25.11.11

Diário de Etelvina (08)

As meninas decidiram fingir que estavam a dormir, estavam tão acordadas quanto o sol que, naquele dia, nascera com o viço da manhã. Etelvina começou a cantar baixinho. As meninas abriram os olhos com indignação e afirmaram o despropósito da funcionária que cantava em serviço. No piso 3 julgava-se possuir a verdade. Da fragilidade e da ignorância, brotavam os maiores disparates. Etelvina tentava socorrer-se da experiência, esbracejava quando podia e abria os olhos com o poder dentro das pálpebras. As meninas ignoravam a funcionária. Viviam aquém de si mesmas e não queriam perceber que os dias ali passados eram a parte de trás de uma vida fora do lugar. 

Paula Rego

24.11.11

Gente esquisita

- A professora é esquisita. Chega a ser irritante.
- Porquê?
- Porque é sempre ao contrário dos outros.
- Gostam de rebanhos?
- Gostamos de ser normais.
- O que é isso?
- É, sei lá… é sermos como os outros.
- Portanto, serem ovelhas de um rebanho que vos comanda.
- E que mal há nisso?
- Nenhum, caso se sintam bem.
- Claro que sentimos.
- Ótimo. Não precisam de perguntas, as respostas que os outros vos entregam bastam-vos.
- Nem sempre.
- Quando os outros vos mostram perspetivas diferentes são esquisitos, chegam até a ser irritantes.
- Lá está a professora a dar a volta à conversa!

22.11.11

Fome de uma vida

Juarez Machado
















As noites com o cheiro da canela e do vento são sempre maiores. Quando fazem do corpo instrumento de medida e dizem, do mundo, aquilo que  não é, o vento passa devagar. Ficam quietos em frente ao que treme, mexem nas mãos que procuram e percebem que o sentir clarifica toda a realidade. A canela deposita-se em cima do que comem com a fome de uma vida.

21.11.11

Sem explicações

Pollock
















No dia seguinte não encontrou explicações. Levantou-se cedo. Saiu da cama e sentiu o mundo muito frio. Tapou o desejo que tinha fora de si e riu baixinho. Depois deu um salto para fora da água que impedia a quietude. Voltou-se para o lado seco da realidade e fez, das matérias, pensamentos mais serenos que as plumas. As explicações estavam escondidas na última gaveta da cómoda. Não a abriu porque teve medo de as poder entender.

20.11.11

Não há motivo

Pollock
















Naquele dia não havia motivo. Não é preciso haver motivo. Entrou dentro da cama e sentiu o mundo quente demais. Destapou o que o desejo tinha guardado e riu alto. Junto do corpo que tremia fez, dos pensamentos, matérias duramente dóceis. Depois voltou-se para o lado de dentro de um sentir intranquilo e voltou  a destapar tudo. O motivo não foi encontrado porque não é preciso.

18.11.11

Ele foi com ela à missa

Ele sentou-se ao lado dos estranhos. Ouviu tudo o que, de dentro, podia ouvir. Percebeu que podia encontrar respostas. Não se incomodou. Ele não viu qualidades nem defeitos, olhou para o altar e conversou com Deus. Acreditou que naquele lugar podia encontrar-se, mesmo que as velas se apagassem e os estranhos fossem sacanas.

17.11.11

Ela foi à missa

Um dia ela foi à missa e encontrou estranhos. Estavam sentados, os olhos postos no infinito e os ouvidos ausentes. Ela sentou-se e viu. Viu o crente e o ateu, o honesto e o sacana, o homem e a mulher, o filho, o pai, a mãe, o vizinho, o amante e todos os que rezavam em silêncio. Encontrou estranhos com a convicção em cima dos ombros e acreditou que, ali, a verdade andava espalhada por cima de todas as dúvidas.

15.11.11

Não te preocupes

Pieter Brueghel















Não te preocupes com aquilo que dizem. Faz das palavras que ouves o teu assento. Quando te levantares, agarra em todas as que te magoaram e derrete-as. Quanto às outras, o próprio vento se encarregará de as levar para longe. Não te preocupes nunca com aquilo que se dissipa. Preocupa-te com todas as palavras que constróis. Delas não deves fazer assento.

14.11.11

Diário de Etelvina (07)

Uma das meninas da sala 33 declarou-se manipuladora. Etelvina tinha as respostas e a miúda rejeitava-as. Sempre que, de uma pergunta, surgia a resposta pronta, Etelvina perguntava:
- Se sabe a resposta porque me faz a pergunta?
- Porque sim.
- Não sabe que essa é a resposta que nada responde?
- Sei, mas gosto dela.
- Vou ter de a colocar numa espécie de castigo.
- Os castigos só servem para nos revoltarmos, dona. Você não sabe disso?
Desceu as escadas e bateu à porta da Dra. Guilhermina Guilherme. Pareceu-lhe ouvir a voz do diretor da instituição, uma voz abafada e grave, como se estivesse a sair de dentro de um cobertor. Voltou para trás e pensou ser melhor resolver tudo sozinha. Como de costume.

