15.1.10

ARTE E ÉTICA


Helen Frankenthaler

"A arte é ética na medida em que desperta. Mas o que sucede quando actua em sentido contrário? "

Thomas Mann; A Montanha Mágica

14.1.10

HUMANIDADE


Helen Frankenthaler

"Explico-lhe resumidamente. A Liga para a organização do progresso, partindo da teoria evolucionista de Darwin, desenvolveu a tese filosófica de que a vocação mais natural e intrínseca da humanidade, se traduz no seu próprio aperfeiçoamento"

Thomas Mann; A Montanha Mágica

12.1.10

MEU OBJECTO (1)


Há também os que têm de ser nossos por causa de pessoas que, com amor, encontram forma bonita de nos dizer muitas coisas.

11.1.10

MEU OBJECTO


Escolhi-o há muito.Numa sala cheia de quadros e a vontade de trazer um para casa. Morte. Talvez mulheres que morrem. Pessoas em diálogo. Corpos em movimento. Troncos de árvores que existiram.
Vejo-o todos os dias, do lugar onde me sento. Olho-o e descubro-o. Há objectos criados só para nossa pertença.

9.1.10

VOU


Vou enfiar-me dentro de um caixote com rodas e tampa. de um caixote com rodas e t

8.1.10

OS ESTÚPIDOS


A ignorância dos que nada vêem. Para além da cadeira onde se sentam e do bife que comem, só existe entendimento para a visão, sempre nítida, do óbvio. Resta a soberba que advém dos muitos vazios por preencher.

7.1.10

OS ARROGANTES


A arrogância dos lúcidos solitários, dos que não vão no rebanho porque não querem. Simples. Não querem. Serão estranhos ao lugar comum que ocupam os estúpidos. Depois, a recusa da burrice, é tida como vaidade.

6.1.10

OS QUE SOBEM

Quem percorre caminhos de entendimento e sensibilidade, encontra na vida a parede a que se encosta. Quem pega no corpo para gritar e fazer das pernas, instrumento de corrida, acaba no mundo da incompreensão. Fugir à ignorância é perigoso. Fica-se lúcido até ao lugar da solidão. Depois riem, riem muito porque a estupidez não chega para alcançar os caminhos da clarividência.

5.1.10

SOZINHOS


Os que, com a verdade vivem, restam sós. Ninguém a quer. Foge-se das coisas difíceis porque não se cresceu ao ponto de entender que são elas as que importam.

4.1.10

O INCÓMODO DA VERDADE


Aquilo que deveria ser entendido como prioridade é posto de lado, como sarna nojenta a que alguns se apegam para incomodar outros. A verdade, a estúpida verdade que afronta os incompetentes, os mentirosos, os hipócritas e os cobardes.
Dias cheios de verdade na garganta. Olhar de soslaio para quem a diz. As palavras servem para dizer, para pôr na mesa o que acontece, para mexer nos dias dos que fazem pouco mais que fingir. Andamos todos a fingir. Fingimos que somos felizes, fingimos que temos dinheiro, fingimos que a paz é real e fingimos que trabalhamos. Curioso: todos sabemos dos fingimentos uns dos outros e todos continuamos debaixo da mesa, à procura da verdade que não dizemos.E quando a hora chega, quando a garganta traz para fora a verdade que se esconde, todos olham para quem a diz, como se a pecar estivesse. Cambada.

3.1.10

NÃO QUERO TER TEMPO


Aos que reclamam o tempo que escolhem não ter. Amigos longe porque o tempo não chega para o abraço. Família a correr porque o tempo não dá para jantar. Colegas em intervalos, divididos entre o café, o cigarro e o xixi rápido antes de entrar em sala. Alunos a correr porque o tempo é curto para explicar com calma a matéria da semana passada.
O tempo… a merda do tempo que escolho não ter, que prefiro encurtar em caminhos para lugar nenhum.
Quando me sento para parar? Quando entenderei a não existência de um contínuo movimento da consciência que não aquieta?
Quando for velha saberei integrar que o tempo é, por demais, pequeno. Depois será tarde. É mentira que não tenho tempo. A verdade, a minha verdade, é que não quero tê-lo!

