15.6.10

AMOR É ESTRADA PLANA


Grant Wood

Porque o amor é aquela coisa bonita que acontece quanto duas pessoas deixam a sua natureza falar. Uma ouve a da outra e responde sim, sem desconforto. Porque o amor é tão plano quanto a estrada que vai para o Alentejo. Desliza-se sem mágoa quando se entende tudo o que se vê na linha do horizonte e quando se sente o corpo cheio de contentamento.

14.6.10

LORD HENRY (1)


Georges Seurat


"- Quando uma velha senhora cora, não é nada bom sinal. Ah, Lord Henry, quem me dera que me dissesse como rejuvenescer.

- Recorda-se de algum pecado terrível que tenha cometido no seu tempo de juventude, Duquesa?
- Receio bem que tenham sido bastantes
- Então volte a cometê-los. Para recuperar a juventude, basta repetirmos as nossas loucuras."

Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray

12.6.10

SIMPLE THINGS


Paul Klee

Quando encerramos o computador percebemos que há mundo para lá de uma espécie de gesto não encontrado de frente para o monitor.


11.6.10

LORD HENRY


Francis Bacon

"Não existem boas influências, Mr. Gray. Todas as influências são imorais, imorais de um ponto de vista científico.

- Porquê?
- Porque influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo."

Oscar Wilde; O retrato de Dorian Gray

GARDEN


Talvez Luísa se sente num banco de jardim em Lisboa. Talvez encare a hipótese de uma palavra nos olhos de quem não vê. João não sabe se gosta de jardins, mas entende-a.

9.6.10

DIA SEGUINTE


Quando, no dia seguinte, ambos percebem que amar é deixar ser, desapegam-se de si e do outro. Porque o corpo impermanente e constante, mostra, num espaço acompanhado de tempo, o pouco e o muito.

8.6.10

MELODIAS E PALAVRAS


Às vezes, o dia tem chuva. Quando o calor faz as noites secas, depois da chuva ir embora, respira-se tudo de uma vez, para não perdermos nem as palavras nem as melodias.

7.6.10

SEM ROSTO


"Por vezes à noite há um rosto/ Que nos olha de um fundo de um espelho/ E a arte deve ser como esse espelho/ Que nos mostra o nosso próprio rosto."
Jorge Luís Borges

6.6.10

Luz Casal Piensa En mi Tacones Lejanos

O DIA ANTERIOR


Wild Horses
Luísa não descansou. Sentou-se na cadeira baixa de madeira e pediu ao universo alguma espécie de desapego. Era dia de muita ternura e sorriu. Percebeu que amor e beleza são a mesma coisa. João tinha-lhe dito no dia anterior.

João descansou. Percebeu que alguma coisa se podia tornar numa espécie de desafio caloroso que ele ia manter porque sim. João era concentrado. Atento. Depois de escrever um e-mail, encostava-se na cadeira e olhava para o tecto atrás de si, pensando: Onde é que esta mulher estava em 1984 e que sonho tinha em 76?

2.6.10

DÁDIVAS


(Foto Gerard Castello Lopes)

O problema não está no que os outros não nos dão mas no que esperamos que nos ofereçam.

1.6.10

TOLOS


(Foto Gerard Castello Lopes)

O problema, quando existe, está na nossa forma de ver o mundo. Quando o mundo nos empurra para a mediocridade: ou vivemos sozinhos fora dela, ou vivemos acompanhados por ela ou rimos de tudo e de todos, até doer a barriga. Depois, somos tolos mas contentes.

31.5.10

OPÇÃO


(Foto Gerard Castello Lopes)

Há duas maneiras de viver: participando ou assistindo. Se optarmos pela primeira, acabamos no psiquiatra. Se optarmos pela segunda, divertimo-nos imenso!

