13.11.11

"A biblioteca protege da hostilidade exterior (...)"

Obrigada, Carlos. Não fossem as bibliotecas e as dúvidas permaneceriam ainda mais espessas.

Algumas coisas que eu sei

Agora sei que depois do sofrimento pode vir a lucidez. Por cima do que antes se pensava lama, restam as pedras lisas. Agora os braços esticam-se para longe do que incomoda. Agora, enquanto escrevo, sei que algumas dores fazem falta ao entendimento.

9.11.11

Volume Insensato

Foto Sebastião Salgado















“Pensa também que quanto mais volumoso for o corpo mais entravada e menos ágil se torna a alma. Por isso mesmo, limita quanto puderes o volume do teu corpo e dá o máximo espaço à tua alma! Vários inconvenientes se oferecem a quem se preocupa em excesso com o físico: por um lado o esforço exigido pelos próprios exercícios tira-nos o fôlego e deixa-nos incapazes de atenção e de aplicação a um trabalho intelectual intenso; por outro, o excesso de alimentos limita-nos a inteligência.”

Cartas a Lucílio, Séneca

8.11.11

Refúgio

Foto Sebastião Salgado














“Refugia-te dentro de ti próprio, em especial quando fores forçado a estar no meio da multidão. É bom que te tornes diferente da maioria, desde que possas refugiar-te com segurança dentro de ti mesmo. Repara no comum das pessoas: todas teriam mais proveito na companhia de alguém que não fossem elas próprias.”
Cartas a Lucílio, Séneca

7.11.11

Experiência posta em certeza

Oito e meia da manhã. Carrinha à espera. Atravesso a ponte com alguns desconhecidos. Chego a uma quinta com vacas, galinhas e horta. Briefing às nove horas no barracão ao fundo. Café. Maquilhagem. Cabeleireiro. Outro café. Entrada em estúdio às dez horas. Assistente de realização no centro. Novo briefing. Nove pessoas ensaiam a apresentação. Sorrir dez minutos para a câmara. Colocar a seriedade no rosto mais dez minutos. 

Duas bolachas por baixo dos pés. Altura feita. Do lado direito, o Ricardo do Porto, do lado esquerdo, o Rodolfo de Lisboa. Bem acompanhada. Apresentador no meio do grupo. Primeira ronda. Desgraça. Sai o apresentador. Pouco dinheiro acumulado. Rimos. Votamos. Percebe-se quem vai sair. Regresso do apresentador. Insulto generoso. Perguntas incómodas e explicações pouco convincentes. 

Segunda ronda. Banca. Nova votação. Luz intensa. Calor. Doem as pernas. Empate. Mais um insulto generoso. Rimos. Sentámos no chão. Ninguém se lembra das perguntas feitas há dois minutos. Os que saíram estão à espera lá fora. Mais um empate. Câmara em frente e resposta pronta à pergunta feita. Rapidez e cara séria. Mais duas rondas. Estão cinco pessoas. Expulsão. Desço o degrau com cuidado, pela direita. Percorrido o caminho marcado. Encaminham-me. Atravesso o pátio. Novo estúdio. Duas perguntas, duas respostas. Respiro fundo. Encontro os companheiros numa sala pequena. Vêem pela televisão sem som. Todos esperam pelos que vão saindo. 
Festa ao vencedor. Almoço em conjunto. Apresentador por perto e a simpatia de um cumprimento. Três horas da tarde. A cabeça começa a doer. Regresso a Lisboa. A frustração pelas perguntas que não podia ter errado. Exigência? Por este motivo não, mulher. O contentamento por ter percebido tempos e espaços. A satisfação pelas pessoas que conheci e toda a experiência posta numa certeza: voltarei.

