29.2.08

AVÔ


(Miró)

Hoje era o dia do aniversário do avô. Tenho a memória da lareira antiga e alta onde me proibia de mexer no lume. Eu acreditava que, se mexesse, podia fazer xixi na cama de noite.

28.2.08

FACE OCULTA (3)




Depois vieram os olhos de quem considerou que, a vida ultrapassa as imagens e o amor permite a abundância do sol e do vento.

27.2.08

FACE OCULTA (2)



Houve ainda alguém que, considerou importante dizer a si próprio, que o vento pode pintar-se.

26.2.08

FACE OCULTA (1)


A representação do amor ainda é o coração vermelho. Parece-me ideia de quem, um dia, considerou importante dizer a si próprio que, o que verdadeiramente interessa, não é visível.

25.2.08

GRITO DA SEMANA


(Miró)

Porque hoje é segunda-feira, a semana começa com um grito, o de Oscar Wilde.
A questão prende-se com a mulher que tem a consciência entupida de ideias contrárias às que, intimamente, deseja que se materializem. A que se prende de braços e pernas aos ideais mal herdados, sem que possa, por uma vez na vida, ser o que sente. O rosto do politicamente correcto enche-lhe os sentidos, proporciona-lhe o vómito escondido e mudo que, sem pensar, transforma em moralidades que o corpo não aceita e a alma teima em defender, porque sim. É esta consciência inconsciente, a vontade plastificada do feminino mal vivido que ainda persiste. É preciso parecer bem comportada, ser o que as entranhas não pedem, assumir a postura da boazinha, para que não pareça indecoroso ser mulher, com tudo o que isso implica.

24.2.08

LETRA P


(Miró)

Poderosa, Pertinente, Prodigiosa, Ponderada, Proficiente, Primordial. Com a letra P Pensamos e Prosseguimos. Pacientemente. Letra da Proeza e do Prodígio.

22.2.08

DOBRAS E GRITOS (12)


(Miró)

Que dancem os corpos e cantem as almas. Que se festeje, mesmo quando o motivo é, explicitamente, nenhum.

21.2.08

"PATERNIDADE DOMÉSTICA"


(Miró)

Li, num Jornal daqueles que chega a nossa casa sem que tivéssemos pedido nada, a seguinte manchete: há homens portugueses que abdicam da carreira para ficar em casa com os filhos. Lavam, passam, limpam, trocam fraldas, enfim, dedicam-se às tarefas domésticas do quotidiano, as que um homem casado e pai de filhos deve fazer de forma igual à mulher com quem vive, com quem se casou e com quem teve filhos. Não entendi muito bem porque razão esta é uma noticia de jornal, seja ele qual for. Mas pronto, isto sou eu, com o meu mau feitio, a considerar que os portugueses deviam ser e estar de forma mais esclarecida. Não estão, é um facto, já perdi a esperança e tenho pena.

20.2.08

LONGE DE MIM


(Miró)

Não gosto de gatos. Inspiram-me desconfiança, desalento, arrepio, traição. Ainda não percebi se o problema está nos gatos ou em mim. Ainda nem percebi se este é um problema.

19.2.08

DOZE PALAVRAS


Respondendo à proposta da Teresa C., penso e repenso doze palavras preferidas:

Menina – a inocência.
Devaneio – a imaginação.
Calma – a pausa.
Música – o despertar dos sentidos.
Fêmea – a mulher inteira.
Clima – o que se respira.
Paixão – o corpo inteiro e a alma nua.
Vontade – o que permite a vida bonita.
Força – a sobrevivência valente.
Corpo – uma forma de existência.
Alma – a existência completa.
Abraço – o amor verdadeiro.

18.2.08

VAZIO


(Miró)

Se não fosse a chuva intensa, se não tivesse regressado a casa a tremer de medo, não haveria post hoje. Assim, mesmo sem nada para dizer, ficam as palavras vãs de quem, a salvo de inundações, se permite a vazios como este.

16.2.08

A INTELIGÊNCIA DO RISO


(Miró)

Perder o sentido de humor é não conseguir ver, com os olhos da inteligência, para lá do que acontece. Perder a capacidade de rir é não conseguir perceber, para lá do que acontece, que nem tudo pode ser levado a sério. Perder o sorriso é, para lá de tudo, ficar sem alma. Não ter sentido de humor, nem riso nem sorriso é existir sem ter vida.

15.2.08

OLHARES


(Miró)

Diz o povo: os olhos são o espelho da alma. Há que submeter ao domínio da crítica alguns lugares comuns. Este, parece-me resistir ao filtro pensado de uma conduta racional lógica. Os olhos não espelham a alma, é o olhar que a denuncia. Se a alma for a essência que encerra todo o ser que sente, o olhar é, sem dúvida, o espelho do que acontece cá dentro. Há olhares vazios, penetrantes, desafiadores, perigosos, desagradáveis, amorosos, agressivos. Algumas vezes os olhares parecem não fazer parte dos olhos nem da cara, como se o gesto saísse, por momentos, do corpo que o produz.

DOBRAS E GRITOS (11)

Sempre me disseram que tinha um olhar incomodativo. Não me incomoda.

