9.4.12

Mulher sentada

Howard Hodgkin
















Às vezes calo-me porque me sento. Nem os pés mexem nem a cabeça comanda os braços. Há silêncios que vêm da inércia e isso é estúpido. A estúpida inércia que vem colada à preguiça. Juntas têm feito de mim uma mulher sentada.

1.4.12

Calada


Depois veio a inércia peluda e feia que me deixou deitada em cima de nada. Depois vieram os olhos postos nos quadros vazios. Depois de muitos dias com o tempo todo no corpo vieram as palavras feias e, por isso, calei-me.

21.3.12

Coisas que me inquietam (37)


Palavras acabadas em “inho” e “inha” provocam-me ataques de asma alérgica e levam-me a um duche de duas horas e meia com sais de banho e gel para peles sensíveis.
E agora vou-me embora que estou “cansadinha” de ouvir dizer “obrigadinha”.

20.3.12

Estrear a coragem

Tiago Taron





















Um dia resolveu estrear a coragem. Pegou nela e resolveu-a. Estava fechada numa caixa há muitos anos. Tirou a tampa e deixou-a sair. Em dia de sol e de muito frio, aqueceu-se com a vontade esquecida dentro do compartimento encerrado no silêncio.

19.3.12

18.3.12

E não chove

Howard Hodgkin















E não chove. E o clima empena os dedos e as ideias não escorrem. Estou pequena, como se as árvores estivessem acima da minha consciência. Estou pequena como o tempo que não puxa a água de que preciso para me molhar inteira. Gente crescida me avisa de que, um dia, poderei ficar assim. Não quero crescer porque não gosto. Há processos de crescimento que nego e não procuro, são processos estranhos à minha natureza. Continuo pequena, ao pé das árvores que crescem porque sim. Eu não cresço. Caminhar contra a natureza é ir de encontro a uma parede. E não chove.