22.7.10

PODEMOS FICAR SEM NADA


Sempre encontrei espanto e surpresa nas mães que não têm vida. Antes de parirem vão ao cinema, compram roupa nova, lêem, visitam exposições, viajam, namoram, combinam noites românticas e perfumam-se para sair. Antes de parirem estão actualizadas, no corpo e no espírito. O mundo não lhes passa ao lado e vivem-no com o sangue todo. Correm atrás do homem que amam, visitam amigos e amigas, vão a festas e dançam em longas noites de prazer. São mulheres completas porque se vêem ao espelho, porque se pintam, porque se amam e porque aprendem e evoluem.


Um dia querem mais, investem em momentos de afectividade profunda. Fazem festinhas na barriga e sonham com o futuro rebento, projectam-se nele. Depois de nove meses de peso e varizes, lá vão elas gritar de dor e de contentamento.


Os “rebentos rebentam” cá para fora e o mundo transforma-se, como se um vulcão arrasasse todas as verdades que antes defendiam com afinco. Deixam de sair, deixam de ir ao cinema, deixam de ler, deixam de namorar e de pôr perfume para uma noite romântica. Pior, deixam de ter assunto que não seja a criança, o leite, as fraldas, a escola, a gripe, a alergia, a febre, a tosse, as perninhas que já gatinham e o sorriso parecido com meia família. Toda uma vida se transfere para o rebento de quatro quilos e sessenta centímetros, todos os assuntos se encerram na pequena e ingénua criatura, todos os anos se ensopam naquela existência pequena.

O tempo passa sem que, interesse para lá dos filhos, absorva espírito ou corpo. Vem a escola, os deveres, as actividades extra-curriculares, os amigos, as festas dos amigos, as mães dos amigos, os vizinhos dos amigos, a roupa, os sapatos, o pôr e o buscar. Toda a vida da criatura já crescida se ensopou na vida da mãe. Deixou de viver porque quis, porque pensou que era assim, porque escolheu diluir-se no filho, porque não correu atrás de si mesma enquanto a mão se mantinha perto do rebento, da criança, do adolescente e do adulto. Transformou a mão em corpo e todo o espírito se foi.

Um dia o filho sai de casa. Fica o vazio que a mãe preparou. Depois a mãe percebe que abdicar de tudo em favor de um outro tudo, faz com que fiquemos sem nada.

20.7.10

TESTE


Vamos lá ver quem consegue ver-se ao espelho. Vamos lá ver quem consegue olhar-se de frente e perceber o que esconde, todos os dias.

19.7.10

SEGREDO


Existe segredo quando existe silêncio. Existe segredo quando uma verdade foi dita dentro de mim e ninguém mais a ouviu.

18.7.10

ESCUTA


A forma como nos encostamos à parede é, também, a forma como nos vemos ao espelho. A forma como colocamos o ouvido à escuta é, também, a forma como queremos ser escutados. Mesmo que o não saibamos.

17.7.10

PERSPECTIVA


Há silêncios bonitos e silêncios feios. Há ausências bonitas e ausências feias. Há amores bonitos e amores feios. Há amizades bonitas e amizades feias. Há relações bonitas e relações feias. Tudo depende do ângulo com que se vêem as coisas e do enquadramento em que se vivem. Tudo depende da posição do corpo e da forma que a alma tem.

15.7.10

INCERTEZA E CLARIVIDÊNCIA


Há uma incerteza constante, um baloiço que faz com que tudo nos pareça árido. É preciso olharmos com atenção para o vento. É preciso verificarmos que, a nossa própria natureza, cria espaços onde surgem oportunidades de transformação. É preciso distinguir, separar, com clareza e distinção. É, em especial nos grandes momentos de transição, que a verdadeira natureza tem a oportunidade de se manifestar. Os períodos de profunda incerteza, ansiedade e inquietação são, também, períodos de mudança, quando os olhamos com clarividência.

14.7.10

"ILUSÃO ÓPTICA DA CONSCIÊNCIA"


Albert Einstein lembrou:

O ser humano é uma parte de um todo a que chamamos “universo”, limitado no tempo e no espaço. Vê-se a si mesmo, aos seus pensamentos e emoções como estando separado do resto, numa espécie de ilusão óptica da consciência. Esta ilusão é um tipo de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais e que limita o afecto a umas quantas das pessoas que nos rodeiam. A nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos dessa prisão, alargando os nossos círculos de compaixão de modo a abraçarmos todas as criaturas vivas e o conjunto da natureza, com toda a sua beleza.

