17.4.10

DE CADA VEZ


Luísa conhece Teresa desde o tempo das fraldas. Cresceram no mesmo infantário e foram para a escola juntas. Luísa é o tipo de mulher que se isola para ler. As coisas têm de ser feitas uma de cada vez, pensa.
Quando se sobem escadas e se percorrem ruas, não há conversa. Conversar enquanto se anda é desperdício de tempo, nem se entende o que se fala, nem se olha para o que passa. Não. Definitivamente, as coisas precisam de separação para que Luísa as mastigue.

O mar está lá para que o sinta de perto, o livro existe para que o agarre com os olhos, as pernas percorrem caminhos para que os entenda. Não pode existir clareza em nenhuma ideia se a misturarmos com o corpo.

16.4.10

AO MESMO TEMPO


Teresa é o tipo de mulher que consegue ver e agir ao mesmo tempo. Olha para o mar e lê um livro. Sabe que o mar está ali e o livro também. Ocupa-se de ambos. Nem um nem outro são objecto de contemplação mas Teresa quer tê-los aos dois, num tempo que faz coincidir com quase nada.

Enquanto lê, olha para as ondas; enquanto olha para as ondas, pensa nas frases lidas. Teresa continua com todas as ideias concretizadas. Acredita que o mundo se conhece assim: entre olhares e afazeres, sem paragem.

15.4.10

SUBIR OU DESCER AS ESCADAS



Teresa e Luísa subiram as escadas. A primeira correu depressa para chegar ao último degrau e alcançar o patamar da esplanada. A segunda voltou para trás quando percebeu que, descer, a mantinha mais perto do chão que conhecia. Teresa gritou lá de cima:
- Anda, Luísa, daqui podemos ver o mar.
- Não quero ver o mar, Teresa.
- Porquê?
- Porque fico inquieta quando vejo o mar e não posso entrar nele.
- És tão disparatada, Luísa. Ver também é bom.
- É. Quando não queres agir.

14.4.10

DESCER DE PÁRA-QUEDAS

Ontem encontrei uma velha amiga na aula de Yoga. Contou-me que, um pára-quedista, estava apaixonado por ela. Ouvi-a com muita atenção e dei-lhe todas as respostas.


A Luísa sempre foi serena. Quando pensou em casar-se com o Pedro, convidou-me para madrinha. Dizia que era original ter uma amiga madrinha. Aceitei porque sabia que ela casaria com o Pedro. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a família que vinha de férias. Que gira. Disse-lhe que sim porque sabia que saltaria da cama a meio da noite para qualquer coisa, muito mais para esperar quem vem de viagem.


A Luísa tem ideias, muitas ideias que põe em prática. Imagina que nada se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, para que o mundo aconteça.


O problema da Luísa é esse: estar presente. Um dia descobre que a vida pode acontecer sem ela e sente um alívio, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra serena. A Luísa anda sempre serena porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes.


Corre atrás da realidade e, qualquer dia, é vê-la a descer de pára-quedas, em vez de subir, como as pessoas iguais à Teresa. Não me admirava.

13.4.10

SUBIR DE PÁRA-QUEDAS



Ontem encontrei uma velha amiga na aula de step. Contou-me que estava apaixonada por um pára-quedista. Ouvi-a com muita atenção e não tive paciência para lhe dar respostas.

A Teresa sempre foi extravagante, até nos namorados. Quando pensou em casar-se com o Paulo, convidou-me para levar as alianças. Dizia que era original ser uma amiga a transportar o objecto. Aceitei porque sabia que ela nunca casaria com o Paulo. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a equipa do Benfica que tinha ganho não sei o quê. Maluca. Disse-lhe que sim porque sabia que não saltaria da cama a meio da noite para coisa nenhuma, muito menos para ir ver jogadores cansados dos pés.

A Teresa tem ideias, muitas ideias que não concretiza. Imagina que tudo se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, nos momentos em que o mundo acontece.

O problema da Teresa é esse: concretizar. Arranja muitos namorados e quer ir esperar jogadores. Um dia descobre que a vida não se inventa e tem mais um desgosto, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra a correr.

A Teresa anda sempre a correr porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes. Corre atrás dos sonhos que inventa e, qualquer dia, é vê-la a subir de pára-quedas, em vez de descer, como as pessoas normais. Não me admirava.

12.4.10

FATAL IMPERMANÊNCIA


O trabalho permite ao corpo uma impermanência irritante. Tudo se altera, porque o mundo gira depressa. Não gosto de voltar ao trabalho porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: fala!

9.4.10

FATAL PERMANÊNCIA


Estar de férias permite ao corpo uma permanência lânguida e fatal. Tudo se mantém, como se o mundo tivesse parado. Não gosto de estar de férias porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: cala-te!

POLLOCK


3.4.10

DOBRAR A ESQUINA


Artur Bual

Vou dobrar a esquina do tempo. Volto quando a esquina ficar lá atrás.

