24.5.10
DESIGUALDADE
A.C.S.
23.5.10
22.5.10
TENHO UM AMIGO LONGE
21.5.10
MOMENTO FACEBOOK (5)
- Devo sentar-me?
- Figura de retórica ou escreves de pé?
- Escrevo de pé e só com uma mão. Na outra tenho a espada.
- Lá estás tu convencido de que és igual ao Camões.
- Está bem. E essa novidade?
- Terminei o livro e pensei chamar-lhe “Livro do Desassossego”. O que achas?
20.5.10
MOMENTO FACEBOOK (4)
- Estou cansada.
- Que te aconteceu?
- Nada mais que a vida.
- Não te preocupes, Deus ajuda-te.
- Qual Deus?
- Aquele que tu inventas para te sentires protegida.
- Eu não invento.
- "Sou eu próprio uma pergunta colocada ao mundo e devo providenciar a minha resposta. Caso contrário estarei reduzido à resposta que o mundo me der" (Carl G. Jung)- E a resposta que o mundo me der pode satisfazer-me. Caso contrário providenciarei para que a encontre no lugar único da existência autêntica: Eu mesma! De qualquer forma, entre o mundo e a minha existência não há incompatibilidade: assim eu possa encontrar o equilíbrio.
19.5.10
MOMENTO FACEBOOK (3)
- Hoje tive um dia mau.
- Porquê?
- Porque a chuva atirou-me as ideias pela sarjeta.
- Não leves as ideias para a rua.
- Tenho que as levar, elas não me largam quando vou comprar bananas.
- Vais fazer as bananas no forno?
- Não, saí para as comprar mas passei o tempo todo a agarrar as ideias na sarjeta. Quando cheguei à mercearia do Sr. Jacinto já estava fechada.
- E agora?
- Agora não como as bananas gratinadas mas escrevo um texto.
- Sobre quê?
- Sobre a impossibilidade de comer bananas no forno quando as ideias querem fugir.
18.5.10
MOMENTO FACEBOOK (2)
- Olá, estás feliz?
- Que é isso?
- Não sei, talvez uma espécie de momento.
- Um estar que querias que durasse toda a vida.
- Uma pequena transitoriedade.
- Bem me parecia que a diferença entre o ser e o estar era imensa.
- Imensa, cara amiga. Shakespeare usou o verbo To be: Ser ou Estar
- Nunca tinha pensado nisso.
- Então pensa, pensa nessa imensa diferença que faz com que a felicidade não seja mais que um estar pequeno e intermitente que nos empurra para um tempo fragmentado de prazer. Nada mais.
17.5.10
MOMENTO FACEBOOK (1)
- Olá.
- Olá, como estás hoje?
- Melhor. Cheguei do fim de semana e lembro o que me disseste há dias.
- Não disse. Escrevi.
- Pois. Escreveste: Se não sabe, porque pergunta?
- Carver.
- Eu sei. Mas não li. As perguntas são sempre úteis.
- Enganas-te. Não são. Se queres ser feliz, não faças perguntas.
14.5.10
13.5.10
UM CHINÊS
- Ah sim? De quem?
- Um chinês que era comunista e diziam que também era poeta.
- E quem era ele?
- Era o 971!
12.5.10
CIÊNCIA
- O que é isso?
11.5.10
ARBITRÁRIO
- Podem interpretar o esquema das duas maneiras. A ordem é arbitrária.
- O que é isso?
- Não sabem o que é arbitrário?
- Eu sei, eu sei. É aquela coisa que passa de pais para filhos!
10.5.10
VOCABULÁRIO
- Ai disse? Que deficiências?
- De vocabulário. Acha bem?
- Acho perfeitamente legítimo, sim.
- O que significa legítimo?
7.5.10
6.5.10
5.5.10
JUNTOS
4.5.10
SENTIDAMENTE
3.5.10
TEXTO SIMPLES
2.5.10
1.5.10
30.4.10
GENTE QUE USA O RELÓGIO PARA ENFEITAR O PULSO
- Combinado. Às duas na esplanada.
- Avisa-me quando chegares.
- Para quê?
- Para saber que já lá estás.
- Saberás que cheguei se chegares à hora combinada.
- Mas eu atraso-me sempre um pouco.
- Então diz-me quanto tempo te atrasas e marcaremos outra hora.
- Que disparate.
- Disparate é marcar hora para não se cumprir.
- Não podes ser assim tão radical.
- Eu não sou radical. Sou coerente.
29.4.10
A FILHA DO MEU AMIGO ANTÓNIO
- Pai, quando fechas a porta do frigorífico, a luz apaga-se?
- Apaga, filha.
- Como é que sabes?
28.4.10
PALAVRÕES
27.4.10
LUGAR DO NADA
26.4.10
SEM DESCANSO
25.4.10
OUTRO JOGO
21.4.10
20.4.10
COISAS QUE ME INQUIETAM (23)
19.4.10
COISAS QUE ME INQUIETAM (22)
Procurar lugar, estacionar, subir as escadas, procurar a loja, procurar a secção certa, ir para o vestiário, esperar na fila, vestir, número errado. Despir, sair do vestiário, procurar outro número, entrar no vestiário, fila, esperar, entrar, vestir de novo, não fica bem no corpo.
Vestir, voltar a sair, procurar nova loja, descer as escadas, subir as escadas, voltar ao princípio, procurar a caixa. Fila. Esperar, pagar, voltar a descer as escadas, ir para o estacionamento. Máquina de pagamento, fila, nova espera.
Entrar no carro e respirar fundo para não gritar de raiva. Uma tarde perdida e nada acrescentei à minha vida.
18.4.10
17.4.10
DE CADA VEZ
Quando se sobem escadas e se percorrem ruas, não há conversa. Conversar enquanto se anda é desperdício de tempo, nem se entende o que se fala, nem se olha para o que passa. Não. Definitivamente, as coisas precisam de separação para que Luísa as mastigue.
O mar está lá para que o sinta de perto, o livro existe para que o agarre com os olhos, as pernas percorrem caminhos para que os entenda. Não pode existir clareza em nenhuma ideia se a misturarmos com o corpo.
16.4.10
AO MESMO TEMPO
Enquanto lê, olha para as ondas; enquanto olha para as ondas, pensa nas frases lidas. Teresa continua com todas as ideias concretizadas. Acredita que o mundo se conhece assim: entre olhares e afazeres, sem paragem.
15.4.10
SUBIR OU DESCER AS ESCADAS
- Anda, Luísa, daqui podemos ver o mar.
- Não quero ver o mar, Teresa.
- Porquê?
- Porque fico inquieta quando vejo o mar e não posso entrar nele.
- És tão disparatada, Luísa. Ver também é bom.
- É. Quando não queres agir.
14.4.10
DESCER DE PÁRA-QUEDAS
A Luísa sempre foi serena. Quando pensou em casar-se com o Pedro, convidou-me para madrinha. Dizia que era original ter uma amiga madrinha. Aceitei porque sabia que ela casaria com o Pedro. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a família que vinha de férias. Que gira. Disse-lhe que sim porque sabia que saltaria da cama a meio da noite para qualquer coisa, muito mais para esperar quem vem de viagem.
A Luísa tem ideias, muitas ideias que põe em prática. Imagina que nada se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, para que o mundo aconteça.
O problema da Luísa é esse: estar presente. Um dia descobre que a vida pode acontecer sem ela e sente um alívio, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra serena. A Luísa anda sempre serena porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes.
Corre atrás da realidade e, qualquer dia, é vê-la a descer de pára-quedas, em vez de subir, como as pessoas iguais à Teresa. Não me admirava.
13.4.10
SUBIR DE PÁRA-QUEDAS
A Teresa sempre foi extravagante, até nos namorados. Quando pensou em casar-se com o Paulo, convidou-me para levar as alianças. Dizia que era original ser uma amiga a transportar o objecto. Aceitei porque sabia que ela nunca casaria com o Paulo. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a equipa do Benfica que tinha ganho não sei o quê. Maluca. Disse-lhe que sim porque sabia que não saltaria da cama a meio da noite para coisa nenhuma, muito menos para ir ver jogadores cansados dos pés.
A Teresa tem ideias, muitas ideias que não concretiza. Imagina que tudo se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, nos momentos em que o mundo acontece.
O problema da Teresa é esse: concretizar. Arranja muitos namorados e quer ir esperar jogadores. Um dia descobre que a vida não se inventa e tem mais um desgosto, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra a correr.
A Teresa anda sempre a correr porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes. Corre atrás dos sonhos que inventa e, qualquer dia, é vê-la a subir de pára-quedas, em vez de descer, como as pessoas normais. Não me admirava.
12.4.10
FATAL IMPERMANÊNCIA
9.4.10
FATAL PERMANÊNCIA
Estar de férias permite ao corpo uma permanência lânguida e fatal. Tudo se mantém, como se o mundo tivesse parado. Não gosto de estar de férias porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: cala-te!
8.4.10
7.4.10
6.4.10
5.4.10
3.4.10
2.4.10
POR CAUSA DAS PALAVRAS
Ele é escritor. Ela é aprendiz. Encontraram-se por causa das palavras. Ele escreveu a primeira frase. Ela continuou a ideia. Um dia vão construir uma história. Porque é assim que as coisas boas acontecem. Sem aviso prévio.
1.4.10
SORTE
31.3.10
PERTO DA HISTÓRIA
30.3.10
LEIS DE UM GOVERNO MODERNO