28.5.10

O QUE NÃO TEMOS


Francis Bacon


“Porque nos falta sempre mais do que aquilo que temos e porque as pessoas que não nos convidam são sempre mais que as que o fazem. A nossa percepção do que tem valor será, portanto, radicalmente distorcida se condenarmos sempre como entediante tudo aquilo que não temos, simplesmente porque não o temos”
Alain de Botton

26.5.10

AS PALAVRAS (1)


Algumas palavras têm poder positivo. Uma sensação de leveza me invade quando oiço a palavra “encanto”. Apetece-me correr para o colo da “menina” ou do “menino” que profere tal vocábulo. Porque “menino” e “menina” são palavras encantadoras.

25.5.10

AS PALAVRAS

Algumas palavras irritam-me. Depois de ouvir um “fofinha” ou de me enviarem “beijocas”, corro para a banheira. As expressões provocam-me calor nas axilas e comichão na barriga das pernas. Só um duche e um creme de altíssima qualidade me permitem a sobrevivência.
Há também quem pense na tarde boa e no bom dia na forma plural. “Boas tardes” ou “bons dias” são ditos ao mesmo tempo que um tremor me invade de cima a baixo. Quando me agradecem com um “obrigadinha”, começo a espumar da boca e só não tenho um ataque porque não sofro de epilepsia. Que eu saiba.

24.5.10

DESIGUALDADE

"Quando um está farto daquilo que o outro acha que é óptimo, é desigual e dá mortos"
A.C.S.

22.5.10

TENHO UM AMIGO LONGE


Tenho um amigo longe. É diferente de mim. Os afectos desenvolvem-se sem corpo. Quando toco nas teclas acontecem palavras. O meu amigo está lá, à espera que as linhas se construam devagar, junto às ideias contrárias. Tenho um amigo que, do outro lado, me ensina a pensar. É preciso ausência para entender as dúvidas.
O meu amigo não me vê mas percebe quando me vou embora e fica em silêncio. Um dia desapareceu para se encontrar com a vida. Talvez tivesse percebido que as linhas começavam a ser curtas.
Sei onde ele está. Percebo os sentimentos dos que ficam longe para poderem respirar. Voltará quando a vida lhe disser tudo o que procura entender. Perto do mar!

21.5.10

MOMENTO FACEBOOK (5)


- Já te contei a novidade?
- Devo sentar-me?
- Figura de retórica ou escreves de pé?
- Escrevo de pé e só com uma mão. Na outra tenho a espada.
- Lá estás tu convencido de que és igual ao Camões.
- Está bem. E essa novidade?
- Terminei o livro e pensei chamar-lhe “Livro do Desassossego”. O que achas?

20.5.10

MOMENTO FACEBOOK (4)


- Estou cansada.
- Que te aconteceu?
- Nada mais que a vida.
- Não te preocupes, Deus ajuda-te.
- Qual Deus?
- Aquele que tu inventas para te sentires protegida.
- Eu não invento.
- "Sou eu próprio uma pergunta colocada ao mundo e devo providenciar a minha resposta. Caso contrário estarei reduzido à resposta que o mundo me der" (
Carl G. Jung)- E a resposta que o mundo me der pode satisfazer-me. Caso contrário providenciarei para que a encontre no lugar único da existência autêntica: Eu mesma! De qualquer forma, entre o mundo e a minha existência não há incompatibilidade: assim eu possa encontrar o equilíbrio.

19.5.10

MOMENTO FACEBOOK (3)


- Hoje tive um dia mau.
- Porquê?
- Porque a chuva atirou-me as ideias pela sarjeta.
- Não leves as ideias para a rua.
- Tenho que as levar, elas não me largam quando vou comprar bananas.
- Vais fazer as bananas no forno?
- Não, saí para as comprar mas passei o tempo todo a agarrar as ideias na sarjeta. Quando cheguei à mercearia do Sr. Jacinto já estava fechada.
- E agora?
- Agora não como as bananas gratinadas mas escrevo um texto.
- Sobre quê?
- Sobre a impossibilidade de comer bananas no forno quando as ideias querem fugir.

