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1.9.13

Onde me sento


É mais fácil brincar com as certezas do que com as dúvidas. As primeiras dão-nos um sofá, as segundas, uma cadeira de baloiço. Depois olha-se para a parede. Do sofá vemos o branco, da cadeira que baloiça avistamos todas as cores.

7.6.13

Coisas que me inquietam (41)


Crianças são humanidades pequenas que precisam de ajuda para se tornarem grandes e boas. Crianças são responsabilidade de pessoas grandes, as que só deviam poder tê-las se passassem por um controlo rigoroso de qualidade.

6.11.12

Fim do monólogo de um homem pouco acompanhado

As mulheres são bichos bonitos e quando se vão embora ficam ainda mais bonitos. Ser mulher sozinha é ser pessoa livre e isso faz muito mal à minha autoestima. A minha mulher tinha nas mãos o abandono e nas pernas a vida toda. Enquanto falava, usava a mão esquerda, a mão direita servia para guardar o barulho do telemóvel e o silêncio das chaves de casa. Era uma mulher contente porque pensava que podia engolir o tempo. Percebeu que o tempo nos engole, que as mãos agarram quando querem, e que as pernas levam a vontade muito longe. Tenho saudades dela.

5.11.12

Monólogo de um homem pouco acompanhado

Em breve telefono-lhe para que perceba que as coisas não podem ficar assim. Tem a mania que, agora que está como os pássaros, manda na vida… não manda nem mandará. Eu aqui sozinho, cheio de dores e não me dá possibilidade de falar? Devia pegar no telefone e dizer-lhe o que merece ouvir, o problema é que ela pega sempre no telefone com a mão esquerda e isso dificulta-me o raciocínio. Podia dizer-lhe, por exemplo: “muda lá a mão com que pegas no telefone que me estás a irritar. És tão esquerda nas atitudes como na forma como me ouves. Não sabes que estou doente? Enquanto estivemos juntos, entupias-me de benurons quando eu caía na cama, tinhas preocupações com os meus pelos púbicos e tratavas-me como uma criança. Agora que tens a mania que estás sozinha e que és solteira, armas-te em boa.”
Já sei que a conversa pararia em menos de cinco minutos. Desde que me vim embora que tudo me acontece, é o corpo em desassossego, é a vontade que não funciona, é a porta que não se abre… e tudo por causa desta ausência. Com tanta liberdade ainda quero ver como vou tomar conta de mim.

31.10.12

Como é que se vive?

Como é que se vive quando temos que fingir que não somos nós para sobreviver? Como é que se vive quando somos obrigados a trabalhar em cima de um monte de insanidades? Como é que se vive quando não há alternativas porque não há quem as acolha? Como é que se vive quando tudo se inclina para um abismo que não conseguimos evitar? Como é que se vive quando os pés tropeçam em angústias impostas por quem manipula? Como é que se vive quando a doença ataca os nervos de aço que julgávamos ter?

15.10.12

Coisas possíveis

João Cutileiro



















Talvez um dia se entenda que, pessoas felizes são as que têm na alma o mundo possível. Porque o mundo real transforma os corpos em pedras duras. A possibilidade de mundo é a escolha para a sobrevivência pacífica do ser consigo mesmo. Na impossibilidade de ser o que pretendo e na ausência de sentir o que sonho, vivo no mundo que mata aquilo com que alimentei a alma durante períodos de existência que, mais não são, que realidades postas em cima de quase nada. E vivo, porque é urgente o caminho, mesmo quando as pernas fraquejam.