30.12.08

UM ANO NA DOBRA DO GRITO


Nasceu, há um ano, um blog pensado em uma noite.
Pollock iniciou o percurso da imagem. As palavras surgiram com os quadros. É preciso repensar o sentido de tudo isto. O tempo proporcionará novas ou as mesmas opções estéticas.

Reafirmo o que disse aqui e aqui.
Obrigada aos que me visitam e comentam.


É preciso dobrar o grito. Hoje. Para que conste. Ainda que a ninguém.

29.12.08

ENTRE COISAS


Entre o Natal e o Ano Novo, há o sentimento vazio de coisas encerradas e coisas à espera de serem abertas.

28.12.08

OS ESCOLHIDOS

Melhores Blogues de 2008. Escolha da Dobra Do Grito:

Fworld Blog

Bandeira ao Vento

Sem Pénis Nem Inveja

Szerinting

Da Literatura

22 - GUSTAV KLIMT


Nasceu em Viena, a 14 de Julho de 18622 e morreu a 6 de Fevereiro de 1918, também em Viena. Pintor simbolista austríaco.
Em 1876 estudou desenho ornamental na Escola de Artes Decorativas. Associado ao simbolismo, destacou-se dentro do movimento Art nouveau austríaco e foi um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena.


Klimt foi também membro honorário das universidades de Munique e Viena. Os seus maiores trabalhos incluem pinturas, murais, esboços e outros objetos de arte, muitos dos quais estão em exposição na Galeria da Secessão de Viena.

26.12.08

PAPÉIS NO LIXO


A importância do dia 26 de Dezembro é superior à importância do dia 25. Posso dormir até tarde, não me preocupo com cozinhados, não tenho que visitar ninguém e a casa voltou ao silêncio. Vou deitar os papéis fora.

25.12.08

DA DOBRA PARA TODOS


Todos os personagens deste blog, desejam Feliz Natal a todos os personagens que o visitam.

24.12.08

TODOS OS DIAS


O jantar acabou tarde. Vicente, Leonor e Teresa saíram às quatro da madrugada, depois de perceberem que Miguel ficaria em casa de Luísa. Tinham bebido demais e decidiram chamar um táxi. Cantavam baixinho músicas de uma infância longínqua.



Miguel e Luísa aguardavam a hora do desejo. Intranquilo. Ele abraçava-a e ficava quieto, tenso, muito perto de lhe dizer que a amava. O amanhecer era tranquilo e, ao mesmo tempo, trazia a tristeza da despedida.
Sabiam-se unidos por ausências. Era essa, a verdade partilhada todos os dias.

23.12.08

MEDO


- Há medo quando há amor?
- O amor provoca medo, sabes disso quando me abraças como se não houvesse amanhã. Parece teres essa verdade distribuída pelos dois braços.
Miguel aquietou-se, como se lhe tivessem cravado fundo um sentimento de que fugira toda a vida.

22.12.08

A URGÊNCIA DAS PALAVRAS


Era preciso preparar o jantar marcado para as nove. As mulheres chegavam sempre primeiro. Aos homens, o tempo ia escapando por entre as roupas que demoravam a escolher.
Sacudiu os braços e endireitou as costas. Foi para a cozinha depois de pôr música. Acendeu duas velas e encostou-se à bancada, dispondo os ingredientes da receita.
Tinha colocado na mesa os queijos e as entradas de frutos e amêndoas. Eram cinco pratos brancos em cima de uma toalha cor de chocolate. Os talheres eram herança de família. Deixou cair algumas flores na jarra de prata.
Voltou à cozinha, e ao cheiro das natas a ferver. Ouviu tocar a campainha duas vezes pequenas.
Deve ser o Miguel, pensou. Desta vez não se atrasou. Correu para a porta e viu-o inteiro. Grande. Abraço imenso.
- Cheiras bem, Luísa.
A campainha voltou a tocar. Todos, à chegada, perceberam a urgência das palavras.

21.12.08

DOBRAS E GRITOS (31)



Depois de um concerto memorável, dobras e gritos, só em voz baixa e pequena. O Campo Pequeno foi grande. O frio foi quente e as mãos não chegaram ao palco. Ouvir foi pouco. Quero mais.

20.12.08

NOITE DE TANGO EM LISBOA

Gotan Project

O Tango chega a Lisboa. Campo Pequeno. Noite para deixar sair o corpo da gaveta e a alma do armário. Salto raso. Mãos dadas ao amante e muita consideração pelo êxtase!

19.12.08

HOJE FICAS COMIGO


Viviam num bairro antigo de Lisboa. Ruas estreitas calcetadas, mercearia antiga e padaria com bancada de pedra. Todos os dias de manhã se encontravam no café do Sr. Jacinto, muito perto do quiosque onde ela comprava o Jornal e ele, uma revista cuja primeira página fosse apelativa para apimentar o resto do dia.
Tinham decidido viver em casas separadas. Restava-lhes o desejo contínuo do encontro, quando ambos estremeciam e a campainha de uma das casas tocava. Abria-se a porta e desapareciam as palavras. Miguel estendia-lhe o abraço e entregava-lhe a alma toda, as mãos envolviam-lhe o corpo e Luísa rendia-se ao cheiro e à cor da respiração. Empurrava a porta com a ponta do pé e sussurrava:
- Hoje ficas comigo.

18.12.08

DE VEZ EM QUANDO


"O mundo precisa, de vez em quando, de homens que não saibam mentir como os outros."
Robert Musil; O Homem Sem Qualidades

17.12.08

BEIJOS SÃO COMO MONTES NO ALENTEJO


Ficam longe do tempo. O local escolhe-se com critério e o espaço é decorado com desejo e prazer entranhados.
Montes no Alentejo são lugares de paragem. Como os beijos, escolhem-se os momentos da entrega e da troca. Colocam-se os corpos a jeito de um qualquer sentido desmedido e vamos, sem rede, até onde o calor esbarra.

Saindo de Lisboa a tempo de uma viagem directa ao beijo esperado, o monte aguarda-nos sem expectativas. Conhece-nos e acolhe-nos, entre as grossas paredes de pedra gasta e a rede do alpendre, aquela que ofereceu amor eterno. Esticam-se os braços e a boca espera-nos, como as oliveiras que espreguiçam a saudade. A viagem é bonita porque, como o beijo, lenta e profunda. Olham-se estradas encurtadas pela ânsia de ver a fonte e o alecrim que se põe nas mãos para que cheirem bem.
Longe do tempo, beijos são marcas de apetite sem hora, como os montes que aguardam pessoas para o leito, o quente da lareira e o duche de frente para a planície. Depois do corpo e do cheiro, depois das palavras, do grito, do espasmo, do suor e devaneio, o monte no Alentejo transforma em canção, todos os livros e todos os chás de menta divididos debaixo da lua.
Montes no Alentejo são tempos longos, casas com história e beijos eternos. Colocamos em cima de um prato de comida quente, duas margaridas brancas, sorrimos para o beijo que queremos urgente e percebemos que, no Alentejo, as horas são viscosas, duram o tempo do corpo deitado em arco, sempre que o mundo dá azo à imaginação e à viagem mais pura da vida.
Beijos são como montes no Alentejo. Esperam-nos sempre que estamos despertos e quentes.