18.5.10

MOMENTO FACEBOOK (2)


- Olá!
- Olá, estás feliz?
- Que é isso?
- Não sei, talvez uma espécie de momento.
- Um estar que querias que durasse toda a vida.
- Uma pequena transitoriedade.
- Bem me parecia que a diferença entre o ser e o estar era imensa.
- Imensa, cara amiga. Shakespeare usou o verbo To be: Ser ou Estar
- Nunca tinha pensado nisso.
- Então pensa, pensa nessa imensa diferença que faz com que a felicidade não seja mais que um estar pequeno e intermitente que nos empurra para um tempo fragmentado de prazer. Nada mais.

17.5.10

MOMENTO FACEBOOK (1)


- Olá.
- Olá, como estás hoje?
- Melhor. Cheguei do fim de semana e lembro o que me disseste há dias.
- Não disse. Escrevi.
- Pois. Escreveste: Se não sabe, porque pergunta?
- Carver.
- Eu sei. Mas não li. As perguntas são sempre úteis.
- Enganas-te. Não são. Se queres ser feliz, não faças perguntas.

14.5.10

BOM FIM DE SEMANA!



Vou para o lugar das flores, da lua, do vento e do contentamento.

LIVRO AMIGO


Paul Klee

Vou dedicar-me à cultura e pegar num livro que me faça esquecer tanto dislate.

13.5.10

UM CHINÊS

- Professora, na aula de História estivemos a falar de um homem muito importante que já morreu.
- Ah sim? De quem?
- Um chinês que era comunista e diziam que também era poeta.
- E quem era ele?
- Era o 971!

12.5.10

CIÊNCIA

- Uma das características da ciência é a objectividade.
- O que é isso?
- Eu sei, eu sei. É a ciência que estuda o objecto em actividade!

11.5.10

ARBITRÁRIO

- Professora, este esquema do livro é para ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda?
- Podem interpretar o esquema das duas maneiras. A ordem é arbitrária.
- O que é isso?
- Não sabem o que é arbitrário?
- Eu sei, eu sei. É aquela coisa que passa de pais para filhos!

10.5.10

VOCABULÁRIO

- O Professor, na outra aula, disse-nos que tínhamos deficiências.
- Ai disse? Que deficiências?
- De vocabulário. Acha bem?
- Acho perfeitamente legítimo, sim.
- O que significa legítimo?

5.5.10

JUNTOS


Quando muitos homens se juntam para olhar, é sinal que o objecto de contemplação tem importância superior ao próprio corpo.

4.5.10

SENTIDAMENTE

Era uma vez um homem que, de tanto olhar, perdeu a visão. Um dia, a audição falhou, quando tentou ouvir o que não conseguia ver. Depois o olfacto foi-se embora, quando quis cheirar o que não via nem ouvia. A certa altura o homem perdeu o paladar e, nesse dia deixou de comer e passou a tactear os alimentos. Depois veio o tédio porque só com o pensamento não conseguia encontrar o mundo.

3.5.10

TEXTO SIMPLES


(Foto de Gerard Castello Lopes)

Era uma vez um homem que não sabia colocar acentos. Decidiu não usar mais que palavras, para não complicar a vida ao texto.

2.5.10

AFECTOS

No dia da mãe fico sempre perto de quem me faz entender o sentido de todas as coisas.

30.4.10

GENTE QUE USA O RELÓGIO PARA ENFEITAR O PULSO


- Combinado. Às duas na esplanada.
- Avisa-me quando chegares.
- Para quê?
- Para saber que já lá estás.
- Saberás que cheguei se chegares à hora combinada.
- Mas eu atraso-me sempre um pouco.
- Então diz-me quanto tempo te atrasas e marcaremos outra hora.
- Que disparate.
- Disparate é marcar hora para não se cumprir.
- Não podes ser assim tão radical.
- Eu não sou radical. Sou coerente.

29.4.10

A FILHA DO MEU AMIGO ANTÓNIO


- Pai, quando fechas a porta do frigorífico, a luz apaga-se?
- Apaga, filha.
- Como é que sabes?

28.4.10

PALAVRÕES


Max Weber

- A minha filha pergunta-me o significado de todos os palavrões.
- Explicas-lhe?
- Claro que sim.
- Como?
- Com as palavras que despem os preconceitos e enchem o espírito de riso.