2.4.10

POR CAUSA DAS PALAVRAS


Ele é escritor. Ela é aprendiz. Encontraram-se por causa das palavras. Ele escreveu a primeira frase. Ela continuou a ideia. Um dia vão construir uma história. Porque é assim que as coisas boas acontecem. Sem aviso prévio.

1.4.10

SORTE



Vou para o Butão. Talvez volte, daqui a um ano.

Adenda:
Ai se eu pudesse transformar esta mentira em verdade!!

31.3.10

PERTO DA HISTÓRIA


A rua só existe porque eu a vejo. As casinhas estão desenhadas porque as percebo. A menina no banco do jardim não tem olhos para me ver e alguém está sentado a tocar perto da árvore. Não me apetece falar do anjo que corre para fora do desenho.
O chão é aos quadrados porque, os quadrados no chão são sinal de imaginação simétrica. Um dia vou contar a história toda. Agora está perto. Depois de uma curta viagem debaixo do braço.

30.3.10

Antonio Banderas - Take the Lead - Tango scene

LEIS DE UM GOVERNO MODERNO


Paul Klee

1. Vais ter relações sexuais? O governo dá-te preservativos!
2. Já tiveste? O governo dá-te a pílula do dia seguinte!
3. Engravidaste? O governo dá-te o aborto!
4. Tiveste filho? O governo dá-te o Abono Família!
5. Estás desempregado? O governo dá-te o Subsídio de Desemprego!
6. És drogado? O governo dá-te seringas!
7. Não gostas de trabalhar? O governo dá-te o Rendimento Mínimo
8. Foste preso e agora puseram-te cá fora? O governo dá-te o subsídio de Reinserção Social.
Agora experimenta... ESTUDAR; TRABALHAR; PRODUZIR e ANDAR NA LINHA, e verás o que é que te acontece!
VAIS GANHAR UMA "BOLSA" DE IMPOSTOS NUNCA VISTA EM QUALQUER OUTRO LUGAR DO MUNDO!!!

(Autor desconhecido)

29.3.10

EXCELÊNCIA OU FELICIDADE


"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que "o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

Texto de João Pereira Coutinho

27.3.10

PERDÃO


Francis Bacon

"Perdoa sempre os teus inimigos. Nada os deixa mais contrariados."

Oscar Wilde

26.3.10

PORTA FECHADA


Os outros surpreendem quem espera. Colocamos os pés e os braços à disposição e recebemos pontapés duros, vindos dos que não provam o sabor das coisas boas. Porque acham que o mundo os empurra para o abismo, empurram-nos para o escuro, julgando poder encerrar a porta com força. Mentira. A porta só se encerra quando as nossas mãos a empurram. Porque as mãos dos que cerram os dentes não são as nossas.

24.3.10

ALGUÉM


Francis Bacon

"Se há coisa no mundo mais aborrecida do que ser alguém de quem se fala é, sem dúvida, ser-se alguém de quem não se fala."

Oscar Wilde

23.3.10

ACTOS


Vitor Pinhão

“E tudo, enquanto dura, traz consigo o castigo da sua forma, o castigo de ser assim e de não poder ser de outro modo (…). E o que se passa com as formas passa-se com os actos. Quando um acto é praticado não se muda mais. Quando uma pessoa, de uma maneira ou de outra, agiu, o que fez, fica, mesmo que depois não se sinta nem se reconheça nos actos praticados: é como uma prisão.”

Luigi Pirandello

22.3.10

FORMAS


Juarez Machado

“Julga que se conhece, se não se construir de algum modo? E julga que eu posso conhecê-lo, se não o construir à minha maneira? E julga que me pode conhecer, se não me construir à sua maneira? Só podemos conhecer aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento pode ser esse? Não será essa forma a própria coisa? Sim, tanto para mim como para si; mas não da mesma maneira para mim e para si: isso é tão verdade que eu não me reconheço na forma que você me dá, nem você se reconhece na forma que eu lhe dou, e a mesma coisa não é igual para todos e mesmo para cada um de nós pode mudar constantemente e, de facto, muda constantemente.

E, contudo, não há outra realidade fora desta, a não ser na forma momentânea que conseguimos dar a nós mesmos, aos outros e às coisas. A realidade que eu tenho para si está na forma que você me dá; mas a realidade para si não é para mim. E, para mim mesmo, eu não tenho outra realidade senão na forma que consigo dar a mim próprio. Como? Construindo-me, precisamente.”

Luigi Pirandello

21.3.10

PARA QUEM AMA

Eu sei que vou te amar/Soneto de Fidelidade

O TEU ESPAÇO NO MEU ESPAÇO


Lembro o jantar, a mesa e o vinho tinto. Lembro o salmão fumado e as velas do Natal. Lembro a vista da janela e a contemplação de um quadro que me fazia parar para olhar. Agora é meu. Tenho um pouco do teu espaço no meu espaço.

