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8.1.11

SEM PIPOCAS

Parece que há bons filmes para ver este fim-de-semana. Não consigo escrever e ver filmes ao mesmo tempo. Vou-me embora com o desejo da tela e do escuro. Sem pipocas.

14.2.10

DEPOIS

Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa de muita importância e eu tenho andado a tropeçar em banalidades. Coisas de pouca importância que roubam tempo à importância das coisas. Agora interrompem-se os dias. Carnaval. Máscaras datadas em cima de caras sempre mascaradas provocam-me enorme sensação de urticária.

Há muito que não escrevo sobre o amor. É coisa séria. Depois das ondas do mar, depois da marginal percorrida, depois das noites frias e da areia molhada, depois do suspiro e depois de tudo o que o amor permite que seja e que aconteça.

(Lou Reed; Perfect Day)



P.S. Fica a sugestão: o filme de Woody Allen "Tudo Pode Dar Certo", supera qualquer expectativa. Nada melhor para quem pretende entender o princípio de incerteza de Heisenberg.

1.2.10

SEMPRE CLOONEY



A pressão de um emprego que consiste em despedir pessoas, dizer-lhes que estão dispensadas de um lugar que ocuparam durante anos.

A pressão auto-imposta de uma vida sem compromissos.

A realidade amorosa colocada (entre parêntesis) porque assim o exige quem pretende ter mais que uma família estruturada.

A tentativa de uma ligação que se julgava repudiar.

Depois do conteúdo de um filme despretensioso e muito engraçado, o charme, a classe, a atitude do que se mantém, simplesmente Clooney.

E ainda, a melhor frase: “considera-me uma pessoa igual a ti, mas com vagina”.

30.1.10

COISAS QUE ME INQUIETAM (20)


Saí agora da sala 3 do King. Lars Von Trier, Antichrist. Podia ter passado o tempo num musical, a bater o pezinho e a abanar a cabeça. Podia ter ido ver o Clooney, depois à festa do Lux e tal e coisa e noite e copos e diversão.
Fiquei ali parada, no medo, no desespero, na angústia, na raiva, no ódio e no poder.
Tão soberbo quanto hediondo. Vou precisar de químicos para dormir esta noite.

22.3.09

REVOLUCIONARY ROAD

Angústia, insatisfação, medo, aflição e desejo, escondidos sob a capa de uma normalidade podre. A morte, em vida ou depois dela, é a única saída.

21.3.09

GRAN TORINO

O problema dos filmes de Clint Eastwood é que nos tiram o sono.

20.3.09

AO RITMO DO DJEMBÊ


Walter Vale, professor de economia na Universidade de Connecticut, perdeu a paixão pelo ensino. A vida é preenchida por rotinas. O vazio da existência caminha para as teclas de um piano que já não se ama. As aulas preenchem objectivos que desapareceram. Uma deslocação a Nova York leva Walter ao reconhecimento de que a vida pode passar a fronteira do hábito. Dois jovens ilegais que ocupam, por engano, o seu apartamento, fazem com que Walter perceba, por detrás de um sorriso que não se revela, a importância dos dias com ritmo. Tarek, músico dotado (para além dos dotes com que a natureza o presenteou), ensina a Walter os segredos do djembê.
Aos poucos, Walter recupera a alegria da qual que se tinha esquecido. Amigos e cúmplices, os dois homens percorrem o metro e os bairros de Nova York com o objectivo de viver ao ritmo da exaltação.
Noite fria. Avenida de Roma. Do cinema King à praça de táxis, dois amigos circulam em passos fumados de riso e luxúria:
- Walter percebeu que se pode morrer antes do cérebro e o coração pararem.
- Coisas que todos temos obrigação de entender.
- A morte é sempre entendida como física.
- Não fossem desatentas as gentes, perceberiam que morrem todos os dias, sem o som do djembê e sem as teclas do piano.
O vento cortante de uma cidade silenciosa, longe do poder cosmopolita de Nova York e do cheiro das bijutarias vendidas em Washington Square. A noite sem lua:
- Gostaste do desempenho dele?
- A falta de sorriso, a incapacidade de um corpo que morre e deixa a alma ir junto. Gostei da forma como o disse, em todos os gestos e frases.
- O piano era o encontro possível com a mulher.
- Era. Embora Walter tivesse tomado consciência que, encontros depois da morte, podem desenrolar memórias pouco bonitas.
O vento parou na cidade silenciosa, ao mesmo tempo que o táxi encostou na berma para que entrassem:
- Por favor, leve-nos ao Café Malaca.
- Onde fica?
- No clube naval do Cais do Sodré, uma casinha velha que espreita o rio com vergonha.
- Estão com pressa?
- Não. Acabámos de perceber a importância das noites que não se apressam.

25.2.09

30.1.09

"QUERES COMER ALGUMA COISA?"


 Saíram para ver o filme. Na fila dos bilhetes, alguém perguntava alto:
- Queres comer alguma coisa?
Largaram enorme riso e pouco espanto. Comer no cinema, valha-me Deus:
- A senhora jantou?
Olhos grandes se lhe dirigiram:
- Que tem o senhor a ver com isso?
- Nada, apenas assegurar-me de que está satisfeita.



O riso tornou-se incontrolável. O filme começou entre os cotovelos fixos e os olhos brilhantes e pesados. Brad pitt tinha nascido velho com alma de novo e tinha morrido novo com alma de velho. A vida de trás para a frente, como eles! A senhora que tinha o saco do lidl aos pés estava indignada. O riso incomodou-a até ao fim da história, mais que o saco que chiava a cada movimento.

O amor, outra vez o amor. A idade, outra vez a idade. Desencontros, outra vez desencontros. Morrer bebé, nos braços da amante. Bonito. Ela apreciou a mota de Brad e o penteado de Blanchett, o tom de voz do senhor dos botões e o velho barco que conduzia à morte. O mar era lindo e o ballet também. Lembrou-se do tempo no hospital e da sensação incapacitante de não conseguir andar. Puxou pela cabeça e ainda imaginou um amor sem barreiras, daqueles que não podem existir, de tanta perfeição que encerram. Estendeu as pernas no banco da frente e semicerrou os olhos. Viu o brad bonito, como sempre. A cada cinco minutos ia ficando mais novo, passava da fase do charme para a de imberbe. Só o conseguiu ver em forma, durante quinze minutos.

Ele ficou quieto, com os olhos cheios de curiosidade. Ria quando se lembrava da frase da senhora na fila da bilheteira. Respirava devagar, ao ritmo das sombras que o tempo desnudava na tela, ao sabor das palavras de Blanchett, postas no espaço de um amor datado.

Saíram tarde. A casa aquecida.
- Temo que a noite não chegue para festejar.
- É pena, o relógio mantém as horas direitas.
- Vamos pará-lo?
- Vamos.

24.1.09

VICKY CRISTINA BARCELONA

Vicky julgava saber o que queria. Cristina julgava saber o que não queria. Juan António vivia entre o querer e o não querer. Maria Helena entre o saber e o não saber. O pai poeta pode ser o personagem principal. Veja.

11.1.09

"A TROCA"

A fronteira entre a lucidez e a loucura pode ser muito ténue. Clint Eastwood sabe como incomodar o público. É preciso.