Cinema Paradiso

15.12.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (10)

"Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro."

Rober Musil; A Portuguesa e outras Novelas

14.12.08

13.12.08

ESPANTO


Desde que uso a pré-publicação de posts, consigo espantar-me com o que deixei escrito há muitos dias atrás.

11.12.08

10.12.08

SEXO EM FORMA ESCRITA

Em 1986, Kim Basinger e Mickey Rourke fizeram furor.

Sabe, quem escreve todos os dias, que há temas onde a dificuldade impera. Não são ideias nem preconceitos que fazem barreira à escrita, é intrínseco ao tema, o entrave nas palavras. Escrever sobre sexo é exercício complexo. Mais que o acto. Os parágrafos acontecem mais pequenos, os conceitos escolhem-se com cuidado e, é muito grande, o risco de encontrarmos uma estrada cor-de-rosa cintilante onde o piroso domina. Os corações a brilhar, os lugares comuns, as palavras que, de ditas a escritas, resvalam para registo parolo indescritível.
Percebe-se a dificuldade de uma escrita horizontal quando preparamos as linhas e a pontuação, num chorrilho brejeiro e dourado de letras mais molhadas que o desenho de uma realidade vivida ou chuva de suspiros sussurrados em dia de Inverno.
Escrever sobre sexo é difícil. O maior e mais completo encontro entre nós e nós próprios, pode não ser objecto de materialização em texto porque, quase sempre, o ultrapassa.

8.12.08

PODER


Ao pai, agarramo-nos com a força do saber. Os braços do pai têm sempre o poder da desmedida protecção.

DOBRAS E GRITOS (30)

Morreu António Alçada Baptista. Estou triste.

7.12.08

FÁCEIS DECISÕES


Quando a vontade pequena ainda não é a nossa, agarramo-nos com força à mãe, aquela que sabe sempre decidir por nós.

6.12.08

OBRIGADA MARTA

Um grande abraço à menina que, pacientemente, me ensinou a colocar música no blog. Bem hajam almas bonitas que nos ajudam a sair das trevas.

LEVARAM-NA


Era o dia de partir. Cedo a esperavam os homens. Tinham-lhe dito que precisava mudar de lugar, de ir para onde nunca tinha sido. Pegaram-lhe nos braços e, com força, levaram-na para perto do ruído da secura das árvores. A mãe não podia impedi-la, tinha morrido há muito tempo, quando ela ainda não tinha vontade.

5.12.08

20 - BO BARTLETT


Bo Bartlett inscreve-se na tradição do realismo americano. Analisa a América e o seu povo, descreve a beleza que encontra na vida quotidiana. As suas pinturas comemoram o lugar-comum e a significância pessoal do extraordinário. Vida, morte, passagem, memória e confronto coexistem facilmente no seu mundo. Família e amigos são o elenco de personagens que aparecem no seu sonho narrativo.

4.12.08

PROCISSÃO


A minha mãe costumava vestir-me bonita para ir à procissão. Era dia de festa sagrada e família reunida na varanda da avó.

3.12.08

- Distraído?
- Não, estava a pensar no tempo e nos corpos. Naquilo que fazemos quando brincamos com eles.
- Brincar com os corpos é perigoso.
- Não é nada. Perigoso é não brincar.

ADORMECIMENTO


Quando o cansaço permite o sumo, os corpos resvalam para o adormecimento.

2.12.08

SEVERA


Lisboa e o fado. O beco, a rua, a guitarra e o destino. Lisboa e o som da viela. Timbre de voz sofrida que canta amores, traições, infiéis relações desmedidas.
Lisboa e a severa. A mulher do fado inteiro.

1.12.08

DOBRAS E GRITOS (29)

Veio-me agora à ideia a senhora púdica. Dizia ao marido para se despir longe dela. Enquanto o homem lhe satisfazia o desejo, ela espreitava-o pela fechadura.

AINDA


Ainda me contento, ainda me desperto. Ainda me permito ser o que procuro. Ainda vejo o norte, ainda me inquieto. Ainda me permito ao sonho do que não tenho.

30.11.08

DIA DA PROCURA


Acordo no prolongamento de um silêncio que acabou. Depois da água quente, a roupa escolhida para o dia da procura. Saio depressa com o vento e vou, sem que as pernas travem o pensamento. Vou-me ajoelhar em frente ao que quero. Vou-me despentear ao que não quero. O dia da procura é o dia das coisas que morrem, é o tempo das que vêm. Acordo no prolongamento de um silêncio que, depois da água quente, se transforma.

29.11.08

ENTRAVE AOS ENTRAVES


Quando estou longe, o tempo parece-me mais gordo. Esticam-se as horas que reinvento, desdobram-se os dias que reformulo. As noites são o silêncio. O corpo é a inteireza do que se desperta. Porque não existem entraves.

28.11.08

CANÇÕES BONITAS


Dia de partida. Ao sol que se inventa. O adeus é pequeno. Está perto o regresso das bonitas canções.

DOBRAS E GRITOS (28)

À inquietação colocada aqui, respondo com veemência: o amor, antes de ser sentimento, é grandiosa capacidade. Ficam de fora alguns. Lamento.

27.11.08

"SEI QUE NÃO VOU POR AÍ"


Antes, acreditava ser possível ensinar sem sorriso, perceber sem humor e estar, sem atitude positiva. Naquele tempo julgava a cara feia, indício de autoridade, a pasta de cabedal dava-me muito mais poder do que as palavras. Naquele tempo a escola era o lugar da postura erecta e do olhar sobranceiro, lugar de poucos risos e muita força.
Depois dos anos que ensinam mais que os livros, percebo que não sabia nada de nada. Hoje mastigo os disparates todos que proferia com uma gorda certeza. A certeza tola que se tem quando os trinta anos ainda não chegaram para avisar sobre a ignorância. Hoje a escola deixou de ser lugar de postura erecta para ser o lugar onde me divirto com posturas sobranceiras e poderes sérios. Hoje a escola é o lugar para onde vou aprender, lugar onde me sento a olhar. Em turma de teatro há sempre surpresas:
- Professora, já ouviu o Francisco declamar o Cântico Negro?
- Não, porquê?
- Então ouça. Vá Francisco, começa.
E o Francisco começou. Olhou para mim com os olhos firmes nas frases que o faziam sentir o que dizia bem alto:

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Continuava convicto, cada letra lhe saia com a força do poder que ali estava:

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !

Em outro tempo não teria conseguido ouvi-lo, puniria o Francisco com todos os poderes que julgava possuir. Hoje aprendo a ternura, a raiva, o amor e o ódio dos alunos, dos que me ouvem sem saber quem sou, dos que acreditam no que digo sem que lhes dê qualquer prova. Hoje olho para eles e sei-os pessoas, raivas e amores que deitam fora quando a memória grita alto :


A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Quando o Francisco olhou para o chão e agradeceu as palmas da turma, entendi que há gestos muito mais poderosos que todos os manuais de Filosofia, que há pessoas que choram por dentro todos os dias, quando se sentam para ouvir aquilo que sou obrigada a ensinar. Depois, fico a saber que o Francisco é muito maior quando diz as palavras do poeta do que quando repete o manual que é obrigado a saber.

