18.3.10

ATRÁS DA PORTA


Quando a porta se fechava, o quadro estava lá, em cima de uma cómoda antiga com muitas coisas vividas. Um dia disse-me:
- É isto que vejo do palco. Gostas?

16.3.10

A DANÇA



Só dança quem tem pés e pernas e braços e contentamento. Só dança quem voa mais alto que os pássaros. Só dança quem usa as palavras para agir. Só dança quem pede ao espírito que acompanhe os pés e as pernas e os braços e o contentamento. Os outros, os que não tiram os pés do chão, ficam parados no espaço e no tempo que nunca construíram. Porque nunca quiseram dançar.

15.3.10

BRUTA


Chegou a casa com vontade de abrir o dicionário de sinónimos que, em tempos, lhe ensinaram ser útil para construir textos. Tinham usado a palavra bruta. Sentou-se no jantar do bacalhau, do queijo, do tomate cherry, da mousse de limão e do creme de chocolate branco. Sabia que a palavra era dura, negra, fria.

Abriu o dicionário na página da letra B e confirmou: animal, besta, fera. Respirou. Sabia que as palavras são objectos inanimados que tomam forma quando as usamos. Nada de grave. Em frente às azeitonas pretas que comeu sem parar estava a forma viva de todas as letras que se disseram sem dicionário, as mais puras e as mais limpas. Nem bruta, nem animal, nem besta nem fera. Aquilo que o ser lhe dizia fazer sentido. Apenas.

14.3.10

DEPOIS DA BONECA


Colocou o cinzeiro no lugar. A cinza do dia anterior espalhou-se em cima da mesa. O vidro ficou cinzento e Luísa rangeu os dentes de raiva. Limpou tudo e percebeu que era a boneca de ontem que devia estar ali, não fosse a imaginação ter feito das suas.

13.3.10

A BONECA

Ao sábado ficava em casa. Tinha que limpar o pó e aspirar o chão da sala. A boneca que estava em cima da mesa era sempre objecto de contemplação. Parava os olhos em cima dela e dizia: és a minha princesa.
Um dia, quando a agarrou para lhe tirar o pó, ficou com as mãos vazias. A princesa tinha sido produto de uma imaginação tranquila. Depois da limpeza percebeu que há objectos que se criam a partir dos momentos felizes.

12.3.10

FDS



Usamos consoantes alinhadas para poupar tempo de escrita. A partir de todas elas, podemos construir as nossas histórias. Como consta na abreviatura de Fim-de-Semana ou Foi-dar-Salsichas ou Flor-do-Silêncio ou Fim-do-Susto. O que se queira.

11.3.10

FADIGA


Max Weber

Foi lavar os dentes, tomou banho, secou o cabelo, colocou creme nas pernas, nos braços, no rosto, pôs desodorizante, vestiu-se, tomou o pequeno-almoço, pegou no carro, ouviu as notícias da manhã, correu para a primeira aula, escreveu o sumário, ouviu os colegas, os alunos, os funcionários, almoçou, bebeu café, voltou à sala, preparou dossiers.

Foi à casa de banho, fez xixi, lavou as mãos, subiu a escada, desceu a escada, voltou ao piso da informática, colocou o Power Point, falou de religião, fez a chamada, fechou a porta, escreveu no quadro e apagou tudo a seguir. Pegou no carro, chegou a casa, despiu a roupa, fez o jantar, viu o blogue, leu, conversou, viu as notícias, comeu, lavou os pratos, tomou banho, lavou os dentes, colocou creme nas pernas e nos braços. Depois descansou.

10.3.10

FRENTE AO MURO


Juarez Machado

"Os homens para comunicar uns com os outros, usam normalmente a palavra, mas as palavras nunca poderão exprimir a verdade pura. Temos de ir mais além, de transcender o dualismo palavra - realidade. Assim, temos de usar as palavras sem nos tornarmos escravos delas. Porque por mais elevadas que sejam, as palavras são apenas símbolos, descrições e nunca coisa em si. Para atingir a coisa em si, as palavras - esses ruídos da mente -devem morrer. E quando elas morrem surge o silêncio."

Jorge Bustamante; Frente ao Muro.

NOVO ROMANCE




Um abraço ao querido amigo Eça pela publicação do seu primeiro romance. A certeza de um excelente livro que, em breve, a Guerra e Paz, apresentará aos leitores.