2.1.10

EM CASA


Hoje fico em casa.Estou numa espécie de paragem.
As coisas clarificam-se.
Os dias vão distinguindo o que é e o que não é.
Salto para domínios desconhecidos.
Ficar quieta e perceber que a transformação vem.
Não vou interpretar os silêncios.
A vida está aí para se viver.
Sou desconexa, principalmente antes do banho da manhã.

31.12.09

BOA NOITE


Parece que o ano está a acabar. Um dia vou entender o verdadeiro sentido disso. É o mesmo que acabar um dia, uma noite, um qualquer período de tempo em que se vive.
Feliz 2010.

MÃE



Mãe;
Vê a tradução do video. É para ti. Bom Ano minha rainha.

FILHA



Filha;
Deixo a música que te dedico. Sempre. Pratica o teu espanhol com as legendas :) Feliz 2010 minha princesa.

30.12.09

CAMINHO



Contente viagem de parágrafos. Dois anos.
É preciso dobrar o grito. Para que conste. Ainda que a ninguém.

29.12.09

A VALSINHA E AS SAUDADES


Por esta altura, entre as filhós do Natal e o Champanhe do Ano Novo, íamos sempre jantar fora. Perto um do outro, saudades do Brasil e dos amigos, dizias: "Os Brasileiros são Portugueses à solta". Depois erguias o copo de vinho tinto e punhas o sorriso infantil de sempre. Saudades, muitas saudades. Por tua causa, este blogue comemora dois anos de existência amanhã. Obrigada, mais uma vez.



Chico Buarque. Valsinha.

28.12.09

ACTUALIZAR

Passou, a longa lista de ligações, a pequena lista de essenciais. A modernice dos Feeds proporciona uma certa forma de limpeza visual.

26.12.09

I Won't Dance



Regressar a Lisboa. Verificar se tudo o que deixei continua alinhado.

25.12.09

DIA


Levantar tarde no Dia De Natal é o melhor presente que o Céu me envia.



I Dreamin of A White Christmas

24.12.09

FELIZ NATAL


Cheguei a um destino perto de mim. Agora estou ao pé das coisas quentes e das pessoas vivas.
Bom Natal para todos.



Robbie Williams Merry Christmas

23.12.09

Hoje vou-me embora. O Menino Jesus mandou dizer ao Pai Natal que me avisasse sobre as viagens perigosas. Recebi o recado e pus-me ao caminho.

22.12.09

Um dia, a mulher adormeceu em frente ao lume. Quando, de manhã, olhou as cinzas, pensou estar morta. Num lugar longínquo, perto de outros egos queimados e postos em jardins com relva.

21.12.09

Era uma vez uma mulher. Tinha tão imensa consciência de si que não conseguia olhar-se ao espelho com seriedade. Ficava-lhe amargo gosto a ego encarcerado. Na semana do Natal, enfeitava a casa com convicção. Depois sentava-se à lareira, à espera que as chamas consumissem a solidão.

18.12.09

Fim-de-semana em rampa de lançamento. Dedos quietos nas teclas do computador. Congelou-se-me a possibilidade de aglomerar letras. Estão todas no Centro Comercial, em sacos com estrelinhas e embrulhos com lacinhos.

17.12.09

Os dias, no mês de Dezembro, não são frios por causa da temperatura. São gélidos, por causa dos que os não vivem.

16.12.09

As noites, no mês de Dezembro, não são frias por causa da temperatura. São gélidas por causa dos que as não vêem.

15.12.09

14.12.09

PORQUE PARECE

Parece que estamos a caminhar para o fundo do poço. Parece que as contas públicas estão na lama. Parece que a dívida externa aumenta todos os dias. Parece que a educação vai de mal a pior. Parece que a saúde continua nas ruas da amargura. Parece que a taxa de desemprego evolui para números por demais escandalosos. Parece que as crianças continuam a ser maltratadas. Parece que as mulheres não têm os mesmos direitos dos homens. Parece que a violência doméstica alastra. Parece que os alunos continuam a desrespeitar professores. Parece que os pais se demitem e os filhos trepam. Parece que a vida Portuguesa é pequena. Parece que as adolescentes engravidam sem quererem. Parece que o dinheiro não chega. Parece que o mundo anda em guerra. Parece que todos ignoramos o que vemos e ouvimos. E as compras de Natal continuam...

