Mostrar mensagens com a etiqueta Etelvina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Etelvina. Mostrar todas as mensagens

8.12.11

Diário de Etelvina (9)

Morris Louis















Etelvina teve de intervir. As meninas estavam aos gritos, as mãos na cintura e os dentes a resvalar para o palavrão. Amarrou-as todas às cadeiras e espetou-lhes o dedo, afiou-lhes as garras e fê-las entender a urgência da disciplina. As meninas não quiseram saber e, quando o diretor do hospital entrou na sala 33, riram alto e bateram com os pés no chão.

25.11.11

Diário de Etelvina (08)

As meninas decidiram fingir que estavam a dormir, estavam tão acordadas quanto o sol que, naquele dia, nascera com o viço da manhã. Etelvina começou a cantar baixinho. As meninas abriram os olhos com indignação e afirmaram o despropósito da funcionária que cantava em serviço. No piso 3 julgava-se possuir a verdade. Da fragilidade e da ignorância, brotavam os maiores disparates. Etelvina tentava socorrer-se da experiência, esbracejava quando podia e abria os olhos com o poder dentro das pálpebras. As meninas ignoravam a funcionária. Viviam aquém de si mesmas e não queriam perceber que os dias ali passados eram a parte de trás de uma vida fora do lugar. 

Paula Rego

14.11.11

Diário de Etelvina (07)

Uma das meninas da sala 33 declarou-se manipuladora. Etelvina tinha as respostas e a miúda rejeitava-as. Sempre que, de uma pergunta, surgia a resposta pronta, Etelvina perguntava:
- Se sabe a resposta porque me faz a pergunta?
- Porque sim.
- Não sabe que essa é a resposta que nada responde?
- Sei, mas gosto dela.
- Vou ter de a colocar numa espécie de castigo.
- Os castigos só servem para nos revoltarmos, dona. Você não sabe disso?
Desceu as escadas e bateu à porta da Dra. Guilhermina Guilherme. Pareceu-lhe ouvir a voz do diretor da instituição, uma voz abafada e grave, como se estivesse a sair de dentro de um cobertor. Voltou para trás e pensou ser melhor resolver tudo sozinha. Como de costume.

Paula Rego

4.11.11

Diário de Etelvina (06)

As meninas da sala 33 andavam inquietas com o desaparecimento de um batom. A falta do único objecto que tinham fazia com que esbarrassem no frenesim. Etelvina tinha experimentado tudo: histórias, jogos, TV e livros. Era urgente manter as meninas entretidas e sem protestos:
- Não sabe que nos dá tretas que não queremos?
- Que querem vocês, afinal?
- Paz, D. Etelvina. Queremos paz.
- E como querem ter paz se não estão sossegadas um dia que seja?
- E a paz vem do sossego, D. Etelvina?
- Claro que vem.
- Então deixe-nos encontrar essa coisa. Não nos enfie livros pelos olhos dentro e filmes pelos poros fora. Pare de tentar entreter-nos e perceba que queremos ficar connosco.
- Mas não sabem estar convosco.
- É para isso que a D. Etelvina cá está, para nos ensinar a estar, não para nos entupir de distracções.
- Quem são vocês?
- Somos um bando de loucas postas em cima de um chão de madeira dentro de uma casa com chefes e médicos e enfermeiros e pessoas que nos distraem.
- Pelo menos têm a noção da realidade.
- Qual realidade, D. Etelvina?

Paula Rego

24.10.11

Diário de Etelvina (05)

No dia em que Etelvina explicou às senhoras da sala 33 que era preciso existirem regras em cima das pernas, elas sentaram-se e puseram os pés para o ar.  Etelvina explicou à Dra. Guilhermina Guilherme que era difícil encontrar equilíbrio do piso 3. Ela respondeu-lhe com a madeixa em cima da testa e a ruga em cima da mesa:
- Difícil? Não se lembra que estas mulheres têm que ser postas na ordem?
- Lembro.
- Nada de confianças.
Etelvina saiu do gabinete com as palavras da chefe enroladas no papel de jornal. Deitou-as para o caixote do lixo e descansou nas escadas. A D. Manuela espreitou à porta da sala 33:
- D. Etelvina. Acordei. Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro.
- Por que razão não gosta de serpentes?
- Porque rastejam, deitam a língua de fora e podem matar.
- E não há pessoas assim?
- Há. Mas as pessoas não rastejam.
- A sério? Eu não teria tanta certeza!


