9 de Fevereiro de 2010
PORTA DE FRIGORÍFICO
Numa porta branca de um frigorífico branco, numa casa branca de uma Lisboa branca, a cozinha convida amigos a entrar. Enquanto tiro o pacote de natas para os bifes que fervilham, leio num íman bem à minha frente:
“Cinema é arte. Teatro é vida. Televisão é mobília.”
Quanta verdade posta numa porta branca de um frigorífico branco numa casa branca de uma Lisboa branca. Até faz impressão.
8 de Fevereiro de 2010
VENHAM DIZER-ME

Marcel Duchamp
Venham dizer-me que o amor é lindo, que as flores dançam e que os pássaros cantam. Venham depressa exigir felicidade a quem sabe que o corpo a consome e a alma não a aproveita. Venham falar-me da sabedoria em cima de um prato de riso e massa fresca. Venham pedir favores a quem não sabe o que são e depois gritem todos de raiva podre. Venham dizer-me da injustiça dos fortes para com os fracos, da arrogância dos ricos e do lamento dos pobres. Telefonem-me aos berros por causa da conta da luz e apaguem o lamento com que vão pagá-la. Agora venham dizer-me que é o sofrimento que desenvolve a força da mente que eu acredito e aplaudo.
7 de Fevereiro de 2010
COISAS FORA
6 de Fevereiro de 2010
UMBIGO
5 de Fevereiro de 2010
PÉS

Maurice Denis
Nunca me lembro que tenho pés. Quando, de vez em quando, os estico para o colo da minha Sílvia, percebo, como nunca, a sua existência. Depois descasca-se o cansaço com a lima, molham-se com o cheiro da água quente e, dali saio com menos de mim. No dia seguinte, os meus pés têm menor dimensão. Finos e mais macios que antes, parecem ser outros que coloquei para me distrair do chão que piso todos os dias. O colo da Sílvia transforma os meus pés em outros. Porque as mãos que ela tem são íntimas dos pés de que nunca me lembro.
4 de Fevereiro de 2010
MÃOS

Paul Klee
As mãos que comem são as mãos que limpam. As mãos que trabalham são as mãos que mexem. As mãos são sempre ferramenta para tudo. Agarram pessoas, copos, cabelos, roupa, lixo, livros e talheres. Levam à boca o alimento e tiram da porta as chaves de casa. Carregam na campainha e ligam o telemóvel. As mãos que pegam no gel, espalham-no pelo corpo, coçam as costas vazias de medo e penteiam cabelos desconexos. São instrumentos de chegada e de partida. Mãos. Lugar que, no corpo, ocupa espaço sempre descoberto, mesmo quando as luvas tapam afazeres.
3 de Fevereiro de 2010
ENGANO

Maurice Denis
As pessoas más julgam que as outras são más.
As pessoas invejosas julgam que as outras são invejosas.
As pessoas mentirosas julgam que as outras são mentirosas.
As pessoas boas julgam que as outras são boas.
As pessoas verdadeiras esperam verdade das outras.
As pessoas honestas esperam honestidade e… um dia, as pessoas percebem que é um engano julgar os outros a partir de si próprio.
As pessoas invejosas julgam que as outras são invejosas.
As pessoas mentirosas julgam que as outras são mentirosas.
As pessoas boas julgam que as outras são boas.
As pessoas verdadeiras esperam verdade das outras.
As pessoas honestas esperam honestidade e… um dia, as pessoas percebem que é um engano julgar os outros a partir de si próprio.
2 de Fevereiro de 2010
PEDRO NA AUTO ESTRADA