13.12.09

Depois veio a mãe pôr água na fervura e dar beijinhos de compensação. Daqueles que sabem a falso.

12.12.09

O menino segurava o presente com tanta força que desabou em pranto, quando o pai lhe disse que não podia desembrulhá-lo ainda.

11.12.09

Lá vou eu ver se as botas novas podem ser compradas para o dia em que o Pai Natal anda ocupado e o Menino Jesus dorme até tarde.

10.12.09

A minha filha já viaja à frente. Parece uma pequena mulher com sonhos dos que se não comem. Na noite de Natal agarra no escuro com a esperança contida de o poder esmagar, junto à estrela do presépio.

9.12.09

A minha mãe costuma dizer-me que a vida é difícil. Tem razão. Na época do Natal lembro-me sempre das razões da minha mãe.

8.12.09

Ontem deitei-me com dores nas costas. Os sacos que não trouxe da loja fizeram-me lembrar os dias em que os carrego sem prazer.

7.12.09

Sentei-me num degrau. As mulheres carregam sacos e cansaço. O bacalhau está mais caro este ano. A consoada continua a ser penosa para elas.

6.12.09

O Pai Natal este ano está mais magro. Disse-me, outro dia, que andava cansado dos meninos que faziam birras.

5.12.09

O S. José também ficou na loja. Perto dos outros brinquedos que não interessam por não brilharem.

4.12.09

Há dias em que me sento no carro de frente para o povo que passa. Trazem as bolinhas na mão para colocar na Árvore de Natal. Esquecem-se sempre da Nossa Senhora.

3.12.09

Agora é aguentar tudo com calma. Pôr as mãos no colo e esperar que a embriaguez passe.

2.12.09

Ter de viver entre ocupadas cabeças e corpos em desassossego por estarem atrasados para as compras.

1.12.09

Começou o mês do Natal. A época das gentes em azáfama. Os dias de fila para a alienação. As noites com pacotes aglomerados perto de um Menino Jesus esquecido durante o ano inteiro e mal lembrado em Dezembro.

30.11.09

BOAS SENSAÇÕES


Helen Frankenthaler

Dormi muito. Tive a sensação de que o Natal já tinha passado.

28.11.09

LIMPEZA


Vou para a banheira para ver se a água me limpa contradições.

27.11.09

COISAS QUE A GENTE VIVE

As coisas que a gente vive ficam na carne cravadas. São frases e gestos e gostos e cores e corpo e alma e espera e grito e morte e canto e sono e tempo e espaço e gente e cheiro e tudo o que, aqui, se grava em forma de cravo enterrado bem dentro.

26.11.09

SABEDORIA BUDISTA


Helen Frankenthaler

"De acordo com a sabedoria de Buda, podemos na verdade utilizar as nossas vidas para nos prepararmos para a morte, sem precisarmos de esperar pelo falecimento doloroso de alguém que se encontre perto de nós, ou pelo choque de uma doença terminal para começarmos a olhar para as nossas próprias vidas."

O Livro Tibetano da Vida e da Morte; Sogyal Rinpoche

25.11.09

VERDADE

Era uma vez uma mulher que dizia sempre a verdade e era infeliz.

24.11.09

PERCURSOS



Continua no percurso pelas ruas de Lisboa. Gente nova com saudade e destino no corpo. Vozes. Escadinhas da Mouraria e a nostalgia do tempo em que ia aos fados de mão dada com o meu pai. Sentava-me à mesa e não entendia por que razão viajavam para ouvir a guitarra. Hoje espanto-me e arrepio-me. Coisas da idade que chega.

23.11.09

MAXIME




Hoje vou ao lugar das memórias. Ali perto do Parque Mayer, onde foste profissional atento, onde viveste acima do tempo e do espaço.

