18.3.10
ATRÁS DA PORTA
16.3.10
A DANÇA
Só dança quem tem pés e pernas e braços e contentamento. Só dança quem voa mais alto que os pássaros. Só dança quem usa as palavras para agir. Só dança quem pede ao espírito que acompanhe os pés e as pernas e os braços e o contentamento. Os outros, os que não tiram os pés do chão, ficam parados no espaço e no tempo que nunca construíram. Porque nunca quiseram dançar.
15.3.10
BRUTA
Chegou a casa com vontade de abrir o dicionário de sinónimos que, em tempos, lhe ensinaram ser útil para construir textos. Tinham usado a palavra bruta. Sentou-se no jantar do bacalhau, do queijo, do tomate cherry, da mousse de limão e do creme de chocolate branco. Sabia que a palavra era dura, negra, fria.
Abriu o dicionário na página da letra B e confirmou: animal, besta, fera. Respirou. Sabia que as palavras são objectos inanimados que tomam forma quando as usamos. Nada de grave. Em frente às azeitonas pretas que comeu sem parar estava a forma viva de todas as letras que se disseram sem dicionário, as mais puras e as mais limpas. Nem bruta, nem animal, nem besta nem fera. Aquilo que o ser lhe dizia fazer sentido. Apenas.
14.3.10
DEPOIS DA BONECA
Colocou o cinzeiro no lugar. A cinza do dia anterior espalhou-se em cima da mesa. O vidro ficou cinzento e Luísa rangeu os dentes de raiva. Limpou tudo e percebeu que era a boneca de ontem que devia estar ali, não fosse a imaginação ter feito das suas.
13.3.10
A BONECA
12.3.10
FDS
11.3.10
FADIGA

Max Weber
Foi à casa de banho, fez xixi, lavou as mãos, subiu a escada, desceu a escada, voltou ao piso da informática, colocou o Power Point, falou de religião, fez a chamada, fechou a porta, escreveu no quadro e apagou tudo a seguir. Pegou no carro, chegou a casa, despiu a roupa, fez o jantar, viu o blogue, leu, conversou, viu as notícias, comeu, lavou os pratos, tomou banho, lavou os dentes, colocou creme nas pernas e nos braços. Depois descansou.
10.3.10
FRENTE AO MURO

"Os homens para comunicar uns com os outros, usam normalmente a palavra, mas as palavras nunca poderão exprimir a verdade pura. Temos de ir mais além, de transcender o dualismo palavra - realidade. Assim, temos de usar as palavras sem nos tornarmos escravos delas. Porque por mais elevadas que sejam, as palavras são apenas símbolos, descrições e nunca coisa em si. Para atingir a coisa em si, as palavras - esses ruídos da mente -devem morrer. E quando elas morrem surge o silêncio."
NOVO ROMANCE
9.3.10
PSEUDO-VIDA

“Se olharmos bem para as nossas vidas, acabaremos por ver com clareza quantas tarefas – sem qualquer importância e a que chamamos ‘responsabilidades’ – se acumulam até não haver espaço para mais nada. Um mestre compara-as a ‘obrigações domésticas num sonho’. Dizemos a nós mesmos que queremos dedicar algum tempo às coisas importantes da vida… mas nunca há oportunidade para isso.
Temos muito que fazer, mesmo quando nos levantamos, logo de manhã: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, lavar os dentes, dar de comer ao cão ou ao gato, lavar a loiça da noite anterior, descobrir que se acabou o café ou o açúcar, sair para os comprar, preparar o pequeno almoço… A lista é infindável. Depois temos que separar as roupas, escolhê-las, passá-las a ferro e dobrá-las. E os cabelos, e a maquilhagem?
Impotentes, vemos os nossos dias preenchidos em conversas telefónicas e projectos fúteis, vemos tantas ‘responsabilidades’, ou seria melhor chamar-lhes ‘irresponsabilidades?”
Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da Morte.
8.3.10
FICA AQUI

Juarez Machado
6.3.10
5.3.10
O QUE NÃO SE ESQUECE
4.3.10
3.3.10
2.3.10
OBJECTOS QUE IMPORTAM

