscuidade sexual. Se eu não contrair HIV, ninguém mais contrairá."
Meses depois declara em entrevista à revista Rolling Stone que tem o vírus HIV. Cria a Keith Haring Foundation, em favor das crianças vítimas de sida.

Em 1989, perto da igreja de Sant'Antonio Abate, em Pisa, Itália, executa a sua última obra pública – o grande mural intitulado Tuttomondo, dedicado à paz universal.

Haring morre aos 31 anos.

26.6.09

PERCEPÇÃO


José de Guimarães

Nos dias de menor calor, a minha percepção da realidade volta ao normal. Julgo.

25.6.09

ERUDITO E PORNOGRÁFICO


Traz o sorriso dentro de um bolso. Usa-o em correcta medida. Cansa-se em corridas pela cidade, coisa de muita importância para quem acredita. Entra na sala cheia de poucas pessoas e encosta-se ao balcão. Ao canto olha melhor para todos. A tatuagem escondida na perna significa muito, tudo.
É cordial. Tira o sorriso do bolso quando a conversa inquieta. Escolhe o momento. Em silêncio diz que está, para continuar o caminho ou para travar a fundo.
Todos os dias de manhã, o copo de leite serve de desculpa. Bebe em goles pequenos, enquanto olha para o que à volta lhe interessa. Coisa pouca o interrompe. Dentro, para lá da cara bonita e do corpo vitaminado, existe outro, bem mais inteiro.
A gargalhada é ferramenta de trabalho e de alguma defesa. Encetou vida muito cedo, construiu valores sólidos. Olha para a frente com a convicção conduzida pelas pernas que correm todos os dias.
As mãos são sinal de um trabalho na alma e na terra, capaz de agarrar mundos distintos. Quando pega no copo cheio do que pediu e lhe foi concedido, percebem-se as intenções.
A atitude ocupa espaço. Perto de quem se encosta ao balcão, a energia é diferente. Agora é tempo de convívio, pensa. Ouvem-se dislates e todas os risos se soltam, todos os corpos balançam. A sala alheia-se do que, no canto, acontece. Melhor assim.
Olha nos olhos de quem lhe fala. Atento. Disse-me, um dia, que a erudição e a pornografia se podem ver no sorriso das pessoas. Assenti.

24.6.09

OBRAS


José de Guimarães

Não me bastava a alergia, o nariz a pingar, a tosse e a falta de paciência, ainda insistem, os energúmenos das obras, em por-me a cabeça doida todos os dias com martelos, picaretas e trepidações. Apre!!

23.6.09

ALERGIA


José de Guimarães

Há reacções alérgicas que impossibilitam a escrita.

20.6.09

FESTA


José de Guimarães

Em festa. Coisa de muita importância. Final de ano lectivo para pequenos seres que riem.

19.6.09

NADA PARA DIZER


José de Guimarães

O calor que se faz sentir e que, na pele, derrama, pode muito bem ser motivo de não ter mais nada para dizer.

18.6.09

37 - JOSÉ DE GUIMARÃES




Nasceu em 1939. José de Guimarães é considerado um dos principais artistas plásticos portugueses de Arte Contemporânea.
Com uma obra notável, particularmente na pintura, fez também incursões na escultura e noutras actividades criativas a nível estético, quer nacional, quer internacionalmente.
Na sua obra, a cor desempenha um papel fundamental e a sua temática principal é o corpo humano.Um dos mais galardoados estetas portugueses, José de Guimarães encontra-se representado
em museus e colecções públicas espalhados por todo o Mundo.

17.6.09

GRITO


Cara Amiga;



Peço-te desculpa. Não tens que ler nem gerir as palavras que escrevo. Não tens sequer que dispor do tempo para mastigar o que não é teu. “Do silêncio faço um grito, que o corpo todo me dói”, oiço em manhã cheia de nuvens, como convém aos poetas, aos que sofrem, aos que fingem, aos que roem palavras em silêncio.

Esta carta é para alguém que ouve, sabe ler e sente. Estes parágrafos são os de quem não tem sede do que já foi, de quem usa a poesia para cobrir a epiderme. Apenas.

Não me peças para explicar porque te escrevo, não sei. Em pedaços de manhã com um sumo de laranja e um queijo fresco em pão saloio, pude verificar que os ouvidos de alguém estão despertos. Talvez a vida nos leve para perto dos que estão em energia densa e completa de esperança. O tempo do desencanto profissional é, também, o tempo do projecto que fervilha em neurónios inquietos.

Poucas vezes percebi pessoas como eu e não sei se isso é bom ou mau. Não interessa. Sou muito mais do que fui e isso leva-me a lugares que ainda não vi, quero ir. A vida depois dos quarenta adensa-se, fica muito mais quente.

Talvez a ausência me tenha feito sentar aqui, numa manhã depois de treino intenso em máquinas estúpidas, e antes do cheiro posto no corpo preparado para sair.

Estas palavras são importantes. Tenho ideias espalhadas numa cabeça lúcida, tão lúcida que me assusta. Acredito que a lucidez pode levar à loucura. Entre os dois estados me tento manter para que a sobrevivência seja possível e saudável.

Estou óptimo, não te assustes. Fui ler o texto acima e pareceu-me deprimente. Não o é. Partilho um estado de alma, se me permites. Coisas de gajo sem mais nada para fazer.

Vou ver o vento.
Um beijo.
A.