22.11.09

DOBRAS E GRITOS (38)

Casamento, união de facto, união sem ser de facto, contrato, consentimento, divisão de espaço e tempo, partilha de corpo e alma, troca de fluidos, mistura de afectos. Chamem-lhe o que quiserem, o que der mais jeito, o que for mais conveniente, o que ficar melhor na fotografia, o que convier aos dois, o que for aceite no registo civil mas… por favor, parem de meter o bedelho na vida pessoal e íntima de cidadãos que trabalham, pagam impostos e têm direitos. O estado não pode intrometer-se na cama das pessoas, a igreja não tem que opinar sobre a intimidade de cada um. Ainda não entendi por que razão o casamento entre pessoas do mesmo sexo é assunto. Legalizem o que há para legalizar. É a igualdade que está em causa. Esperam o quê?

21.11.09

MATILDE


Robert Doisneau

Vamos embora, Matilde. A mãe disse que precisava da nossa ajuda. Amanhã voltamos com as nossas rodas e os nossos anseios.

19.11.09

MATERIAIS DIVERSOS

"É um grito no topo da serra mas adora o silêncio dos espectáculos"

Festival de Artes Performativas que cruza espectáculos internacionais com espectáculos nacionais. A música é o fio condutor que os une. Tiago Guedes respondeu ao convite da Câmara Municipal de Alcanena. O Festival aí está, para começar hoje e continuar por 10 dias.



Em Minde, o espaço de tertúlia pós espectáculo, denuncia bela ideia e exótico sentido estético. Lugar para conversas com loiça preenchida de aroma e música. Tempo de encontro entre os que olham e os que expõem, expondo-se.
Convite aos afectos por causa da música. Ela é lugar de desejos. Sempre.

17.11.09

GENTE PEQUENA


Robert Doisneau

Lá vão eles, com os sonhos inteiros. Gente pequena à procura da vida que tarda em chegar. Nem a chuva impede percursos, nem o sol impede olhares. Gente pequena. Com o futuro todo no bolso.

16.11.09

SEM VIDRO


Roberto Doisneau

Esta semana encontro-me com veias artísticas. Sem vidro que separe pensamentos.

13.11.09

COISAS EFÉMERAS


Amadeo Modigliani

Abriu-se a porta da casa por detrás das árvores. Entraram como em todos os outros dias. Silenciosos. Os móveis continuavam à espera das pessoas. As pessoas tinham interrompido a espera. Coisas tontas e efémeras.

12.11.09

DEPOIS DA ESPERA


Amadeo Modigliani

Ele voltou depois. Quando a espera tinha acabado. Ela ficou quieta. Porque os músculos não responderam aos desejos e os desejos não responderam aos conhecimentos e os conhecimentos não responderam aos apelos e os apelos calaram, dentro de todos os músculos.

11.11.09

ESPERA


Amadeo Modigliani

Ela esperou por ele. Até ao dia em que percebeu que, esperas, travam conhecimentos.

10.11.09

O BERRO DA TIRA DE PANO


Amadeo Modigliani

A gravata berra de raiva. Porque ainda não disse nada que se ouvisse. Esperneia no pescoço de quem não a entende. Barafusta no corpo de quem a quer perfeita. Ela não quer ser perfeita. Não quer ser mais que tira de pano para engraxar sapatos.

9.11.09

VESTIDO


Amadeo Modigliani

Corpo vestido. Depois. Quando as mãos deixaram de encontrar nudez. Depois. Quando os pés pisaram chão coberto de afazeres.

8.11.09

ESPAÇO


Amadeo Modigliani

Espaço onde todas as células encontram contentamento.

7.11.09

MAIS POESIA


Amadeo Modigliani

- Aquele CD de jazz que compraste ontem?
- Está ali.
- Vai colocá-lo, por favor.
- Interrompes para isso?
- É necessário.
- Necessário?
- Absolutamente. Orgasmo com poesia!

5.11.09

BELA


Amadeo Modigliani

Preguiça bela. Quando os dias estão cheios de corpo.