Paul Klee
2. Já tiveste? O governo dá-te a pílula do dia seguinte!
3. Engravidaste? O governo dá-te o aborto!
4. Tiveste filho? O governo dá-te o Abono Família!
5. Estás desempregado? O governo dá-te o Subsídio de Desemprego!
6. És drogado? O governo dá-te seringas!
7. Não gostas de trabalhar? O governo dá-te o Rendimento Mínimo
8. Foste preso e agora puseram-te cá fora? O governo dá-te o subsídio de Reinserção Social.
Agora experimenta... ESTUDAR; TRABALHAR; PRODUZIR e ANDAR NA LINHA, e verás o que é que te acontece!
VAIS GANHAR UMA "BOLSA" DE IMPOSTOS NUNCA VISTA EM QUALQUER OUTRO LUGAR DO MUNDO!!!
(Autor desconhecido)
29.3.10
EXCELÊNCIA OU FELICIDADE
"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.
Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que "o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"
Texto de João Pereira Coutinho
28.3.10
27.3.10
26.3.10
PORTA FECHADA
Os outros surpreendem quem espera. Colocamos os pés e os braços à disposição e recebemos pontapés duros, vindos dos que não provam o sabor das coisas boas. Porque acham que o mundo os empurra para o abismo, empurram-nos para o escuro, julgando poder encerrar a porta com força. Mentira. A porta só se encerra quando as nossas mãos a empurram. Porque as mãos dos que cerram os dentes não são as nossas.
25.3.10
24.3.10
ALGUÉM
23.3.10
ACTOS