27.4.10

LUGAR DO NADA


Max Weber

- Quando eu morrer quero ser cremada.
- Disparate. Depois não tens um lugar para as flores e para as visitas.
- De que serve um lugar que se ocupa com o nada?

26.4.10

SEM DESCANSO


Max Weber

- Não tenho medo da morte.
- E da vida?
- Da vida tenho. Todos os dias me confrontam com dilemas que me causam náuseas.
- Náuseas?
- Sim, aquele tipo de enjoo que sentes quando tens de escolher.
- Escolhes e pronto!
- É da escolha que tenho medo, porque é ela que me obriga a viver sem descanso
.

25.4.10

OUTRO JOGO


O dia em que Portugal saiu à rua para dizer que o jogo tinha acabado. Começava a entender-se que as regras tinham que mudar. O dia em que Portugal sorriu à frente dos tanques do exército vindo de Santarém, era o dia de um começo. Hoje o jogo parece ser outro por causa de uma espécie de máscara que esconde o que continua semelhante ao antigamente.

20.4.10

COISAS QUE ME INQUIETAM (23)


Nada como uma loja de bairro. Pequena, com passeio grande.
Vou a pé, não pago estacionamento, não espero no vestiário, não espero para pagar, não subo nem desço escadas rolantes, não tenho que me vestir e despir para procurar novos números, não percorro metros de corredor para entrar noutra loja, não oiço crianças aos berros, não me desvio de gente que passeia em frente às montras, não gasto tempo e não fico deprimida com a luz artificial.
Mais caro? E quem disse que a qualidade de vida era barata?

19.4.10

COISAS QUE ME INQUIETAM (22)


Perceber que preciso de ir a um Centro Comercial no fim-de-semana é, ao mesmo tempo, perceber que vou ficar deprimida nas próximas horas.

Procurar lugar, estacionar, subir as escadas, procurar a loja, procurar a secção certa, ir para o vestiário, esperar na fila, vestir, número errado. Despir, sair do vestiário, procurar outro número, entrar no vestiário, fila, esperar, entrar, vestir de novo, não fica bem no corpo.

Vestir, voltar a sair, procurar nova loja, descer as escadas, subir as escadas, voltar ao princípio, procurar a caixa. Fila. Esperar, pagar, voltar a descer as escadas, ir para o estacionamento. Máquina de pagamento, fila, nova espera.

Entrar no carro e respirar fundo para não gritar de raiva. Uma tarde perdida e nada acrescentei à minha vida.

17.4.10

DE CADA VEZ


Luísa conhece Teresa desde o tempo das fraldas. Cresceram no mesmo infantário e foram para a escola juntas. Luísa é o tipo de mulher que se isola para ler. As coisas têm de ser feitas uma de cada vez, pensa.
Quando se sobem escadas e se percorrem ruas, não há conversa. Conversar enquanto se anda é desperdício de tempo, nem se entende o que se fala, nem se olha para o que passa. Não. Definitivamente, as coisas precisam de separação para que Luísa as mastigue.

O mar está lá para que o sinta de perto, o livro existe para que o agarre com os olhos, as pernas percorrem caminhos para que os entenda. Não pode existir clareza em nenhuma ideia se a misturarmos com o corpo.

16.4.10

AO MESMO TEMPO


Teresa é o tipo de mulher que consegue ver e agir ao mesmo tempo. Olha para o mar e lê um livro. Sabe que o mar está ali e o livro também. Ocupa-se de ambos. Nem um nem outro são objecto de contemplação mas Teresa quer tê-los aos dois, num tempo que faz coincidir com quase nada.

Enquanto lê, olha para as ondas; enquanto olha para as ondas, pensa nas frases lidas. Teresa continua com todas as ideias concretizadas. Acredita que o mundo se conhece assim: entre olhares e afazeres, sem paragem.