As mesas são importantes porque é nelas que o nosso corpo se encosta para comer e isso faz com que a morte venha mais tarde. As mesas são objectos de criação porque é em cima delas que se escreve e que se vive. Repare-se num prato de massa fresca em cima de uma mesa de madeira antiga. A massa fica diferente se a colocarmos no mesmo prato em cima de uma mesa de vidro, de mármore ou de verga. O lugar onde se pousa o objecto é tão importante quanto o lugar onde se colocam os pés. São os lugares da nossa história, quer queiramos quer não.
1.3.10
AJUDA
27.2.10
21.2.10
PARIDADE
20.2.10
CONSCIÊNCIA
19.2.10
EM CASA COM PAULA REGO
18.2.10
PÉS QUIETOS
Lembro-me da noite em que explicou a razão de ser do espaço e do tempo. Tinha um copo de vinho na mão e, enquanto as frases se soltavam da boca, todo o conhecimento se desprendia do lugar onde estava arrumado. Tem o conhecimento arrumado em gavetas e, de vez em quando, abre uma a uma sem nunca misturar o que nelas está guardado. É fantástico olhar para os seus pés, firmes no chão da sala, enquanto as frases se constroem sozinhas por causa do seu pensamento.
A lucidez com que fala é parecida com a transparência da água num copo de cristal. Os pés estão sempre lado a lado, em cima de um chão que conhece e que percorre enquanto não fala. Está sempre sentado quando usa palavras. É impressionante. Parece que quer que elas se movam só numa direcção, por isso se mantém quieto com os pés.
17.2.10
AMOR EM ESTADO ADULTO
Fazem da vida, material de conhecimento, da cama, lugar de combate; da mesa fazem lugar de palavras e da estrada lugar de procura. Entendem a existência como coisa individual, tempo de estar consigo para poder estar com o outro. Nas noites em que, longe, sentem o desejo perto, telefonam para o transformar em corpo. Quando os olhos se vêem, tudo o que viveram sozinhos é motivo de troca, de riso e de contentamento.
Não querem saber se é casamento, namoro, encontro ou outra qualquer designação definidora de coisa superior. Isso. Coisa superior, vivida sem a limitação do outro, sem juízo de valor ou pergunta pateta. Coisa que, apenas quem ama em estado adulto consegue viver.
16.2.10
14.2.10
DEPOIS
Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa séria. Depois das ondas do mar, depois da marginal percorrida, depois das noites frias e da areia molhada, depois do suspiro e depois de tudo o que o amor permite que seja e que aconteça.
(Lou Reed; Perfect Day)
13.2.10
ONTEM HOJE E AMANHÃ
Eu era muito pequena. Na rua estreita vivia, no final de uma descida íngreme e sombria, uma vizinha que passava os dias com a mãe atrás de um balcão cheio de tarecos. Eram tachos, canecas, pratos, bonecas, talheres, vassouras, piaçabas e tampas de sanita ao pé de baldes. Era a minha vizinha das músicas, das letras e das brincadeiras no degrau de pedra baixinho onde me sentava para cantar. Eu usava bibe às riscas para não sujar o fato domingueiro. Ligávamos o rádio perto do ouvido e cantávamos como se não houvesse nem ontem nem hoje nem amanhã. Não podia imaginar que, passados trinta e cinco anos, um aluno me ofereceria o disco. Hoje, sem bibe, sem vizinha e sem rua estreita, a memória fica como se o tempo não tivesse qualquer importância.
12.2.10
DO CÉU À TERRA

Samuel Bak
11.2.10
MESA REDONDA
A propósito de uma mesa redonda e da troca de estranhas e bonitas ideias, publico aquilo que Fields me ofereceu num dos seus comentários:
“Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.” (Clarice Lispector)
Obrigada, estimada e atenta mulher.
9.2.10
PORTA DE FRIGORÍFICO
8.2.10
VENHAM DIZER-ME
7.2.10
COISAS FORA
6.2.10
UMBIGO
5.2.10
PÉS

