Obrigada, Carlos. Não fossem as bibliotecas e as dúvidas permaneceriam ainda mais espessas.
13.11.11
Algumas coisas que eu sei
Agora sei que depois do sofrimento pode vir a
lucidez. Por cima do que antes se pensava lama, restam as pedras lisas. Agora os
braços esticam-se para longe do que incomoda. Agora, enquanto escrevo, sei que
algumas dores fazem falta ao entendimento.
12.11.11
Coisas que me inquietam (35)
Não sei porque me encontro entre um espaço que procuro e um tempo que não entendo.
9.11.11
Volume Insensato
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| Foto Sebastião Salgado |
“Pensa também que quanto mais volumoso for o corpo mais entravada e menos ágil se torna a alma. Por isso mesmo, limita quanto puderes o volume do teu corpo e dá o máximo espaço à tua alma! Vários inconvenientes se oferecem a quem se preocupa em excesso com o físico: por um lado o esforço exigido pelos próprios exercícios tira-nos o fôlego e deixa-nos incapazes de atenção e de aplicação a um trabalho intelectual intenso; por outro, o excesso de alimentos limita-nos a inteligência.”
Cartas a Lucílio, Séneca
8.11.11
Refúgio
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| Foto Sebastião Salgado |
“Refugia-te dentro de ti próprio, em especial quando fores forçado a estar no meio da multidão. É bom que te tornes diferente da maioria, desde que possas refugiar-te com segurança dentro de ti mesmo. Repara no comum das pessoas: todas teriam mais proveito na companhia de alguém que não fossem elas próprias.”
Cartas a Lucílio, Séneca
7.11.11
Experiência posta em certeza
Oito
e meia da manhã. Carrinha à espera. Atravesso a ponte com alguns
desconhecidos. Chego a uma quinta com vacas, galinhas e horta. Briefing às
nove horas no barracão ao fundo. Café. Maquilhagem. Cabeleireiro. Outro
café. Entrada em estúdio às dez horas. Assistente de realização no
centro. Novo briefing. Nove pessoas ensaiam a apresentação. Sorrir dez minutos para a câmara. Colocar a seriedade no rosto mais dez minutos.
Duas
bolachas por baixo dos pés. Altura feita. Do lado direito, o Ricardo do
Porto, do lado esquerdo, o Rodolfo de Lisboa. Bem acompanhada.
Apresentador no meio do grupo. Primeira ronda. Desgraça. Sai o
apresentador. Pouco dinheiro acumulado. Rimos. Votamos. Percebe-se quem
vai sair. Regresso do apresentador. Insulto generoso. Perguntas
incómodas e explicações pouco convincentes.
Segunda
ronda. Banca. Nova votação. Luz intensa. Calor. Doem as pernas. Empate.
Mais um insulto generoso. Rimos. Sentámos no chão. Ninguém se lembra
das perguntas feitas há dois minutos. Os que saíram estão à espera lá
fora. Mais um empate. Câmara em frente e resposta pronta à pergunta
feita. Rapidez e cara séria. Mais duas rondas. Estão cinco pessoas.
Expulsão. Desço o degrau com cuidado, pela direita. Percorrido o caminho
marcado. Encaminham-me. Atravesso o pátio. Novo estúdio. Duas
perguntas, duas respostas. Respiro fundo. Encontro os companheiros numa
sala pequena. Vêem pela televisão sem som. Todos esperam pelos que vão
saindo.
Festa
ao vencedor. Almoço em conjunto. Apresentador por perto e a simpatia de
um cumprimento. Três horas da tarde. A cabeça começa a doer. Regresso a
Lisboa. A frustração pelas perguntas que não podia ter errado.
Exigência? Por este motivo não, mulher. O contentamento por ter
percebido tempos e espaços. A satisfação pelas pessoas que conheci e
toda a experiência posta numa certeza: voltarei.
4.11.11
Diário de Etelvina (06)
As meninas da sala 33 andavam inquietas com o desaparecimento de um batom. A falta do único objecto que tinham fazia com que esbarrassem no frenesim. Etelvina tinha experimentado tudo: histórias, jogos, TV e livros. Era urgente manter as meninas entretidas e sem protestos:
- Não sabe que nos dá tretas que não queremos?
- Que querem vocês, afinal?
- Paz, D. Etelvina. Queremos paz.
- E como querem ter paz se não estão sossegadas um dia que seja?