12.7.10

LIMITE


Há alturas em que paramos. Chegamos ao limite. Depois de vivermos os dias com o sangue todo e percorrermos caminhos nunca pensados. Há alturas em que fechamos os olhos e percebemos que não somos nós. Ou que somos. Respiramos fundo e avançamos, acreditando que caminhos desconhecidos podem ser descobertos. Chegamos a uma espécie de muro alto e firme que olha para nós e diz: senta-te.

As pernas tremem e ficamos a olhar para uma parede que é espelho, que nos acolhe com necessidade e urgência.
A consciência do limite vem depois do excesso, depois do cansaço, depois da dúvida, depois do espanto.

Avançamos enrolados no excesso, no cansaço, na dúvida e no espanto e batemos com a alma contra a parede e o corpo contra a alma, ou ficamos quietos para podermos encontrar a alma dentro de um corpo que quer paz?

Há alturas em que paramos porque se acende o sinal de urgência e de encontro. O caminho espera para ser percorrido mas, só depois de desembrulharmos o excesso, o cansaço, a dúvida e todo o espanto que um espelho pode oferecer.

6.7.10

RECORDAÇÃO DE SI MESMO


Grant Wood


“Além dos meros requisitos de viver e de se reproduzir, o que o homem mais deseja é deixar uma recordação de si mesmo. Talvez uma prova de que na realidade existiu. Deixa essa prova na madeira, na pedra ou nas vidas das outras pessoas. Este desejo profundo existe em toda a gente, desde o rapaz que faz bonecos numa parede até ao buda que grava a sua imagem no espírito de uma raça. Esta vida é tão irreal! Creio que chegamos mesmo a duvidar que existimos e andamos por aí a provar a nós mesmos a nossa existência.”

John Steinbeck; Pastagens do Céu.

5.7.10

FORMATO DO NARIZ


Grant Wood

"Sabia que as pessoas que iam ser os seus novos vizinhos o observavam cuidadosamente, se bem que nunca os tivesse apanhado em flagrante, visto que o costume de observar sem ser observado se encontra largamente desenvolvido entre as pessoas que vivem em meios pequenos. São capazes de ver todas as partes mais recônditas de qualquer pessoa, de tabular e memorizar todas as suas peças de vestuário, de reparar na cor dos olhos e formato do nariz e, finalmente, de ter reduzido a sua figura e personalidade a três ou quatro adjectivos, enquanto o observado pensa que a sua presença passa quase despercebida".

John Steinbeck; Pastagens do Céu.

2.7.10

MULHERES


Grant Wood

Naquele dia, às cinco, as amigas reuniram as ideias todas em casa da mais velha. Perceberam que, acreditar no chá ,é caminho para descobertas.

1.7.10

SILÊNCIO


Grant Wood

"(…) o silêncio e a tranquilidade aterrorizam-nos e protegemo-nos deles com o barulho e com a actividade frenéticas. Olhar para a natureza das nossas mentes é a última coisa que ousaríamos fazer.

Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da vida e da morte.

30.6.10

VERDADEIRA NATUREZA

Grant Wood

“Estamos tão habituados a olhar para fora de nós mesmos que perdemos quase inteiramente o acesso ao nosso eu interior, o qual nos aterroriza porque a nossa cultura não nos deu qualquer ideia sobre o que iremos encontrar. Podemos até pensar que nos arriscamos à loucura se o fizermos… e este é um dos últimos e mais habilidosos truques do ego para evitar que descubramos a nossa verdadeira natureza.”
Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da vida e da morte.

26.6.10

ALMA FRIA


- Gosta de gelado?
- Não. Deixa-me a alma fria.
- Como consegue sentir a alma?
- De duas formas: mastigando e ouvindo as suas perguntas.

25.6.10

CONDIÇÕES


- Porque não escreve?
- Não tenho condições.
- Vai encontrá-las?
- Não sei, talvez no dia em que perceber que o tempo se agarra quando o queremos muito.

24.6.10

MARESIA


De frente para o mar, com sal no corpo, sentiu uma presença atrás de si:
- Cheira a maresia.
- O espaço ou o tempo?
- O seu corpo inteiro.
- Gosta?
- Muito.

