30.6.08

LONGE DE MIM


(Souza Cardoso)

Às vezes penso nos amigos que já não vejo há muito tempo, aqueles que desapareceram da minha vida porque sim. Penso nas conversas bonitas, nas noites em Lisboa e em outras paragens, nas compras na Fnac, nas mãos dadas, nas roupas trocadas, nos jantares longos, nas escadas subidas, nas rampas descidas, no som das palavras, no suor dos corpos, nas músicas escolhidas, nas lareiras acesas, nos abraços com lágrimas, nas verdades, nas mentiras, nas cadeiras onde se sentavam, no sofá onde dormiam, nas cartas que escreviam, nos quadros que pintavam, nas comidas ao lume, nas mesas postas em sossego, nos tangos não dançados, nos amores não vividos, nos beijos não dados, nas plantas fora do jardim, nas desavenças, nos gritos, nos telefonemas, nas mensagens, nas ausências, nos silêncios.
Às vezes penso nos amigos que já não estão ao pé de mim, os que foram embora porque sim. Penso nos jacarandás, nos malmequeres, nos chinelos em pés nus, nas túnicas compridas, nas gargalhadas estridentes, nos gelados com amêndoas, no mel com queijo fresco, no carro perto do rio, nas velas acesas, nas cobras dentro de frascos, nos jardins em dias de sol, nas árvores frondosas, nos bancos de madeira e em todos os bancos onde hoje, longe de mim, se sentam com a mesma sensação que eu: a de que o tempo nunca apaga sentimentos feitos de ferro.

28.6.08

CORES

O Sábado é o dia das cores. Levanto-me quando o encarnado está perto, vivo no amarelo das horas e saio quando o preto me leva ao verde sempre limpo. Depois, o branco recolhe-me no quente do corpo.

27.6.08

MORTE


As plantas morrem no dia em que decido cuidar delas. Tenho pena.

CIDADE

Ver o "Sexo e a Cidade" com o amigo dos abraços e dos bombos era tudo o que eu precisava hoje.
A noite está quente, bonita, clara. Vim até casa a 50Km à hora, não por querer ser cumpridora, mas porque não me apetecia chegar!

26.6.08

RISO SÓ MEU


(Souza Cardoso)

Há dias, parei em frente a uma loja de roupa. Olhei para o manequim escanzelado com olhos pretos e ri-me. Parecia estar a ver alguém desconhecido que se vestia para mim. Ainda pensei entrar para lhe testar os braços, mas achei mais prudente ficar no riso absurdo de um momento só meu.

25.6.08

O BULE DO CONTENTAMENTO


(Souza Cardoso)

Saí com a mochila posta nas costas. Era tarde de chuva em Lisboa. Passeei entre os pingos grossos que me levavam a lugar incerto. As montras estavam limpas. Olhei-as com desdém. Largo do Chiado vazio de pessoas, cheio de gente ocupada. Tinha nas mãos coisa nenhuma e no entendimento a alegria de algumas produções escritas que, pela primeira vez, tinham tido retribuição simbólica. Sabia que aquela quantia estava nas mãos de quem precisa de uma coisa com importância, para ficar acima do tempo.

Desci as ruas de calçada com a dúvida fora de mim. Lisboa ia oferecer-me, naquele dia, um objecto que contasse as histórias das minhas noites com a chávena de chá verde.

Depois de muitos passos, perto do largo de Camões, parei em frente a uma loja de chás. Verdes, brancos, pretos. Entrei. A senhora sorriu e indicou-me um lugar perto do vidro molhado. O chá foi servido com as mãos de quem sabe e a ampulheta que conta os minutos desejados até chegar o aroma e o sabor que se procuram devagar. Bebi-o com os olhos postos no bule. Encarnado, quadrado, pesado e quente. Sabia-o meu, fruto das palavras que tantas vezes ofereci. Peguei nele com a convicção de que iria fazer parte da melodia dos meus parágrafos. Levantei-me e paguei, com o contentamento de quem, pela primeira vez, paga uma relíquia com o fruto dos seus solitários momentos de criação.

