20.1.10
19.1.10
18.1.10
IRA

Paul Klee
No âmago de cada frustração, encontramos sempre uma estrutura básica: o choque de um desejo com uma realidade inflexível.
Séneca conhecia um homem rico, Védio Pólio, um amigo do imperador Augusto, que tinha um escravo que numa festa deixou cair um tabuleiro com taças de cristal. Védio detestava o som do vidro a partir-se e ficou tão furioso que ordenou que o escravo fosse atirado a um tanque de lampreias.
Védio Pólio estava furioso por uma razão identificável: porque acreditava num mundo em que os copos não se partem nas festas.
Gritamos quando não conseguimos encontrar o comando da televisão, por causa de uma crença implícita num mundo em que os comandos não se perdem.
Séneca conhecia um homem rico, Védio Pólio, um amigo do imperador Augusto, que tinha um escravo que numa festa deixou cair um tabuleiro com taças de cristal. Védio detestava o som do vidro a partir-se e ficou tão furioso que ordenou que o escravo fosse atirado a um tanque de lampreias.
Védio Pólio estava furioso por uma razão identificável: porque acreditava num mundo em que os copos não se partem nas festas.
Gritamos quando não conseguimos encontrar o comando da televisão, por causa de uma crença implícita num mundo em que os comandos não se perdem.
A reconciliação com as inevitáveis imperfeições da existência é um caminho.
17.1.10
A MORTE QUE TODOS PROCURAM
Entre o estar e o ser. No acto profundo de um momento solitário. Quando, em êxtase, o grito encontra o silêncio e o corpo acontece. Nada na alma subsiste. Cigarro.
16.1.10
PERGUNTA CORRECTA
15.1.10
ARTE E ÉTICA
14.1.10
HUMANIDADE
13.1.10
12.1.10
MEU OBJECTO (1)
Há também os que têm de ser nossos por causa de pessoas que, com amor, encontram forma bonita de nos dizer muitas coisas.
11.1.10
MEU OBJECTO
Escolhi-o há muito.Numa sala cheia de quadros e a vontade de trazer um para casa. Morte. Talvez mulheres que morrem. Pessoas em diálogo. Corpos em movimento. Troncos de árvores que existiram.
Vejo-o todos os dias, do lugar onde me sento. Olho-o e descubro-o. Há objectos criados só para nossa pertença.
9.1.10
8.1.10
OS ESTÚPIDOS
A ignorância dos que nada vêem. Para além da cadeira onde se sentam e do bife que comem, só existe entendimento para a visão, sempre nítida, do óbvio. Resta a soberba que advém dos muitos vazios por preencher.
7.1.10
OS ARROGANTES
A arrogância dos lúcidos solitários, dos que não vão no rebanho porque não querem. Simples. Não querem. Serão estranhos ao lugar comum que ocupam os estúpidos. Depois, a recusa da burrice, é tida como vaidade.
6.1.10
OS QUE SOBEM
Quem percorre caminhos de entendimento e sensibilidade, encontra na vida a parede a que se encosta. Quem pega no corpo para gritar e fazer das pernas, instrumento de corrida, acaba no mundo da incompreensão. Fugir à ignorância é perigoso. Fica-se lúcido até ao lugar da solidão. Depois riem, riem muito porque a estupidez não chega para alcançar os caminhos da clarividência.
5.1.10
SOZINHOS
Os que, com a verdade vivem, restam sós. Ninguém a quer. Foge-se das coisas difíceis porque não se cresceu ao ponto de entender que são elas as que importam.
4.1.10
O INCÓMODO DA VERDADE
Aquilo que deveria ser entendido como prioridade é posto de lado, como sarna nojenta a que alguns se apegam para incomodar outros. A verdade, a estúpida verdade que afronta os incompetentes, os mentirosos, os hipócritas e os cobardes.
Dias cheios de verdade na garganta. Olhar de soslaio para quem a diz. As palavras servem para dizer, para pôr na mesa o que acontece, para mexer nos dias dos que fazem pouco mais que fingir. Andamos todos a fingir. Fingimos que somos felizes, fingimos que temos dinheiro, fingimos que a paz é real e fingimos que trabalhamos. Curioso: todos sabemos dos fingimentos uns dos outros e todos continuamos debaixo da mesa, à procura da verdade que não dizemos.E quando a hora chega, quando a garganta traz para fora a verdade que se esconde, todos olham para quem a diz, como se a pecar estivesse. Cambada.
3.1.10
NÃO QUERO TER TEMPO
Aos que reclamam o tempo que escolhem não ter. Amigos longe porque o tempo não chega para o abraço. Família a correr porque o tempo não dá para jantar. Colegas em intervalos, divididos entre o café, o cigarro e o xixi rápido antes de entrar em sala. Alunos a correr porque o tempo é curto para explicar com calma a matéria da semana passada.
O tempo… a merda do tempo que escolho não ter, que prefiro encurtar em caminhos para lugar nenhum.
Quando me sento para parar? Quando entenderei a não existência de um contínuo movimento da consciência que não aquieta?
Quando for velha saberei integrar que o tempo é, por demais, pequeno. Depois será tarde. É mentira que não tenho tempo. A verdade, a minha verdade, é que não quero tê-lo!
2.1.10
EM CASA
Hoje fico em casa.Estou numa espécie de paragem.
As coisas clarificam-se.
Os dias vão distinguindo o que é e o que não é.
Salto para domínios desconhecidos.
Ficar quieta e perceber que a transformação vem.
Não vou interpretar os silêncios.
A vida está aí para se viver.
Sou desconexa, principalmente antes do banho da manhã.
As coisas clarificam-se.
Os dias vão distinguindo o que é e o que não é.
Salto para domínios desconhecidos.
Ficar quieta e perceber que a transformação vem.
Não vou interpretar os silêncios.
A vida está aí para se viver.
Sou desconexa, principalmente antes do banho da manhã.
1.1.10
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