23.6.10

ATRÁS DA PORTA


Despe o casaco e respira fundo. O silêncio da casa é interrompido pela campainha da
porta. Espreita pelo óculo e vê uma mulher que sorri:
- Luísa?
- Como sabe?
- Pela forma como tocou à campainha.
- Vai abrir a porta?
- Vou. Quando encontrar um motivo.

21.6.10

DOBRAS E GRITOS (40)

Agora a vida altera-se. Porque os dias são mais compridos e as noites são mais claras.

20.6.10

CHEGADA


Chegar a Lisboa ao final da tarde de Domingo é como chegar perto de um copo com água em momento de sede. Esta cidade chama-me. Todos os dias.

COISAS QUE ME INQUIETAM (25)


Viver um domingo ao volante.

19.6.10

PORQUE SIM


Numa noite em que o calor tomava existência no escritório, Luísa encontrou uma alma redonda e clara. Escrevia palavras com jeito.

Os parágrafos sucediam-se com conteúdo e forma. Bonitos. Luísa arrepiava-se, colocava a sensibilidade acima do entendimento e a beleza acontecia.

Depois ficavam as mãos e o grito. A ponte era percorrida.

Hoje, enquanto escreve, pensa num presente bonito. E grita alto aos que a ouvem: as palavras não escritas são, muitas vezes, o desassossego e a respiração que se trava porque sim.

18.6.10

MORREU JOSÉ SARAMAGO

"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma."

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

ASI SE BAILA EL TANGO

16.6.10

A OBRA DO AMIGO


Um dia, com o cigarro aceso e o sorriso aberto disseste-me: "não sejas burguesa". Recordo com saudades as palavras que me ofereceste. Com cigarro e sem cigarro. Porque os amigos ficam, mesmo quando se sabe que estão a criar longe. E muito bem!

15.6.10

AMOR É ESTRADA PLANA


Grant Wood

Porque o amor é aquela coisa bonita que acontece quanto duas pessoas deixam a sua natureza falar. Uma ouve a da outra e responde sim, sem desconforto. Porque o amor é tão plano quanto a estrada que vai para o Alentejo. Desliza-se sem mágoa quando se entende tudo o que se vê na linha do horizonte e quando se sente o corpo cheio de contentamento.

14.6.10

LORD HENRY (1)


Georges Seurat


"- Quando uma velha senhora cora, não é nada bom sinal. Ah, Lord Henry, quem me dera que me dissesse como rejuvenescer.

- Recorda-se de algum pecado terrível que tenha cometido no seu tempo de juventude, Duquesa?
- Receio bem que tenham sido bastantes
- Então volte a cometê-los. Para recuperar a juventude, basta repetirmos as nossas loucuras."

Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray

12.6.10

SIMPLE THINGS


Paul Klee

Quando encerramos o computador percebemos que há mundo para lá de uma espécie de gesto não encontrado de frente para o monitor.


11.6.10

LORD HENRY


Francis Bacon

"Não existem boas influências, Mr. Gray. Todas as influências são imorais, imorais de um ponto de vista científico.

- Porquê?
- Porque influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo."

Oscar Wilde; O retrato de Dorian Gray

GARDEN


Talvez Luísa se sente num banco de jardim em Lisboa. Talvez encare a hipótese de uma palavra nos olhos de quem não vê. João não sabe se gosta de jardins, mas entende-a.

9.6.10

DIA SEGUINTE


Quando, no dia seguinte, ambos percebem que amar é deixar ser, desapegam-se de si e do outro. Porque o corpo impermanente e constante, mostra, num espaço acompanhado de tempo, o pouco e o muito.

8.6.10

MELODIAS E PALAVRAS


Às vezes, o dia tem chuva. Quando o calor faz as noites secas, depois da chuva ir embora, respira-se tudo de uma vez, para não perdermos nem as palavras nem as melodias.

7.6.10

SEM ROSTO


"Por vezes à noite há um rosto/ Que nos olha de um fundo de um espelho/ E a arte deve ser como esse espelho/ Que nos mostra o nosso próprio rosto."
Jorge Luís Borges

6.6.10

Luz Casal Piensa En mi Tacones Lejanos

O DIA ANTERIOR


Wild Horses
Luísa não descansou. Sentou-se na cadeira baixa de madeira e pediu ao universo alguma espécie de desapego. Era dia de muita ternura e sorriu. Percebeu que amor e beleza são a mesma coisa. João tinha-lhe dito no dia anterior.