26.11.08

19 - JOSÉ MALHOA


José Malhoa nasceu nas Caldas da Rainha em 28 de Abril de 1855.
Com apenas 12 anos entrou para a escola de Belas Artes. Em todos os anos ganhou o primeiro prémio, devido a enormes qualidade artísticas.
Realizou inúmeras exposições, tanto em Portugal como no estrangeiro. Foi pioneiro do Naturalismo em Portugal.
Destacou-se também por ser um dos pintores portugueses que mais se aproximou da corrente artística Impressionista.
Foi o primeiro presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes e foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago. Em 1933, ano da sua morte, foi criado o Museu de José Malhoa nas Caldas da Rainha.

25.11.08

COMEÇOS


Viram-se as costas aos que representam a raiva, o desespero e a inércia. Despe-se a roupa gasta e deita-se no lixo. Viram-se, todas as coisas, para o início.

24.11.08

DIZEM QUE OS HOMENS SÃO TODOS IGUAIS


À afirmação recuso veracidade. À ideia proponho justificação. São as mulheres mães, que assumem responsabilidade no acto exagerado de mimar os filhos homens. O filho futuro homem, o que se ajuda a crescer, parece sempre diferente, protegido de qualquer crítica. O mimo que se lhe dedica acaba por reverter a desfavor.
São as mulheres mães que educam os homens, são elas que lhes proporcionam o entendimento do mundo feminino. Quando o tempo passa e as mães deixam de lavar a roupa e fazer a cama, os petizes-homens, não adquirem competências nem independência. A servil mãezinha está sempre lá para colocar as cuecas na máquina. A que julga que amar é servir, continua a receber a roupa do filho que se divorciou e a fazer-lhe o jantar quentinho. A mulher que serve o filho como se empregada fosse, reclama do marido participação nas actividades domésticas, faz birra quando não há mais mãos para limpar, amua quando ele não levanta a mesa. O filho chega e ela muda de postura, coitadinho, precisa da ajuda eterna e fedorenta que lhe proporcionará a dependência até à morte. São ainda capazes de mal dizer a nora exigente e preguiçosa. Ao filho homem cabe a tarefa de aproveitar a benesse. Sem esforço, vai fazendo dos dias um aglomerado de tarefas transferidas para quem julga ter obrigação.
As que afirmam que os homens são todos iguais, não assumem ser elas as responsáveis, desde o berço. Aos homens, cabe a vantagem de aproveitarem a situação. Não reclamam iguais direitos, não é preciso, as mães estarão sempre presentes, em frente ao fogão, para lhes provar que podem servi-los, mesmo quando a legítima o recusa.
Quanto a elas, insistem em separar duas realidades: a de mãe servil dos filhos e a de mulher que não sustenta ser servil do marido.
Contradições que não entendo são, ainda hoje, realidades vividas por mulheres que gritam a igualdade e vivem à margem dela porque querem. Vá-se lá entender este mundo!!

22.11.08

TERRAMOTO

Parece que hoje o sismo chegou à cidade. Homens que arrastam bonecos em forma de cadáver. Vítimas maquilhadas e gritos que se ensaiaram. Hoje o sismo é construção mental.
Espero não ter que fugir de casa por causa de terramotos. Desejo fugir aos da alma.

21.11.08

OUTRO QUALQUER FRUTO


Voltaram na noite seguinte. A música impediu-os de pensar. Entregaram as mãos a outros corpos e foram, sem vinho, procurar o sumo de outro qualquer fruto.

20.11.08

A TRANSPARÊNCIA DOS SUSPIROS

No canto, ao fundo, as pessoas riam. A mesa quadrada tinha a forma das conversas. Sempre que um copo chegava, o riso subia de tom. Todos estavam lúcidos, todos estavam bem. A noite chegou muito escura e o bar encheu-se de ausências. Saíram os que tinham dito verdades incómodas, deixaram em cima do quadrado da mesa, a transparência dos suspiros.

19.11.08

NAS TINTAS PARA O SISTEMA


O sistema, o monstro que ninguém vê mas implica com a vida de toda a gente, é entidade abstracta a quem não se pode telefonar e mandar à merda. Não é gente, não tem ouvidos nem boca para se defender, não tem estrutura física para levar um par de estalos nem inteligência emocional para podermos encetar com ele uma conversa. A aberração a que nos sujeita nas horas em que mais precisamos de levar a nossa vida em frente é pornográfica.
No banco:
- Desculpe, não temos sistema, terá que voltar mais tarde.
Na escola:
- O sistema foi abaixo, não se podem marcar faltas nem mandar cartas aos pais.
No hospital:
- Ficamos sem sistema há uma hora, temos que reiniciar os computadores, aguarde um pouco.
Outros sistemas se mantêm no plano da abstracção e não funcionam: o sistema político, o sistema jurídico, o sistema de saúde, o sistema educativo e o sistema financeiro. Confesso o meu ódio visceral aos sistemas, sejam eles quais forem. O mais importante sistema está doente. Não há mães nem pais com tempo para os filhos, a família desmorona-se, os petizes, por mais sistemas electrónicos que tenham instalado no quartinho, choram ausências.
Dizem que o sistema é o de trabalhar muito muito para sobreviver e não ter tempo para pensar. Os grandes do Clube Bilderberg estão em forma, prontos a furar qualquer sistema de organização, competência, exigência e rigor. Prontos para alterar estruturas emocionais sólidas, o sistema desses senhores já começou a estupidificar o povo que, cada vez mais, caminha para a ignorância. A escuridão do sistema mental das pessoas é terrífica, pensar por cinco minutos provoca profunda e irremediável exaustão. Poder sentar o rabo numa cadeira para reflectir sobre um livro tornou-se um luxo. Namorar é coisa rara. Rir começa a tornar-se suspeito.
É urgente correr, comprar muitos presentes de Natal, embrulhá-los bonitinhos, fazer figura social e não dizer palavrões. É obrigatório ser bonito, elegante, perfumado e magro, mesmo que não se tenha nada na cabeça. Não interessa, o sistema exige parecer. Apenas. A inteligência incomoda e atropela quem quer controlar, a capacidade de pensar é pormenor enfadonho, areia na engrenagem de um sistema filho da puta que só serve para nos tornar cada vez mais estúpidos. Desculpem os leitores que nunca, nas minhas palavras, leram grosserias. Estou a ser deselegante e politicamente incorrecta. Estou-me nas tintas para aquilo que o sistema me dita escrever. Que se lixe.
Se eu pudesse desligava o monstro numa noite de lua cheia. Instalava novo programa e deixava que o mundo se risse de tudo o que tinha ficado para trás.

18.11.08

DOBRAS E GRITOS (27)


Materializa-se o que não é dito. Quando os gestos tomam conta das palavras. Mudas.