24.6.08

NÃO SEI


(Souza Cardoso)

Não sei se é tristeza ou contentamento. Não sei o que, por dentro, acontece. Sei os dias que vão embora, sem marca. Os que ficam em registo ou em memória, são os que tive inteiros. Os que se foram embora, são os que perdi na sombra de um falso contentamento ou tristeza revisitada.

23.6.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (3)

Há uma tendência generalizada para a tristeza. As notícias catastróficas são mote de conversa e opinião. Os dramas humanos fazem manchete e o enorme contentamento é empurrado para páginas secundárias ou notas de roda pé.

10 - AMADEO DE SOUZA CARDOSO



Amadeo de Souza-Cardoso nasceu a 14 de Novembro de 1887 em Manhufe, próximo de Amarante, e morreu em Espinho, vítima de “pneumónica”, ou gripe espanhola, a 25 de Outubro de 1918.
Em 1906, parte para Paris com Francis Smith e instala-se no Boulevard de Montparnasse. Estuda Arquitectura, frequentando os ateliers de Godefroy e de Freynet, mas acaba por desistir do curso, por estar mais interessado em desenvolver uma actividade de desenhador e caricaturista, permanecendo atento ao movimento artístico parisiense.
A evolução da pintura de Amadeo acaba por se encontrar naturalmente com as suas pesquisas gráficas. A partir de 1911, o pintor recupera o vocabulário decorativo dos seus desenhos, concentrando-se na definição de um estilo pessoal.
Alguns encontros em Lisboa, com Almada Negreiros e o grupo de Orpheu, estabeleceram rituais de cumplicidade entre as artes e as letras, integrados no movimento futurista.
Nos seus dois últimos anos de vida, Amadeo concentra e excede toda a sua energia criativa na construção de uma síntese de referências. Precocemente desaparecido, Amadeo, em escassos anos de trabalho, entre Paris e Manhufe, desenvolveu a mais séria possibilidade de arte moderna em Portugal.

(Helena de Freitas; Adaptação)

19.6.08

DOBRAS E GRITOS (22)


Rui Pelejão; in: PnetHomem

VIZINHO (3)



Tem, desde miúdo, o hábito de escrever recados que deixa colados na porta do frigorífico. Têm sempre quatro linhas, postos sempre no mesmo sítio. Todas as manhãs os coloca antes de buscar o leite fresco do pequeno almoço. Não há dia em que o esquecimento tome lugar na porta branca da cozinha pequena. Cola o post it religiosamente e olha atento para as palavras que escreve para ninguém.

18.6.08

VIZINHO (2)




Nasceu numa aldeia seca do Alentejo. Viveu uma infância lânguida, encostado à cal da esquina de uma rua pequena e estreita. Cresceu com a esperança no acontecer. Dedicou-se às finanças e casou cedo com uma comadre roliça, de sorriso gorduroso. Foi chefe de repartição. Todos os dias se enchia de si por isso mesmo. Não teve filhos, dedicou o tempo ao amor adiado e à profissão inventada.

17.6.08

VIZINHO (1)


Tem o rosto magro e alongado, fundas rugas e olhos tristes. Trabalhou, durante muitos anos, num daqueles escritórios com muita gente e poucas pessoas. Viúvo e sozinho, não se lembra da forma como se inicia um diálogo, esqueceu as palavras e a vida. Anda, a cada passo, com o olhar posto no chão e o sorriso escondido no cansaço e no vazio árido dos dias por viver.

16.6.08

BELO REGRESSO


(Salvador Dalí)

Estou tão descansada, tão descansada. Estou tão calma tão calma. Estou tão cheia de contentamento que julgo não ser preciso escrever mais nada.

13.6.08

VOU-ME EMBORA


(Salvador Dalí)

Tempo de correr para onde o sol se põe devagar. Estarei longe de tudo o que não me contenta. Vou-me embora, à procura do caminho até ao mar.

12.6.08

FÚRIA


(Salvador Dalí)

Quando, há muito tempo, não viajei para longe, fiquei parada no pensamento de uma ausência de lugar onde não estive. Queria ficar de fora, do lado dos que vêem de baixo para cima, dos que percebem os voos impossíveis e lentos, como a fúria do ruído das viagens por fazer.