20.3.10

APRENDI


Aprendi que os problemas dos outros não são os meus problemas. Aprendi que a vida dos outros não é a minha vida. Aprendi que o corpo dos outros não é o meu corpo. Aprendi que os pensamentos dos outros não são os meus pensamentos. Aprendi que a consciência dos outros não é a minha consciência. Aprendi que os filhos dos outros não são os meus filhos. Aprendi que o amor dos outros não é o amor que eu sinto. Os que por mim passam sem que o rasto permaneça, são outros que não eu. Esses outros, não podem mexer no que sou.
Há outros. Os que ficam. Os que fazem de mim o que vou sendo.

19.3.10

PORQUE SIM



Era teu. Isso é motivo para estar aqui, num blogue que visitavas porque sim.

18.3.10

ATRÁS DA PORTA


Quando a porta se fechava, o quadro estava lá, em cima de uma cómoda antiga com muitas coisas vividas. Um dia disse-me:
- É isto que vejo do palco. Gostas?

16.3.10

A DANÇA



Só dança quem tem pés e pernas e braços e contentamento. Só dança quem voa mais alto que os pássaros. Só dança quem usa as palavras para agir. Só dança quem pede ao espírito que acompanhe os pés e as pernas e os braços e o contentamento. Os outros, os que não tiram os pés do chão, ficam parados no espaço e no tempo que nunca construíram. Porque nunca quiseram dançar.

15.3.10

BRUTA


Chegou a casa com vontade de abrir o dicionário de sinónimos que, em tempos, lhe ensinaram ser útil para construir textos. Tinham usado a palavra bruta. Sentou-se no jantar do bacalhau, do queijo, do tomate cherry, da mousse de limão e do creme de chocolate branco. Sabia que a palavra era dura, negra, fria.

Abriu o dicionário na página da letra B e confirmou: animal, besta, fera. Respirou. Sabia que as palavras são objectos inanimados que tomam forma quando as usamos. Nada de grave. Em frente às azeitonas pretas que comeu sem parar estava a forma viva de todas as letras que se disseram sem dicionário, as mais puras e as mais limpas. Nem bruta, nem animal, nem besta nem fera. Aquilo que o ser lhe dizia fazer sentido. Apenas.

14.3.10

DEPOIS DA BONECA


Colocou o cinzeiro no lugar. A cinza do dia anterior espalhou-se em cima da mesa. O vidro ficou cinzento e Luísa rangeu os dentes de raiva. Limpou tudo e percebeu que era a boneca de ontem que devia estar ali, não fosse a imaginação ter feito das suas.

13.3.10

A BONECA

Ao sábado ficava em casa. Tinha que limpar o pó e aspirar o chão da sala. A boneca que estava em cima da mesa era sempre objecto de contemplação. Parava os olhos em cima dela e dizia: és a minha princesa.
Um dia, quando a agarrou para lhe tirar o pó, ficou com as mãos vazias. A princesa tinha sido produto de uma imaginação tranquila. Depois da limpeza percebeu que há objectos que se criam a partir dos momentos felizes.

12.3.10

FDS



Usamos consoantes alinhadas para poupar tempo de escrita. A partir de todas elas, podemos construir as nossas histórias. Como consta na abreviatura de Fim-de-Semana ou Foi-dar-Salsichas ou Flor-do-Silêncio ou Fim-do-Susto. O que se queira.

11.3.10

FADIGA


Max Weber

Foi lavar os dentes, tomou banho, secou o cabelo, colocou creme nas pernas, nos braços, no rosto, pôs desodorizante, vestiu-se, tomou o pequeno-almoço, pegou no carro, ouviu as notícias da manhã, correu para a primeira aula, escreveu o sumário, ouviu os colegas, os alunos, os funcionários, almoçou, bebeu café, voltou à sala, preparou dossiers.

Foi à casa de banho, fez xixi, lavou as mãos, subiu a escada, desceu a escada, voltou ao piso da informática, colocou o Power Point, falou de religião, fez a chamada, fechou a porta, escreveu no quadro e apagou tudo a seguir. Pegou no carro, chegou a casa, despiu a roupa, fez o jantar, viu o blogue, leu, conversou, viu as notícias, comeu, lavou os pratos, tomou banho, lavou os dentes, colocou creme nas pernas e nos braços. Depois descansou.

10.3.10

FRENTE AO MURO


Juarez Machado

"Os homens para comunicar uns com os outros, usam normalmente a palavra, mas as palavras nunca poderão exprimir a verdade pura. Temos de ir mais além, de transcender o dualismo palavra - realidade. Assim, temos de usar as palavras sem nos tornarmos escravos delas. Porque por mais elevadas que sejam, as palavras são apenas símbolos, descrições e nunca coisa em si. Para atingir a coisa em si, as palavras - esses ruídos da mente -devem morrer. E quando elas morrem surge o silêncio."