17.11.08

PARA LÁ DO CORPO, O GRITO


Conversar sobre sexo, continua a ser constrangedor para alguns. Na literatura, na pintura, na música e no cinema, o tema deixa de se tornar extraordinário para passar a ser reflectido com a beleza que se exige ou que se esconde.
Deve, o apelo ao belo, pretender-se quando, de sexo, falamos com quem entende a atitude para lá do acto, o desejo para lá da matéria e o grito para lá do corpo.

15.11.08

18 - TOULOUSE LAUTREC


Nascido na nobreza francesa, possuía uma linha de ancestrais de nomes aristocráticos. Os seus pais queriam que o filho seguisse o mesmo caminho nobre de toda a família. Porém, desde jovem, Henri desprezava a opulência, considerando-a enfadonha.
Toulouse-Lautrec sofria de uma doença desconhecida na sua época, um desenvolvimento insuficiente de certos tecidos ósseos. O jovem não se deixa abater por tal infortúnio. Nos seus longos períodos de cama, faz desenhos e pinta aguarelas, abrindo espaço para o seu incrível talento.
Frequentador assíduo do Moulin Rouge e outros prostíbulos, o pequeno nobre acaba acomodando-se muito bem àquele ambiente. O tema principal das suas pinturas é a vida boémia parisiense.
Testemunha da vida nocturna de Montmartre, Henri não faz apenas pinturas, como também cartazes promocionais dos prostíbulos e teatros, fazendo-se presente na revolução da publicidade do século XIX.
A habilidade artística de Lautrec é bastante reconhecida, tanto pelos seus amigos da classe baixa quanto por críticos de arte. Em 1899, a vida desregrada e o excesso de álcool cobram o seu preço. Lautrec sofre de crises e é internado numa clínica psiquiátrica. Ao sair é constantemente vigiado para que não beba e não volte a frequentar os bordéis, vigilância que consegue burlar. A sua saúde vai-se deteriorando, até que em 1901 não é capaz de continuar a viver sozinho.
Henri despede-se de Paris com a certeza de que está com os dias contados. Sofre ataques de paralisia e quase não consegue pintar.

14.11.08

PEQUENEZ


Somos insignificantes, quando a música nos ensina a pequenez de quase todos os gestos.

13.11.08

PODE SER QUE PASSE

Estava aqui a pensar na necessidade, na urgência, na possibilidade avassaladora de poder partir depressa para perto das flores que crescem só para cima. Estava aqui a pensar na necessidade, na urgência, na avassaladora possibilidade de evoluir até rebentar. Vou deixar suspenso o pensamento, pode ser que me passe.

AO SOL


Depois descansamos ao sol, na areia onde a alma se estende, depois de tirar os sapatos.

12.11.08

A ALMA DE SALTOS ALTOS


A elevação feminina está, também, nos saltos altos com que calçamos a alma. Talvez os homens saibam disso e nem sempre percebam que, essa alma que desnorteia, é o bocado de vida que todas queremos só para nós.

11.11.08

10.11.08

LAMENTO

É lamentável que se publiquem mentiras como esta . Quem disse ao João Miranda que os professores têm liberdade de decisão quanto aos procedimentos de avaliação? Cuidado com as inverdades, deve informar-se antes de publicar.
É triste que se fale e se escreva de assuntos sobre os quais não se entende rigorosamente nada. Ao autor do post deixo a pergunta: terei eu que perceber o programa de matemática quando a minha formação profissional e académica é em literatura? Curioso. Mais uns passos e teremos engenheiros electrotécnicos a avaliar juristas.

LUZ MAIS BRANCA EM LISBOA


Lisboa é, para quem cá vive, a cidade que aconchega. O rio que canta à noite, o miradouro que esconde as conversas, o elevador que transporta os segredos, as ruas do Bairro que nos levam, de salto alto, ao fado escondido na esquina da D. Maria, mulher de um sapateiro que canta só para amigos.
Lisboa é cidade que domina. Sai-se depressa de casa para pegar na mão do lisboeta que mostra o sabor das tapas no bar de Santa Catarina. Vão-se as noites de palavras e gestos em frente a Santa Apolónia, na varanda do Lux, com copos gastos e líquidos lânguidos. O Tejo como testemunha. Sempre. Os passos, os olhos, o riso e todo o pranto que resta quando nos vamos embora.
A lua ilumina a cidade. A luz é muito mais branca do que, por certo, em outro lugar do mundo.

9.11.08

DEPOIS, CAROLINA


Nem sempre o uísque traz dissabores e, os sons do descontentamento, servem para o encontro entre o nada e a existência que fica, quando os outros vão para longe.

8.11.08

PARA AS MINHAS ALUNAS

Obrigada às minhas alunas. As que, um dia, me deram a conhecer esta música. Era o final de uma aula e as vozes fizeram-se ouvir. Sentidas. Beijinhos.

CAROLINA (3)


Sempre que os sons entravam pela porta entreaberta do quarto, Carolina percebia a necessidade do encontro. Entre si e a voz que a chamava para dentro do que está muito perto.

7.11.08

CAROLINA (2)


Na noite em que o malmequer morreu, Carolina estava só. Tinha bebido uísque sem cigarro. Carregou no botão do On perto de si e ouviu os sons do descontentamento.

6.11.08

CAROLINA (1)


A noite estava fria. Carolina vestiu a T-Shirt do malmequer já morto. Sentiu frio. Enrolou-se no passado e adormeceu. Quieta.

5.11.08

O ENCUNICRADO


(Carruço)

A palavra é invenção. Não consta em nenhum dos dicionários cá de casa. Por trás das palavras que se inventam estão, muitas vezes, factos ou pessoas. O encunicrado é hoje objecto de referência. Estão em todo o lado, eles e elas, nascem como cogumelos e pairam sem que o rasto desapareça. Os encunicrados da vida subsistem com um objectivo: encunicrar a vida dos outros. Vejamos:
1 – O encunicrado nunca entende que a culpa pode estar nele, prefere apontar a pistola ao mundo a ter alguma capacidade de auto-análise.
2 – O encunicrado não toma banho todos os dias. É normalmente alguém que prefere viver com o prazer do cheiro alheio por isso, cola-se às pessoas para sugar, pelas ventas, o aroma que nunca consegue ter.
3 – O encunicrado fala sistematicamente do passado. Reclama, cobra, faz listas, refere inúmeras vezes a mesma ideia e afirma a sua auto-estima por via da força verbal bruta.
4 – O encunicrado adora tecnologias. Passa horas em frente ao computador e manda por e-mail todas as tretas que recebe mas que não têm interesse algum.
5 – O encunicrado é chato, liga para coisa nenhuma e usa muitas palavras para dizer sim e não.
6 – O encunicrado casa sempre com uma encunicrada, a menina do bairro cujos pais deixaram sair de casa aos 30 anos para casar de véu e grinalda, com sapatinho forrado a seda.
7 – A encunicrada dorme com o encunicrado e, aos sábados, vão ao Continente com a lista das compras para, durante duas horas, discutirem os preços e as marcas da mercearia.
8 – O encunicrado estaciona sempre o carro em lugares arejados, com vista para o horizonte e dianteira para a saída.
9 – Deve-se ao encunicrado, a invenção das reuniões para nada e o dossier para coisa de espécie alguma.
10 – É sempre, o encunicrado que lixa a vida ao parceiro porque, a sua existência, depende do mau humor que consegue propagar. Complicar é um meio de subsistência, de sobrevivência e de auto-afirmação. Nunca se assume nem sabe o que isso é.
As palavras que se inventam dão sempre imenso arranjo quando se tem que escrever uma crónica. As criaturas que a elas se ajustam, aparecem no momento do puro exercício de materialização do conceito.