- E a paz vem do sossego, D. Etelvina?
- Claro que vem.
- Então deixe-nos encontrar essa coisa. Não nos enfie livros pelos olhos dentro e filmes pelos poros fora. Pare de tentar entreter-nos e perceba que queremos ficar connosco.
- Mas não sabem estar convosco.
- É para isso que a D. Etelvina cá está, para nos ensinar a estar, não para nos entupir de distracções.
- Quem são vocês?
- Somos um bando de loucas postas em cima de um chão de madeira dentro de uma casa com chefes e médicos e enfermeiros e pessoas que nos distraem.
- Pelo menos têm a noção da realidade.
- Qual realidade, D. Etelvina?
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| Paula Rego |
28.10.11
27.10.11
24.10.11
Diário de Etelvina (05)
No dia em que Etelvina explicou às senhoras da sala 33 que era preciso existirem regras em cima das pernas, elas sentaram-se e puseram os pés para o ar. Etelvina explicou à Dra. Guilhermina Guilherme que era difícil encontrar equilíbrio do piso 3. Ela respondeu-lhe com a madeixa em cima da testa e a ruga em cima da mesa:
- Difícil? Não se lembra que estas mulheres têm que ser postas na ordem?
- Lembro.
- Nada de confianças.
Etelvina saiu do gabinete com as palavras da chefe enroladas no papel de jornal. Deitou-as para o caixote do lixo e descansou nas escadas. A D. Manuela espreitou à porta da sala 33:
- D. Etelvina. Acordei. Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro.
- Por que razão não gosta de serpentes?
- Porque rastejam, deitam a língua de fora e podem matar.
- E não há pessoas assim?
- Há. Mas as pessoas não rastejam.
- A sério? Eu não teria tanta certeza!
22.10.11
20.10.11
À tona
Além de tudo o que está a acontecer aos portugueses, há uma doença que mina as mentes e os corpos e que, face a preocupações externas, não é visível. Cuidado. Os anti-depressivos têm baixa comparticipação do estado. Os psiquiatras são caríssimos. Há doenças crónicas que comprometem o próprio e as famílias. Cuidado. Vamos estar atentos ao que se passa fora, sim senhor. E dentro? Parece-me tão ou mais importante. Vou procurar químicos ou manter-me à tona?
19.10.11
Divã
Agora estou cansada e preciso que me digam por que razão tenho a mania de explicar. Manias podem ser doenças, neuroses, obsessões ou recalcamentos. Vou-me deitar no divã e já volto.
18.10.11
Dono da mota
Agora vou ali explicar ao dono da mota que não é preciso fazer muito barulho para que os outros entendam que ele tem problemas de identidade e afirmação.
17.10.11
Médico
Agora vou ali explicar ao médico que nem a autoridade está na ponta do estetoscópio, nem a eficácia está na rapidez da consulta.
16.10.11
Polícia
Agora vou ali explicar ao polícia que, polícias competentes, não gritam nem intimidam transeuntes distraídos.
15.10.11
Professora
Agora vou ali explicar à professora que, professoras que exercem e professoras que já o não são, devem ter atenção ao rigor de linguagem em toda a parte.
14.10.11
Menina da livraria
Agora vou ali explicar à menina da livraria que, profissionais que lidam com gente devem ser profissionais educados e atenciosos.
10.10.11
SEMANAS ASSIM
Tempo cheio de lugares e pessoas e horas e coisas. Semana com muito conteúdo e muita forma. Quadrada. Semana de ideias e desejos e esperas. Semana sem blogue e sem ócio. Há semanas assim.
7.10.11
Diário de Etelvina (04)
Era cedo. Etelvina chegou à sala 33 e viu que Manuela dormia. Inclinada sobre uma mesa de madeira quadrada, parecia sonhar com serpentes. Mexia a boca e as pálpebras. As outras mulheres riam.
Etelvina inclinou o corpo e cantou uma canção de embalar. Manuela não acordou. Sentou-se de frente para o grupo e disse que contaria uma história.
As mulheres escolheram um lugar para ouvir. Etelvina disse-lhes: sempre que uma mulher adormece, o resto do mundo não dá conta. O sono alheio não interessa a terceiros porque terceiros estão longe e não sabem. É por isso que o sono é pertença de um, a vigília é pertença de muitos e a loucura é pertença de todos.
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