Jorge Bustamante; Frente ao Muro.

NOVO ROMANCE




Um abraço ao querido amigo Eça pela publicação do seu primeiro romance. A certeza de um excelente livro que, em breve, a Guerra e Paz, apresentará aos leitores.

9.3.10

PSEUDO-VIDA


Juarez Machado

“Se olharmos bem para as nossas vidas, acabaremos por ver com clareza quantas tarefas – sem qualquer importância e a que chamamos ‘responsabilidades’ – se acumulam até não haver espaço para mais nada. Um mestre compara-as a ‘obrigações domésticas num sonho’. Dizemos a nós mesmos que queremos dedicar algum tempo às coisas importantes da vida… mas nunca há oportunidade para isso.

Temos muito que fazer, mesmo quando nos levantamos, logo de manhã: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, lavar os dentes, dar de comer ao cão ou ao gato, lavar a loiça da noite anterior, descobrir que se acabou o café ou o açúcar, sair para os comprar, preparar o pequeno almoço… A lista é infindável. Depois temos que separar as roupas, escolhê-las, passá-las a ferro e dobrá-las. E os cabelos, e a maquilhagem?

Impotentes, vemos os nossos dias preenchidos em conversas telefónicas e projectos fúteis, vemos tantas ‘responsabilidades’, ou seria melhor chamar-lhes ‘irresponsabilidades?”

Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da Morte.

8.3.10

FICA AQUI


Juarez Machado

Não vás para longe. Fica quieta. Fixa. Imóvel. O pensamento também pára e tu podes descansar. Sozinha. Assim. Pés paralelos no chão. Olhos postos onde puderes. Aguenta o silêncio e respira como se não tivesses pulmões. A água não existe fora de ti e, quando fores buscá-la, limpa todas as lágrimas. Não vás para longe. Fica aqui. Ao pé do que te integra e repara.

5.3.10

O QUE NÃO SE ESQUECE


Cezanne

O que, num tempo, fica dobrado em cima da alma. O corpo usa os sentidos e as memórias servem para entender tudo o que resvala num absoluto momento de satisfação.

2.3.10

OBJECTOS QUE IMPORTAM


Edward Hopper

As mesas são importantes porque é nelas que o nosso corpo se encosta para comer e isso faz com que a morte venha mais tarde. As mesas são objectos de criação porque é em cima delas que se escreve e que se vive. Repare-se num prato de massa fresca em cima de uma mesa de madeira antiga. A massa fica diferente se a colocarmos no mesmo prato em cima de uma mesa de vidro, de mármore ou de verga. O lugar onde se pousa o objecto é tão importante quanto o lugar onde se colocam os pés. São os lugares da nossa história, quer queiramos quer não.

1.3.10

AJUDA


Ajuda-me a olhar, ajuda-me a sentir, ajuda-me a por uma perna em frente da outra para andar, ajuda-me a percorrer o caminho, ajuda-me a pensar. Não consigo continuar a ser. Resta-me a imaginação que foge porque a ajuda não chega a tempo de a prender cá dentro.

21.2.10

PARIDADE


Ter uma filha que cresce a olhos vistos e que quase atinge a minha altura é sinal de que o tempo existe, mesmo que seja produto de um movimento contínuo da consciência. O espaço torna-se divisível e, melhor que tudo, as palavras começam a fazer sentido idêntico para duas mulheres que começam uma nova fase: a da paridade.

20.2.10

CONSCIÊNCIA


Há noites que alteram o nosso estado de consciência. Noites brancas pintadas de vermelho. Noites com cheiro a jasmim e quente e incenso e pó e luz e água e medo e grito e pranto e riso e dor e contentamento.

19.2.10

EM CASA COM PAULA REGO

Fui à Casa das Histórias. Ver o meu quadro preferido fez-me voltar atrás.
Aqui, ainda não sabia que a Bela Adormecida estava morta.

18.2.10

PÉS QUIETOS


Lembro-me da noite em que explicou a razão de ser do espaço e do tempo. Tinha um copo de vinho na mão e, enquanto as frases se soltavam da boca, todo o conhecimento se desprendia do lugar onde estava arrumado. Tem o conhecimento arrumado em gavetas e, de vez em quando, abre uma a uma sem nunca misturar o que nelas está guardado. É fantástico olhar para os seus pés, firmes no chão da sala, enquanto as frases se constroem sozinhas por causa do seu pensamento.

A lucidez com que fala é parecida com a transparência da água num copo de cristal. Os pés estão sempre lado a lado, em cima de um chão que conhece e que percorre enquanto não fala. Está sempre sentado quando usa palavras. É impressionante. Parece que quer que elas se movam só numa direcção, por isso se mantém quieto com os pés.