João descansou. Percebeu que alguma coisa se podia tornar numa espécie de desafio caloroso que ele ia manter porque sim. João era concentrado. Atento. Depois de escrever um e-mail, encostava-se na cadeira e olhava para o tecto atrás de si, pensando: Onde é que esta mulher estava em 1984 e que sonho tinha em 76?

2.6.10

DÁDIVAS


(Foto Gerard Castello Lopes)

O problema não está no que os outros não nos dão mas no que esperamos que nos ofereçam.

1.6.10

TOLOS


(Foto Gerard Castello Lopes)

O problema, quando existe, está na nossa forma de ver o mundo. Quando o mundo nos empurra para a mediocridade: ou vivemos sozinhos fora dela, ou vivemos acompanhados por ela ou rimos de tudo e de todos, até doer a barriga. Depois, somos tolos mas contentes.

31.5.10

OPÇÃO


(Foto Gerard Castello Lopes)

Há duas maneiras de viver: participando ou assistindo. Se optarmos pela primeira, acabamos no psiquiatra. Se optarmos pela segunda, divertimo-nos imenso!

28.5.10

O QUE NÃO TEMOS


Francis Bacon


“Porque nos falta sempre mais do que aquilo que temos e porque as pessoas que não nos convidam são sempre mais que as que o fazem. A nossa percepção do que tem valor será, portanto, radicalmente distorcida se condenarmos sempre como entediante tudo aquilo que não temos, simplesmente porque não o temos”
Alain de Botton

26.5.10

AS PALAVRAS (1)


Algumas palavras têm poder positivo. Uma sensação de leveza me invade quando oiço a palavra “encanto”. Apetece-me correr para o colo da “menina” ou do “menino” que profere tal vocábulo. Porque “menino” e “menina” são palavras encantadoras.

25.5.10

AS PALAVRAS

Algumas palavras irritam-me. Depois de ouvir um “fofinha” ou de me enviarem “beijocas”, corro para a banheira. As expressões provocam-me calor nas axilas e comichão na barriga das pernas. Só um duche e um creme de altíssima qualidade me permitem a sobrevivência.
Há também quem pense na tarde boa e no bom dia na forma plural. “Boas tardes” ou “bons dias” são ditos ao mesmo tempo que um tremor me invade de cima a baixo. Quando me agradecem com um “obrigadinha”, começo a espumar da boca e só não tenho um ataque porque não sofro de epilepsia. Que eu saiba.

24.5.10

DESIGUALDADE

"Quando um está farto daquilo que o outro acha que é óptimo, é desigual e dá mortos"
A.C.S.

22.5.10

TENHO UM AMIGO LONGE


Tenho um amigo longe. É diferente de mim. Os afectos desenvolvem-se sem corpo. Quando toco nas teclas acontecem palavras. O meu amigo está lá, à espera que as linhas se construam devagar, junto às ideias contrárias. Tenho um amigo que, do outro lado, me ensina a pensar. É preciso ausência para entender as dúvidas.
O meu amigo não me vê mas percebe quando me vou embora e fica em silêncio. Um dia desapareceu para se encontrar com a vida. Talvez tivesse percebido que as linhas começavam a ser curtas.
Sei onde ele está. Percebo os sentimentos dos que ficam longe para poderem respirar. Voltará quando a vida lhe disser tudo o que procura entender. Perto do mar!

21.5.10

MOMENTO FACEBOOK (5)


- Já te contei a novidade?
- Devo sentar-me?
- Figura de retórica ou escreves de pé?
- Escrevo de pé e só com uma mão. Na outra tenho a espada.
- Lá estás tu convencido de que és igual ao Camões.
- Está bem. E essa novidade?
- Terminei o livro e pensei chamar-lhe “Livro do Desassossego”. O que achas?

20.5.10

MOMENTO FACEBOOK (4)


- Estou cansada.
- Que te aconteceu?
- Nada mais que a vida.
- Não te preocupes, Deus ajuda-te.
- Qual Deus?
- Aquele que tu inventas para te sentires protegida.
- Eu não invento.
- "Sou eu próprio uma pergunta colocada ao mundo e devo providenciar a minha resposta. Caso contrário estarei reduzido à resposta que o mundo me der" (
Carl G. Jung)- E a resposta que o mundo me der pode satisfazer-me. Caso contrário providenciarei para que a encontre no lugar único da existência autêntica: Eu mesma! De qualquer forma, entre o mundo e a minha existência não há incompatibilidade: assim eu possa encontrar o equilíbrio.