3.11.09

FESTA EM DIA DE FINADOS


Era o dia do fim da quadragésima semana de gravidez:
- 2 De Novembro, doutor?
- Que tem?
- Não, por favor, se eu puder escolher, não quero que o bebé nasça no dia dos mortos.
- Mas que superstição é essa minha senhora?
- Eu não sou supersticiosa, até porque acho que isso dá azar, mas filho meu a nascer em dia de finados é que não.
- Julga que a criança vai ficar triste com isso?
- De forma nenhuma, doutor, só não quero passar o resto da vida entre festas de aniversário e visitas ao cemitério!!

2.11.09

MONÓLOGO JUNTO À MINA


António Eça de Queiroz

Um amigo do Norte, companheiro de palavras publicadas, cúmplice em almoços com gente gira, fez o favor de aceitar um convite: escrever na Dobra Do Grito, com pintura incluída. Obrigada, António.

Bom, vejo que finalmente a encontraste – um bocado à sorte, diga-se de passagem...E que vais fazer agora, pode-se saber? Ou não saberás ainda?...
Não sei, não. Realmente não sei. Pergunto-me se valerá a pena – aliás pergunto-me mesmo se algo vale a pena. Já pensei em fazer aqui uma horta e montar guarda.
Como um cão?!... Essa é boa! Andaste anos ao acaso das passagens em redor da entrada, fizeste cálculos de pêndulo e astrolábio, correste perigos, rugiste de ira no breve desalento, uivaste de alegria na falsa descoberta... E agora que te falta um passo, um único, não vais entrar?... Não te move sequer um pouco de curiosidade? – se esconde tesouros, ou até segredos caros ao universo? Se assim é para quê avançar tanto no caminho, tão cheio da segura insegurança que anima a alma dos aventureiros? Porque não fizeste logo a tua horta e por lá não te ficaste, junto aos teus amigos pássaros, à salsa e à hortelã? Ninguém te empurrou de lá para fora!...
Tive de facto curiosidade. E o acaso, dizem os que crêem, é uma das divinas manhas...
E agora...
É.
Enganaste-te outra vez, meu caro: não é.

António Eça de Queiroz

1.11.09

FESTIVAL


O Festival Materiais Diversos decorrerá de 19 e 29 de Novembro em Alcanena, Minde e Torres Novas.Com a direcção artística de Tiago Guedes, será um festival pluridisciplinar (dança, teatro, música e performance) e apresentará uma programação internacional, nacional e local.O coreógrafo Raimund Hoghe já confirmou a sua presença tal como Eszter Salamon, o Rancho do Covão do Coelho, Jonathan Burrows, Karine Decorne e Simon Proffit, Tânia Carvalho, Margarida Mestre, Filipa Francisco, Joana Barrios, Martim Pedroso, Cláudia Gaiolas que encenará o grupo de teatro Boca de Cena, Cão Solteiro e Vasco Araújo, Inês Jacques e Eduardo Raon com Xaral's Band!

O Festival Materiais Diversos é financiado pelo MC/DGArtes, pela Câmara Municipal de Alcanena e pela REN.
É um evento integrado no Ano Europeu da Criatividade e Inovação.

29.10.09

O DIA



O dia da enorme mudança. Hora de começar a ser mãe. Coisa grande e infinita que, para sempre, marca o corpo e tudo o que a alma tem. Feliz Aniversário, filha.


28.10.09

FALTA DE ASSUNTO


Já cá não está quem dizia, à mesa de um restaurante na Elias Garcia: "nada pior que a falta de assunto". Pois é. Com tanta coisa para escrever e pensar, há semanas em que o corpo impede o raciocínio. Vem uma preguiça mole e viscosa que atrofia os músculos e os neurónios. Depois, dá-se a triste realidade da busca de tema que não aparece. Não se vêem telejornais, os livros ficam fechados, os filmes adiam-se para mais tarde e toda a existência esbarra num abismo espiritual. Não fossem obrigações profissionais e a cama estaria ocupada todas as horas do dia.