17.2.10

AMOR EM ESTADO ADULTO


No dia em que ela afirmou a liberdade, ele entendeu o sentido de tudo. Viver sem cadeado. Um amor sem corrente e com a costura precisa para o entendimento. Aquele amor sem cancela que os dois entendem como coisa feita de propósito para se voar. Não há perguntas porque as respostas lhes antecedem, sem medo nem punição. Não há confronto nem cobrança e a verdade é a coisa dita com mais frequência.

Fazem da vida, material de conhecimento, da cama, lugar de combate; da mesa fazem lugar de palavras e da estrada lugar de procura. Entendem a existência como coisa individual, tempo de estar consigo para poder estar com o outro. Nas noites em que, longe, sentem o desejo perto, telefonam para o transformar em corpo. Quando os olhos se vêem, tudo o que viveram sozinhos é motivo de troca, de riso e de contentamento.

Não querem saber se é casamento, namoro, encontro ou outra qualquer designação definidora de coisa superior. Isso. Coisa superior, vivida sem a limitação do outro, sem juízo de valor ou pergunta pateta. Coisa que, apenas quem ama em estado adulto consegue viver.

14.2.10

DEPOIS

Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa de muita importância e eu tenho andado a tropeçar em banalidades. Coisas de pouca importância que roubam tempo à importância das coisas. Agora interrompem-se os dias. Carnaval. Máscaras datadas em cima de caras sempre mascaradas provocam-me enorme sensação de urticária.

Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa séria. Depois das ondas do mar, depois da marginal percorrida, depois das noites frias e da areia molhada, depois do suspiro e depois de tudo o que o amor permite que seja e que aconteça.

(Lou Reed; Perfect Day)



P.S. Fica a sugestão: o filme de Woody Allen "Tudo Pode Dar Certo", supera qualquer expectativa. Nada melhor para quem pretende entender o princípio de incerteza de Heisenberg.

13.2.10

ONTEM HOJE E AMANHÃ



Eu era muito pequena. Na rua estreita vivia, no final de uma descida íngreme e sombria, uma vizinha que passava os dias com a mãe atrás de um balcão cheio de tarecos. Eram tachos, canecas, pratos, bonecas, talheres, vassouras, piaçabas e tampas de sanita ao pé de baldes. Era a minha vizinha das músicas, das letras e das brincadeiras no degrau de pedra baixinho onde me sentava para cantar. Eu usava bibe às riscas para não sujar o fato domingueiro. Ligávamos o rádio perto do ouvido e cantávamos como se não houvesse nem ontem nem hoje nem amanhã. Não podia imaginar que, passados trinta e cinco anos, um aluno me ofereceria o disco. Hoje, sem bibe, sem vizinha e sem rua estreita, a memória fica como se o tempo não tivesse qualquer importância.

12.2.10

DO CÉU À TERRA


Samuel Bak

Um dia de nevoeiro pode ser mais bonito que um dia de sol. A tristeza pode possuir maior grandeza que a alegria. Porque o cinzento é mais poderoso que o branco e a beleza do poder é mais densa que a do contentamento. Talvez por pertencer ao tipo de beleza que permite a supremacia, a audácia, o caminho; mesmo quando o sol se esconde e o fumo desce do céu à terra.

11.2.10

MESA REDONDA


A propósito de uma mesa redonda e da troca de estranhas e bonitas ideias, publico aquilo que Fields me ofereceu num dos seus comentários:

“Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.”
(Clarice Lispector)

Obrigada, estimada e atenta mulher.

9.2.10

PORTA DE FRIGORÍFICO

Numa porta branca de um frigorífico branco, numa casa branca de uma Lisboa branca, a cozinha convida amigos a entrar. Enquanto tiro o pacote de natas para os bifes que fervilham, leio num íman bem à minha frente:
“Cinema é arte. Teatro é vida. Televisão é mobília.”
Quanta verdade posta numa porta branca de um frigorífico branco numa casa branca de uma Lisboa branca. Até faz impressão.

8.2.10

VENHAM DIZER-ME


Venham dizer-me que o amor é lindo, que as flores dançam e que os pássaros cantam. Venham depressa exigir felicidade a quem sabe que o corpo a consome e a alma não a aproveita. Venham falar-me da sabedoria em cima de um prato de riso e massa fresca. Venham pedir favores a quem não sabe o que são e depois gritem todos de raiva podre. Venham dizer-me da injustiça dos fortes para com os fracos, da arrogância dos ricos e do lamento dos pobres. Telefonem-me aos berros por causa da conta da luz e apaguem o lamento com que vão pagá-la. Agora venham dizer-me que é o sofrimento que desenvolve a força da mente que eu acredito e aplaudo.

7.2.10

COISAS FORA


Amadeo Modigliani

No dia em que eu descobrir a forma de deitar coisas fora sem que o lixo as engula, no dia em que eu puder entregar gavetas a pessoas que as não têm, regressarei a uma tranquilidade mais limpa.