19.5.10

MOMENTO FACEBOOK (3)


- Hoje tive um dia mau.
- Porquê?
- Porque a chuva atirou-me as ideias pela sarjeta.
- Não leves as ideias para a rua.
- Tenho que as levar, elas não me largam quando vou comprar bananas.
- Vais fazer as bananas no forno?
- Não, saí para as comprar mas passei o tempo todo a agarrar as ideias na sarjeta. Quando cheguei à mercearia do Sr. Jacinto já estava fechada.
- E agora?
- Agora não como as bananas gratinadas mas escrevo um texto.
- Sobre quê?
- Sobre a impossibilidade de comer bananas no forno quando as ideias querem fugir.

18.5.10

MOMENTO FACEBOOK (2)


- Olá!
- Olá, estás feliz?
- Que é isso?
- Não sei, talvez uma espécie de momento.
- Um estar que querias que durasse toda a vida.
- Uma pequena transitoriedade.
- Bem me parecia que a diferença entre o ser e o estar era imensa.
- Imensa, cara amiga. Shakespeare usou o verbo To be: Ser ou Estar
- Nunca tinha pensado nisso.
- Então pensa, pensa nessa imensa diferença que faz com que a felicidade não seja mais que um estar pequeno e intermitente que nos empurra para um tempo fragmentado de prazer. Nada mais.

17.5.10

MOMENTO FACEBOOK (1)


- Olá.
- Olá, como estás hoje?
- Melhor. Cheguei do fim de semana e lembro o que me disseste há dias.
- Não disse. Escrevi.
- Pois. Escreveste: Se não sabe, porque pergunta?
- Carver.
- Eu sei. Mas não li. As perguntas são sempre úteis.
- Enganas-te. Não são. Se queres ser feliz, não faças perguntas.

14.5.10

BOM FIM DE SEMANA!



Vou para o lugar das flores, da lua, do vento e do contentamento.

LIVRO AMIGO


Paul Klee

Vou dedicar-me à cultura e pegar num livro que me faça esquecer tanto dislate.

13.5.10

UM CHINÊS

- Professora, na aula de História estivemos a falar de um homem muito importante que já morreu.
- Ah sim? De quem?
- Um chinês que era comunista e diziam que também era poeta.
- E quem era ele?
- Era o 971!

12.5.10

CIÊNCIA

- Uma das características da ciência é a objectividade.
- O que é isso?
- Eu sei, eu sei. É a ciência que estuda o objecto em actividade!

11.5.10

ARBITRÁRIO

- Professora, este esquema do livro é para ler da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda?
- Podem interpretar o esquema das duas maneiras. A ordem é arbitrária.
- O que é isso?
- Não sabem o que é arbitrário?
- Eu sei, eu sei. É aquela coisa que passa de pais para filhos!

10.5.10

VOCABULÁRIO

- O Professor, na outra aula, disse-nos que tínhamos deficiências.
- Ai disse? Que deficiências?
- De vocabulário. Acha bem?
- Acho perfeitamente legítimo, sim.
- O que significa legítimo?

5.5.10

JUNTOS


Quando muitos homens se juntam para olhar, é sinal que o objecto de contemplação tem importância superior ao próprio corpo.

4.5.10

SENTIDAMENTE

Era uma vez um homem que, de tanto olhar, perdeu a visão. Um dia, a audição falhou, quando tentou ouvir o que não conseguia ver. Depois o olfacto foi-se embora, quando quis cheirar o que não via nem ouvia. A certa altura o homem perdeu o paladar e, nesse dia deixou de comer e passou a tactear os alimentos. Depois veio o tédio porque só com o pensamento não conseguia encontrar o mundo.

3.5.10

TEXTO SIMPLES


(Foto de Gerard Castello Lopes)

Era uma vez um homem que não sabia colocar acentos. Decidiu não usar mais que palavras, para não complicar a vida ao texto.

2.5.10

AFECTOS

No dia da mãe fico sempre perto de quem me faz entender o sentido de todas as coisas.

30.4.10

GENTE QUE USA O RELÓGIO PARA ENFEITAR O PULSO


- Combinado. Às duas na esplanada.
- Avisa-me quando chegares.
- Para quê?
- Para saber que já lá estás.
- Saberás que cheguei se chegares à hora combinada.
- Mas eu atraso-me sempre um pouco.
- Então diz-me quanto tempo te atrasas e marcaremos outra hora.
- Que disparate.
- Disparate é marcar hora para não se cumprir.
- Não podes ser assim tão radical.
- Eu não sou radical. Sou coerente.