15.4.10

SUBIR OU DESCER AS ESCADAS



Teresa e Luísa subiram as escadas. A primeira correu depressa para chegar ao último degrau e alcançar o patamar da esplanada. A segunda voltou para trás quando percebeu que, descer, a mantinha mais perto do chão que conhecia. Teresa gritou lá de cima:
- Anda, Luísa, daqui podemos ver o mar.
- Não quero ver o mar, Teresa.
- Porquê?
- Porque fico inquieta quando vejo o mar e não posso entrar nele.
- És tão disparatada, Luísa. Ver também é bom.
- É. Quando não queres agir.

14.4.10

DESCER DE PÁRA-QUEDAS

Ontem encontrei uma velha amiga na aula de Yoga. Contou-me que, um pára-quedista, estava apaixonado por ela. Ouvi-a com muita atenção e dei-lhe todas as respostas.


A Luísa sempre foi serena. Quando pensou em casar-se com o Pedro, convidou-me para madrinha. Dizia que era original ter uma amiga madrinha. Aceitei porque sabia que ela casaria com o Pedro. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a família que vinha de férias. Que gira. Disse-lhe que sim porque sabia que saltaria da cama a meio da noite para qualquer coisa, muito mais para esperar quem vem de viagem.


A Luísa tem ideias, muitas ideias que põe em prática. Imagina que nada se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, para que o mundo aconteça.


O problema da Luísa é esse: estar presente. Um dia descobre que a vida pode acontecer sem ela e sente um alívio, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra serena. A Luísa anda sempre serena porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes.


Corre atrás da realidade e, qualquer dia, é vê-la a descer de pára-quedas, em vez de subir, como as pessoas iguais à Teresa. Não me admirava.

13.4.10

SUBIR DE PÁRA-QUEDAS



Ontem encontrei uma velha amiga na aula de step. Contou-me que estava apaixonada por um pára-quedista. Ouvi-a com muita atenção e não tive paciência para lhe dar respostas.

A Teresa sempre foi extravagante, até nos namorados. Quando pensou em casar-se com o Paulo, convidou-me para levar as alianças. Dizia que era original ser uma amiga a transportar o objecto. Aceitei porque sabia que ela nunca casaria com o Paulo. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a equipa do Benfica que tinha ganho não sei o quê. Maluca. Disse-lhe que sim porque sabia que não saltaria da cama a meio da noite para coisa nenhuma, muito menos para ir ver jogadores cansados dos pés.

A Teresa tem ideias, muitas ideias que não concretiza. Imagina que tudo se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, nos momentos em que o mundo acontece.

O problema da Teresa é esse: concretizar. Arranja muitos namorados e quer ir esperar jogadores. Um dia descobre que a vida não se inventa e tem mais um desgosto, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra a correr.

A Teresa anda sempre a correr porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes. Corre atrás dos sonhos que inventa e, qualquer dia, é vê-la a subir de pára-quedas, em vez de descer, como as pessoas normais. Não me admirava.

12.4.10

FATAL IMPERMANÊNCIA


O trabalho permite ao corpo uma impermanência irritante. Tudo se altera, porque o mundo gira depressa. Não gosto de voltar ao trabalho porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: fala!

9.4.10

FATAL PERMANÊNCIA


Estar de férias permite ao corpo uma permanência lânguida e fatal. Tudo se mantém, como se o mundo tivesse parado. Não gosto de estar de férias porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: cala-te!

POLLOCK


3.4.10

DOBRAR A ESQUINA


Artur Bual

Vou dobrar a esquina do tempo. Volto quando a esquina ficar lá atrás.

2.4.10

POR CAUSA DAS PALAVRAS


Ele é escritor. Ela é aprendiz. Encontraram-se por causa das palavras. Ele escreveu a primeira frase. Ela continuou a ideia. Um dia vão construir uma história. Porque é assim que as coisas boas acontecem. Sem aviso prévio.

1.4.10

SORTE



Vou para o Butão. Talvez volte, daqui a um ano.

Adenda:
Ai se eu pudesse transformar esta mentira em verdade!!