22.3.10
FORMAS
“Julga que se conhece, se não se construir de algum modo? E julga que eu posso conhecê-lo, se não o construir à minha maneira? E julga que me pode conhecer, se não me construir à sua maneira? Só podemos conhecer aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento pode ser esse? Não será essa forma a própria coisa? Sim, tanto para mim como para si; mas não da mesma maneira para mim e para si: isso é tão verdade que eu não me reconheço na forma que você me dá, nem você se reconhece na forma que eu lhe dou, e a mesma coisa não é igual para todos e mesmo para cada um de nós pode mudar constantemente e, de facto, muda constantemente.
E, contudo, não há outra realidade fora desta, a não ser na forma momentânea que conseguimos dar a nós mesmos, aos outros e às coisas. A realidade que eu tenho para si está na forma que você me dá; mas a realidade para si não é para mim. E, para mim mesmo, eu não tenho outra realidade senão na forma que consigo dar a mim próprio. Como? Construindo-me, precisamente.”
Luigi Pirandello
21.3.10
O TEU ESPAÇO NO MEU ESPAÇO
20.3.10
APRENDI
Há outros. Os que ficam. Os que fazem de mim o que vou sendo.
19.3.10
18.3.10
ATRÁS DA PORTA
16.3.10
A DANÇA
Só dança quem tem pés e pernas e braços e contentamento. Só dança quem voa mais alto que os pássaros. Só dança quem usa as palavras para agir. Só dança quem pede ao espírito que acompanhe os pés e as pernas e os braços e o contentamento. Os outros, os que não tiram os pés do chão, ficam parados no espaço e no tempo que nunca construíram. Porque nunca quiseram dançar.
15.3.10
BRUTA
Chegou a casa com vontade de abrir o dicionário de sinónimos que, em tempos, lhe ensinaram ser útil para construir textos. Tinham usado a palavra bruta. Sentou-se no jantar do bacalhau, do queijo, do tomate cherry, da mousse de limão e do creme de chocolate branco. Sabia que a palavra era dura, negra, fria.
Abriu o dicionário na página da letra B e confirmou: animal, besta, fera. Respirou. Sabia que as palavras são objectos inanimados que tomam forma quando as usamos. Nada de grave. Em frente às azeitonas pretas que comeu sem parar estava a forma viva de todas as letras que se disseram sem dicionário, as mais puras e as mais limpas. Nem bruta, nem animal, nem besta nem fera. Aquilo que o ser lhe dizia fazer sentido. Apenas.
14.3.10
DEPOIS DA BONECA
Colocou o cinzeiro no lugar. A cinza do dia anterior espalhou-se em cima da mesa. O vidro ficou cinzento e Luísa rangeu os dentes de raiva. Limpou tudo e percebeu que era a boneca de ontem que devia estar ali, não fosse a imaginação ter feito das suas.
13.3.10
A BONECA
12.3.10
FDS
11.3.10
FADIGA

