10.1.12

Palavras em cima de fumo

Henri Cartier Bresson














Os outros são aqueles que connosco não vivem. Os outros são todos os que existem do lado de fora do nosso afeto. Conhecemo-los, passamos por eles com frequência, sabemos que vivem perto mas a nós não estão ligados. Partindo da certeza de que, aos outros, nada se deve, supõe-se que, por causa deles, nada se deixe de fazer. Um comportamento individual subjugado ao que os outros pensam ou dizem é um comportamento inautêntico, falso e cobarde. Por mais que a língua alheia se afie em comentários, deduções, ou suposições, será sempre uma língua fora do meu alcance. Livres que são, todas as gentes, rumores ou certezas badaladas por causa de mim, serão apenas leves trajetórias de palavras em cima de fumo. Formas de estar e perceber podem ser interpretadas por outros, desditas e inventadas, mas, mais não serão que fontes de desprezo absoluto.

Viver em função das palavras que saem das bocas alheias ou decidir atitudes em função de desditos criados porque sim, é perceber que ainda se não encontrou a maturidade. Livres que são, de facto, todas as gentes, urgente o entendimento de que, aos outros não interessa a vida minha. E se interessar, que com ela preencham as horas vazias, fora e longe que quem, como eu, se digna materializar a indiferença.

Sendo a liberdade a ausência de submissão, de servidão ou determinação; sendo a presença da autonomia e da vontade, só pode ser livre a pessoa que faz da conversa alheia, monte de pó para varrer. 

Para Descartes, age com maior liberdade quem melhor compreende as alternativas que existem à ação. É livre, pois, quem passa pela vida percebendo que a alternativa à língua afiada dos outros, só pode ser uma: desinteresse. Falem os que querem falar, restem livres os que escolherem seguir o caminho dos moucos.

8.1.12

Corpo interrompido

Tiago Taron



















Imagine que um dia o braço bloqueia. Imagine que os pés querem andar e não podem. Imagine ainda que nada consegue fazer quanto ao braço que bloqueia nem quanto às pernas que podem parar. Imagine-se com a visão de um corpo interrompido.

6.1.12

A ponta da vontade

Vik Muniz














As minhas pernas e os meus braços ganharam vida própria. O caminho é sempre o mesmo. Todos os dias o mesmo caminho, à mesma hora, e com a mesma intensidade na ponta da vontade. A ponta da vontade é o lugar exato onde se reúnem todos os desejos que vivem à mesma hora, no mesmo espaço. E agora que já expliquei a quem não quer saber que, tenho uma vontade com ponta, vou-me embora!

5.1.12

Uma resposta

"- Mestre – perguntou um discípulo – porque é que Buda veio do Oriente?
O mestre apontou com a mão um poste em frente à porta e respondeu:
- Olha para este poste, ali.
- Não compreendo – diz o discípulo a olhar para o poste.
- Nem eu – disse o mestre."

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

4.1.12

As letras grandes

“Se o mundo é absurdo – pelo menos opaco, indecifrável – há que escutar a voz daqueles cujo espírito é aparentemente desregrado. Talvez eles tenham mais sorte que nós (nós, os ‘normais’) em penetrar no matagal em que vivemos. Talvez tenham contacto direto com o nódulo obscuro das coisas.
Em todas as tradições – com alguma prudência e irrisão – o ´louco´foi sempre cuidadosamente escutado. Algumas das histórias que lhe são atribuídas podem surgir como as mais sensatas do mundo. E o mesmo quanto aos bêbados, até aos drogados, que perderam provisoriamente o espírito para nosso maior benefício.
Também aqui a lógica é afetada, as relações correntes são invertidas, acende-se uma outra luz.
Passa-se na corte do Japão. Um cortesão escreve uma carta e utiliza para tal caracteres enormes.
Passa um outro que estranha:
- É uma carta?
- Sim.
- Nunca tinhas visto letras tão grandes. Deve tratar-se de um assunto muito importante.
- Não é isso, estou a escrever a um surdo.”

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

3.1.12

O pintor e o incêndio

“Uma história japonesa mostra que um incêndio também pode dar lições. Havia um pintor que pintava sobretudo Budas e se chamava Yoshihide. Um dia declarou-se o fogo numa casa vizinha. Sem cuidar da mulher e dos filhos, que foram obrigados a salvar-se a si próprios, o pintor precipitou-se para a rua e ficou ali, imóvel, a ver o fogo comunicar-se à casa vizinha e à sua.
- Mas que fazes aí? – diziam-lhe as pessoas – Mexe-te! Não vês a tua casa a arder?
O homem sorria, os olhos encolhidos e não parava de dizer:
- Ah, que lição! Como eu pintava mal as chamas do inferno! Agora vejo o que é arder! Ah, que lição!
Apesar dos vizinhos, apesar da mulher e dos filhos, não fez nada. Viu a sua casa consumir-se até ao fim. Depois tornou-se especialista na arte de pintar chamas, recebeu inúmeras encomendas e mandou construir uma casa bem mais bonita que a anterior.”

