Eram centenas de imagens por cima de
palavras. A escolha, a vontade, a estética e o trabalho de anos. Arquivo para
visitar o passado das palavras e dos gestos em pinturas. Desapareceram as
imagens e eu não entendo. Todas estavam identificadas, tinham sido escolhidas
ao lado do meu chá verde, quente e macio. Sem açúcar. O arquivo está com palavras
e não tem ritmo nem cor. A vontade de acabar com escolhas difíceis e recolher
ao preto e branco das letras, ao vazio ou ao conteúdo de algumas dispersas
ideias. Tiraram de mim a vontade de escolher e isso aborrece-me.
24.4.12
23.4.12
Dia mundial do livro
“Nós somos feitos de tempo. É essa a
força que nos confere uma identidade própria. Basta fecharmos os olhos e
sentimo-la. É o tempo que define a nossa existência (…). O tempo é a única
narrativa que conta. Prolonga os acontecimentos e torna possível que sintamos
dor e a superemos e que assistamos ao espetáculo da morte e continuemos a
viver. Mas não para ele. Ele move-se noutra estrutura, noutra cultura, onde o
tempo é uma dimensão à parte, pura e isolada, que não oferece abrigo.”
O Corpo enquanto arte; Don DeLillo
22.4.12
Por baixo da realidade
A parte de
cima da realidade é mais dura que a parte de baixo. No dia em que percebi isso não atendi o telefone, comi metade do que tinha posto no prato, bebi dois litros de água lisa e deitei-me debaixo das mantas encavalitadas no sofá.
Quando acordei, a realidade continuava lá, com a parte macia de fora e a parte dura bem no interior de todas as contradições.
Quando acordei, a realidade continuava lá, com a parte macia de fora e a parte dura bem no interior de todas as contradições.
20.4.12
Sucessão de momentos
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| Tiago Taron |
“O tempo parece escoar-se. O mundo acontece,
prolonga-se numa sucessão de momentos e nós detemo-nos a olhar uma aranha
espalmada contra a sua teia. Há na luz um fulgor que leva a que os objetos nos
pareçam recortados com precisão, enquanto faixas brilhantes percorrem a baía.
Sabemos melhor quem somos num dia de intensa claridade, depois de um temporal,
quando o sentimento de si trespassa todas as folhas que caem, mesmo as mais
pequenas. O vento remoreja entre os pinheiros e o mundo adquire uma existência
irreversível e a aranha agarra-se à teia que o vento faz baloiçar.”
O Corpo
enquanto arte; Don DeLillo
19.4.12
18.4.12
E agora?
Vais buscar a verdade à gaveta que
insistes em fechar por causa de uma vergonha nojenta, ou manténs a mentira que carregas
por causa de uma calma cobarde?
17.4.12
Depois
Depois vem o homem calmo dentro
de um carro. Depois vêm as palavras serenas e os impulsos reprimidos. Depois
vem a sensação de liberdade, ao volante de um duro entendimento das coisas
bonitas que ficam longe. Depois vem a noite e o vento e a chuva e o vinho que
dança. Depois vem a manhã fria, dentro dos cobertores com corpos cansados.
16.4.12
Alguém me explica?
Depois de revirar alguns arquivos deste blogue, verifiquei que muitas imagens desapareceram. No lugar delas resta um quadrado escuro com um ponto de exclamação. Alguém me consegue explicar o motivo de semelhante desaparecimento?
Andou uma mulher a seleccionar pinturas para depois ver este abandono!
Subidas
Sempre que subo, começo a tremer, com a alma posta nas
pernas e o medo em cima da testa. As alturas desnorteiam-me, as escadas
do intelecto estimulam-me e o escadote aterroriza-me. Há alturas e alturas. Disso
a dúvida saiu, quando verifiquei que, sentimentos sobem depressa, ideias custam
e concretizações doem.
13.4.12
10.4.12
Enterro dos risos
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| Paula Rego |
Dias inteiros de trás para a frente,
sem saber se o lugar que está atrás é melhor que o lugar que está à frente.
Dias de dúvida e desatino. Mãos postas em palavras estáticas e voz muda em lugares
secos. Dias sem sequer ter vontade, esse monstro interior que procura objetivo
e não encontra mais que parede. Noites de sono profundo e inútil, quando o
querer tem os músculos moles e os risos se enterraram no tédio.
9.4.12
Mulher sentada
1.4.12
Calada
Depois veio a inércia peluda e feia
que me deixou deitada em cima de nada. Depois vieram os olhos postos nos
quadros vazios. Depois de muitos dias com o tempo todo no corpo vieram as
palavras feias e, por isso, calei-me.
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