14.2.08

O LUGAR DOS DESENHOS


(Miró)

Numa mesa de madeira antiga, a minha mãe deixava-me entregue à imaginação. Eu era muito nova, pequena demais para chegar com os pés ao chão. Tinha nas mãos a perspectiva do mundo e nas cores as ideias postas. Depois, quando a mesa foi trocada por uma nova, os desenhos foram ficando diferentes, não por eu ter deitado fora a imaginação, mas porque o espaço já não era o mesmo.

13.2.08

RODRIGO


(Miró)

Sempre que oiço Rodrigo Leão, lembro-me da época em que tinha esperanças vãs. Daquelas que se constroem devagar, enquanto o tempo não se vive.

12.2.08

3 - JOAN MIRÓ



Joan Miró nasceu em Barcelona a 20 de Abril de 1893. Apesar da insistência do pai em vê-lo graduado, não completou os estudos. Frequentou uma escola comercial e trabalhou num escritório por dois anos até sofrer um esgotamento nervoso. Em 1912, seus pais consentiram que ingressasse numa escola de arte em Barcelona. Estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris e lhe transmitiu a sua paixão pelos frescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha.
A partir de 1948, Miro dividiu o seu tempo entre Espanha e Paris. Iniciou uma série de trabalhos de intenso conteúdo poético cujos temas são variações sobre a mulher, o pássaro e a estrela. Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe a técnica altamente elaborada. Tornou-se mundialmente famoso e expôs os seus trabalhos em vários países.
Em 1954 ganhou o prémio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris, ganhou o Prémio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris, realizou uma exposição de toda a sua obra.
Joan Miró morreu em Palma de Maiorca a 25 de Dezembro de 1983.

QUANDO EU ME FOR EMBORA


(Resende)

A reflexão sobre a nossa morte é sempre difícil de construir. Imaginamos o corpo deitado, hirto e gélido, as mãos postas sobre o peito e um monte de gente que nos olha com a tristeza da perda. Colocamos enfeites no nosso funeral, flores, música. Há, na nossa imaginação, pessoas engasgadas com a dor. Afiguramos todo o cenário de fim.
Reflectir sobre a morte só faz sentido porque estamos vivos e isso impossibilita-nos a clareza de uma não existência imaginada. Mas insistimos no "filme". Imaginamos os filhos sem nós, os amantes, os amigos e a família, como se a nossa partida fosse transformar a vida de todos os que vivem. Não percebemos que, quando morrermos, nada do que fica nos incomodará, nem mesmo a nossa ausência.

11.2.08

EM ENTREVISTA


(Resende)

Júlio Resende, em entrevista na revista Pública de ontem, afirma que não sabe o que procura, só sabe que procura. Começa sempre a trabalhar sem saber muito bem aquilo que vai fazer. Uma pessoa quando sabe exactamente aquilo que vai fazer, deixa de o fazer, diz. Afirma gostar muito das coisas que não se vêem todas, que não são totalmente perceptíveis. Aos 90 anos considera que há coisas que o querer não pode. Quando a pergunta versa sobre a morte responde:
- É verdade que a morte cada vez me preocupa menos, mas não digo que a deseje. O que desejo é que as coisas se façam como deve ser e como estava previsto.

9.2.08

NÃO EXISTIR


(Resende)

Os fins de semana são bocados de tempo em que, às vezes, apetece não existir. Não aparecer, não escrever no blog, não atender telefones, não fazer refeições, não cumprir horário, não trabalhar, não sair do lugar a que pertencemos por natureza.

8.2.08

FÊMEA


(Resende)

Mulher. A que sabe sentar-se devagar e, com a saia comprida, esconder a fêmea resguardada. Porque ser Mulher é, também, assumir que todo o desejo pode ser entregue, como uma delícia rara. A delícia que só alguns acolhem, os que sabem receber da fêmea, o suco do corpo e da alma.

6.2.08

SER É SENTIR


(Resende)

Fui tomando consciência, ao longo da vida, que não há conceitos que substituam sensações, nem sentimentos que possam submeter-se a palavras retiradas do filtro frio e seco da capacidade aglutinadora do pensar. O homem continua a ser racional e é isso que lhe permite progredir, construir uma linguagem, comunicar. Tem sido essa exclusiva capacidade que o tem empurrado para o progresso científico e tecnológico e, para o mais profundo dos erros cometidos no que diz respeito às relações humanas. Se pararmos para sentir o que somos, teremos, com certeza, sensações mais nítidas do que os conceitos que as segregam. SER não se resume a um aglomerado de especulações filosóficas. SER é sinónimo de sentir, se assim não fosse estaríamos a manipular, por via da razão, aquilo que alimenta toda a alma.

5.2.08

DE VOLTA À MESA


(Resende)

Desta feita, a sala de jantar toma posição de festa. Velas e pessoas. Há, em Lisboa, boas companhias e boas refeições. Em casa, o sabor olhado de frente é, também, uma forma de comunicação.

4.2.08

A CAMINHO


(Resende)

Manhã. Dia inteiro para o caminho. Solto o cabelo. Vou. Com o contentamento posto num velho par de sapatos e numa mochila azul escura.

2.2.08

À MESA


(Resende)

Sentar à mesa. Noite. Prato redondo. Comida quente. Lisboa tem bons restaurantes. Eu tenho óptimas companhias.

1.2.08