9.3.10

PSEUDO-VIDA


Juarez Machado

“Se olharmos bem para as nossas vidas, acabaremos por ver com clareza quantas tarefas – sem qualquer importância e a que chamamos ‘responsabilidades’ – se acumulam até não haver espaço para mais nada. Um mestre compara-as a ‘obrigações domésticas num sonho’. Dizemos a nós mesmos que queremos dedicar algum tempo às coisas importantes da vida… mas nunca há oportunidade para isso.

Temos muito que fazer, mesmo quando nos levantamos, logo de manhã: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, lavar os dentes, dar de comer ao cão ou ao gato, lavar a loiça da noite anterior, descobrir que se acabou o café ou o açúcar, sair para os comprar, preparar o pequeno almoço… A lista é infindável. Depois temos que separar as roupas, escolhê-las, passá-las a ferro e dobrá-las. E os cabelos, e a maquilhagem?

Impotentes, vemos os nossos dias preenchidos em conversas telefónicas e projectos fúteis, vemos tantas ‘responsabilidades’, ou seria melhor chamar-lhes ‘irresponsabilidades?”

Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da Morte.

8.3.10

FICA AQUI


Juarez Machado

Não vás para longe. Fica quieta. Fixa. Imóvel. O pensamento também pára e tu podes descansar. Sozinha. Assim. Pés paralelos no chão. Olhos postos onde puderes. Aguenta o silêncio e respira como se não tivesses pulmões. A água não existe fora de ti e, quando fores buscá-la, limpa todas as lágrimas. Não vás para longe. Fica aqui. Ao pé do que te integra e repara.

5.3.10

O QUE NÃO SE ESQUECE


Cezanne

O que, num tempo, fica dobrado em cima da alma. O corpo usa os sentidos e as memórias servem para entender tudo o que resvala num absoluto momento de satisfação.

2.3.10

OBJECTOS QUE IMPORTAM


Edward Hopper

As mesas são importantes porque é nelas que o nosso corpo se encosta para comer e isso faz com que a morte venha mais tarde. As mesas são objectos de criação porque é em cima delas que se escreve e que se vive. Repare-se num prato de massa fresca em cima de uma mesa de madeira antiga. A massa fica diferente se a colocarmos no mesmo prato em cima de uma mesa de vidro, de mármore ou de verga. O lugar onde se pousa o objecto é tão importante quanto o lugar onde se colocam os pés. São os lugares da nossa história, quer queiramos quer não.

1.3.10

AJUDA


Ajuda-me a olhar, ajuda-me a sentir, ajuda-me a por uma perna em frente da outra para andar, ajuda-me a percorrer o caminho, ajuda-me a pensar. Não consigo continuar a ser. Resta-me a imaginação que foge porque a ajuda não chega a tempo de a prender cá dentro.

21.2.10

PARIDADE


Ter uma filha que cresce a olhos vistos e que quase atinge a minha altura é sinal de que o tempo existe, mesmo que seja produto de um movimento contínuo da consciência. O espaço torna-se divisível e, melhor que tudo, as palavras começam a fazer sentido idêntico para duas mulheres que começam uma nova fase: a da paridade.

20.2.10

CONSCIÊNCIA


Há noites que alteram o nosso estado de consciência. Noites brancas pintadas de vermelho. Noites com cheiro a jasmim e quente e incenso e pó e luz e água e medo e grito e pranto e riso e dor e contentamento.

19.2.10

EM CASA COM PAULA REGO

Fui à Casa das Histórias. Ver o meu quadro preferido fez-me voltar atrás.
Aqui, ainda não sabia que a Bela Adormecida estava morta.

18.2.10

PÉS QUIETOS


Lembro-me da noite em que explicou a razão de ser do espaço e do tempo. Tinha um copo de vinho na mão e, enquanto as frases se soltavam da boca, todo o conhecimento se desprendia do lugar onde estava arrumado. Tem o conhecimento arrumado em gavetas e, de vez em quando, abre uma a uma sem nunca misturar o que nelas está guardado. É fantástico olhar para os seus pés, firmes no chão da sala, enquanto as frases se constroem sozinhas por causa do seu pensamento.