Max Weber
Foi à casa de banho, fez xixi, lavou as mãos, subiu a escada, desceu a escada, voltou ao piso da informática, colocou o Power Point, falou de religião, fez a chamada, fechou a porta, escreveu no quadro e apagou tudo a seguir. Pegou no carro, chegou a casa, despiu a roupa, fez o jantar, viu o blogue, leu, conversou, viu as notícias, comeu, lavou os pratos, tomou banho, lavou os dentes, colocou creme nas pernas e nos braços. Depois descansou.
10.3.10
FRENTE AO MURO

"Os homens para comunicar uns com os outros, usam normalmente a palavra, mas as palavras nunca poderão exprimir a verdade pura. Temos de ir mais além, de transcender o dualismo palavra - realidade. Assim, temos de usar as palavras sem nos tornarmos escravos delas. Porque por mais elevadas que sejam, as palavras são apenas símbolos, descrições e nunca coisa em si. Para atingir a coisa em si, as palavras - esses ruídos da mente -devem morrer. E quando elas morrem surge o silêncio."
NOVO ROMANCE
9.3.10
PSEUDO-VIDA

“Se olharmos bem para as nossas vidas, acabaremos por ver com clareza quantas tarefas – sem qualquer importância e a que chamamos ‘responsabilidades’ – se acumulam até não haver espaço para mais nada. Um mestre compara-as a ‘obrigações domésticas num sonho’. Dizemos a nós mesmos que queremos dedicar algum tempo às coisas importantes da vida… mas nunca há oportunidade para isso.
Temos muito que fazer, mesmo quando nos levantamos, logo de manhã: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, lavar os dentes, dar de comer ao cão ou ao gato, lavar a loiça da noite anterior, descobrir que se acabou o café ou o açúcar, sair para os comprar, preparar o pequeno almoço… A lista é infindável. Depois temos que separar as roupas, escolhê-las, passá-las a ferro e dobrá-las. E os cabelos, e a maquilhagem?
Impotentes, vemos os nossos dias preenchidos em conversas telefónicas e projectos fúteis, vemos tantas ‘responsabilidades’, ou seria melhor chamar-lhes ‘irresponsabilidades?”
Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da Morte.
8.3.10
FICA AQUI

Juarez Machado
6.3.10
5.3.10
O QUE NÃO SE ESQUECE
4.3.10
3.3.10
2.3.10
OBJECTOS QUE IMPORTAM

As mesas são importantes porque é nelas que o nosso corpo se encosta para comer e isso faz com que a morte venha mais tarde. As mesas são objectos de criação porque é em cima delas que se escreve e que se vive. Repare-se num prato de massa fresca em cima de uma mesa de madeira antiga. A massa fica diferente se a colocarmos no mesmo prato em cima de uma mesa de vidro, de mármore ou de verga. O lugar onde se pousa o objecto é tão importante quanto o lugar onde se colocam os pés. São os lugares da nossa história, quer queiramos quer não.
1.3.10
AJUDA
27.2.10
21.2.10
PARIDADE
20.2.10
CONSCIÊNCIA
19.2.10
EM CASA COM PAULA REGO
18.2.10
PÉS QUIETOS
Lembro-me da noite em que explicou a razão de ser do espaço e do tempo. Tinha um copo de vinho na mão e, enquanto as frases se soltavam da boca, todo o conhecimento se desprendia do lugar onde estava arrumado. Tem o conhecimento arrumado em gavetas e, de vez em quando, abre uma a uma sem nunca misturar o que nelas está guardado. É fantástico olhar para os seus pés, firmes no chão da sala, enquanto as frases se constroem sozinhas por causa do seu pensamento.
A lucidez com que fala é parecida com a transparência da água num copo de cristal. Os pés estão sempre lado a lado, em cima de um chão que conhece e que percorre enquanto não fala. Está sempre sentado quando usa palavras. É impressionante. Parece que quer que elas se movam só numa direcção, por isso se mantém quieto com os pés.
17.2.10
AMOR EM ESTADO ADULTO
Fazem da vida, material de conhecimento, da cama, lugar de combate; da mesa fazem lugar de palavras e da estrada lugar de procura. Entendem a existência como coisa individual, tempo de estar consigo para poder estar com o outro. Nas noites em que, longe, sentem o desejo perto, telefonam para o transformar em corpo. Quando os olhos se vêem, tudo o que viveram sozinhos é motivo de troca, de riso e de contentamento.
Não querem saber se é casamento, namoro, encontro ou outra qualquer designação definidora de coisa superior. Isso. Coisa superior, vivida sem a limitação do outro, sem juízo de valor ou pergunta pateta. Coisa que, apenas quem ama em estado adulto consegue viver.
16.2.10
14.2.10
DEPOIS
Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa séria. Depois das ondas do mar, depois da marginal percorrida, depois das noites frias e da areia molhada, depois do suspiro e depois de tudo o que o amor permite que seja e que aconteça.
(Lou Reed; Perfect Day)
13.2.10
ONTEM HOJE E AMANHÃ
Eu era muito pequena. Na rua estreita vivia, no final de uma descida íngreme e sombria, uma vizinha que passava os dias com a mãe atrás de um balcão cheio de tarecos. Eram tachos, canecas, pratos, bonecas, talheres, vassouras, piaçabas e tampas de sanita ao pé de baldes. Era a minha vizinha das músicas, das letras e das brincadeiras no degrau de pedra baixinho onde me sentava para cantar. Eu usava bibe às riscas para não sujar o fato domingueiro. Ligávamos o rádio perto do ouvido e cantávamos como se não houvesse nem ontem nem hoje nem amanhã. Não podia imaginar que, passados trinta e cinco anos, um aluno me ofereceria o disco. Hoje, sem bibe, sem vizinha e sem rua estreita, a memória fica como se o tempo não tivesse qualquer importância.
12.2.10
DO CÉU À TERRA