6.2.10

UMBIGO


Amadeo Modigliani

Coisa que serve para nada, depois de já ter servido para tudo. Não gosto de olhar para o meu umbigo, faz-me lembrar placenta e útero e sangue. Há quem queira deixar de o ter e, por isso, entra na sala de cirurgia. Prefiro-o ao nada que é o liso.

5.2.10

PÉS


Maurice Denis

Nunca me lembro que tenho pés. Quando, de vez em quando, os estico para o colo da minha Sílvia, percebo, como nunca, a sua existência. Depois descasca-se o cansaço com a lima, molham-se com o cheiro da água quente e, dali saio com menos de mim. No dia seguinte, os meus pés têm menor dimensão. Finos e mais macios que antes, parecem ser outros que coloquei para me distrair do chão que piso todos os dias. O colo da Sílvia transforma os meus pés em outros. Porque as mãos que ela tem são íntimas dos pés de que nunca me lembro.

4.2.10

MÃOS


Paul Klee

As mãos que comem são as mãos que limpam. As mãos que trabalham são as mãos que mexem. As mãos são sempre ferramenta para tudo. Agarram pessoas, copos, cabelos, roupa, lixo, livros e talheres. Levam à boca o alimento e tiram da porta as chaves de casa. Carregam na campainha e ligam o telemóvel. As mãos que pegam no gel, espalham-no pelo corpo, coçam as costas vazias de medo e penteiam cabelos desconexos. São instrumentos de chegada e de partida. Mãos. Lugar que, no corpo, ocupa espaço sempre descoberto, mesmo quando as luvas tapam afazeres.

3.2.10

ENGANO


As pessoas más julgam que as outras são más.
As pessoas invejosas julgam que as outras são invejosas.
As pessoas mentirosas julgam que as outras são mentirosas.
As pessoas boas julgam que as outras são boas.
As pessoas verdadeiras esperam verdade das outras.
As pessoas honestas esperam honestidade e… um dia, as pessoas percebem que é um engano julgar os outros a partir de si próprio.

2.2.10

PEDRO NA AUTO ESTRADA


Luísa conduzia na auto-estrada a 150 Km à hora. O sol de Inverno limitava-lhe a visão. Alcatrão gasto e carro pouco preparado. Pensou ser o tempo de trocar de máquina, já que os dedos pediam outro tipo de volante, outro tipo de assento. A estrada estava limpa de gente. Cinco da manhã. Regressavam a casa os que tinham a certeza do dia que nascia. Os outros ainda dormiam sem certezas, perto das almofadas cobertas de branco.

Um carro ultrapassou-a. O homem olhou e seguiu em frente, como que a dizer que estava ali. Luísa não entendeu e voltou a passar pelo lado esquerdo de quem lhe travava o andamento: parvo, pensou.

Depois de algumas ultrapassagens parecidas com uma corrida improvisada, os carros mantiveram-se lado a lado, entre a noite e o dia que, prestes a aparecer, prometia estranha aventura.

“Eu sou o Pedro. Café?”, estava escrito num papel colado ao vidro. Não podia ter sido escrito durante a viagem. Por certo tinha-o pronto para mostrar em ultrapassagens pensadas. Luísa sorriu e acenou com a cabeça. Deixou que o carro seguisse atrás de si e, alguns quilómetros depois assinalaram a saída para a estação de serviço. Pedro seguiu-a com todo o entusiasmo posto no rosto.

Luísa não desceu do carro, tirou da carteira um pequeno papel engelhado e escreveu: “eu não gosto de café e o meu nome situa-se entre o meu e o seu carro.” Luísa.

Atirou o papel para o asfalto no momento em que Pedro se preparava para lhe abrir a porta. Arrancou à velocidade permitida pela lei e pelo discernimento.

1.2.10

SEMPRE CLOONEY



A pressão de um emprego que consiste em despedir pessoas, dizer-lhes que estão dispensadas de um lugar que ocuparam durante anos.

A pressão auto-imposta de uma vida sem compromissos.

A realidade amorosa colocada (entre parêntesis) porque assim o exige quem pretende ter mais que uma família estruturada.

A tentativa de uma ligação que se julgava repudiar.

Depois do conteúdo de um filme despretensioso e muito engraçado, o charme, a classe, a atitude do que se mantém, simplesmente Clooney.

E ainda, a melhor frase: “considera-me uma pessoa igual a ti, mas com vagina”.

31.1.10

A MOEDA DA AVÓ EMILIA




A minha avó dava-me, todos os domingos, uma moeda. Ainda hoje tenho a mania de encher porquinhos com moedas. Aos domingos e nos dias que me parecem domingos.