25.10.09

DOCE IGNORÂNCIA


(Foto de Robert Doisneau)

Se eu não soubesse que ia morrer, se não houvesse contagem de tempo e se todos os dias fossem surpresa, hoje não saberia a minha idade, não teria conhecimento de que o processo de envelhecimento ia acontecer nem tinha a noção dos anos. Os dias sucediam-se às noites. Apenas. A vida poderia ser um perpétuo movimento marcado por instintos de sobrevivência e prazer. As pessoas viveriam em outro mundo, sem tempo contado, aceitando as rugas e os cabelos brancos com a doce indignação de uma ignorância distribuída pelo corpo todo.

24.10.09

VERDE


Foto de João Azevedo

Hoje festejam-se aniversários passados. O verde é a cor da noite e do dia. Como a eternidade dos perfumes postos depois do Tejo.

23.10.09

DO FUNDO DO MAR


Helen Frankenthaler

Vem à tona em dias de aniversário. Porque está vivo e é genuíno o desejo de dias bons. Sempre.

22.10.09

SUBSTÂNCIA


Kurt Schitters

Sempre que um ano passa olho para trás. Não para agarrar o que foi embora mas para entender o que há-de vir com maior substância.

21.10.09

"CHICO ESPERTISMO"


Foto de João Azevedo

José Gil volta a escrever sobre os Portugueses. A subjectividade perdida, os processos de subjectivação, a mais-valia do biopoder, a avaliação e a identidade. No capítulo sobre os processos de subjectivação, identifica, em Portugal, aquilo a que a linguagem popular chama o “Chico esperto”, a”esperteza saloia”, o “carapau de corrida”.

Refere o autor que o Chico espertismo é transversal a todas as classes, grupos, géneros e gerações. Desde o condutor que aproveita um espaço vago na fila e se precipita ultrapassando os outros para ganhar um ou dois lugares, até ao poderoso que aprova a lei porque lhe é conveniente. “O Chico espertismo por ser tão generalizado e penetrar tantos domínios, desliza facilmente para a corrupção e para a acção criminosa. Mas enquanto não chega aí, o Chico esperto goza do consenso conivente da maior parte da população, mesmo quando esta, publicamente o condena”.

O descaramento, a “lata” a que alguns sujeitos se apegam, a forma como o puto malandreco pega, à socapa, nos rebuçados que o pai proibiu de comer, denunciam postura típica de quem, desde cedo, perdoa a malandrice e ri da esperteza saloia do pequeno que, mais tarde, passará a perna aos outros. Que importância tem? É comum que um homem que se farta da namorada arranje o pretexto do “vamos dar um tempo” porque a verdade não é dita e é fácil o descarte. É o Chico esperto do amor, aquele que foge por via do engano e da finta amorosa.

A mentira, a aldrabice, a incapacidade de assumir responsabilidades, a dificuldade do Português em ser adulto, resvala, num ápice para o estatuto do aldrabão. O clima cada vez mais favorável ao Chico-espertismo português, explica a onda de corrupção que atravessa o nosso país. A relação do indivíduo português com a verdade de si só pode ser distorcida.

20.10.09

19.10.09

COMO MERECES


Tenho saudades tuas todos os dias. Vou lá, ao Museu do Teatro, ver se te encontro mais perto. Porque hoje era o dia dos teus anos. Almoço e café na esplanada, como mereces.

17.10.09

ÓLEO DE AMÊNDOAS

O banho foi quente. O óleo de amêndoas trazia a sensação transparente do veludo que permanecia no corpo até ao outro dia. Estendeu a toalha na varanda. Estava vento. Fechou a porta com força e saiu. O dia ia ficar bonito.

15.10.09

DEPOIS DE SALVADOR


Não recebia notícias de Salvador há alguns anos, agora a pergunta caia na saudade enterrada fazendo-a reaparecer. Com as mãos pousadas no telefone, hesitou responder, pensou ser melhor deixar o tempo dizer-lhe que o tinha esquecido. Levantou-se e foi lavar os dentes, limpar o rosto e colocar o creme de noite. Fechou o tampo da sanita e apagou as luzes do apartamento. Atravessou o corredor várias vezes, sacudiu os braços sem saber bem o que fazer. Pensou desligar o telemóvel, talvez pô-lo no silêncio. Em vez disso, escreveu: Amanhã às onze.