4.11.08

CONTENTES


O destaque pela positiva, no meio da maior menoridade, leva a preço muito alto: o do rótulo da arrogância. Ainda não entendi se, de facto, há arrogância na postura positiva e humorada face à vida. Talvez distraídos, os mais sorridentes, comandam uma certa forma de vida. Assumida ou distraidamente elevada.

3.11.08

17 - CARRUÇO




Nasceu na década de setenta em Lisboa. Segue uma vida académica ligada às Ciências Exactas, até decidir unir esta paixão à Arte, mais concretamente à pintura. Aceita encarar a pintura como actividade organizada em 2002. Em 2003, frequenta o Curso de Gravura da Cooperativa de Gravadores Portugueses e frequenta o atelier do artista plástico António Sem. Em 2004, inscreve-se e conclui o curso de Técnicas de Pintura Renascentistas da Angel Academy of Arts de Florença.
A sua produção artística espraia-se por diferentes estilos, orientados na busca de uma voz original no mundo da Arte. Essa voz está a chegar com uma nova corrente que designou de sinuosismo, inspirada nos saberes científicos do espaço curvo, do movimento perpétuo e outras inspirações da área da física.

1.11.08

"BATALHA CAMPAL"

Os Antónios escreveram um livro sobre as duas cidades mais cobiçadas do país. Parabéns, companheiros.

31.10.08

TUDO


Volto quando as folhas estiverem molhadas e tudo parecer mais limpo.

30.10.08

CURIOSO


Egon Shiele, 1915

Curioso ter tido a sensação de não querer acabar. Shiele vicia, como nenhum outro.

29.10.08

DEPOIS


(Egon Shiele)

Depois do abraço. Depois do riso, do pranto, do suor e do cansaço. Depois, quando tudo restou perfeito.

28.10.08

ANTES


Antes do dia da inteireza. Antes do grito. Antes do aperto de peito . Antes da vida. Antes de tudo.

27.10.08

ESQUECIMENTOS


Vou à procura dos beijos que ficaram longe, das palavras que não disse e da consciência que deixei sozinha.

26.10.08

LUX FRÁGIL

As pernas estavam abertas. Todos entramos pela enorme vagina. Lá dentro havia gente e música. Havia homens a conversar com homens, camas com corpos deitados e copos com lágrimas contentes. As mulheres estavam despertas. Em frente ao rio, dentro daquela vagina, todos éramos quase iguais.

24.10.08

QUE IMPORTA?


Que importam os dias se os troco pelos beijos, as horas pelas palavras e o tempo pela consciência?

23.10.08

INSTANTES


(Egon Shiele)

Dia em que me espreguiço. Porque é preciso esticar os instantes das certezas.

22.10.08

OS BRAÇOS DOS DIAS QUE NÃO VIERAM


Brandi Carlile - The Story

Hoje deveria estar em frente ao mar, olhar para as algas verdes com a ilusão de um encarnado de sangue. Hoje deveria estar em pé, em frente ao vento cortante, com a ilusão de um cheiro longínquo. O dia do começo, do grito, da força, das pernas em arco, da vida pequena, da fragilidade a prometer força, da família reunida à volta do berço, da avó que ri e pega ao colo, da mãe com lágrimas salgadas e da irmã menina com medo dos beijos que podem fugir.
Hoje deveria estar quieta, com o pensamento a nascer, de novo, como se fosse possível voltar ao dia em que vi a luz e chorei. Julgo que foi um dia de sol, entre ruas estreitas espreitei quem, em mim, operou algum destino. Entre pedras de calçada gasta, vim ao mundo nua, suja, cheia de sangue e calor. O meu pai pôs em mim o riso e a minha mãe, o pranto desmanchado e quente. Os vizinhos correram a levar a nova a amigos próximos e conhecidos íntimos. Julgo que foi um dia de sol, entre a cama castanha e a cómoda com gavetas arrumadas. A parteira não se cansou, foi limpo, como quando se quer tirar do forno o cabrito pronto. Parece-me que ninguém se queimou, não houve reclamação de que era gorda, magra, feia ou bonita. Nasci com a calma de um meio-dia em ponto, marcada a hora de respirar, sem água.
Hoje deveria estar perto do mar, a lembrar-me do dia em que me puxaram para fora e me ensinaram a comer, a lembrar as primeiras horas de sono em lençol e o primeiro banho de sabonete cor-de-rosa que a minha mãe comprava na mercearia de uma avó austera com sorriso sofrido.
Hoje, no dia em que continuo viva, vou estender-me na relva a olhar para a finitude do que já experimentei. Depois correr, correr para os braços da história que ainda falta contar!

In: PnetMulher

21.10.08

CERTEZAS


Tenho a certeza que a história que falta contar tem braços longos, macios e muito distantes do tempo que se foi embora.

20.10.08

IMPRESSÕES


(Egon Shiele)

Quando olho para os anos que já se foram embora, parece que nasci há muito pouco tempo.

18.10.08

MAU USO DE FERRAMENTAS


Gostava muito que se fizesse uma avaliação séria e rigorosa ao desempenho dos nossos governantes. Exigir, como ponto prévio ao processo, uma espécie de triagem que possibilitasse a clarificação dos motivos que suportam as atitudes e as decisões.
A possibilidade de uma terapia aplicada a cada pessoa que tem nas mãos o poder, seria uma das soluções.
É imprescindível que os portugueses entendam que, por trás de uma má utilização de ferramentas políticas, pode estar uma má gestão de ferramentas do foro pessoal e íntimo.

16.10.08

BillTracking


(Egon Shiele)

O Bill Tracker é o indivíduo que, mediante registo num site da Internet, se dedica a seguir o rasto das notas de euro em todo o mundo. Dizem que é divertido. Registam, numa base de dados, o número de série das suas notas, e podem conseguir saber onde estiveram os preciosos papelinhos numa determinada data, o caminho que a nota percorreu, o país onde foi impressa, o país onde começou a circular, enfim… a história de um percurso por esse mundo fora.
Parece que Portugal está em sétimo lugar na lista dos países mais utilizadores da prática. Trata-se de um hobby e não só, há já uma espécie de “comunidade europeia de seguidores de notas de euro”.
Eu acho muito interessante. Considero de importância crucial sabermos a “vida” das notas que pela nossa carteira passam. Ler a entrevista feita a um Bill Tracker foi, para mim, experiência digna de registo. O senhor estava, de facto, empenhado no percurso da nota, já tinha registado mais de mil números de série e todos os dias ia vasculhar os caminhos das ditas por essa Europa fora. Era um cidadão empenhado, com objectivos na vida, sabia-se integrado num grupo de investigação importante e, dizia, ser o seu passatempo de eleição.
Suponho que passa horas em frente ao mapa da Europa a olhar para as linhas de percurso das notas e a transpirar de satisfação pelo facto de ter, em sua posse, a verdade da “vida” das ditas.
Entre Lisboa, Covilhã, Sevilha, Salamanca, Paris, Bruxelas, Génova e Nápoles, a nota que se teve em mãos, chegou à Islândia, irá ser trocada por coroa. Já tinha passado em Oslo sem paragem nem câmbio. Fabuloso! É, por certo, uma sensação estrondosa, comparável à satisfação que se tem quando, de um filho, se recebe o telefonema de férias a dizer que está bem, em Skaftafell, a olhar para a finitude das bétulas.