30.1.10

PROUST NO SOFÁ CÁ DE CASA



"O amor é uma doença incurável". "No amor há sofrimento permanente". "Aqueles que amam e aqueles que são felizes não são as mesmas pessoas". O pessimismo romântico de Proust baseou-se, pelo menos em parte, na combinação de uma necessidade intensa de amor e uma falta de jeito tragicómica ao tentar obtê-lo. (Pag.72)

COISAS QUE ME INQUIETAM (20)


Saí agora da sala 3 do King. Lars Von Trier, Antichrist. Podia ter passado o tempo num musical, a bater o pezinho e a abanar a cabeça. Podia ter ido ver o Clooney, depois à festa do Lux e tal e coisa e noite e copos e diversão.
Fiquei ali parada, no medo, no desespero, na angústia, na raiva, no ódio e no poder.
Tão soberbo quanto hediondo. Vou precisar de químicos para dormir esta noite.

29.1.10

OA CACIFOS DAS PESSOAS


Paul Klee

Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas. Quadradinhos pequenos em sala de professores. Chaves na mão e, aberta a porta, um mundo de papel, comida, cigarros, pastas, água, bolachas e outras ferramentas necessárias à sobrevivência.
Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas: desarrumadas, metódicas, egoístas, disponíveis, descontraídas, complicadas, mentirosas, irritantes ou amorosas.
Um estudo sobre a forma como as pessoas arrumam os cacifos, ou não, poderia ser objecto de investigação psicanalítica.

28.1.10

NO MEU TEMPO


Pieter Brueghel

No “meu tempo” havia respeito, as pessoas tinham palavra e não era necessário recorrer a tribunais para provar o dito ou o feito. No “meu tempo” as palavras tinham peso e, atitudes demonstravam carácter e bom senso. No “meu tempo” as coisas eram diferentes, os filhos respeitavam os pais, os velhos eram protegidos, as crianças aprendiam e os governantes tinham princípios. Era o “meu tempo”; a altura em que me sentia jovem, tinha poucos anos e muita energia. Talvez por isso diga que era o “meu tempo”, porque ainda não percebi que o tempo presente é o único que interessa.

O “meu tempo” é o que hoje vivo, onde me situo e ajo, onde posso mexer nas coisas. O tempo de todos os dias é meu porque o ocupo e transformo, a não ser que persista na ideia morta de que o tempo que foi “meu” já não existe. Então, o que é o tempo que vivo agora? O dos outros?

27.1.10

ENCONTRO


Cecile Veilhan

Havia outras duas amigas. Ficaram longe muitos meses. Tinha, o marido de uma delas, viajado para longínquo continente. De regresso, percebeu que tinha afectos adiados. O encontro marcado fez entender a ambas que não há substitutos, quando a permanência do sentir é uma realidade.

26.1.10

"AMIGAS"


Cecile Veilhan

As duas amigas tinham, entre si, o valor do afecto. Um dia, uma delas encontrou um namorado estrangeiro. Fascinada, não voltou a falar de afectos. Fugiu para perto de um amor substituto.

25.1.10

DOBRAS E GRITOS (39)

Vampiros a toda a hora. Na TV, no Cinema e na Literatura. Anda tudo farto da realidade? Sublimação de desejos inconscientes?
Mas que mania é esta agora?

23.1.10

PAI


Vieira da Silva

Quando eu era pequena, o meu pai colocava o tabuleiro em cima da mesa da sala e mandava-me sentar à sua frente. Impunha as regras do jogo e as outras. O meu pai nunca fez batota, nem no jogo nem nos afectos. Por isso é que eu ainda jogo com ele às duas coisas.
Feliz Aniversário, Pai.

22.1.10

CANSAÇO (1)


Cecile Veilhan

- Agora entendo melhor.
- O quê?
- Aquilo que dizes quando ficas calada.

21.1.10

CANSAÇO



Cecile Veilhan

- Porque te queixas?
- Porque é verdade que não me ajudam. Esquecem-se de mim e julgam-me escrava.
- Que já fizeste para mudar a situação?
- Estou farta de reclamar, amiga.
- Esse é o problema. Age calada em vez de usares as palavras para ficares quieta.

18.1.10

IRA


Paul Klee

No âmago de cada frustração, encontramos sempre uma estrutura básica: o choque de um desejo com uma realidade inflexível.

Séneca conhecia um homem rico, Védio Pólio, um amigo do imperador Augusto, que tinha um escravo que numa festa deixou cair um tabuleiro com taças de cristal. Védio detestava o som do vidro a partir-se e ficou tão furioso que ordenou que o escravo fosse atirado a um tanque de lampreias.
Védio Pólio estava furioso por uma razão identificável: porque acreditava num mundo em que os copos não se partem nas festas.

Gritamos quando não conseguimos encontrar o comando da televisão, por causa de uma crença implícita num mundo em que os comandos não se perdem.

A reconciliação com as inevitáveis imperfeições da existência é um caminho.

17.1.10

A MORTE QUE TODOS PROCURAM


Entre o estar e o ser. No acto profundo de um momento solitário. Quando, em êxtase, o grito encontra o silêncio e o corpo acontece. Nada na alma subsiste. Cigarro.