31.3.10

PERTO DA HISTÓRIA


A rua só existe porque eu a vejo. As casinhas estão desenhadas porque as percebo. A menina no banco do jardim não tem olhos para me ver e alguém está sentado a tocar perto da árvore. Não me apetece falar do anjo que corre para fora do desenho.
O chão é aos quadrados porque, os quadrados no chão são sinal de imaginação simétrica. Um dia vou contar a história toda. Agora está perto. Depois de uma curta viagem debaixo do braço.

30.3.10

Antonio Banderas - Take the Lead - Tango scene

LEIS DE UM GOVERNO MODERNO


Paul Klee

1. Vais ter relações sexuais? O governo dá-te preservativos!
2. Já tiveste? O governo dá-te a pílula do dia seguinte!
3. Engravidaste? O governo dá-te o aborto!
4. Tiveste filho? O governo dá-te o Abono Família!
5. Estás desempregado? O governo dá-te o Subsídio de Desemprego!
6. És drogado? O governo dá-te seringas!
7. Não gostas de trabalhar? O governo dá-te o Rendimento Mínimo
8. Foste preso e agora puseram-te cá fora? O governo dá-te o subsídio de Reinserção Social.
Agora experimenta... ESTUDAR; TRABALHAR; PRODUZIR e ANDAR NA LINHA, e verás o que é que te acontece!
VAIS GANHAR UMA "BOLSA" DE IMPOSTOS NUNCA VISTA EM QUALQUER OUTRO LUGAR DO MUNDO!!!

(Autor desconhecido)

29.3.10

EXCELÊNCIA OU FELICIDADE


"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que "o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

Texto de João Pereira Coutinho

27.3.10

PERDÃO


Francis Bacon

"Perdoa sempre os teus inimigos. Nada os deixa mais contrariados."

Oscar Wilde

26.3.10

PORTA FECHADA


Os outros surpreendem quem espera. Colocamos os pés e os braços à disposição e recebemos pontapés duros, vindos dos que não provam o sabor das coisas boas. Porque acham que o mundo os empurra para o abismo, empurram-nos para o escuro, julgando poder encerrar a porta com força. Mentira. A porta só se encerra quando as nossas mãos a empurram. Porque as mãos dos que cerram os dentes não são as nossas.

24.3.10

ALGUÉM


Francis Bacon

"Se há coisa no mundo mais aborrecida do que ser alguém de quem se fala é, sem dúvida, ser-se alguém de quem não se fala."

Oscar Wilde

23.3.10

ACTOS


Vitor Pinhão

“E tudo, enquanto dura, traz consigo o castigo da sua forma, o castigo de ser assim e de não poder ser de outro modo (…). E o que se passa com as formas passa-se com os actos. Quando um acto é praticado não se muda mais. Quando uma pessoa, de uma maneira ou de outra, agiu, o que fez, fica, mesmo que depois não se sinta nem se reconheça nos actos praticados: é como uma prisão.”

Luigi Pirandello

22.3.10

FORMAS


Juarez Machado

“Julga que se conhece, se não se construir de algum modo? E julga que eu posso conhecê-lo, se não o construir à minha maneira? E julga que me pode conhecer, se não me construir à sua maneira? Só podemos conhecer aquilo a que conseguimos dar forma. Mas que conhecimento pode ser esse? Não será essa forma a própria coisa? Sim, tanto para mim como para si; mas não da mesma maneira para mim e para si: isso é tão verdade que eu não me reconheço na forma que você me dá, nem você se reconhece na forma que eu lhe dou, e a mesma coisa não é igual para todos e mesmo para cada um de nós pode mudar constantemente e, de facto, muda constantemente.

E, contudo, não há outra realidade fora desta, a não ser na forma momentânea que conseguimos dar a nós mesmos, aos outros e às coisas. A realidade que eu tenho para si está na forma que você me dá; mas a realidade para si não é para mim. E, para mim mesmo, eu não tenho outra realidade senão na forma que consigo dar a mim próprio. Como? Construindo-me, precisamente.”

Luigi Pirandello

21.3.10

PARA QUEM AMA

Eu sei que vou te amar/Soneto de Fidelidade

O TEU ESPAÇO NO MEU ESPAÇO


Lembro o jantar, a mesa e o vinho tinto. Lembro o salmão fumado e as velas do Natal. Lembro a vista da janela e a contemplação de um quadro que me fazia parar para olhar. Agora é meu. Tenho um pouco do teu espaço no meu espaço.