A lucidez com que fala é parecida com a transparência da água num copo de cristal. Os pés estão sempre lado a lado, em cima de um chão que conhece e que percorre enquanto não fala. Está sempre sentado quando usa palavras. É impressionante. Parece que quer que elas se movam só numa direcção, por isso se mantém quieto com os pés.

17.2.10

AMOR EM ESTADO ADULTO


No dia em que ela afirmou a liberdade, ele entendeu o sentido de tudo. Viver sem cadeado. Um amor sem corrente e com a costura precisa para o entendimento. Aquele amor sem cancela que os dois entendem como coisa feita de propósito para se voar. Não há perguntas porque as respostas lhes antecedem, sem medo nem punição. Não há confronto nem cobrança e a verdade é a coisa dita com mais frequência.

Fazem da vida, material de conhecimento, da cama, lugar de combate; da mesa fazem lugar de palavras e da estrada lugar de procura. Entendem a existência como coisa individual, tempo de estar consigo para poder estar com o outro. Nas noites em que, longe, sentem o desejo perto, telefonam para o transformar em corpo. Quando os olhos se vêem, tudo o que viveram sozinhos é motivo de troca, de riso e de contentamento.

Não querem saber se é casamento, namoro, encontro ou outra qualquer designação definidora de coisa superior. Isso. Coisa superior, vivida sem a limitação do outro, sem juízo de valor ou pergunta pateta. Coisa que, apenas quem ama em estado adulto consegue viver.

14.2.10

DEPOIS

Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa de muita importância e eu tenho andado a tropeçar em banalidades. Coisas de pouca importância que roubam tempo à importância das coisas. Agora interrompem-se os dias. Carnaval. Máscaras datadas em cima de caras sempre mascaradas provocam-me enorme sensação de urticária.

Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa séria. Depois das ondas do mar, depois da marginal percorrida, depois das noites frias e da areia molhada, depois do suspiro e depois de tudo o que o amor permite que seja e que aconteça.

(Lou Reed; Perfect Day)



P.S. Fica a sugestão: o filme de Woody Allen "Tudo Pode Dar Certo", supera qualquer expectativa. Nada melhor para quem pretende entender o princípio de incerteza de Heisenberg.

13.2.10

ONTEM HOJE E AMANHÃ



Eu era muito pequena. Na rua estreita vivia, no final de uma descida íngreme e sombria, uma vizinha que passava os dias com a mãe atrás de um balcão cheio de tarecos. Eram tachos, canecas, pratos, bonecas, talheres, vassouras, piaçabas e tampas de sanita ao pé de baldes. Era a minha vizinha das músicas, das letras e das brincadeiras no degrau de pedra baixinho onde me sentava para cantar. Eu usava bibe às riscas para não sujar o fato domingueiro. Ligávamos o rádio perto do ouvido e cantávamos como se não houvesse nem ontem nem hoje nem amanhã. Não podia imaginar que, passados trinta e cinco anos, um aluno me ofereceria o disco. Hoje, sem bibe, sem vizinha e sem rua estreita, a memória fica como se o tempo não tivesse qualquer importância.

12.2.10

DO CÉU À TERRA


Samuel Bak

Um dia de nevoeiro pode ser mais bonito que um dia de sol. A tristeza pode possuir maior grandeza que a alegria. Porque o cinzento é mais poderoso que o branco e a beleza do poder é mais densa que a do contentamento. Talvez por pertencer ao tipo de beleza que permite a supremacia, a audácia, o caminho; mesmo quando o sol se esconde e o fumo desce do céu à terra.

11.2.10

MESA REDONDA


A propósito de uma mesa redonda e da troca de estranhas e bonitas ideias, publico aquilo que Fields me ofereceu num dos seus comentários:

“Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.”
(Clarice Lispector)

Obrigada, estimada e atenta mulher.

9.2.10

PORTA DE FRIGORÍFICO

Numa porta branca de um frigorífico branco, numa casa branca de uma Lisboa branca, a cozinha convida amigos a entrar. Enquanto tiro o pacote de natas para os bifes que fervilham, leio num íman bem à minha frente:
“Cinema é arte. Teatro é vida. Televisão é mobília.”
Quanta verdade posta numa porta branca de um frigorífico branco numa casa branca de uma Lisboa branca. Até faz impressão.