15.10.08

ABRAÇO


(Egon Shiele)

Porque, no acto, se transcendem os corpos. Porque o abraço é, sem mais, aquilo que o corpo transpira.

14.10.08

PRECIOSAS MEMÓRIAS


(Egon Shiele)

Tempo com os filhos. A maior fortuna. Memória que só morre quando o ar acaba.

13.10.08

DOBRAS E GRITOS (26)

16- EGON SHIELE



Nasceu a 12 de Junho de 1890 em Viena.
Pintor austríaco ligado ao movimento expressionista.
Em 1907, Schiele conheceu
Gustav Klimt
que, interessado no seu trabalho, fez dele o seu "protegido". Ajudou-o comprando-lhe trabalhos, apresentando-o a pessoas influentes e arranjando-lhe modelos.
Insatisfeito com o carácter conservador da academia, Schiele abandonou os estudos e criou o Grupo Nova Arte. Liberto do conservadorismo, começou a explorar a forma humana e a sexualidade.
Grande representante do expressionismo austríaco, os seus trabalhos representam seres humanos transfigurados por sentimentos fortes. Amantes revirados em lençóis brancos, mulheres e auto-retratos. Fez ainda algumas paisagens e residências burguesas, nas quais exibe um estilo cuidadoso e elegante, de traços bordados, com fortes contrastes entre ocres e cores primárias.
As suas obras encontram-se em museus de Viena e da Suíça assim como em importantes colecções particulares.
Morreu a
31 de Outubro de 1918
.

10.10.08

CRUA E FABULOSA


(Mário Cesariny)

Amor é quando a gente pensa que pode engolir a vida toda. Amor é quando a gente espreita pelo buraco da fechadura para ver outra nudez. Amor é quando a gente explica às amigas que respira mais fundo.
Amor é quando a gente abraça um filho e entende que o mundo é muito mais bonito do que julgávamos. Amor é quando a gente desmancha a cama inteira de cheiro e pensa que os próximos lençóis vão também cheirar assim. Amor é quando a gente sabe que o silêncio pode ser mais gordo que as palavras.
Amor é quando a gente calça os sapatos pretos e se transforma em mulher rainha. Amor é quando a gente se despe devagar e pede ao céu uma luz que grite o desejo. Amor é quando a gente chega a casa com o fôlego preparado para entregar tudo. Amor é quando a gente ensina a nossa filha a ser mulher, sem pressa de a tornar adulta. Amor é quando a gente telefona porque sim. Amor é quando a gente pensa, todos os dias, coisas surpreendentes. Amor é quando a gente abre um livro de histórias e julga que as letras são nossas. Amor é quando a gente explica aos alunos que existe paixão.
Amor é quando a gente fica com dor nas costas porque descuidou um só dia de respiração. Amor é quando a gente mata o ego e percebemos que ele existia só para dificultar. Amor é quando a gente principia fins que julgávamos terem ido embora. Amor é quando a gente estica os braços até ao que o outro não disse. Amor é quando a gente faz tudo com a carne de quem agarra a vida, crua e fabulosa.

9.10.08

A FERRO E FOGO


(Mário Cesariny)

Hoje voltei do nada. Regresso ao que sou, todos os dias, deixando os detalhes à porta. Tranco-me no espaço das essências encontradas a ferro e fogo.

7.10.08

SÁBIA PACIÊNCIA


(Mário Cesariny)

Na vida, é preciso esperar o momento de afirmar a existência com força. Esperar que os dias aconteçam, que o corpo se incline para o alto. Esperar que a alma berre a justiça. Depois, com a calma que vamos buscar ao instinto, percebemos sempre que valeu a pena estarmos atentos.

6.10.08

DEPOIS DO CANSAÇO


As coisas ficam mais brandas quando, sem medo, misturamos água com grito. Depois do cansaço, resulta manso, o abraço tranquilo.

3.10.08

MANIAS


Ter a mania que as pessoas devem ser perfeitas só porque as amamos, é pior que pensar que elas são mesmo perfeitas por causa do nosso amor.

2.10.08

IMERSÃO ESPIRITUAL NA MATÉRIA


(Mário Cesariny)

Ando com um livro em mãos desde Agosto. Não me apetece lê-lo nem me apetece parar de o ler. Como se de um gelado se tratasse. Vai-se derretendo na mão e, ao mesmo tempo que sentimos o fresco pegajoso e doce a escorrer, temos a sensação de querer engoli-lo depressa. Coisa curiosa. Tarkovski em perspectiva no decorrer de muitas páginas sobre os seus filmes.
Coloca-se a questão da espiritualidade e da matéria no seio de uma teologia materialista. A pergunta insiste em ser feita: o sujeito entra no domínio do sonho e da espiritualidade quando perde o contacto com a realidade material que o rodeia ou, ao contrário, quando abandona o domínio do intelecto e se envolve numa relação intensa com a realidade material?
É possível atingir, através dos despertos e atentos sentidos, através do contacto profundo e intenso com a matéria, uma certa forma de transfiguração que propicia o encontro com uma paisagem onírica? Que postura espiritual profunda é essa que se busca no abandono do intelecto e na imersão à realidade material? Que tipo de espiritualidade se encontra quando, na terra dura e húmida, deposito todos os sentidos?
Na nossa tradição ideológica clássica, a aproximação ao espírito é vista como elevação, como um processo em que o corpo se desembaraça da força da gravidade que o prende à terra e levita, como se nada mais existisse além do sublime, além da alma que se livra do universo material para pairar em absoluto.
No universo de Tarkovski, penetramos na dimensão espiritual através do contacto directo e físico com o peso, a dureza e a humidade da terra que nos puxa, inevitavelmente, para um centro.
Ando com um livro em mãos desde Agosto. Sei que há a ilusão de um fluxo de tempo que resulta da estreiteza da nossa consciência mas, Einstein que me desculpe, por muito estreita que a minha consciência seja, há semanas que procuro a resposta a uma questão fundamental: a matéria é ou não é o oposto da espiritualidade?

1.10.08

PRIMEIRA E SEGUNDA


(Mário Cesariny)

Hoje sou duas. A primeira está entregue ao mundo que a absorve. Não sei se o tempo permitirá ir à procura da segunda, da que está inteiramente livre.