Maurice Denis
4.2.10
MÃOS

Paul Klee
3.2.10
ENGANO
As pessoas más julgam que as outras são más.
As pessoas invejosas julgam que as outras são invejosas.
As pessoas mentirosas julgam que as outras são mentirosas.
As pessoas boas julgam que as outras são boas.
As pessoas verdadeiras esperam verdade das outras.
As pessoas honestas esperam honestidade e… um dia, as pessoas percebem que é um engano julgar os outros a partir de si próprio.
2.2.10
PEDRO NA AUTO ESTRADA
Luísa conduzia na auto-estrada a 150 Km à hora. O sol de Inverno limitava-lhe a visão. Alcatrão gasto e carro pouco preparado. Pensou ser o tempo de trocar de máquina, já que os dedos pediam outro tipo de volante, outro tipo de assento. A estrada estava limpa de gente. Cinco da manhã. Regressavam a casa os que tinham a certeza do dia que nascia. Os outros ainda dormiam sem certezas, perto das almofadas cobertas de branco.
Um carro ultrapassou-a. O homem olhou e seguiu em frente, como que a dizer que estava ali. Luísa não entendeu e voltou a passar pelo lado esquerdo de quem lhe travava o andamento: parvo, pensou.
Depois de algumas ultrapassagens parecidas com uma corrida improvisada, os carros mantiveram-se lado a lado, entre a noite e o dia que, prestes a aparecer, prometia estranha aventura.
“Eu sou o Pedro. Café?”, estava escrito num papel colado ao vidro. Não podia ter sido escrito durante a viagem. Por certo tinha-o pronto para mostrar em ultrapassagens pensadas. Luísa sorriu e acenou com a cabeça. Deixou que o carro seguisse atrás de si e, alguns quilómetros depois assinalaram a saída para a estação de serviço. Pedro seguiu-a com todo o entusiasmo posto no rosto.
Luísa não desceu do carro, tirou da carteira um pequeno papel engelhado e escreveu: “eu não gosto de café e o meu nome situa-se entre o meu e o seu carro.” Luísa.
1.2.10
SEMPRE CLOONEY
A pressão de um emprego que consiste em despedir pessoas, dizer-lhes que estão dispensadas de um lugar que ocuparam durante anos.
A pressão auto-imposta de uma vida sem compromissos.
A realidade amorosa colocada (entre parêntesis) porque assim o exige quem pretende ter mais que uma família estruturada.
A tentativa de uma ligação que se julgava repudiar.
Depois do conteúdo de um filme despretensioso e muito engraçado, o charme, a classe, a atitude do que se mantém, simplesmente Clooney.
E ainda, a melhor frase: “considera-me uma pessoa igual a ti, mas com vagina”.
31.1.10
A MOEDA DA AVÓ EMILIA
30.1.10
PROUST NO SOFÁ CÁ DE CASA

"O amor é uma doença incurável". "No amor há sofrimento permanente". "Aqueles que amam e aqueles que são felizes não são as mesmas pessoas". O pessimismo romântico de Proust baseou-se, pelo menos em parte, na combinação de uma necessidade intensa de amor e uma falta de jeito tragicómica ao tentar obtê-lo. (Pag.72)
COISAS QUE ME INQUIETAM (20)
Saí agora da sala 3 do King. Lars Von Trier, Antichrist. Podia ter passado o tempo num musical, a bater o pezinho e a abanar a cabeça. Podia ter ido ver o Clooney, depois à festa do Lux e tal e coisa e noite e copos e diversão.
Fiquei ali parada, no medo, no desespero, na angústia, na raiva, no ódio e no poder.
Tão soberbo quanto hediondo. Vou precisar de químicos para dormir esta noite.
29.1.10
OA CACIFOS DAS PESSOAS

Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas. Quadradinhos pequenos em sala de professores. Chaves na mão e, aberta a porta, um mundo de papel, comida, cigarros, pastas, água, bolachas e outras ferramentas necessárias à sobrevivência.
Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas: desarrumadas, metódicas, egoístas, disponíveis, descontraídas, complicadas, mentirosas, irritantes ou amorosas.
Um estudo sobre a forma como as pessoas arrumam os cacifos, ou não, poderia ser objecto de investigação psicanalítica.
28.1.10
NO MEU TEMPO