8.2.10

VENHAM DIZER-ME


Venham dizer-me que o amor é lindo, que as flores dançam e que os pássaros cantam. Venham depressa exigir felicidade a quem sabe que o corpo a consome e a alma não a aproveita. Venham falar-me da sabedoria em cima de um prato de riso e massa fresca. Venham pedir favores a quem não sabe o que são e depois gritem todos de raiva podre. Venham dizer-me da injustiça dos fortes para com os fracos, da arrogância dos ricos e do lamento dos pobres. Telefonem-me aos berros por causa da conta da luz e apaguem o lamento com que vão pagá-la. Agora venham dizer-me que é o sofrimento que desenvolve a força da mente que eu acredito e aplaudo.

7.2.10

COISAS FORA


Amadeo Modigliani

No dia em que eu descobrir a forma de deitar coisas fora sem que o lixo as engula, no dia em que eu puder entregar gavetas a pessoas que as não têm, regressarei a uma tranquilidade mais limpa.

6.2.10

UMBIGO


Amadeo Modigliani

Coisa que serve para nada, depois de já ter servido para tudo. Não gosto de olhar para o meu umbigo, faz-me lembrar placenta e útero e sangue. Há quem queira deixar de o ter e, por isso, entra na sala de cirurgia. Prefiro-o ao nada que é o liso.

5.2.10

PÉS


Maurice Denis

Nunca me lembro que tenho pés. Quando, de vez em quando, os estico para o colo da minha Sílvia, percebo, como nunca, a sua existência. Depois descasca-se o cansaço com a lima, molham-se com o cheiro da água quente e, dali saio com menos de mim. No dia seguinte, os meus pés têm menor dimensão. Finos e mais macios que antes, parecem ser outros que coloquei para me distrair do chão que piso todos os dias. O colo da Sílvia transforma os meus pés em outros. Porque as mãos que ela tem são íntimas dos pés de que nunca me lembro.

4.2.10

MÃOS


Paul Klee

As mãos que comem são as mãos que limpam. As mãos que trabalham são as mãos que mexem. As mãos são sempre ferramenta para tudo. Agarram pessoas, copos, cabelos, roupa, lixo, livros e talheres. Levam à boca o alimento e tiram da porta as chaves de casa. Carregam na campainha e ligam o telemóvel. As mãos que pegam no gel, espalham-no pelo corpo, coçam as costas vazias de medo e penteiam cabelos desconexos. São instrumentos de chegada e de partida. Mãos. Lugar que, no corpo, ocupa espaço sempre descoberto, mesmo quando as luvas tapam afazeres.

3.2.10

ENGANO


As pessoas más julgam que as outras são más.
As pessoas invejosas julgam que as outras são invejosas.
As pessoas mentirosas julgam que as outras são mentirosas.
As pessoas boas julgam que as outras são boas.
As pessoas verdadeiras esperam verdade das outras.
As pessoas honestas esperam honestidade e… um dia, as pessoas percebem que é um engano julgar os outros a partir de si próprio.

2.2.10

PEDRO NA AUTO ESTRADA


Luísa conduzia na auto-estrada a 150 Km à hora. O sol de Inverno limitava-lhe a visão. Alcatrão gasto e carro pouco preparado. Pensou ser o tempo de trocar de máquina, já que os dedos pediam outro tipo de volante, outro tipo de assento. A estrada estava limpa de gente. Cinco da manhã. Regressavam a casa os que tinham a certeza do dia que nascia. Os outros ainda dormiam sem certezas, perto das almofadas cobertas de branco.

Um carro ultrapassou-a. O homem olhou e seguiu em frente, como que a dizer que estava ali. Luísa não entendeu e voltou a passar pelo lado esquerdo de quem lhe travava o andamento: parvo, pensou.

Depois de algumas ultrapassagens parecidas com uma corrida improvisada, os carros mantiveram-se lado a lado, entre a noite e o dia que, prestes a aparecer, prometia estranha aventura.

“Eu sou o Pedro. Café?”, estava escrito num papel colado ao vidro. Não podia ter sido escrito durante a viagem. Por certo tinha-o pronto para mostrar em ultrapassagens pensadas. Luísa sorriu e acenou com a cabeça. Deixou que o carro seguisse atrás de si e, alguns quilómetros depois assinalaram a saída para a estação de serviço. Pedro seguiu-a com todo o entusiasmo posto no rosto.