30.9.08

ANEDOTA


(Mário Cesariny)

Parece que a avaliação dos professores é anedota ainda maior do que se julgava. Professores de Filosofia avaliam pares de Geografia professores de Geografia avaliam disciplinas de que nunca ouviram falar por se tratar de matérias leccionadas à noite, cenário desconhecido para os professores do regime diurno. Tudo dentro da maior legalidade.
Se, um dia, for a uma consulta de ortopedia e o médico estiver a ser avaliado por um especialista em ginecologia, não me surpreenderá. Tudo é possível no país da ameijoa à Bolhão Pato.
A vontade de me rir ainda não parou. Preciso de químicos. JÁ.

29.9.08

15- MÁRIO CESARINY



Pintor e poeta português, natural de Lisboa, nasceu a 9 de Agosto de 1923.
A sua formação artística inclui o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudos na área de música, com Fernando Lopes Graça. Mais tarde, viria a frequentar a Academia de La Grande Chaumière, em Paris, cidade onde conheceu André Breton, em 1947. Rapidamente atraído pelas propostas do movimento surrealista francês, tornou-se um dos mais importantes defensores do movimento em Portugal. Ainda nesse ano, integrou o Grupo Surrealista de Lisboa.
Cesariny, figura sempre inquieta e questionadora, afastava-se assim, de maneira definitiva, do movimento neo-realista.
Dinamizador da prática surrealista em Lisboa, iria criar «antigrupos», com a mesma orientação mas questionando e procurando um grau extremo de espontaneidade, tentativa também visível na sua obra poética.
Morreu em Lisboa a 26 de Novembro de 2006.

25.9.08

TUDO RESOLVIDO


(E. Hopper)

Quando eu for mais crescida, quero sentar-me na varanda de uma casa imaginada e poder dizer que tudo o que fiz, valeu. Um dia, quando eu for mais crescida, quero uma casa com varanda, olhar para longe e perceber que, atrás de mim, está tudo resolvido.

24.9.08

FELIZ ANIVERSÁRIO

Ao Sem Pénis Nem Inveja, vida longa e bonita. Que permaneça uma referência na blogosfera e no quotidiano de quem gosta de ler a qualidade.
Feliz Aniversário, Teresa.

A SAUDADE MORREU


(E. Hopper)

Depois de muito tempo sem falarem, ela recebeu um e-mail. Tinha três linhas e duas intenções. Leu-o e colocou a mão no queixo de forma a que o tempo lhe sugerisse resposta. Enviou-lhe não mais que duas linhas e três intenções. Depois, quando a esplanada já não tinha sol e os dois não se entenderam, a vida ficou diferente, as costas de quem se deita menos curvas e cansadas. Porque tudo parece acabar quando a ausência supera a saudade e o sono aniquila a memória.

23.9.08

VIDA


A vida é uma peça, mas sem ensaios. Por essa razão, canta, dança, chora e ri intensamente, antes que o pano caia e a peça termine sem aplausos.



Charlie Chaplin

22.9.08

POSSIBILIDADES


(E. Hopper)

- Estás a dizer a verdade?
- Estou a dizer-te a verdade possível.

19.9.08

POUCOS SABEM DE MIM


(E. Hopper)

Como já vem sendo hábito, este blog pára aos fins de semana. A falta de assunto e o capricho assumido de que, dois dias na semana, poucos sabem de mim.

18.9.08

ESCASSEZ


Papéis, relatórios, porte-fólios, planos, matrizes, reuniões e chatices. Não sobra tempo para olhar.

16.9.08

É PRECISO ROMANCE


(E. Hopper)

As gentes andam desencantadas. Com o país em regressão económica e social, o lugar é curto para afectos, escondem-se, dissimulam-se, são substituídos por queixume, maleita, choradinho e desânimo.
É preciso romance, enamoramento, entrega aos prazeres que ainda nos concedem, aos que temos dever de procurar todos os dias, entre o trabalho e o sono.As gentes andam tristes, os amigos atarefados, os pais ocupados, os filhos cansados, os professores desprotegidos, os advogados pensativos e os juízes aglomeram processos em tribunais sobrecarregados de burocrata burocracia.
As gentes andam com o passo da incerteza e da desgraça, anunciada a cada dia que ligam a televisão. Fala-se de crise ao almoço e ao jantar, de falta de dinheiro, de falta de força e alegria para rir alto.
Não há romance, o corpo pede cama sem sexo e sumo de lima sem cachaça. A alma anestesia-se com as novelas da TVI e as novidades pretas que enchem espíritos menos optimistas. Não há energia para amar com a força da onda e da música. Começam, as gentes, a não entender por que razão recorrem às consultas de psiquiatria, por que motivo estão sozinhas, por que raio têm de contar o dinheiro para pagar as contas, deixar de andar de carro, adiar férias no estrangeiro, deixar de comprar um par de sapatos porque sim.Antes do perigo anunciado pela tristeza quase imposta, é urgente o romance, a nudez, o gemido, o grito, o suor, as palavras, a entrega e o contentamento.

15.9.08

COISAS QUE ME INQUIETAM (7)


O tempo perdido em palavras inúteis e ideias estéreis é obrigatório. A angústia do desassossego porque se não chega a lado nenhum e se finge que chega, é uma realidade tão desesperante quanto a falsa ideia de sucesso.

13.9.08

14 - EDWARD HOPPER



Nasceu no estado de Nova Iorque a 22 De Julho de 1882. Estudou arte comercial e pintura na cidade de Nova Iorque. Um dos seus professores, o artista Robert Henri, encorajava os seus estudantes a usar as suas artes para "fazer um movimento no mundo". Henri, uma influência para Hopper, motivou estudantes a fazerem descrições realistas da vida urbana.
Realista imaginativo, retratou com subjectividade a solidão urbana e a estagnação do homem, causando ao observador um impacto psicológico. A obra de Hopper sofreu forte influência dos estudos psicológicos de Freud e da teoria intuicionista de Bergson, que buscavam uma compreensão subjectiva do homem e dos seus problemas.
O tema das pinturas de Hopper são as paisagens urbanas desertas, melancólicas e iluminadas por uma luz estranha. "Os edifícios, geralmente enormes e vazios, assumem um aspecto inquietante e a cena parece ser dominada por um silêncio perturbador".
Obras de estilo realista imaginativo. Arte individualista. Expressão de solidão, vazio, desolação e estagnação da vida humana, expressos pelas figuras anónimas que jamais se comunicam. Pinturas que evocam silêncio e reserva, exercendo frequentemente forte impacto psicológico.
Morreu a 15 De Maio de 1967, no seu estúdio próximo do Washington Square Park, na Cidade de Nova Iorque. Sua esposa, a pintora Josephine Nivison, morreu dez anos depois. Doou o trabalho do marido ao Whitney Museum of American Art.

12.9.08

FORA


Ir para fora, como se todas as pessoas tivessem deixado de existir.

11.9.08

DEFESA

Ficar na cama, sem deixar que o mundo zombe de nós. Não gosto do dia 11 de Setembro.