14.10.09

DEPOIS DO CIGARRO

Esticou todo o corpo para trás e sentiu um estalido na coluna, perto do pescoço. Rodou a cabeça devagar, para a direita e para a esquerda. Encostou-se no sofá e ouviu o piano que tocava ao longe, na aparelhagem antiga, herdada de um tempo acabado. Suspirou com garra e riu. Pousou as mãos no colo, em gesto de descanso e elevação. O telemóvel deu sinal de mensagem escrita. Olhou o pequeno monitor do aparelho e leu: Blind Date?

13.10.09

DEPOIS DO ORGASMO


Fez muitos nós pequeninos na linha que estava em cima da mesa. Enrolou-a nos dedos e brincou com ela durante longos minutos. Era o momento depois de liberta a libido, o instante em que os músculos distendem e os braços se esticam por cima da cabeça. Acendeu o isqueiro e começou a queimar a linha cheia de nós que tinha enrolado à mão esquerda. Em bolas pequenas e frágeis, ela ia encolhendo de cada vez que a chama lhe tocava. Restou uma só bolinha que caiu no cinzeiro. Luísa expirou o último sopro de cigarro e pensou: sozinha também me divirto.

12.10.09

DE VOLTA


Maurice Denis

De volta às coisas que eu gosto. Cidade e mesa tranquilas. Como nos contos do Eça.

11.10.09

SOBREVIVÊNCIA


Sobrevive-se a casamentos destes com grande sentido estético. Guardada na carteira pequena que leva os lenços, a máquina fotográfica dispara nos lugares não festivos. Para descontrair.

10.10.09

COISAS QUE ME INQUIETAM (17)


Estou num daqueles casamentos que dura, dura, dura. Os convidados não aguentam a duração e os noivos comem que nem desalmados antes da refeição principal. Absurdo.

7.10.09

ASSIM É QUE É BONITO


(Foto de Robert Doisneau)

Quando saíram do lugar dos anseios, perceberam que a vida não existe sem caminho. Em frente ao que não sabiam, os pés seguiam por ruas movediças. Porque o passado lhes permitia a crença de que eram felizes. Depois, quando a claridade chegou, fechou-se a porta dos sonhos e foram embora. Cada um seguiu ruas distintas. Porque assim é que é bonito.

6.10.09

CURTO DEPOIS



Passearam numa cidade perto da praia. Tinham viajado o tempo suficiente para entenderem a urgência de um beijo. Não sabiam que o depois era curto.

5.10.09

COISAS BONITAS E MORTAS


(Foto André Kertész)

Há 18 anos houve um casamento. A terra pequena acolheu o noivo que vinha de fora. A noiva estava à espera, numa igreja bonita, com um vestido bonito, convidados bonitos e flores bonitas. Naquele dia ninguém sabia que a beleza é efémera. Depois foram embora, num carro bonito, com sentimentos bonitos e esperanças bonitas. E a beleza acabou, quando todos perceberam a inquietude que suscitam as profundas convicções.

3.10.09

A PROPÓSITO DE MONÓLOGOS


Fernand Léger

A propósito do post anterior, diria que monólogos são conversas que, de solitárias só têm o nome. Olhamos para o eu de frente, por entre as janelas. Se fechadas, as palavras devolvem o medo. Quando abertas, soltam-se em bandos que voam para fora, como se nunca tivessem sido nossas.

2.10.09

MONÓLOGO DA VAGINA EMBRIAGADA


Fernand Léger

Uma mulher bonita e elegante sai de um bar com uma enorme bebedeira.
Caminha em direcção do seu automóvel, um BMW novíssimo e, com a chave, tenta abrir a porta mas o seu estado alcoólico não o permite.
Quando se baixa um pouco para se aproximar da fechadura acaba por cair e ficar sentada de pernas abertas ao lado da porta.
Desesperada com a situação, olha para baixo e reparando que não tem cuecas começa a falar com a sua própria vagina:
- Tu pagaste o carro... tu pagaste as jóias... tu dás-me tanto dinheiro.... tu permites que escolha o homem que me apetecer...tu pagas a casa que comprei... tu...
De repente começa a fazer xixi e diz:
- Não precisas de chorar que eu não estou zangada contigo!