5.1.12

Uma resposta

"- Mestre – perguntou um discípulo – porque é que Buda veio do Oriente?
O mestre apontou com a mão um poste em frente à porta e respondeu:
- Olha para este poste, ali.
- Não compreendo – diz o discípulo a olhar para o poste.
- Nem eu – disse o mestre."

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

4.1.12

As letras grandes

“Se o mundo é absurdo – pelo menos opaco, indecifrável – há que escutar a voz daqueles cujo espírito é aparentemente desregrado. Talvez eles tenham mais sorte que nós (nós, os ‘normais’) em penetrar no matagal em que vivemos. Talvez tenham contacto direto com o nódulo obscuro das coisas.
Em todas as tradições – com alguma prudência e irrisão – o ´louco´foi sempre cuidadosamente escutado. Algumas das histórias que lhe são atribuídas podem surgir como as mais sensatas do mundo. E o mesmo quanto aos bêbados, até aos drogados, que perderam provisoriamente o espírito para nosso maior benefício.
Também aqui a lógica é afetada, as relações correntes são invertidas, acende-se uma outra luz.
Passa-se na corte do Japão. Um cortesão escreve uma carta e utiliza para tal caracteres enormes.
Passa um outro que estranha:
- É uma carta?
- Sim.
- Nunca tinhas visto letras tão grandes. Deve tratar-se de um assunto muito importante.
- Não é isso, estou a escrever a um surdo.”

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

3.1.12

O pintor e o incêndio

“Uma história japonesa mostra que um incêndio também pode dar lições. Havia um pintor que pintava sobretudo Budas e se chamava Yoshihide. Um dia declarou-se o fogo numa casa vizinha. Sem cuidar da mulher e dos filhos, que foram obrigados a salvar-se a si próprios, o pintor precipitou-se para a rua e ficou ali, imóvel, a ver o fogo comunicar-se à casa vizinha e à sua.
- Mas que fazes aí? – diziam-lhe as pessoas – Mexe-te! Não vês a tua casa a arder?
O homem sorria, os olhos encolhidos e não parava de dizer:
- Ah, que lição! Como eu pintava mal as chamas do inferno! Agora vejo o que é arder! Ah, que lição!
Apesar dos vizinhos, apesar da mulher e dos filhos, não fez nada. Viu a sua casa consumir-se até ao fim. Depois tornou-se especialista na arte de pintar chamas, recebeu inúmeras encomendas e mandou construir uma casa bem mais bonita que a anterior.”

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

1.1.12

Dia parado

Howard Hodgkin
















Depois de tantas festas, o repouso parece-me ser o lugar perfeito para os braços. As pernas mantêm um ligeiro andamento. A cabeça acompanha o olhar. Toda a existência em cima de um dia parado.

30.12.11

Aniversário

Quando se começa um blogue não se sabe onde vão parar as palavras. Quatro anos. Não sei onde foram parar as palavras. Saíram de mim em dias dispersos. Quando se começa um blogue acredita-se que talvez as frases cheguem seguras a um qualquer lugar inquieto.

Dei uma volta ao tempo. Fiquei com a sensação que cada vez estou mais longe do que vivo e mais perto de mim. 

23.12.11

Lugar do Natal

Foto minha




















Vou para o lugar das lareiras acesas, dos laços dourados, dos colos redondos e das flores contentes. 

22.12.11

Dúvidas

Andrew Wyeth














Era uma vez uma menina que nunca tinha recebido presente de Natal. Não se portava bem. Depois de explicar ao menino Jesus que o seu comportamento se devia a necessidades educativas especiais, o menino concedeu-lhe provas de recuperação e adaptações várias. Deu-lhe oportunidades, deu-lhe tempo de reflexão e deu-lhe permissão para consultar a biblioteca do Céu. Mas a menina continuou a faltar às obrigações. O menino Jesus zangou-se e enviou-lhe pelo correio um plano: nunca faltar aos compromissos assumidos. A menina indignou-se e perguntou: o que são compromissos?

21.12.11

Fúteis obrigações

Vik Muniz



















Estarei ocupada, sentada em frente a caras cansadas e corpos quase mortos. Estarei ocupada a tentar não perceber por que razão se sentam todos para fazer mais que nada. Estarei tão ocupada quanto contente. Porque chegou o último dia de obrigações fúteis.

20.12.11

Divinas

Há músicas capazes de provocar os mais sublimes sentimentos. Há músicas divinas e infernais. Escolho as divinas porque é Natal, porque o sol possibilita suspiros profundos e vinhos caros, porque as luzes da cidade são poucas mas as da alma são tantas que estou capaz de dobrar o grito!

9.12.11

Compota

Morris Louis













Depois das personagens com destino incerto, resta a esperança de um sábado cheio de compota de morango em cima da fatia do pão quente.

8.12.11

Diário de Etelvina (9)

Morris Louis















Etelvina teve de intervir. As meninas estavam aos gritos, as mãos na cintura e os dentes a resvalar para o palavrão. Amarrou-as todas às cadeiras e espetou-lhes o dedo, afiou-lhes as garras e fê-las entender a urgência da disciplina. As meninas não quiseram saber e, quando o diretor do hospital entrou na sala 33, riram alto e bateram com os pés no chão.

7.12.11

Pele

Morris Louis





















Os dias de Dezembro são pequenos, como pequenos são os passos de quem corre para as lojas vazias à procura de uma pele que nem conhece. 

6.12.11

Teresa

Morris Louis
















Estou cansada e tenho que começar. A Teresa nasceu e saiu daqui. Está à espera de quem lhe dê um destino. O futuro dos personagens depende sempre de quem não os criou. É injusto.

5.12.11

Chávena

Morris Louis















Depois de um fim de semana de frio, resta a semana de trabalho, que aquece o raciocínio, os pés e as mãos. Etelvina ainda não parou. Luísa ficou longe e Teresa já nasceu. Personagens que acompanham os dias de quem quer escrever. O chá arrefece na chávena.

2.12.11

Vamos lá ver

Alberto Burri




















Vamos lá perceber se Dezembro compensa. Mais presentes para colocar no armário ou mais vontade de estar presente? Mais laços ou mais beijos e abraços? Vamos lá ver se gentes se consciencializam que crise pode significar oportunidade.