21.3.12

Coisas que me inquietam (37)


Palavras acabadas em “inho” e “inha” provocam-me ataques de asma alérgica e levam-me a um duche de duas horas e meia com sais de banho e gel para peles sensíveis.
E agora vou-me embora que estou “cansadinha” de ouvir dizer “obrigadinha”.

20.3.12

Estrear a coragem

Tiago Taron





















Um dia resolveu estrear a coragem. Pegou nela e resolveu-a. Estava fechada numa caixa há muitos anos. Tirou a tampa e deixou-a sair. Em dia de sol e de muito frio, aqueceu-se com a vontade esquecida dentro do compartimento encerrado no silêncio.

19.3.12

18.3.12

E não chove

Howard Hodgkin















E não chove. E o clima empena os dedos e as ideias não escorrem. Estou pequena, como se as árvores estivessem acima da minha consciência. Estou pequena como o tempo que não puxa a água de que preciso para me molhar inteira. Gente crescida me avisa de que, um dia, poderei ficar assim. Não quero crescer porque não gosto. Há processos de crescimento que nego e não procuro, são processos estranhos à minha natureza. Continuo pequena, ao pé das árvores que crescem porque sim. Eu não cresço. Caminhar contra a natureza é ir de encontro a uma parede. E não chove.

29.2.12

Tempo seco

Vik Muniz (Ava Gardner)



















Eu sei que ando numa preguiça sem tamanho. Vim aqui dizer isso. Já se sabia. As palavras estão arrumadas à espera da chuva. Têm estado secas. São precisas paragens para dizer coisas que ninguém ouve e escrever textos que ninguém lê. Quem escreve com a preguiça em cima diz asneiras, hábito meu, eu sei. Mas agora é descanso.

16.2.12

Vontade

Que venha a noite escura e fria. Que venham ideias em corpo prostrado. Que venham as mãos, postas fora do nada. Que venha tudo. Que venha o alívio por ter feito o que há muito devia ter sido feito. Que venha o presente que pôs em mim a vontade.

13.2.12

Igualmente diferentes

Às vezes o frio dos dias substitui o tempo das ideias quentes. Há dias sempre iguais, tão iguais que fazem toda a diferença.

5.2.12

A densidade que a vida tem

Tiago Taron












Há mulheres que são espessas, andam com os pensamentos à frente dos passos. As mãos guardam o que iam sentir e os pés tropeçam no que iam dizer. 
Há mulheres que são espessas porque sugam a densidade que a vida tem.

3.2.12

Tempo de chá e de frio

Foto minha















Quando a temperatura baixa, as mãos ficam frias.  O bule é de ferro. A infusão chega depois do almoço. Resta o descanso de um estômago aquecido. As mãos que pegam na chávena são, também, as mãos que desejam o bule. Depois, o contentamento deita-se em cima da ausência de açúcar. Quanto ao bolo de chocolate, espera-se que a vontade arrefeça.