20.3.10

APRENDI


Aprendi que os problemas dos outros não são os meus problemas. Aprendi que a vida dos outros não é a minha vida. Aprendi que o corpo dos outros não é o meu corpo. Aprendi que os pensamentos dos outros não são os meus pensamentos. Aprendi que a consciência dos outros não é a minha consciência. Aprendi que os filhos dos outros não são os meus filhos. Aprendi que o amor dos outros não é o amor que eu sinto. Os que por mim passam sem que o rasto permaneça, são outros que não eu. Esses outros, não podem mexer no que sou.
Há outros. Os que ficam. Os que fazem de mim o que vou sendo.

19.3.10

PORQUE SIM



Era teu. Isso é motivo para estar aqui, num blogue que visitavas porque sim.

18.3.10

ATRÁS DA PORTA


Quando a porta se fechava, o quadro estava lá, em cima de uma cómoda antiga com muitas coisas vividas. Um dia disse-me:
- É isto que vejo do palco. Gostas?

16.3.10

A DANÇA



Só dança quem tem pés e pernas e braços e contentamento. Só dança quem voa mais alto que os pássaros. Só dança quem usa as palavras para agir. Só dança quem pede ao espírito que acompanhe os pés e as pernas e os braços e o contentamento. Os outros, os que não tiram os pés do chão, ficam parados no espaço e no tempo que nunca construíram. Porque nunca quiseram dançar.

15.3.10

BRUTA


Chegou a casa com vontade de abrir o dicionário de sinónimos que, em tempos, lhe ensinaram ser útil para construir textos. Tinham usado a palavra bruta. Sentou-se no jantar do bacalhau, do queijo, do tomate cherry, da mousse de limão e do creme de chocolate branco. Sabia que a palavra era dura, negra, fria.

Abriu o dicionário na página da letra B e confirmou: animal, besta, fera. Respirou. Sabia que as palavras são objectos inanimados que tomam forma quando as usamos. Nada de grave. Em frente às azeitonas pretas que comeu sem parar estava a forma viva de todas as letras que se disseram sem dicionário, as mais puras e as mais limpas. Nem bruta, nem animal, nem besta nem fera. Aquilo que o ser lhe dizia fazer sentido. Apenas.

14.3.10

DEPOIS DA BONECA


Colocou o cinzeiro no lugar. A cinza do dia anterior espalhou-se em cima da mesa. O vidro ficou cinzento e Luísa rangeu os dentes de raiva. Limpou tudo e percebeu que era a boneca de ontem que devia estar ali, não fosse a imaginação ter feito das suas.

13.3.10

A BONECA

Ao sábado ficava em casa. Tinha que limpar o pó e aspirar o chão da sala. A boneca que estava em cima da mesa era sempre objecto de contemplação. Parava os olhos em cima dela e dizia: és a minha princesa.
Um dia, quando a agarrou para lhe tirar o pó, ficou com as mãos vazias. A princesa tinha sido produto de uma imaginação tranquila. Depois da limpeza percebeu que há objectos que se criam a partir dos momentos felizes.

12.3.10

FDS



Usamos consoantes alinhadas para poupar tempo de escrita. A partir de todas elas, podemos construir as nossas histórias. Como consta na abreviatura de Fim-de-Semana ou Foi-dar-Salsichas ou Flor-do-Silêncio ou Fim-do-Susto. O que se queira.

11.3.10

FADIGA


Max Weber

Foi lavar os dentes, tomou banho, secou o cabelo, colocou creme nas pernas, nos braços, no rosto, pôs desodorizante, vestiu-se, tomou o pequeno-almoço, pegou no carro, ouviu as notícias da manhã, correu para a primeira aula, escreveu o sumário, ouviu os colegas, os alunos, os funcionários, almoçou, bebeu café, voltou à sala, preparou dossiers.

