As pedras e as árvores têm o tempo dentro. Mas não sabem.
2.9.11
1.9.11
PICOS
Quando a sensibilidade se sobrepõe ao entendimento, as dúvidas transformam-se em descanso estendido em cima de um colchão com picos.
1.8.11
DEPOIS VOLTO
Quando o espaço é ocupado pelo tempo de férias, fica mais liso o entendimento e mais densa a sensação.
Depois é o corpo e o cheiro e a lua e o grito e o vento e o riso e o canto e o quente e o prato e o copo e a vida toda desperta.
26.7.11
25.7.11
A SUBIDA DA MATILDE
- Bom dia, Matilde.
- Desculpe professora, bom dia. Estou contente. Lembra-se de me perguntar se queria ver o fundo do mar e se queria voar?
- Lembro sim.
- Pois eu já fiz as duas coisas.
- A sério, Matilde?
- Já. Eu depois percebi o que me queria dizer. Cheguei a casa e sentei-me a pensar em tudo. Até chorei.
- Que bom. Chorar ajuda imenso. E que viste na subida?
- Vi todas as minhas dúvidas.
- E na descida?
- Na descida identifiquei angústias.
- Muito bem. E agora? Que vais fazer com o que descobriste?
- Ainda não sei. A professora ajuda-me?
24.7.11
NADAR E ENTENDER
- Tem que ir ao médico Dona Luísa.
- Já fui.
- E ele? Não lhe receitou nada?
- Não, mandou-me nadar.
- Então nade, ora essa. Mais vale nadar que querer entender as coisas não acha?
- Não, não acho.
23.7.11
O ESPANTO DA MATILDE
- Tens que subir, Matilde, deixar essa escuridão e esse comodismo fáceis, acreditar em ti e na possibilidade de encontrar um caminho. Não rejeites o desconhecido, podes ficar parada no espaço e no tempo, podes vir a tornar-te cega, podes não conseguir mais que uma vida à superfície. Não queres ver o fundo do mar? Não te apetece voar? Não te interessa perceber para além do que os teus olhos alcançam?
- Desculpe, professora Teresa, eu prometo que vou pensar nisso tudo mas por favor não me confunda ainda mais.
22.7.11
ILUMINAR A VERDADE
- Estão todos presentes?
- Não, falta o Luís.
- Posso? Desculpe o atraso. Posso acender professora?
- Não te chega a luz de cima, Luís? É preciso uma vela?
- Chega, mas como a aula passada tive dificuldade em ver a verdade, trouxe a vela para poder ilumina-la caso surja.
- E achas que a verdade se vê com a luz de uma vela em cima de uma mesa?
- Acho que é possível, sim, tudo dependerá da força com que a procuramos, professora.
21.7.11
ESPELHOS
Olhar pela janela faz-me construir a paisagem que todos os dias muda. Eu também mudo todos os dias. O espelho dá-me tantas imagens que me confundo quando as vejo. Também tenho um espelho dentro, vejo todos os sentimentos enquanto choro, grito, rio ou danço. É um espelho muito mais nítido e muito mais robusto porque, no corpo, se instalou desde que nasci.
20.7.11
LUZ E ABRAÇOS
Arruma-se a mesa para o jantar numa casa com cheiro a flores. Os livros à espera de um final estão perto dos passos na rua. O medo dos outros está lá e, por causa disso, as pernas levam-me até aos abraços.
Porque é urgente o descanso de uma luz permanente.
19.7.11
ADVERTÊNCIA
- Sou uma pessoa igual a ti, mas com vagina.
- Eu sei. Essa frase é de um filme.
- É, não a esqueci. Verdades não devem esquecer-se.
18.7.11
CONVITE
Quando recebi o convite para jantar fiquei tão surpreendida que disse que sim sem pensar. Era a hora de colocar o vestido preto e os sapatos abertos atrás, sempre arejava os calcanhares enquanto ouvia conversa morna.
17.7.11
MESA DA SALA
Quando entrei na sala estava uma mesa posta ao canto. A toalha de linho com renda à ponta era a prova de que a organização tradicional da Maria subsistira ao tempo.
Copos de cristal com o pé alto e o lapidado complexo, pratos da vista alegre e a garrafa de vinho com um aventalinho de pano-cru, bem ao jeito dos anos oitenta.
16.7.11
ALGUMA LOUCURA
"E se em vez de poesia e de arte,
eu te falasse da inutilidade da filosofia,
tentando com isso persuadir-te que as palavras
têm apenas a função de dizer o que se não quer,
que a gramática da criação não suporta letras,
e que os únicos sons do amor são os que o corpo manifesta
e que a alma não consegue desaprovar.
Para que servem tantas – inúteis - filosofias
senão para preencher prateleiras ávidas de saber?
Se ao menos a filosofia fosse descartável,
poderíamos tirar algum prazer disso,
e depois ansiarmos pela próxima vez,
como se tivéssemos degustado um néctar dos deuses
ou vislumbrado uma verdade inabalável."
SILÊNCIOS
O teu silêncio é diferente do meu, é um espaço de compreensão igual à que se tem enquanto se saboreia uma manga madura. A certeza absoluta de um prazer interminável fica cá dentro para sempre.
15.7.11
FALSAS SENSAÇÕES
- Mesmo quando as horas passam certinhas, tu não consegues controlar nada.
- Mas tenho a sensação que controlo e isso é bom.
- Como é que uma mentira pode ser boa?
- Quando nos traz sensação de verdade.
-Queres ter falsas sensações?
- Não. Mas uso isso como truque para me sentir mais seguro.
- E sentes?
- Sinto, enquanto não penso. A segurança vem da vontade de não pensar, da insensatez escolhida por cobardia.
14.7.11
ENTENDIMENTO
Eu posso tudo porque percebes que esse tudo é a afirmação de um eu que não esbarra no desejo que tens fora das pestanas, que não empurra o teu mais tranquilo bem-estar.
13.7.11
SEM PRESSA
- Por favor, leve-nos ao Café Malaca.
- Onde fica?
- Numa casinha velha que espreita o rio com vergonha.
- Estão com pressa?
- Não. Acabámos de perceber a importância das noites que não se apressam.
12.7.11
TEMPO DAS PALAVRAS
Porque o tempo de dizer palavras é tempo escolhido por quem as diz, não por quem quer ouvi-las.
9.7.11
INDO
As árvores esperam, os pássaros já voaram e a estrada passa por baixo de mim à velocidade que eu quiser.
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