Samuel Bak
11.2.10
MESA REDONDA
A propósito de uma mesa redonda e da troca de estranhas e bonitas ideias, publico aquilo que Fields me ofereceu num dos seus comentários:
“Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.” (Clarice Lispector)
Obrigada, estimada e atenta mulher.
9.2.10
PORTA DE FRIGORÍFICO
8.2.10
VENHAM DIZER-ME
7.2.10
COISAS FORA
6.2.10
UMBIGO
5.2.10
PÉS

Maurice Denis
4.2.10
MÃOS

Paul Klee
3.2.10
ENGANO
As pessoas más julgam que as outras são más.
As pessoas invejosas julgam que as outras são invejosas.
As pessoas mentirosas julgam que as outras são mentirosas.
As pessoas boas julgam que as outras são boas.
As pessoas verdadeiras esperam verdade das outras.
As pessoas honestas esperam honestidade e… um dia, as pessoas percebem que é um engano julgar os outros a partir de si próprio.
2.2.10
PEDRO NA AUTO ESTRADA
Luísa conduzia na auto-estrada a 150 Km à hora. O sol de Inverno limitava-lhe a visão. Alcatrão gasto e carro pouco preparado. Pensou ser o tempo de trocar de máquina, já que os dedos pediam outro tipo de volante, outro tipo de assento. A estrada estava limpa de gente. Cinco da manhã. Regressavam a casa os que tinham a certeza do dia que nascia. Os outros ainda dormiam sem certezas, perto das almofadas cobertas de branco.
Um carro ultrapassou-a. O homem olhou e seguiu em frente, como que a dizer que estava ali. Luísa não entendeu e voltou a passar pelo lado esquerdo de quem lhe travava o andamento: parvo, pensou.
Depois de algumas ultrapassagens parecidas com uma corrida improvisada, os carros mantiveram-se lado a lado, entre a noite e o dia que, prestes a aparecer, prometia estranha aventura.
“Eu sou o Pedro. Café?”, estava escrito num papel colado ao vidro. Não podia ter sido escrito durante a viagem. Por certo tinha-o pronto para mostrar em ultrapassagens pensadas. Luísa sorriu e acenou com a cabeça. Deixou que o carro seguisse atrás de si e, alguns quilómetros depois assinalaram a saída para a estação de serviço. Pedro seguiu-a com todo o entusiasmo posto no rosto.
Luísa não desceu do carro, tirou da carteira um pequeno papel engelhado e escreveu: “eu não gosto de café e o meu nome situa-se entre o meu e o seu carro.” Luísa.
1.2.10
SEMPRE CLOONEY
A pressão de um emprego que consiste em despedir pessoas, dizer-lhes que estão dispensadas de um lugar que ocuparam durante anos.
A pressão auto-imposta de uma vida sem compromissos.
A realidade amorosa colocada (entre parêntesis) porque assim o exige quem pretende ter mais que uma família estruturada.
A tentativa de uma ligação que se julgava repudiar.
Depois do conteúdo de um filme despretensioso e muito engraçado, o charme, a classe, a atitude do que se mantém, simplesmente Clooney.
E ainda, a melhor frase: “considera-me uma pessoa igual a ti, mas com vagina”.