Luísa não desceu do carro, tirou da carteira um pequeno papel engelhado e escreveu: “eu não gosto de café e o meu nome situa-se entre o meu e o seu carro.” Luísa.

Atirou o papel para o asfalto no momento em que Pedro se preparava para lhe abrir a porta. Arrancou à velocidade permitida pela lei e pelo discernimento.

1.2.10

SEMPRE CLOONEY



A pressão de um emprego que consiste em despedir pessoas, dizer-lhes que estão dispensadas de um lugar que ocuparam durante anos.

A pressão auto-imposta de uma vida sem compromissos.

A realidade amorosa colocada (entre parêntesis) porque assim o exige quem pretende ter mais que uma família estruturada.

A tentativa de uma ligação que se julgava repudiar.

Depois do conteúdo de um filme despretensioso e muito engraçado, o charme, a classe, a atitude do que se mantém, simplesmente Clooney.

E ainda, a melhor frase: “considera-me uma pessoa igual a ti, mas com vagina”.

31.1.10

A MOEDA DA AVÓ EMILIA




A minha avó dava-me, todos os domingos, uma moeda. Ainda hoje tenho a mania de encher porquinhos com moedas. Aos domingos e nos dias que me parecem domingos.

30.1.10

PROUST NO SOFÁ CÁ DE CASA



"O amor é uma doença incurável". "No amor há sofrimento permanente". "Aqueles que amam e aqueles que são felizes não são as mesmas pessoas". O pessimismo romântico de Proust baseou-se, pelo menos em parte, na combinação de uma necessidade intensa de amor e uma falta de jeito tragicómica ao tentar obtê-lo. (Pag.72)

COISAS QUE ME INQUIETAM (20)


Saí agora da sala 3 do King. Lars Von Trier, Antichrist. Podia ter passado o tempo num musical, a bater o pezinho e a abanar a cabeça. Podia ter ido ver o Clooney, depois à festa do Lux e tal e coisa e noite e copos e diversão.
Fiquei ali parada, no medo, no desespero, na angústia, na raiva, no ódio e no poder.
Tão soberbo quanto hediondo. Vou precisar de químicos para dormir esta noite.

29.1.10

OA CACIFOS DAS PESSOAS


Paul Klee

Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas. Quadradinhos pequenos em sala de professores. Chaves na mão e, aberta a porta, um mundo de papel, comida, cigarros, pastas, água, bolachas e outras ferramentas necessárias à sobrevivência.
Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas: desarrumadas, metódicas, egoístas, disponíveis, descontraídas, complicadas, mentirosas, irritantes ou amorosas.
Um estudo sobre a forma como as pessoas arrumam os cacifos, ou não, poderia ser objecto de investigação psicanalítica.

28.1.10

NO MEU TEMPO


Pieter Brueghel

No “meu tempo” havia respeito, as pessoas tinham palavra e não era necessário recorrer a tribunais para provar o dito ou o feito. No “meu tempo” as palavras tinham peso e, atitudes demonstravam carácter e bom senso. No “meu tempo” as coisas eram diferentes, os filhos respeitavam os pais, os velhos eram protegidos, as crianças aprendiam e os governantes tinham princípios. Era o “meu tempo”; a altura em que me sentia jovem, tinha poucos anos e muita energia. Talvez por isso diga que era o “meu tempo”, porque ainda não percebi que o tempo presente é o único que interessa.

O “meu tempo” é o que hoje vivo, onde me situo e ajo, onde posso mexer nas coisas. O tempo de todos os dias é meu porque o ocupo e transformo, a não ser que persista na ideia morta de que o tempo que foi “meu” já não existe. Então, o que é o tempo que vivo agora? O dos outros?

27.1.10

ENCONTRO


Cecile Veilhan

Havia outras duas amigas. Ficaram longe muitos meses. Tinha, o marido de uma delas, viajado para longínquo continente. De regresso, percebeu que tinha afectos adiados. O encontro marcado fez entender a ambas que não há substitutos, quando a permanência do sentir é uma realidade.

26.1.10

"AMIGAS"


Cecile Veilhan

As duas amigas tinham, entre si, o valor do afecto. Um dia, uma delas encontrou um namorado estrangeiro. Fascinada, não voltou a falar de afectos. Fugiu para perto de um amor substituto.