10.9.08

BOLHA E CANSAÇO


(Manuela Pinheiro)

Que, dentro da bolha do abraço, fique a consciência de um mundo por viver. Nada que se perca e que interesse. Espaço e tempo excluídos por desgraça de não obliterarem a vida como quero.


(Manuela Pinheiro)

EXAGERO


Em Agosto paro para não pensar. Depois, quando o relógio volta ao pulso, o mundo parece-me diferente. Talvez por ter zombado dele tempo demais.

9.9.08

O TEMPO QUE JÁ ACABOU


(Manuela Pinheiro)

A ausência de conhecimento, protege-me da angústia. O que há-de vir pode ser tão bom quanto mau. Sorrio com a mesma satisfação com que como o último gelado de um tempo que já acabou.

5.9.08

AFECTOS


(Manuela Pinheiro)

Às vezes, a forma como respiramos é sentida na força de um abraço ou na ténue incerteza do que se revela. Aos afectos se devem as verdades que o corpo não desmente.

4.9.08

MUSEU DAS IDEIAS


(Manuela Pinheiro)

A sensação áspera dos pés nus no chão transformava-a numa espécie de selvagem civilizada. Na recepção confirmaram-lhe a visita ao museu:
- Está tudo pronto para a viagem “menina”.
No parque de estacionamento, um carro pequeno com grandes inscrições nas portas: O caminho é seu! Entrou no automóvel e viu um mapa da região com alguns pontos marcados a encarnado, a verde e a amarelo. Não havia nomes para os lugares indicados nem para as estradas a percorrer. O senhor de casaco branco sorriu e fechou-lhe a porta, de novo com deferência – Boa viagem, o caminho é seu!
Saiu devagar da propriedade que envolvia o hotel, muitos pássaros a acompanharam até ao portão que se fechou atrás de si. O mapa indicava um caminho possível - a estrada à direita era o início da viagem. Decidiu virar à esquerda em direcção ao ponto encarnado mais próximo.
Percebera que o museu das ideias era uma espécie de lugar a descobrir enquanto conduzia por estradas e caminhos desertos, por dentro de árvores densas e pedras duras, por cima de algumas montanhas com o céu como horizonte.
Depois de ter passado o ponto encarnado, marcado no mapa, percebeu que se tratava de lugar de contemplação, de espaço sagrado construído para corpos sedentos de evasão. Foi entendendo que todos os pontos amarelos eram lugares vazios de vegetação e que os verdes indicavam muita água, vida, nudez, grito e vibração.
Parou em frente a uma cascata. Estava descalça e só. Selvagem. Despiu-se e gritou para a montanha. Gritou muito, como se o mundo a ouvisse e não pudesse mandá-la calar. Entrou na água e esteve o tempo inteiro em si, como se pudesse ter nascido naquele instante. Entrou no espaço que conhecia, o do seu eu. Vibrou com a água e o ar.
Este não é o museu das ideias, pensou. Este é o lugar que se descobre porque se sente o orgasmo da vida em cada silêncio e em cada sopro. Este é um bocado de mundo que se visita para que se não pense, talvez por isso lhe tenham dado o nome errado.

3.9.08

TEMPO DOS DESTINOS INDIFERENTES


(Manuela Pinheiro)

Pousou a mala atrás de uma porta pequena que dava acesso à casa de banho do quarto. Parecia já ter estado ali. Deitou-se em cima da cama e fechou os olhos, depois de olhar o tecto muito branco. Pousou os pés no chão e imaginou os dias que lhe faltavam para o regresso. Percorreu um a um, não encontrou mais que horas vazias. Depois de abrir os olhos, o espelho grande pendurado em cima da escrivaninha, reflectiu a imagem que não queria ver. Virou-o ao contrário. Agora sou ninguém, pensou. Por dias me encontrarei com o mundo que não conheço. Bateram à porta. A menina queria apenas confirmar se estava tudo em ordem. Entrou e, num gesto delicado, colocou a travessa de fruta em cima da mesa. A frase de boas vindas foi-lhe oferecida com um sorriso e, de novo, o silêncio se instalou no quarto 322.
Depois do banho, os pés e as mãos receberam o creme necessário para a paragem que há tanto aguardavam. Nus, os pés percorreram corredores alcatifados até à piscina. Não desviou o olhar. Era em frente o caminho. Pousou o saco ao lado da cadeira branca e descansou. Não se ouvia coisa nenhuma, como se o silêncio pronunciasse as palavras de uma paragem bonita. Voltou a fechar os olhos com firmeza.
- Bom dia, queira desculpar, daqui a trinta minutos há uma pequena visita ao museu das ideias. Está interessada na viagem?
- Ouvi falar desse lugar há muito tempo, quando, na faculdade, pensava ser possível a materialização de alguma coisa que não se visse. Não gosto de viagens marcadas.
- As pessoas costumam gostar, posso marcar lugar para si?
Pensou três segundos, abriu os olhos para ver quem lhe falava. Era um senhor de casaco branco assertoado. Tinha um ar altivo e olhava-a com deferência.
-Disse-lhe que não gosto de visitas com guia nem de tempo marcado para o prazer. Abro uma excepção a esse lugar. Posso ir descalça?
- Pode, claro.
- Obrigada. Estarei na recepção daqui a trinta minutos...

2.9.08

MAIS QUE O MAR


(Manuela Pinheiro)

Encontrei, na praia, uma concha que me disse ter muitas histórias para contar. Pousei-a na areia. Não quis ouvir mais que o mar.

13 - MANUELA PINHEIRO



Diplomada em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Lisboa. Curso de Gravura na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses GRAVURA . Bolseira de Fundação Calouste Gulbenkian durante os anos de 1964 e 1966.
Viajou e trabalhou em Espanha e França. Bolseira da Embaixada de Espanha em Portugal, para trabalhar no Centro de Calcografia e Gravura de Madrid. Trabalhou em Madrid sob a orientação de Juana Mordó. Bolseira do Instituto de Alta Cultura para investigação e especialização na Técnica de Gravura da Escuela Superior de Bellas Artes de San Jorge, em Barcelona e no Centro de Grabado Conservatório de las Artes de Barcelona.
Em Paris trabalhou com o artista gravador Kyu Baik Hwang, realizando gravura em relevo e a cores. Presentemente continua a dedicar-se à sua actividade de Pintura, Gravura e Desenho. Exerce em paralelo actividades pedagógicas, desde 1964, junto do Ministério da Educação. Assessora Cultural - Gabinete do Secretário de Estado da Administração Educativa.
Expõe desde 1959, participando em inúmeras exposições colectivas e individuais em Portugal e no estrangeiro.

1.9.08

"METAMORFOSE AMBULANTE"


O meu amigo Pedro viajou para longe. Saiu de Lisboa no final de Agosto e voltará daqui a um ano. Muito tempo à espera de uma viagem de sonho. Desejos bons e muita energia para poderes beber outras águas, cheirar outros odores e sentir outros mundos. Força, Pedro, acompanhar-te-ei via blog. Sempre. Fica o beijo.