Pieter Brueghel
O “meu tempo” é o que hoje vivo, onde me situo e ajo, onde posso mexer nas coisas. O tempo de todos os dias é meu porque o ocupo e transformo, a não ser que persista na ideia morta de que o tempo que foi “meu” já não existe. Então, o que é o tempo que vivo agora? O dos outros?
27.1.10
ENCONTRO
26.1.10
"AMIGAS"
25.1.10
DOBRAS E GRITOS (39)
23.1.10
PAI
22.1.10
21.1.10
CANSAÇO
20.1.10
19.1.10
18.1.10
IRA

Paul Klee
Séneca conhecia um homem rico, Védio Pólio, um amigo do imperador Augusto, que tinha um escravo que numa festa deixou cair um tabuleiro com taças de cristal. Védio detestava o som do vidro a partir-se e ficou tão furioso que ordenou que o escravo fosse atirado a um tanque de lampreias.
Védio Pólio estava furioso por uma razão identificável: porque acreditava num mundo em que os copos não se partem nas festas.
Gritamos quando não conseguimos encontrar o comando da televisão, por causa de uma crença implícita num mundo em que os comandos não se perdem.
A reconciliação com as inevitáveis imperfeições da existência é um caminho.
17.1.10
A MORTE QUE TODOS PROCURAM
16.1.10
PERGUNTA CORRECTA
15.1.10
ARTE E ÉTICA
14.1.10
HUMANIDADE
13.1.10
12.1.10
MEU OBJECTO (1)
Há também os que têm de ser nossos por causa de pessoas que, com amor, encontram forma bonita de nos dizer muitas coisas.
11.1.10
MEU OBJECTO
Escolhi-o há muito.Numa sala cheia de quadros e a vontade de trazer um para casa. Morte. Talvez mulheres que morrem. Pessoas em diálogo. Corpos em movimento. Troncos de árvores que existiram.
9.1.10
8.1.10
OS ESTÚPIDOS
A ignorância dos que nada vêem. Para além da cadeira onde se sentam e do bife que comem, só existe entendimento para a visão, sempre nítida, do óbvio. Resta a soberba que advém dos muitos vazios por preencher.
7.1.10
OS ARROGANTES
A arrogância dos lúcidos solitários, dos que não vão no rebanho porque não querem. Simples. Não querem. Serão estranhos ao lugar comum que ocupam os estúpidos. Depois, a recusa da burrice, é tida como vaidade.
6.1.10
OS QUE SOBEM
5.1.10
SOZINHOS
Os que, com a verdade vivem, restam sós. Ninguém a quer. Foge-se das coisas difíceis porque não se cresceu ao ponto de entender que são elas as que importam.
4.1.10
O INCÓMODO DA VERDADE
3.1.10
NÃO QUERO TER TEMPO
2.1.10
EM CASA
As coisas clarificam-se.
Os dias vão distinguindo o que é e o que não é.
Salto para domínios desconhecidos.
Ficar quieta e perceber que a transformação vem.
Não vou interpretar os silêncios.
A vida está aí para se viver.
Sou desconexa, principalmente antes do banho da manhã.
1.1.10
31.12.09
BOA NOITE
Parece que o ano está a acabar. Um dia vou entender o verdadeiro sentido disso. É o mesmo que acabar um dia, uma noite, um qualquer período de tempo em que se vive.
Feliz 2010.
FILHA
Filha;
Deixo a música que te dedico. Sempre. Pratica o teu espanhol com as legendas :) Feliz 2010 minha princesa.
30.12.09
CAMINHO
Contente viagem de parágrafos. Dois anos.
29.12.09
A VALSINHA E AS SAUDADES
Chico Buarque. Valsinha.
28.12.09
ACTUALIZAR
27.12.09
26.12.09
25.12.09
DIA
I Dreamin of A White Christmas
24.12.09
FELIZ NATAL
Cheguei a um destino perto de mim. Agora estou ao pé das coisas quentes e das pessoas vivas.
Robbie Williams Merry Christmas