25.1.10

DOBRAS E GRITOS (39)

Vampiros a toda a hora. Na TV, no Cinema e na Literatura. Anda tudo farto da realidade? Sublimação de desejos inconscientes?
Mas que mania é esta agora?

23.1.10

PAI


Vieira da Silva

Quando eu era pequena, o meu pai colocava o tabuleiro em cima da mesa da sala e mandava-me sentar à sua frente. Impunha as regras do jogo e as outras. O meu pai nunca fez batota, nem no jogo nem nos afectos. Por isso é que eu ainda jogo com ele às duas coisas.
Feliz Aniversário, Pai.

22.1.10

CANSAÇO (1)


Cecile Veilhan

- Agora entendo melhor.
- O quê?
- Aquilo que dizes quando ficas calada.

21.1.10

CANSAÇO



Cecile Veilhan

- Porque te queixas?
- Porque é verdade que não me ajudam. Esquecem-se de mim e julgam-me escrava.
- Que já fizeste para mudar a situação?
- Estou farta de reclamar, amiga.
- Esse é o problema. Age calada em vez de usares as palavras para ficares quieta.

18.1.10

IRA


Paul Klee

No âmago de cada frustração, encontramos sempre uma estrutura básica: o choque de um desejo com uma realidade inflexível.

Séneca conhecia um homem rico, Védio Pólio, um amigo do imperador Augusto, que tinha um escravo que numa festa deixou cair um tabuleiro com taças de cristal. Védio detestava o som do vidro a partir-se e ficou tão furioso que ordenou que o escravo fosse atirado a um tanque de lampreias.
Védio Pólio estava furioso por uma razão identificável: porque acreditava num mundo em que os copos não se partem nas festas.

Gritamos quando não conseguimos encontrar o comando da televisão, por causa de uma crença implícita num mundo em que os comandos não se perdem.

A reconciliação com as inevitáveis imperfeições da existência é um caminho.

17.1.10

A MORTE QUE TODOS PROCURAM


Entre o estar e o ser. No acto profundo de um momento solitário. Quando, em êxtase, o grito encontra o silêncio e o corpo acontece. Nada na alma subsiste. Cigarro.

16.1.10

PERGUNTA CORRECTA


Helen Frankenthaler

A pergunta correcta é a condição necessária para uma resposta aceitável. Uma pergunta bem feita desempenha o seu papel e, às vezes, nem precisa de resposta.
“Duas mãos que batem uma na outra produzem um barulho. Qual o barulho de uma só mão?”.

15.1.10

ARTE E ÉTICA


Helen Frankenthaler

"A arte é ética na medida em que desperta. Mas o que sucede quando actua em sentido contrário? "

Thomas Mann; A Montanha Mágica

14.1.10

HUMANIDADE


Helen Frankenthaler

"Explico-lhe resumidamente. A Liga para a organização do progresso, partindo da teoria evolucionista de Darwin, desenvolveu a tese filosófica de que a vocação mais natural e intrínseca da humanidade, se traduz no seu próprio aperfeiçoamento"

Thomas Mann; A Montanha Mágica

12.1.10

MEU OBJECTO (1)


Há também os que têm de ser nossos por causa de pessoas que, com amor, encontram forma bonita de nos dizer muitas coisas.

11.1.10

MEU OBJECTO


Escolhi-o há muito.Numa sala cheia de quadros e a vontade de trazer um para casa. Morte. Talvez mulheres que morrem. Pessoas em diálogo. Corpos em movimento. Troncos de árvores que existiram.
Vejo-o todos os dias, do lugar onde me sento. Olho-o e descubro-o. Há objectos criados só para nossa pertença.

9.1.10

VOU


Vou enfiar-me dentro de um caixote com rodas e tampa. de um caixote com rodas e t

8.1.10

OS ESTÚPIDOS


A ignorância dos que nada vêem. Para além da cadeira onde se sentam e do bife que comem, só existe entendimento para a visão, sempre nítida, do óbvio. Resta a soberba que advém dos muitos vazios por preencher.

7.1.10

OS ARROGANTES


A arrogância dos lúcidos solitários, dos que não vão no rebanho porque não querem. Simples. Não querem. Serão estranhos ao lugar comum que ocupam os estúpidos. Depois, a recusa da burrice, é tida como vaidade.

