11 de Novembro de 2009

ESPERA


Amadeo Modigliani

Ela esperou por ele. Até ao dia em que percebeu que, esperas, travam conhecimentos.

10 de Novembro de 2009

O BERRO DA TIRA DE PANO


Amadeo Modigliani

A gravata berra de raiva. Porque ainda não disse nada que se ouvisse. Esperneia no pescoço de quem não a entende. Barafusta no corpo de quem a quer perfeita. Ela não quer ser perfeita. Não quer ser mais que tira de pano para engraxar sapatos.

9 de Novembro de 2009

VESTIDO


Amadeo Modigliani

Corpo vestido. Depois. Quando as mãos deixaram de encontrar nudez. Depois. Quando os pés pisaram chão coberto de afazeres.

8 de Novembro de 2009

ESPAÇO


Amadeo Modigliani

Espaço onde todas as células encontram contentamento.

7 de Novembro de 2009

MAIS POESIA


Amadeo Modigliani

- Aquele CD de jazz que compraste ontem?
- Está ali.
- Vai colocá-lo, por favor.
- Interrompes para isso?
- É necessário.
- Necessário?
- Absolutamente. Orgasmo com poesia!

6 de Novembro de 2009

PAZ


Amadeo Modigliani

Depois encontra-se paz.

5 de Novembro de 2009

BELA


Amadeo Modigliani

Preguiça bela. Quando os dias estão cheios de corpo.

4 de Novembro de 2009

ASSIM FOI


João Abel Manta

E o bebé nasceu antes do dia temido.

3 de Novembro de 2009

FESTA EM DIA DE FINADOS


João Abel Manta

Era o dia do fim da quadragésima semana de gravidez:
- 2 De Novembro, doutor?
- Que tem?
- Não, por favor, se eu puder escolher, não quero que o bebé nasça no dia dos mortos.
- Mas que superstição é essa minha senhora?
- Eu não sou supersticiosa, até porque acho que isso dá azar, mas filho meu a nascer em dia de finados é que não.
- Julga que a criança vai ficar triste com isso?
- De forma nenhuma, doutor, só não quero passar o resto da vida entre festas de aniversário e visitas ao cemitério!!

2 de Novembro de 2009

MONÓLOGO JUNTO À MINA


António Eça de Queiroz

Um amigo do Norte, companheiro de palavras publicadas, cúmplice em almoços com gente gira, fez o favor de aceitar um convite: escrever na Dobra Do Grito, com pintura incluída. Obrigada, António.

Bom, vejo que finalmente a encontraste – um bocado à sorte, diga-se de passagem...E que vais fazer agora, pode-se saber? Ou não saberás ainda?...
Não sei, não. Realmente não sei. Pergunto-me se valerá a pena – aliás pergunto-me mesmo se algo vale a pena. Já pensei em fazer aqui uma horta e montar guarda.
Como um cão?!... Essa é boa! Andaste anos ao acaso das passagens em redor da entrada, fizeste cálculos de pêndulo e astrolábio, correste perigos, rugiste de ira no breve desalento, uivaste de alegria na falsa descoberta... E agora que te falta um passo, um único, não vais entrar?... Não te move sequer um pouco de curiosidade? – se esconde tesouros, ou até segredos caros ao universo? Se assim é para quê avançar tanto no caminho, tão cheio da segura insegurança que anima a alma dos aventureiros? Porque não fizeste logo a tua horta e por lá não te ficaste, junto aos teus amigos pássaros, à salsa e à hortelã? Ninguém te empurrou de lá para fora!...
Tive de facto curiosidade. E o acaso, dizem os que crêem, é uma das divinas manhas...
E agora...
É.
Enganaste-te outra vez, meu caro: não é.

António Eça de Queiroz