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

1.1.12

Dia parado

Howard Hodgkin
















Depois de tantas festas, o repouso parece-me ser o lugar perfeito para os braços. As pernas mantêm um ligeiro andamento. A cabeça acompanha o olhar. Toda a existência em cima de um dia parado.

30.12.11

Aniversário

Quando se começa um blogue não se sabe onde vão parar as palavras. Quatro anos. Não sei onde foram parar as palavras. Saíram de mim em dias dispersos. Quando se começa um blogue acredita-se que talvez as frases cheguem seguras a um qualquer lugar inquieto.

Dei uma volta ao tempo. Fiquei com a sensação que cada vez estou mais longe do que vivo e mais perto de mim. 

23.12.11

Lugar do Natal

Foto minha




















Vou para o lugar das lareiras acesas, dos laços dourados, dos colos redondos e das flores contentes. 

22.12.11

Dúvidas

Andrew Wyeth














Era uma vez uma menina que nunca tinha recebido presente de Natal. Não se portava bem. Depois de explicar ao menino Jesus que o seu comportamento se devia a necessidades educativas especiais, o menino concedeu-lhe provas de recuperação e adaptações várias. Deu-lhe oportunidades, deu-lhe tempo de reflexão e deu-lhe permissão para consultar a biblioteca do Céu. Mas a menina continuou a faltar às obrigações. O menino Jesus zangou-se e enviou-lhe pelo correio um plano: nunca faltar aos compromissos assumidos. A menina indignou-se e perguntou: o que são compromissos?

21.12.11

Fúteis obrigações

Vik Muniz



















Estarei ocupada, sentada em frente a caras cansadas e corpos quase mortos. Estarei ocupada a tentar não perceber por que razão se sentam todos para fazer mais que nada. Estarei tão ocupada quanto contente. Porque chegou o último dia de obrigações fúteis.

20.12.11

Divinas

Há músicas capazes de provocar os mais sublimes sentimentos. Há músicas divinas e infernais. Escolho as divinas porque é Natal, porque o sol possibilita suspiros profundos e vinhos caros, porque as luzes da cidade são poucas mas as da alma são tantas que estou capaz de dobrar o grito!

9.12.11

Compota

Morris Louis













Depois das personagens com destino incerto, resta a esperança de um sábado cheio de compota de morango em cima da fatia do pão quente.

8.12.11

Diário de Etelvina (9)

Morris Louis















Etelvina teve de intervir. As meninas estavam aos gritos, as mãos na cintura e os dentes a resvalar para o palavrão. Amarrou-as todas às cadeiras e espetou-lhes o dedo, afiou-lhes as garras e fê-las entender a urgência da disciplina. As meninas não quiseram saber e, quando o diretor do hospital entrou na sala 33, riram alto e bateram com os pés no chão.

7.12.11

Pele

Morris Louis





















Os dias de Dezembro são pequenos, como pequenos são os passos de quem corre para as lojas vazias à procura de uma pele que nem conhece. 

6.12.11

Teresa

Morris Louis
















Estou cansada e tenho que começar. A Teresa nasceu e saiu daqui. Está à espera de quem lhe dê um destino. O futuro dos personagens depende sempre de quem não os criou. É injusto.

5.12.11

Chávena

Morris Louis















Depois de um fim de semana de frio, resta a semana de trabalho, que aquece o raciocínio, os pés e as mãos. Etelvina ainda não parou. Luísa ficou longe e Teresa já nasceu. Personagens que acompanham os dias de quem quer escrever. O chá arrefece na chávena.

2.12.11

Vamos lá ver

Alberto Burri




















Vamos lá perceber se Dezembro compensa. Mais presentes para colocar no armário ou mais vontade de estar presente? Mais laços ou mais beijos e abraços? Vamos lá ver se gentes se consciencializam que crise pode significar oportunidade.

1.12.11

Mês de Dezembro

Começa a azáfama, a preocupação, a ocupação, a corrida, o desejo, a frustração, o cansaço, as pessoas, a família, os amigos, os papéis, os laços, a música, a lareira, os pés doridos e a barriga cheia demais.