6.1.10

OS QUE SOBEM

Quem percorre caminhos de entendimento e sensibilidade, encontra na vida a parede a que se encosta. Quem pega no corpo para gritar e fazer das pernas, instrumento de corrida, acaba no mundo da incompreensão. Fugir à ignorância é perigoso. Fica-se lúcido até ao lugar da solidão. Depois riem, riem muito porque a estupidez não chega para alcançar os caminhos da clarividência.

5.1.10

SOZINHOS


Os que, com a verdade vivem, restam sós. Ninguém a quer. Foge-se das coisas difíceis porque não se cresceu ao ponto de entender que são elas as que importam.

4.1.10

O INCÓMODO DA VERDADE


Aquilo que deveria ser entendido como prioridade é posto de lado, como sarna nojenta a que alguns se apegam para incomodar outros. A verdade, a estúpida verdade que afronta os incompetentes, os mentirosos, os hipócritas e os cobardes.
Dias cheios de verdade na garganta. Olhar de soslaio para quem a diz. As palavras servem para dizer, para pôr na mesa o que acontece, para mexer nos dias dos que fazem pouco mais que fingir. Andamos todos a fingir. Fingimos que somos felizes, fingimos que temos dinheiro, fingimos que a paz é real e fingimos que trabalhamos. Curioso: todos sabemos dos fingimentos uns dos outros e todos continuamos debaixo da mesa, à procura da verdade que não dizemos.E quando a hora chega, quando a garganta traz para fora a verdade que se esconde, todos olham para quem a diz, como se a pecar estivesse. Cambada.

3.1.10

NÃO QUERO TER TEMPO


Aos que reclamam o tempo que escolhem não ter. Amigos longe porque o tempo não chega para o abraço. Família a correr porque o tempo não dá para jantar. Colegas em intervalos, divididos entre o café, o cigarro e o xixi rápido antes de entrar em sala. Alunos a correr porque o tempo é curto para explicar com calma a matéria da semana passada.
O tempo… a merda do tempo que escolho não ter, que prefiro encurtar em caminhos para lugar nenhum.
Quando me sento para parar? Quando entenderei a não existência de um contínuo movimento da consciência que não aquieta?
Quando for velha saberei integrar que o tempo é, por demais, pequeno. Depois será tarde. É mentira que não tenho tempo. A verdade, a minha verdade, é que não quero tê-lo!

2.1.10

EM CASA


Hoje fico em casa.Estou numa espécie de paragem.
As coisas clarificam-se.
Os dias vão distinguindo o que é e o que não é.
Salto para domínios desconhecidos.
Ficar quieta e perceber que a transformação vem.
Não vou interpretar os silêncios.
A vida está aí para se viver.
Sou desconexa, principalmente antes do banho da manhã.

31.12.09

BOA NOITE


Parece que o ano está a acabar. Um dia vou entender o verdadeiro sentido disso. É o mesmo que acabar um dia, uma noite, um qualquer período de tempo em que se vive.
Feliz 2010.

MÃE



Mãe;
Vê a tradução do video. É para ti. Bom Ano minha rainha.

FILHA



Filha;
Deixo a música que te dedico. Sempre. Pratica o teu espanhol com as legendas :) Feliz 2010 minha princesa.

30.12.09

CAMINHO



Contente viagem de parágrafos. Dois anos.
É preciso dobrar o grito. Para que conste. Ainda que a ninguém.

29.12.09

A VALSINHA E AS SAUDADES


Por esta altura, entre as filhós do Natal e o Champanhe do Ano Novo, íamos sempre jantar fora. Perto um do outro, saudades do Brasil e dos amigos, dizias: "Os Brasileiros são Portugueses à solta". Depois erguias o copo de vinho tinto e punhas o sorriso infantil de sempre. Saudades, muitas saudades. Por tua causa, este blogue comemora dois anos de existência amanhã. Obrigada, mais uma vez.



Chico Buarque. Valsinha.

28.12.09

ACTUALIZAR

Passou, a longa lista de ligações, a pequena lista de essenciais. A modernice dos Feeds proporciona uma certa forma de limpeza visual.

26.12.09

I Won't Dance



Regressar a Lisboa. Verificar se tudo o que deixei continua alinhado.

25.12.09

DIA


Levantar tarde no Dia De Natal é o melhor presente que o Céu me envia.