Paula Rego

13.11.11

"A biblioteca protege da hostilidade exterior (...)"

Obrigada, Carlos. Não fossem as bibliotecas e as dúvidas permaneceriam ainda mais espessas.

Algumas coisas que eu sei

Agora sei que depois do sofrimento pode vir a lucidez. Por cima do que antes se pensava lama, restam as pedras lisas. Agora os braços esticam-se para longe do que incomoda. Agora, enquanto escrevo, sei que algumas dores fazem falta ao entendimento.

9.11.11

Volume Insensato

Foto Sebastião Salgado















“Pensa também que quanto mais volumoso for o corpo mais entravada e menos ágil se torna a alma. Por isso mesmo, limita quanto puderes o volume do teu corpo e dá o máximo espaço à tua alma! Vários inconvenientes se oferecem a quem se preocupa em excesso com o físico: por um lado o esforço exigido pelos próprios exercícios tira-nos o fôlego e deixa-nos incapazes de atenção e de aplicação a um trabalho intelectual intenso; por outro, o excesso de alimentos limita-nos a inteligência.”

Cartas a Lucílio, Séneca

8.11.11

Refúgio

Foto Sebastião Salgado














“Refugia-te dentro de ti próprio, em especial quando fores forçado a estar no meio da multidão. É bom que te tornes diferente da maioria, desde que possas refugiar-te com segurança dentro de ti mesmo. Repara no comum das pessoas: todas teriam mais proveito na companhia de alguém que não fossem elas próprias.”
Cartas a Lucílio, Séneca

7.11.11

Experiência posta em certeza

Oito e meia da manhã. Carrinha à espera. Atravesso a ponte com alguns desconhecidos. Chego a uma quinta com vacas, galinhas e horta. Briefing às nove horas no barracão ao fundo. Café. Maquilhagem. Cabeleireiro. Outro café. Entrada em estúdio às dez horas. Assistente de realização no centro. Novo briefing. Nove pessoas ensaiam a apresentação. Sorrir dez minutos para a câmara. Colocar a seriedade no rosto mais dez minutos. 

Duas bolachas por baixo dos pés. Altura feita. Do lado direito, o Ricardo do Porto, do lado esquerdo, o Rodolfo de Lisboa. Bem acompanhada. Apresentador no meio do grupo. Primeira ronda. Desgraça. Sai o apresentador. Pouco dinheiro acumulado. Rimos. Votamos. Percebe-se quem vai sair. Regresso do apresentador. Insulto generoso. Perguntas incómodas e explicações pouco convincentes. 

Segunda ronda. Banca. Nova votação. Luz intensa. Calor. Doem as pernas. Empate. Mais um insulto generoso. Rimos. Sentámos no chão. Ninguém se lembra das perguntas feitas há dois minutos. Os que saíram estão à espera lá fora. Mais um empate. Câmara em frente e resposta pronta à pergunta feita. Rapidez e cara séria. Mais duas rondas. Estão cinco pessoas. Expulsão. Desço o degrau com cuidado, pela direita. Percorrido o caminho marcado. Encaminham-me. Atravesso o pátio. Novo estúdio. Duas perguntas, duas respostas. Respiro fundo. Encontro os companheiros numa sala pequena. Vêem pela televisão sem som. Todos esperam pelos que vão saindo. 
Festa ao vencedor. Almoço em conjunto. Apresentador por perto e a simpatia de um cumprimento. Três horas da tarde. A cabeça começa a doer. Regresso a Lisboa. A frustração pelas perguntas que não podia ter errado. Exigência? Por este motivo não, mulher. O contentamento por ter percebido tempos e espaços. A satisfação pelas pessoas que conheci e toda a experiência posta numa certeza: voltarei.

4.11.11

Diário de Etelvina (06)

As meninas da sala 33 andavam inquietas com o desaparecimento de um batom. A falta do único objecto que tinham fazia com que esbarrassem no frenesim. Etelvina tinha experimentado tudo: histórias, jogos, TV e livros. Era urgente manter as meninas entretidas e sem protestos:
- Não sabe que nos dá tretas que não queremos?
- Que querem vocês, afinal?
- Paz, D. Etelvina. Queremos paz.
- E como querem ter paz se não estão sossegadas um dia que seja?
- E a paz vem do sossego, D. Etelvina?
- Claro que vem.
- Então deixe-nos encontrar essa coisa. Não nos enfie livros pelos olhos dentro e filmes pelos poros fora. Pare de tentar entreter-nos e perceba que queremos ficar connosco.
- Mas não sabem estar convosco.
- É para isso que a D. Etelvina cá está, para nos ensinar a estar, não para nos entupir de distracções.
- Quem são vocês?
- Somos um bando de loucas postas em cima de um chão de madeira dentro de uma casa com chefes e médicos e enfermeiros e pessoas que nos distraem.
- Pelo menos têm a noção da realidade.
- Qual realidade, D. Etelvina?

Paula Rego