Paul Klee
Luísa conduzia na auto-estrada a 150 Km à hora. O sol de Inverno limitava-lhe a visão. Alcatrão gasto e carro pouco preparado. Pensou ser o tempo de trocar de máquina, já que os dedos pediam outro tipo de volante, outro tipo de assento. A estrada estava limpa de gente. Cinco da manhã. Regressavam a casa os que tinham a certeza do dia que nascia. Os outros ainda dormiam sem certezas, perto das almofadas cobertas de branco.
Um carro ultrapassou-a. O homem olhou e seguiu em frente, como que a dizer que estava ali. Luísa não entendeu e voltou a passar pelo lado esquerdo de quem lhe travava o andamento: parvo, pensou.
Depois de algumas ultrapassagens parecidas com uma corrida improvisada, os carros mantiveram-se lado a lado, entre a noite e o dia que, prestes a aparecer, prometia estranha aventura.
“Eu sou o Pedro. Café?”, estava escrito num papel colado ao vidro. Não podia ter sido escrito durante a viagem. Por certo tinha-o pronto para mostrar em ultrapassagens pensadas. Luísa sorriu e acenou com a cabeça. Deixou que o carro seguisse atrás de si e, alguns quilómetros depois assinalaram a saída para a estação de serviço. Pedro seguiu-a com todo o entusiasmo posto no rosto.
Luísa não desceu do carro, tirou da carteira um pequeno papel engelhado e escreveu: “eu não gosto de café e o meu nome situa-se entre o meu e o seu carro.” Luísa.
Um carro ultrapassou-a. O homem olhou e seguiu em frente, como que a dizer que estava ali. Luísa não entendeu e voltou a passar pelo lado esquerdo de quem lhe travava o andamento: parvo, pensou.
Depois de algumas ultrapassagens parecidas com uma corrida improvisada, os carros mantiveram-se lado a lado, entre a noite e o dia que, prestes a aparecer, prometia estranha aventura.
“Eu sou o Pedro. Café?”, estava escrito num papel colado ao vidro. Não podia ter sido escrito durante a viagem. Por certo tinha-o pronto para mostrar em ultrapassagens pensadas. Luísa sorriu e acenou com a cabeça. Deixou que o carro seguisse atrás de si e, alguns quilómetros depois assinalaram a saída para a estação de serviço. Pedro seguiu-a com todo o entusiasmo posto no rosto.
Luísa não desceu do carro, tirou da carteira um pequeno papel engelhado e escreveu: “eu não gosto de café e o meu nome situa-se entre o meu e o seu carro.” Luísa.
Atirou o papel para o asfalto no momento em que Pedro se preparava para lhe abrir a porta. Arrancou à velocidade permitida pela lei e pelo discernimento.
1 de Fevereiro de 2010
SEMPRE CLOONEY
A pressão de um emprego que consiste em despedir pessoas, dizer-lhes que estão dispensadas de um lugar que ocuparam durante anos.
A pressão auto-imposta de uma vida sem compromissos.
A realidade amorosa colocada (entre parêntesis) porque assim o exige quem pretende ter mais que uma família estruturada.
A tentativa de uma ligação que se julgava repudiar.
Depois do conteúdo de um filme despretensioso e muito engraçado, o charme, a classe, a atitude do que se mantém, simplesmente Clooney.
E ainda, a melhor frase: “considera-me uma pessoa igual a ti, mas com vagina”.
31 de Janeiro de 2010
FILIPE
O menino é fantástico mas...continuo a votar no sorriso do Laurent Filipe, mesmo quando não se vê.
A MOEDA DA AVÓ EMILIA
30 de Janeiro de 2010
PROUST NO SOFÁ CÁ DE CASA

"O amor é uma doença incurável". "No amor há sofrimento permanente". "Aqueles que amam e aqueles que são felizes não são as mesmas pessoas". O pessimismo romântico de Proust baseou-se, pelo menos em parte, na combinação de uma necessidade intensa de amor e uma falta de jeito tragicómica ao tentar obtê-lo. (Pag.72)
COISAS QUE ME INQUIETAM (20)

Charlotte Gainsbourg
Saí agora da sala 3 do King. Lars Von Trier, Antichrist. Podia ter passado o tempo num musical, a bater o pezinho e a abanar a cabeça. Podia ter ido ver o Clooney, depois à festa do Lux e tal e coisa e noite e copos e diversão.
Fiquei ali parada, no medo, no desespero, na angústia, na raiva, no ódio e no poder.
Tão soberbo quanto hediondo. Vou precisar de químicos para dormir esta noite.
Fiquei ali parada, no medo, no desespero, na angústia, na raiva, no ódio e no poder.
Tão soberbo quanto hediondo. Vou precisar de químicos para dormir esta noite.
29 de Janeiro de 2010
OA CACIFOS DAS PESSOAS

Paul Klee
Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas. Quadradinhos pequenos em sala de professores. Chaves na mão e, aberta a porta, um mundo de papel, comida, cigarros, pastas, água, bolachas e outras ferramentas necessárias à sobrevivência.
Os cacifos das pessoas ilustram o que são as pessoas: desarrumadas, metódicas, egoístas, disponíveis, descontraídas, complicadas, mentirosas, irritantes ou amorosas.
Um estudo sobre a forma como as pessoas arrumam os cacifos, ou não, poderia ser objecto de investigação psicanalítica.
28 de Janeiro de 2010
NO MEU TEMPO

Pieter Brueghel
No “meu tempo” havia respeito, as pessoas tinham palavra e não era necessário recorrer a tribunais para provar o dito ou o feito. No “meu tempo” as palavras tinham peso e, atitudes demonstravam carácter e bom senso. No “meu tempo” as coisas eram diferentes, os filhos respeitavam os pais, os velhos eram protegidos, as crianças aprendiam e os governantes tinham princípios. Era o “meu tempo”; a altura em que me sentia jovem, tinha poucos anos e muita energia. Talvez por isso diga que era o “meu tempo”, porque ainda não percebi que o tempo presente é o único que interessa.
O “meu tempo” é o que hoje vivo, onde me situo e ajo, onde posso mexer nas coisas. O tempo de todos os dias é meu porque o ocupo e transformo, a não ser que persista na ideia morta de que o tempo que foi “meu” já não existe. Então, o que é o tempo que vivo agora? O dos outros?
O “meu tempo” é o que hoje vivo, onde me situo e ajo, onde posso mexer nas coisas. O tempo de todos os dias é meu porque o ocupo e transformo, a não ser que persista na ideia morta de que o tempo que foi “meu” já não existe. Então, o que é o tempo que vivo agora? O dos outros?
27 de Janeiro de 2010
ENCONTRO
26 de Janeiro de 2010
"AMIGAS"
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