I Dreamin of A White Christmas

24.12.09

FELIZ NATAL


Cheguei a um destino perto de mim. Agora estou ao pé das coisas quentes e das pessoas vivas.
Bom Natal para todos.



Robbie Williams Merry Christmas

23.12.09

Hoje vou-me embora. O Menino Jesus mandou dizer ao Pai Natal que me avisasse sobre as viagens perigosas. Recebi o recado e pus-me ao caminho.

22.12.09

Um dia, a mulher adormeceu em frente ao lume. Quando, de manhã, olhou as cinzas, pensou estar morta. Num lugar longínquo, perto de outros egos queimados e postos em jardins com relva.

21.12.09

Era uma vez uma mulher. Tinha tão imensa consciência de si que não conseguia olhar-se ao espelho com seriedade. Ficava-lhe amargo gosto a ego encarcerado. Na semana do Natal, enfeitava a casa com convicção. Depois sentava-se à lareira, à espera que as chamas consumissem a solidão.

18.12.09

Fim-de-semana em rampa de lançamento. Dedos quietos nas teclas do computador. Congelou-se-me a possibilidade de aglomerar letras. Estão todas no Centro Comercial, em sacos com estrelinhas e embrulhos com lacinhos.

17.12.09

Os dias, no mês de Dezembro, não são frios por causa da temperatura. São gélidos, por causa dos que os não vivem.

16.12.09

As noites, no mês de Dezembro, não são frias por causa da temperatura. São gélidas por causa dos que as não vêem.

15.12.09

14.12.09

PORQUE PARECE

Parece que estamos a caminhar para o fundo do poço. Parece que as contas públicas estão na lama. Parece que a dívida externa aumenta todos os dias. Parece que a educação vai de mal a pior. Parece que a saúde continua nas ruas da amargura. Parece que a taxa de desemprego evolui para números por demais escandalosos. Parece que as crianças continuam a ser maltratadas. Parece que as mulheres não têm os mesmos direitos dos homens. Parece que a violência doméstica alastra. Parece que os alunos continuam a desrespeitar professores. Parece que os pais se demitem e os filhos trepam. Parece que a vida Portuguesa é pequena. Parece que as adolescentes engravidam sem quererem. Parece que o dinheiro não chega. Parece que o mundo anda em guerra. Parece que todos ignoramos o que vemos e ouvimos. E as compras de Natal continuam...

13.12.09

Depois veio a mãe pôr água na fervura e dar beijinhos de compensação. Daqueles que sabem a falso.

12.12.09

O menino segurava o presente com tanta força que desabou em pranto, quando o pai lhe disse que não podia desembrulhá-lo ainda.

11.12.09

Lá vou eu ver se as botas novas podem ser compradas para o dia em que o Pai Natal anda ocupado e o Menino Jesus dorme até tarde.

10.12.09

A minha filha já viaja à frente. Parece uma pequena mulher com sonhos dos que se não comem. Na noite de Natal agarra no escuro com a esperança contida de o poder esmagar, junto à estrela do presépio.

9.12.09

A minha mãe costuma dizer-me que a vida é difícil. Tem razão. Na época do Natal lembro-me sempre das razões da minha mãe.

8.12.09

Ontem deitei-me com dores nas costas. Os sacos que não trouxe da loja fizeram-me lembrar os dias em que os carrego sem prazer.

7.12.09

Sentei-me num degrau. As mulheres carregam sacos e cansaço. O bacalhau está mais caro este ano. A consoada continua a ser penosa para elas.

6.12.09

O Pai Natal este ano está mais magro. Disse-me, outro dia, que andava cansado dos meninos que faziam birras.

5.12.09

O S. José também ficou na loja. Perto dos outros brinquedos que não interessam por não brilharem.

4.12.09

Há dias em que me sento no carro de frente para o povo que passa. Trazem as bolinhas na mão para colocar na Árvore de Natal. Esquecem-se sempre da Nossa Senhora.

3.12.09

Agora é aguentar tudo com calma. Pôr as mãos no colo e esperar que a embriaguez passe.

2.12.09

Ter de viver entre ocupadas cabeças e corpos em desassossego por estarem atrasados para as compras.

1.12.09

Começou o mês do Natal. A época das gentes em azáfama. Os dias de fila para a alienação. As noites com pacotes aglomerados perto de um Menino Jesus esquecido durante o ano inteiro e mal lembrado em Dezembro.