16.6.09

PARTO ORGÁSTICO

Foi em casa, dentro de água, que Amber Hartnell deu à luz. Ria e chorava. O parto durou doze horas, oito das quais em estado de êxtase. Vagas orgásticas acompanharam a mulher que afirma nunca ter tido um prazer tão forte. Não fez preparação para o acto mas pratica ioga e meditação para que o corpo permaneça aberto e flexível.

Esta mãe figura no documentário “orgasmic birth” projectado no mundo inteiro. As reacções são diversas, entre o horror e a admiração, há quem se pronuncie contra o prazer no acto de parir. O corpo deve abandonar-se o mais possível para que o sofrimento menorize mas, defendem alguns, quem tem orgasmos no parto deve ir ao médico. Chegam-se a fazer afirmações do tipo: “não gostaria de pensar que a minha mãe gozou ao dar-me à luz”.

Amber tem recebido inúmeras mensagens de grávidas que pensam mudar os seus planos de parto após terem visto o documentário. Muitas mulheres garantem ter tido orgasmos durante o trabalho de parto em casa. Trata-se de um parto não assistido, natural, sem medicamentos nem anestesias químicas. Só neste ambiente as mulheres podem atingir o êxtase porque é necessário um clima de tranquilidade que transmita segurança, sem interrupções, como quando se faz amor. A cada esforço de expulsão, a pressão da cabeça do bebé pode provocar sensação inesperada de excitação sexual, explica Sheila Kitzinger, guru britânica do nascimento.

Afirma ainda a realizadora do documentário, Debra Pascali Bonaro que a capacidade da mulher sentir um prazer físico intenso é o “segredo mais bem guardado de sempre”. Parece que dar à luz não é assim tão diferente de ter relações sexuais, defende mestra de parteiras na Universidade do Vale do Tamisa.

Experiências de êxtase em momentos que se espera serem de dor baralham referências. A ideia de um orgasmo no parto confunde modelos culturais e comportamentais. Não me parece abusivo afirmar que a natureza presenteia as que, em atitude paralela, vivem momentos únicos.

15.6.09

DEBAIXO DE OUTRO SOL


Chirico

Regressei. Dois livros lidos e muito silêncio. Voltam os dias e as noites. Sob o sol e a lua de Lisboa.

9.6.09

INTERVALO


Vou-me embora. Depois das festas, este blog volta ao movimento diário das palavras. Fica um texto magnífico. Tenho pena de não o ter escrito.

Foda-se
Millôr Fernandes (Adaptado)

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me. "Não quer sair comigo?! - então, foda-se!" "Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. "Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes? No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo: "Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça. E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"? Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor - íntimo nos lábios. E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!" Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”.

Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
E foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!

8.6.09

AFECTO


Chirico

Acreditar no que não se vê é sempre sinal de afecto.

7.6.09

Eleições

yesssssss!!

CUSPIR A MORTE


Chirico

Os que têm olhos postos no nada e percorrem ruas de uma cidade pouco vivida. Os que vivem como se o amanhã não fosse e o ontem não tivesse existido. Não te deixes ir com eles, não adormeças no formigueiro dos que se entregam à vida gelatinosa que subsiste nas veias cansadas dos que morrem a caminho, dos que não respiram a literatura, não ouvem a música e pensam em si como coisa feita.
Não te deixes morrer à espera do fim, da noite sem conteúdo ou do dia sem tempero. Grita. Esfrega a alma nas costas. Levanta-te. Carrega a abundância das perguntas, dos relatos, das palavras e dos bolos cheios de recheio de chocolate negro.
Não te deixes ir com eles, não cales, não adormeças na matéria, não te afogues em mentiras. Olha, deita a língua para fora, troça do imbecil que quer ser imbecil, ri-te do tolo que quer ser tolo, ignora o estúpido que faz gala em ser estúpido. Caminha com as costas direitas.
Não te deixes morrer no tédio. Não te afundes. Faz dos braços instrumentos de boa empreitada.
Quando cuspires a morte que te persegue e o pó que te invade, perceberás a urgência do grito e do espanto.
Os que têm olhos postos no nada e percorrem ruas de uma cidade pouco vivida, os que estão como se o amanhã não fosse, os que morrem vivos, os que comem pão endurecido pela raiva, os que mastigam palavras usadas, os que se curvam ao vulgar dos gestos, os que vomitam tristezas, os que correm atrás de tudo o que se não pensa, os que não riem de nada, os que se gabam da desgraça, os que fazem pouca ginástica, os que pouco querem, os que pouco são, os que pouco pensam, os que pouco pensam. A todos desejo o que se não vê, por impedimento ou distracção.

4.6.09

3.6.09

36 - GIORGIO DE CHIRICO



Após estudar na Grécia e em Munique instala-se em Paris, onde estabelece fortes relações de amizade com Apollinaire. No início dos anos 20, a sua obra obtém um êxito considerável nos meios vanguardistas. Em 1925, participa na primeira exposição surrealista. Posteriormente, e para surpresa geral, exalta-se por um academismo vácuo que cultiva durante o resto da sua longa vida.
A pintura metafísica de Giorgio de Chirico antecipa elementos que aparecem depois na pintura surrealista: padrões arquitectónicos, grandes espaços nus, manequins anónimos e ambientes oníricos. Do dadaísmo, os pintores surrealistas e, com eles, De Chirico, herdam directamente as atitudes destrutivas e niilistas. O que o próprio artista qualifica de «pintura metafísica» corresponde à necessidade de sonho, de mistério e de erotismo próprios do surrealismo. E assim, desde que este movimento vê a luz, a obra de De Chirico conhece um êxito considerável.