4.11.11

Diário de Etelvina (06)

As meninas da sala 33 andavam inquietas com o desaparecimento de um batom. A falta do único objecto que tinham fazia com que esbarrassem no frenesim. Etelvina tinha experimentado tudo: histórias, jogos, TV e livros. Era urgente manter as meninas entretidas e sem protestos:
- Não sabe que nos dá tretas que não queremos?
- Que querem vocês, afinal?
- Paz, D. Etelvina. Queremos paz.
- E como querem ter paz se não estão sossegadas um dia que seja?
- E a paz vem do sossego, D. Etelvina?
- Claro que vem.
- Então deixe-nos encontrar essa coisa. Não nos enfie livros pelos olhos dentro e filmes pelos poros fora. Pare de tentar entreter-nos e perceba que queremos ficar connosco.
- Mas não sabem estar convosco.
- É para isso que a D. Etelvina cá está, para nos ensinar a estar, não para nos entupir de distracções.
- Quem são vocês?
- Somos um bando de loucas postas em cima de um chão de madeira dentro de uma casa com chefes e médicos e enfermeiros e pessoas que nos distraem.
- Pelo menos têm a noção da realidade.
- Qual realidade, D. Etelvina?

Paula Rego

24.10.11

Diário de Etelvina (05)

No dia em que Etelvina explicou às senhoras da sala 33 que era preciso existirem regras em cima das pernas, elas sentaram-se e puseram os pés para o ar.  Etelvina explicou à Dra. Guilhermina Guilherme que era difícil encontrar equilíbrio do piso 3. Ela respondeu-lhe com a madeixa em cima da testa e a ruga em cima da mesa:
- Difícil? Não se lembra que estas mulheres têm que ser postas na ordem?
- Lembro.
- Nada de confianças.
Etelvina saiu do gabinete com as palavras da chefe enroladas no papel de jornal. Deitou-as para o caixote do lixo e descansou nas escadas. A D. Manuela espreitou à porta da sala 33:
- D. Etelvina. Acordei. Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro.
- Por que razão não gosta de serpentes?
- Porque rastejam, deitam a língua de fora e podem matar.
- E não há pessoas assim?
- Há. Mas as pessoas não rastejam.
- A sério? Eu não teria tanta certeza!


20.10.11

À tona

Além de tudo o que está a acontecer aos portugueses, há uma doença que mina as mentes e os corpos e que, face a preocupações externas, não é visível. Cuidado. Os anti-depressivos têm baixa comparticipação do estado. Os psiquiatras são caríssimos. Há doenças crónicas que comprometem o próprio e as famílias. Cuidado. Vamos estar atentos ao que se passa fora, sim senhor. E dentro? Parece-me tão ou mais importante. Vou procurar químicos ou manter-me à tona?

19.10.11

Divã

Agora estou cansada e preciso que me digam por que razão tenho a mania de explicar. Manias podem ser doenças, neuroses, obsessões ou recalcamentos. Vou-me deitar no divã e já volto.

18.10.11

Dono da mota

Agora vou ali explicar ao dono da mota que não é preciso fazer muito barulho para que os outros entendam que ele tem problemas de identidade e afirmação.

17.10.11

Médico

Agora vou ali explicar ao médico que nem a autoridade está na ponta do estetoscópio, nem a eficácia está na rapidez da consulta.

16.10.11

Polícia

Agora vou ali explicar ao polícia que, polícias competentes, não gritam nem intimidam transeuntes distraídos.

15.10.11

Professora

Agora vou ali explicar à professora que, professoras que exercem e professoras que já o não são, devem ter atenção ao rigor de linguagem em toda a parte.

14.10.11

Menina da livraria

Agora vou ali explicar à menina da livraria que, profissionais que lidam com gente devem ser profissionais educados e atenciosos.

10.10.11

SEMANAS ASSIM

Tempo cheio de lugares e pessoas e horas e coisas. Semana com muito conteúdo e muita forma. Quadrada. Semana de ideias e desejos e esperas. Semana sem blogue e sem ócio. Há semanas assim.

7.10.11

Diário de Etelvina (04)

Era cedo. Etelvina chegou à sala 33 e viu que Manuela dormia. Inclinada sobre uma mesa de madeira quadrada, parecia sonhar com serpentes. Mexia a boca e as pálpebras. As outras mulheres riam. 
Etelvina inclinou o corpo e cantou uma canção de embalar. Manuela não acordou. Sentou-se de frente para o grupo e disse que contaria uma história.
As mulheres escolheram um lugar para ouvir. Etelvina disse-lhes: sempre que uma mulher adormece, o resto do mundo não dá conta. O sono alheio não interessa a terceiros porque terceiros estão longe e não sabem. É por isso que o sono é pertença de um, a vigília é pertença de muitos e a loucura é pertença de todos.