11.6.08

LUGAR MENOR


(Salvador Dalí)

Uma sala de espera é sempre um lugar menor. Não me ocorre nenhuma circunstância em que se possa considerar o espaço, lugar de agradáveis momentos.

10.6.08

NUNCA


(Salvador Dalí)

A seguir à refeição, depois de apetites saciados, nunca a expressão "estou cheia" pode ser pronunciada. Em nenhuma circunstância.

9.6.08

GRITO DA SEMANA


(Salvador Dalí)

À procura do desejo. Venham brandas as palavras quando se altera o vazio. Venha a busca dos motivos da vida que não se encarna. Venha a força, a vontade, a candura e a verdade. Venha o desejo de ser.

8.6.08

DOBRAS E GRITOS (21)

Soube que Baptista Bastos, diz ser Lisboa uma cidade feminina.
É absolutamente verdade.

9 - SALVADOR DALÍ



Pintor espanhol, representante do surrealismo, pintou algumas das obras clássicas dessa escola, empregando desenho refinado e técnica meticulosa para criar imagens provocativas e alucinadas a que chamava "sonhos fotográficos pintados à mão".
Nasceu a 11 de maio de 1904, na pequena cidade catalã de Figueras. O seu mundo interior era Figueras, a planície de Ampurdán e a aldeia de pescadores, logo atrás das montanhas. Estes são os cenários da grande maioria de seus trabalhos.
Dalí insistiu na sua "linhagem árabe", alegando que os seus antepassados eram descendentes de mouros que ocuparam o sul da Espanha por quase 800 anos e atribui a isso, "o seu amor por tudo o que é excessivo, a sua paixão pelo luxo e o seu amor oriental por roupas".

Tinha uma reconhecida tendência para atitudes extravagantes, destinadas a chamar a atenção, o que por vezes aborrecia os que apreciavam a sua arte, ao mesmo tempo que incomodava os seus críticos. A sua forma de estar teatral e excêntrica, tendia a eclipsar o seu trabalho no que à notoriedade diz respeito.
A 23 de Janeiro de 1989, morreu de insuficiência cardíaca com 84 anos. Está sepultado na cripta do seu
Teatro - Museu Dalí, em Figueras.

7.6.08

VALSA, VINHO, VELUDO E SEDA



Naquela semana o texto estava escrito. A sua editora não podia reclamar. Eficiência garantida. Desta vez, encostou-se no sofá, de frente para a prateleira de livros antigos, enfileirados por épocas e autores. Olhava-os como se lesse, todos os dias, uma história diferente. Inventava, com o cigarro de enrolar entre os dedos, os episódios mais sublimes que alguma vez supusera. Viagem a Veneza na época das caras pintadas e dos corpos vestidos de outrem.

Não quis fechar os olhos às palavras e abriu um dos volumes empoeirados. Página 50: Sim, poucos seres tem havido mais naturais do que eu. O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões (Albert Camus; A Queda). Agora as palavras seguiam, rumo à Praça de S. Marcos. Gordas. Viscosas. Empacotadas em máscaras.

Continuava a vida na sala pouco iluminada que se enchia de fumo. Não podia evitar fechar os olhos, de novo.A casa tinha-os acolhido num fim-de-semana em Veneza. O lugar onde os corpos se encontraram pela segunda vez. Espelhos altos, molduras douradas e Frescos de Miguel Ângelo. Ninguém era, naquela noite, mais que máscara polida pelas luzes dos castiçais. Olharam-se por detrás das caras coladas a si e, deixaram que a noite existisse. O vinho era presença nas mesas baixas e os tecidos mexiam-se com a aragem vinda das janelas abertas para a Praça de S. Marcos. A sabedoria acompanhava-os desde a primeira noite em Montmartre, quando todos pareciam ter conhecido a nudez do tango.