29.4.10

A FILHA DO MEU AMIGO ANTÓNIO


- Pai, quando fechas a porta do frigorífico, a luz apaga-se?
- Apaga, filha.
- Como é que sabes?

28.4.10

PALAVRÕES


Max Weber

- A minha filha pergunta-me o significado de todos os palavrões.
- Explicas-lhe?
- Claro que sim.
- Como?
- Com as palavras que despem os preconceitos e enchem o espírito de riso.

27.4.10

LUGAR DO NADA


Max Weber

- Quando eu morrer quero ser cremada.
- Disparate. Depois não tens um lugar para as flores e para as visitas.
- De que serve um lugar que se ocupa com o nada?

26.4.10

SEM DESCANSO


Max Weber

- Não tenho medo da morte.
- E da vida?
- Da vida tenho. Todos os dias me confrontam com dilemas que me causam náuseas.
- Náuseas?
- Sim, aquele tipo de enjoo que sentes quando tens de escolher.
- Escolhes e pronto!
- É da escolha que tenho medo, porque é ela que me obriga a viver sem descanso
.

25.4.10

OUTRO JOGO


O dia em que Portugal saiu à rua para dizer que o jogo tinha acabado. Começava a entender-se que as regras tinham que mudar. O dia em que Portugal sorriu à frente dos tanques do exército vindo de Santarém, era o dia de um começo. Hoje o jogo parece ser outro por causa de uma espécie de máscara que esconde o que continua semelhante ao antigamente.

20.4.10

COISAS QUE ME INQUIETAM (23)


Nada como uma loja de bairro. Pequena, com passeio grande.
Vou a pé, não pago estacionamento, não espero no vestiário, não espero para pagar, não subo nem desço escadas rolantes, não tenho que me vestir e despir para procurar novos números, não percorro metros de corredor para entrar noutra loja, não oiço crianças aos berros, não me desvio de gente que passeia em frente às montras, não gasto tempo e não fico deprimida com a luz artificial.
Mais caro? E quem disse que a qualidade de vida era barata?

19.4.10

COISAS QUE ME INQUIETAM (22)


Perceber que preciso de ir a um Centro Comercial no fim-de-semana é, ao mesmo tempo, perceber que vou ficar deprimida nas próximas horas.

Procurar lugar, estacionar, subir as escadas, procurar a loja, procurar a secção certa, ir para o vestiário, esperar na fila, vestir, número errado. Despir, sair do vestiário, procurar outro número, entrar no vestiário, fila, esperar, entrar, vestir de novo, não fica bem no corpo.

Vestir, voltar a sair, procurar nova loja, descer as escadas, subir as escadas, voltar ao princípio, procurar a caixa. Fila. Esperar, pagar, voltar a descer as escadas, ir para o estacionamento. Máquina de pagamento, fila, nova espera.

Entrar no carro e respirar fundo para não gritar de raiva. Uma tarde perdida e nada acrescentei à minha vida.

17.4.10

DE CADA VEZ


Luísa conhece Teresa desde o tempo das fraldas. Cresceram no mesmo infantário e foram para a escola juntas. Luísa é o tipo de mulher que se isola para ler. As coisas têm de ser feitas uma de cada vez, pensa.
Quando se sobem escadas e se percorrem ruas, não há conversa. Conversar enquanto se anda é desperdício de tempo, nem se entende o que se fala, nem se olha para o que passa. Não. Definitivamente, as coisas precisam de separação para que Luísa as mastigue.

O mar está lá para que o sinta de perto, o livro existe para que o agarre com os olhos, as pernas percorrem caminhos para que os entenda. Não pode existir clareza em nenhuma ideia se a misturarmos com o corpo.

16.4.10

AO MESMO TEMPO


Teresa é o tipo de mulher que consegue ver e agir ao mesmo tempo. Olha para o mar e lê um livro. Sabe que o mar está ali e o livro também. Ocupa-se de ambos. Nem um nem outro são objecto de contemplação mas Teresa quer tê-los aos dois, num tempo que faz coincidir com quase nada.

Enquanto lê, olha para as ondas; enquanto olha para as ondas, pensa nas frases lidas. Teresa continua com todas as ideias concretizadas. Acredita que o mundo se conhece assim: entre olhares e afazeres, sem paragem.