7.10.11

Diário de Etelvina (04)

Era cedo. Etelvina chegou à sala 33 e viu que Manuela dormia. Inclinada sobre uma mesa de madeira quadrada, parecia sonhar com serpentes. Mexia a boca e as pálpebras. As outras mulheres riam. 
Etelvina inclinou o corpo e cantou uma canção de embalar. Manuela não acordou. Sentou-se de frente para o grupo e disse que contaria uma história.
As mulheres escolheram um lugar para ouvir. Etelvina disse-lhes: sempre que uma mulher adormece, o resto do mundo não dá conta. O sono alheio não interessa a terceiros porque terceiros estão longe e não sabem. É por isso que o sono é pertença de um, a vigília é pertença de muitos e a loucura é pertença de todos. 


3.10.11

Diário de Etelvina (03)

Depois de conhecer as mulheres da sala 33 percebeu que a criatividade tinha que ser usada, ou melhor, descoberta. Etelvina ficou confusa. Ouviu as histórias das doentes, sentou-se no colo de uma que estava convencida poder ser a mãe dela, pegou na mão de outra que pensava andar perdida numa floresta e acalmou a que chorava muito sem saber explicar porquê. Depois olhou para todas e disse:
- Eu vou impor regras.
- O que é isso? – perguntou a mulher que chuchava no dedo.
- São normas de comportamento.
- O quê?
- Aquilo que vocês não têm e precisam começar a ter.
- Está a falar do juízo?
- Também.
- Sabe uma coisa, D. Etelvina? O juízo é aquilo que todos dizem que têm e ninguém prova ter.
- Por que razão diz isso?
- Porque conheço as palavras mas nunca vi os actos.
- E você, Manuela, tem juízo?
- Tenho tanto juízo que me deixo estar aqui à espera que alguém venha para me avisar que estou boa.
- E depois?
- Depois finjo que acredito e vou à minha vida, juntar-me a todos os outros fingidores.


27.9.11

Diário de Etelvina (02)

A Dra. Guilhermina era uma mulher de meia idade. Elegante e altiva. Falava muito alto, Etelvina não estava habituada, na loja de lingerie vivia sozinha a atender os clientes. Agora tinha uma chefe que gritava com a voz e com os braços.
Percebeu que teria de seguir, todos os dias, para a sala 33 do piso 3. As mulheres estavam à sua espera. Etelvina tinha a função de animadora, preceptora, professora, enfermeira, o que fosse preciso para as manter ocupadas.
Quando subiu as escadas viu que todas se dirigiam para o refeitório. Entrou na sala 33 e preparou a respiração.


26.9.11

Diário de Etelvina (01)

Etelvina entrou no hospital psiquiátrico. A chefe de psiquiatria estava ao telefone, falava tão alto que as palavras soavam no corredor. Chegou um funcionário e explicou-lhe que teria de ir conhecer os doentes, estavam no piso três na sala trinta e três. 
Etelvina tinha sido contactada para a primeira entrevista e ia entrar na sala dos doentes sem saber o que fazer. Seguiu o funcionário e espreitou. Muitas mulheres sentadas nas cadeiras encostadas à parede, falavam com os braços e uma delas chuchava no dedo com tanta força que parecia ir comer-se a si mesma. 
Enquanto escolhia as palavras sentiu uma mão no ombro e uma voz que lhe disse: Agora podemos falar. Venha comigo.
Etelvina seguiu a Dra. Guilhermina Guilherme até ao andar de baixo.


13.9.11

Etelvina

 
A Etelvina teve que fechar a loja de lingerie comestível. Falência. As pessoas deixaram de ter tempo para brincadeiras. A crise afectou o negócio e Etelvina  decidiu mudar de vida. Viu um anúncio no jornal:" procura-se funcionária para hospital psiquiátrico". 
Etelvina foi contratada e começará a trabalhar em breve.