Foi à casa de banho, fez xixi, lavou as mãos, subiu a escada, desceu a escada, voltou ao piso da informática, colocou o Power Point, falou de religião, fez a chamada, fechou a porta, escreveu no quadro e apagou tudo a seguir. Pegou no carro, chegou a casa, despiu a roupa, fez o jantar, viu o blogue, leu, conversou, viu as notícias, comeu, lavou os pratos, tomou banho, lavou os dentes, colocou creme nas pernas e nos braços. Depois descansou.

10.3.10

FRENTE AO MURO


Juarez Machado

"Os homens para comunicar uns com os outros, usam normalmente a palavra, mas as palavras nunca poderão exprimir a verdade pura. Temos de ir mais além, de transcender o dualismo palavra - realidade. Assim, temos de usar as palavras sem nos tornarmos escravos delas. Porque por mais elevadas que sejam, as palavras são apenas símbolos, descrições e nunca coisa em si. Para atingir a coisa em si, as palavras - esses ruídos da mente -devem morrer. E quando elas morrem surge o silêncio."

Jorge Bustamante; Frente ao Muro.

NOVO ROMANCE




Um abraço ao querido amigo Eça pela publicação do seu primeiro romance. A certeza de um excelente livro que, em breve, a Guerra e Paz, apresentará aos leitores.

9.3.10

PSEUDO-VIDA


Juarez Machado

“Se olharmos bem para as nossas vidas, acabaremos por ver com clareza quantas tarefas – sem qualquer importância e a que chamamos ‘responsabilidades’ – se acumulam até não haver espaço para mais nada. Um mestre compara-as a ‘obrigações domésticas num sonho’. Dizemos a nós mesmos que queremos dedicar algum tempo às coisas importantes da vida… mas nunca há oportunidade para isso.

Temos muito que fazer, mesmo quando nos levantamos, logo de manhã: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, lavar os dentes, dar de comer ao cão ou ao gato, lavar a loiça da noite anterior, descobrir que se acabou o café ou o açúcar, sair para os comprar, preparar o pequeno almoço… A lista é infindável. Depois temos que separar as roupas, escolhê-las, passá-las a ferro e dobrá-las. E os cabelos, e a maquilhagem?

Impotentes, vemos os nossos dias preenchidos em conversas telefónicas e projectos fúteis, vemos tantas ‘responsabilidades’, ou seria melhor chamar-lhes ‘irresponsabilidades?”

Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da Morte.

8.3.10

FICA AQUI


Juarez Machado

Não vás para longe. Fica quieta. Fixa. Imóvel. O pensamento também pára e tu podes descansar. Sozinha. Assim. Pés paralelos no chão. Olhos postos onde puderes. Aguenta o silêncio e respira como se não tivesses pulmões. A água não existe fora de ti e, quando fores buscá-la, limpa todas as lágrimas. Não vás para longe. Fica aqui. Ao pé do que te integra e repara.

5.3.10

O QUE NÃO SE ESQUECE


Cezanne

O que, num tempo, fica dobrado em cima da alma. O corpo usa os sentidos e as memórias servem para entender tudo o que resvala num absoluto momento de satisfação.

2.3.10

OBJECTOS QUE IMPORTAM


Edward Hopper

As mesas são importantes porque é nelas que o nosso corpo se encosta para comer e isso faz com que a morte venha mais tarde. As mesas são objectos de criação porque é em cima delas que se escreve e que se vive. Repare-se num prato de massa fresca em cima de uma mesa de madeira antiga. A massa fica diferente se a colocarmos no mesmo prato em cima de uma mesa de vidro, de mármore ou de verga. O lugar onde se pousa o objecto é tão importante quanto o lugar onde se colocam os pés. São os lugares da nossa história, quer queiramos quer não.

1.3.10

AJUDA


Ajuda-me a olhar, ajuda-me a sentir, ajuda-me a por uma perna em frente da outra para andar, ajuda-me a percorrer o caminho, ajuda-me a pensar. Não consigo continuar a ser. Resta-me a imaginação que foge porque a ajuda não chega a tempo de a prender cá dentro.