15.4.10

SUBIR OU DESCER AS ESCADAS



Teresa e Luísa subiram as escadas. A primeira correu depressa para chegar ao último degrau e alcançar o patamar da esplanada. A segunda voltou para trás quando percebeu que, descer, a mantinha mais perto do chão que conhecia. Teresa gritou lá de cima:
- Anda, Luísa, daqui podemos ver o mar.
- Não quero ver o mar, Teresa.
- Porquê?
- Porque fico inquieta quando vejo o mar e não posso entrar nele.
- És tão disparatada, Luísa. Ver também é bom.
- É. Quando não queres agir.

14.4.10

DESCER DE PÁRA-QUEDAS

Ontem encontrei uma velha amiga na aula de Yoga. Contou-me que, um pára-quedista, estava apaixonado por ela. Ouvi-a com muita atenção e dei-lhe todas as respostas.


A Luísa sempre foi serena. Quando pensou em casar-se com o Pedro, convidou-me para madrinha. Dizia que era original ter uma amiga madrinha. Aceitei porque sabia que ela casaria com o Pedro. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a família que vinha de férias. Que gira. Disse-lhe que sim porque sabia que saltaria da cama a meio da noite para qualquer coisa, muito mais para esperar quem vem de viagem.


A Luísa tem ideias, muitas ideias que põe em prática. Imagina que nada se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, para que o mundo aconteça.


O problema da Luísa é esse: estar presente. Um dia descobre que a vida pode acontecer sem ela e sente um alívio, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra serena. A Luísa anda sempre serena porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes.


Corre atrás da realidade e, qualquer dia, é vê-la a descer de pára-quedas, em vez de subir, como as pessoas iguais à Teresa. Não me admirava.

13.4.10

SUBIR DE PÁRA-QUEDAS



Ontem encontrei uma velha amiga na aula de step. Contou-me que estava apaixonada por um pára-quedista. Ouvi-a com muita atenção e não tive paciência para lhe dar respostas.

A Teresa sempre foi extravagante, até nos namorados. Quando pensou em casar-se com o Paulo, convidou-me para levar as alianças. Dizia que era original ser uma amiga a transportar o objecto. Aceitei porque sabia que ela nunca casaria com o Paulo. Como quando me pediu que a levasse ao aeroporto a meio da noite para esperar a equipa do Benfica que tinha ganho não sei o quê. Maluca. Disse-lhe que sim porque sabia que não saltaria da cama a meio da noite para coisa nenhuma, muito menos para ir ver jogadores cansados dos pés.

A Teresa tem ideias, muitas ideias que não concretiza. Imagina que tudo se desenrola sem a sua presença e depois inventa que tem de estar lá, nos momentos em que o mundo acontece.

O problema da Teresa é esse: concretizar. Arranja muitos namorados e quer ir esperar jogadores. Um dia descobre que a vida não se inventa e tem mais um desgosto, a somar aos que encontra no virar da esquina que dobra a correr.

A Teresa anda sempre a correr porque pensa que é assim que as pessoas vivem felizes. Corre atrás dos sonhos que inventa e, qualquer dia, é vê-la a subir de pára-quedas, em vez de descer, como as pessoas normais. Não me admirava.

12.4.10

FATAL IMPERMANÊNCIA


O trabalho permite ao corpo uma impermanência irritante. Tudo se altera, porque o mundo gira depressa. Não gosto de voltar ao trabalho porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: fala!

9.4.10

FATAL PERMANÊNCIA


Estar de férias permite ao corpo uma permanência lânguida e fatal. Tudo se mantém, como se o mundo tivesse parado. Não gosto de estar de férias porque não sei dizer ao corpo outra coisa que não seja: cala-te!

POLLOCK


3.4.10

DOBRAR A ESQUINA


Artur Bual

Vou dobrar a esquina do tempo. Volto quando a esquina ficar lá atrás.

2.4.10

POR CAUSA DAS PALAVRAS


Ele é escritor. Ela é aprendiz. Encontraram-se por causa das palavras. Ele escreveu a primeira frase. Ela continuou a ideia. Um dia vão construir uma história. Porque é assim que as coisas boas acontecem. Sem aviso prévio.

1.4.10

SORTE



Vou para o Butão. Talvez volte, daqui a um ano.

Adenda:
Ai se eu pudesse transformar esta mentira em verdade!!