Respiraram tudo o que o Carnaval oferece e a valsa presenteia. Elegância. Sensualidade. No lugar do piano, os punhos brancos e os dedos compridos de quem tocava Gymnopédie No.1 - Erik Satie.
No momento de acabar a história, o livro caiu-lhe das mãos. Acordou do sono inventado por instantes. Tinha aderido, de alto a baixo, à vida e às suas ironias, suas servidões e seus prazeres.

A noite em Veneza acabou com o derradeiro beijo feito em texto, mexido com as mãos que lêem e os ouvidos atentos à obra.
Os Frescos continuavam pendurados no lugar das fantasias, encontradas no meio do cigarro feito com os dedos.

6.6.08

SEDA, VELUDO, VINHO E TANGO




Todas as semanas tinha que entregar um texto. Mil e quinhentos caracteres. A sua editora não lhe deixava tempo para o ócio. Encostou-se no sofá, de frente para o quadro das mulheres nuas, enroladas em homens de bonitas formas. Olhava-os como se visse, todos os dias, um episódio diferente. Inventava histórias com os corpos iluminados pelo candeeiro pequeno, propositadamente ali, a oferecer a luz que eles mesmos sentiam.
Fechou os olhos e voltou a pensar no texto que ainda não tinha escrito. A minha editora vai matar-me, não tenho tema. Pensou fumar um cigarro feito com os dedos mas não era o momento. O quadro continuava lá, as pessoas tinham ganho vida. Mexiam-se. Dançavam. Envoltos. Suados. Nus. Riam alto, como se o grito lhes quisesse dizer o êxtase do cheiro que o tempo ia oferecendo.
Inspirou o fumo do cigarro por fumar e fez a história. Inteira. A casa tinha-os acolhido num fim-de-semana em Montmartre. O lugar onde os corpos se encontraram pela primeira vez tinha, nas paredes gastas, quadros de Toulouse-Lautrec. Olharam-se, como se a cor do incenso pudesse testemunhar tudo. Enrolaram a noite e a vida em seda, veludo, vinho e tango. O som era tão nítido quanto o aroma. Para lá dos corpos e dos risos, a sabedoria. Respiraram o viço do que não é corpo enquanto, o próprio corpo, se mantinha aceso.
A noite era pura porque a nudez o permitia, o tango se ensaiava e os tecidos se mexiam. Todos usavam palavras mornas, as que se dizem no meio do clima criado para permanecer. No momento de acabar a história, abriu os olhos devagar e percebeu que o seu quadro coincidia com a sua fantasia. Aquela noite em Paris, tinha permanecido no início de uma manhã cinzenta mas límpida, porque todos os corpos estavam inteiros da sabedoria posta no silêncio, no veludo, na seda, no vinho e no tango.

4.6.08

SEIS PEQUENOS ÓDIOS

Respondo ao desafio que me foi feito aqui.
Pedem-me para confessar seis pequenos ódios. Não sou pessoa dedicada a sentimentos pretos, de qualquer forma, há coisas que me causam brotoeja tal que não me coíbo de as mencionar:

1 - Barulho de motas em aceleração.
2 - Mentira.
3 - Superficialidade.
4 - Beijos com saliva em excesso.
5 - Gente que não usa desodorizante.
6 - Falta de sentido de humor.

(Nota: Tenho que acrescentar a inveja. A invejazinha fedorenta que tanto corrói o invejoso.)

Deixo o desafio à Teresa C., Marta, Manuel, Leonor, Tatiana e Alba.

PALAVRAS COM CORPOS


(Graça Morais)

As palavras que usamos não são nossas mas, se as dissermos com o corpo inteiro, passam a ser nossa propriedade no momento. Quanto às que escrevemos, é imperioso o cuidado. O corpo não está nelas e, por isso, devem escolher-se com outro tipo de critério.

2.6.08

ADEUS

Morreu o "homem que deu o poder às mulheres." Yves Saint Laurent deixa, para sempre, a marca do bom gosto no mundo da moda.

NOVO TEMPO


(Graça Morais)

Semana nova perto de mim. Coisa complicada, principalmente quando afazeres se aglomeram. Espero o tempo dos prazeres alegres.