16.1.10

PERGUNTA CORRECTA


Helen Frankenthaler

A pergunta correcta é a condição necessária para uma resposta aceitável. Uma pergunta bem feita desempenha o seu papel e, às vezes, nem precisa de resposta.
“Duas mãos que batem uma na outra produzem um barulho. Qual o barulho de uma só mão?”.

15.1.10

ARTE E ÉTICA


Helen Frankenthaler

"A arte é ética na medida em que desperta. Mas o que sucede quando actua em sentido contrário? "

Thomas Mann; A Montanha Mágica

14.1.10

HUMANIDADE


Helen Frankenthaler

"Explico-lhe resumidamente. A Liga para a organização do progresso, partindo da teoria evolucionista de Darwin, desenvolveu a tese filosófica de que a vocação mais natural e intrínseca da humanidade, se traduz no seu próprio aperfeiçoamento"

Thomas Mann; A Montanha Mágica

12.1.10

MEU OBJECTO (1)


Há também os que têm de ser nossos por causa de pessoas que, com amor, encontram forma bonita de nos dizer muitas coisas.

11.1.10

MEU OBJECTO


Escolhi-o há muito.Numa sala cheia de quadros e a vontade de trazer um para casa. Morte. Talvez mulheres que morrem. Pessoas em diálogo. Corpos em movimento. Troncos de árvores que existiram.
Vejo-o todos os dias, do lugar onde me sento. Olho-o e descubro-o. Há objectos criados só para nossa pertença.

9.1.10

VOU


Vou enfiar-me dentro de um caixote com rodas e tampa. de um caixote com rodas e t

8.1.10

OS ESTÚPIDOS


A ignorância dos que nada vêem. Para além da cadeira onde se sentam e do bife que comem, só existe entendimento para a visão, sempre nítida, do óbvio. Resta a soberba que advém dos muitos vazios por preencher.

7.1.10

OS ARROGANTES


A arrogância dos lúcidos solitários, dos que não vão no rebanho porque não querem. Simples. Não querem. Serão estranhos ao lugar comum que ocupam os estúpidos. Depois, a recusa da burrice, é tida como vaidade.

6.1.10

OS QUE SOBEM

Quem percorre caminhos de entendimento e sensibilidade, encontra na vida a parede a que se encosta. Quem pega no corpo para gritar e fazer das pernas, instrumento de corrida, acaba no mundo da incompreensão. Fugir à ignorância é perigoso. Fica-se lúcido até ao lugar da solidão. Depois riem, riem muito porque a estupidez não chega para alcançar os caminhos da clarividência.

5.1.10

SOZINHOS


Os que, com a verdade vivem, restam sós. Ninguém a quer. Foge-se das coisas difíceis porque não se cresceu ao ponto de entender que são elas as que importam.

4.1.10

O INCÓMODO DA VERDADE


Aquilo que deveria ser entendido como prioridade é posto de lado, como sarna nojenta a que alguns se apegam para incomodar outros. A verdade, a estúpida verdade que afronta os incompetentes, os mentirosos, os hipócritas e os cobardes.
Dias cheios de verdade na garganta. Olhar de soslaio para quem a diz. As palavras servem para dizer, para pôr na mesa o que acontece, para mexer nos dias dos que fazem pouco mais que fingir. Andamos todos a fingir. Fingimos que somos felizes, fingimos que temos dinheiro, fingimos que a paz é real e fingimos que trabalhamos. Curioso: todos sabemos dos fingimentos uns dos outros e todos continuamos debaixo da mesa, à procura da verdade que não dizemos.E quando a hora chega, quando a garganta traz para fora a verdade que se esconde, todos olham para quem a diz, como se a pecar estivesse. Cambada.

3.1.10

NÃO QUERO TER TEMPO


Aos que reclamam o tempo que escolhem não ter. Amigos longe porque o tempo não chega para o abraço. Família a correr porque o tempo não dá para jantar. Colegas em intervalos, divididos entre o café, o cigarro e o xixi rápido antes de entrar em sala. Alunos a correr porque o tempo é curto para explicar com calma a matéria da semana passada.
O tempo… a merda do tempo que escolho não ter, que prefiro encurtar em caminhos para lugar nenhum.
Quando me sento para parar? Quando entenderei a não existência de um contínuo movimento da consciência que não aquieta?
Quando for velha saberei integrar que o tempo é, por demais, pequeno. Depois será tarde. É mentira que não tenho tempo. A verdade, a minha verdade, é que não quero tê-lo!

2.1.10

EM CASA


Hoje fico em casa.Estou numa espécie de paragem.
As coisas clarificam-se.
Os dias vão distinguindo o que é e o que não é.
Salto para domínios desconhecidos.
Ficar quieta e perceber que a transformação vem.
Não vou interpretar os silêncios.
A vida está aí para se viver.
Sou desconexa, principalmente antes do banho da manhã.