30.4.09

PEDE-SE AOS TOLOS QUE NÃO PROCRIEM

Somos a última geração de pais decididos a não repetir com os filhos os erros dos nossos progenitores. Fazemos esforço, abolimos os abusos do passado, somos mais dedicados e compreensivos mas, os mais tolos pais da história. Obedecemos aos nossos pais no passado e aos nossos filhos no presente. Tivemos medo dos nossos pais e somos os primeiros a temer os filhos. Crescemos sob o controlo dos pais e vivemos sob o jugo dos filhos. Respeitamos os nossos pais e deixamos que os nossos filhos nos faltem ao respeito. A permissividade substituiu o autoritarismo, as relações familiares mudaram radicalmente, para o bem e para o mal.
Quando éramos pequenos, os bons pais eram os que tinham filhos que se portavam bem e obedeciam às suas ordens. Os bons filhos eram os que veneravam os pais e os tratavam com respeito. As fronteiras hierárquicas foram-se desvanecendo. Hoje, os bons pais são os que conseguem o amor dos filhos ainda que pouco os respeitem. Os bons filhos esperam agora o respeito dos pais, exigem a aceitação das suas ideias e das suas preferências, dos seus modos de agir e viver, exigem ainda que os pais patrocinem no que for necessário.
Os papéis inverteram-se. Hoje são os pais que têm que agradar aos filhos para “ganhar” o seu amor e apreço. O esforço das famílias para tudo oferecer às crianças fez com que, sem rumo, a debilidade dos pais desencadeasse no desnorte dos filhos. O autoritarismo deu lugar à total permissividade, em vez de irmos à frente dos filhos para os podermos libertar, vamos atrás, rendidos às suas vontades. Aboliram-se os limites, ferramenta indispensável ao abrigo e à segurança do indivíduo.
Por causa da mudança da opacidade para a transparência, vemos os filhos crescer sem rumo e sem regras. Somos nós, pais permissivos e tolos, os únicos responsáveis pelo estado da educação em Portugal.
Aos que julgam que criar é sinónimo de educar, aos que confundem instrução com educação, permitam-me um pedido: não procriem! Que a qualidade supere a quantidade.

29.4.09

OBJECTOS


Limão, martelo, copo, planta. Carro, chávena, cadeira, garrafa. Os objectos ensinam-nos a perceber os limites de tudo quanto vemos.

27.4.09

A MENINA DESCOBRE COISAS


Andy Warhol

A menina, como lhe chamam no cabeleireiro, não sabia que, colocando os phones num buraquinho que o computador tem, podia ouvir as músicas todas sem incomodar vizinhos. A menina, distraída e alheada de tecnologias, descobriu numa tarde de domingo que o Roy Orbison cantado ao ouvido é muito mais romântico. Agora, a menina passa o tempo todo com os ditos colocados dentro dos ouvidos para, concentradamente escrever sobre o amor, as flores, as andorinhas, os sonhos e todas as coisas bonitas que as músicas lhe segredam directamente nos tímpanos.
A menina queria ter um mp3, daqueles coloridos que os alunos têm postos ao pescoço, os que se apreendem em dias de teste ou em aulas substituídas por sons debaixo do gorro de lã.
Depois de uma tarde cheia de escrita, o fígado, o estômago, os pulmões, o coração e o pâncreas entupiram de música. O limite não foi ponderado e os dedos não pararam nas teclas, nem o som na cabeça, nem o chá na mesa, nem coisas indizíveis no meio de todo um aglomerado viscoso de circunstâncias.
A menina percebeu que o desejo do aparelhinho sonoro que a esperava na prateleira da Fnac tinha esmorecido ali, naquela tarde sobrelotada de palavras cantadas, ditas, escritas e postas na gaveta.
No dia em que a menina adquirisse um, corria riscos sérios, não ouviria mais nada no mundo. Entre a casa e o ginásio, entre a escola e o shopping, entre a praia e o campo, não existiriam sons fora do aparelho que lhe entupiria os dias.
Depois… as memórias do ruído da rua desapareceriam e, a menina esqueceria de ser gente como dantes.

26.4.09

25.4.09

DIA DA ESPERANÇA

Não sei se morreu a esperança de há 35 anos. Eu era pequena quando as tropas saíram de Santarém. Hoje entendo que, mais do que o ideal, deveria ter sido encontrado o objectivo, aquele que ainda não se descobriu.

24.4.09

32 - ANDY WARHOL




Andy Warhol, nasceu em Pittsburgh a 6 de Agosto de 1928.
Foi pintor e cineasta, bem como figura maior do movimento da pop art.
Nos anos sessenta começou a pintar produtos americanos famosos, como latas da sopa Campbell's e Coca-Cola e ícones de popularidade, como Marilyn Monroe.

É de sua autoria a expressão "um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama” ao comentar obras próprias baseadas em acidentes automobilísticos, em especial o de uma ambulância.
Em 1987 foi operado em Nova Iorque à vesícula biliar. A operação correu bem mas Andy Warhol morreu no dia seguinte.

23.4.09

PARABÉNS


Conceição Ramos

Parabéns mãe. Parabéns sobrinha. Em breve cozinharei para as duas.

22.4.09

PROCURA


Conceição Ramos

- Senta-te aqui.

- Estou à procura da caixa.

- Qual caixa?

- A dos beijos.

21.4.09

PISCINA ABANDONADA


Conceição Ramos

- Vamos nadar?
- Prefiro ir ao cinema.
- Porquê?
- Porque hoje já podes dar-me as palavras.

20.4.09

SEM FOME


Conceição Ramos

- O jantar está pronto.
- Não tenho fome.
- Porquê?
- Porque estive muito tempo a olhar para ti.

19.4.09

FORA DAS PALAVRAS


Conceição Ramos

- Foste ao cinema?
- Não.
- Porquê?
- Porque não tinha a tua companhia.
- Isso é motivo?
- É, faltaram-me as tuas palavras.

18.4.09

DE PÉ


Conceição Ramos

Cadeiras são objectos úteis, mesmo quando, de pé, ouvimos os sons de uma escuridão escondida.

17.4.09

SENTADA


Conceição Ramos

Há cadeiras especiais, originais, intimas, onde nos sentamos todos os dias para ver a luz.

16.4.09

COM OU SEM DEUS


Um dos principais defeitos do período contemporâneo é o de reduzir a filosofia a uma simples reflexão crítica ou a uma teoria da argumentação. Os biólogos, os artistas, os físicos, os escritores, os jornalistas, os matemáticos, os teólogos e até os políticos, reflectem e colocam questões. A argumentação é, sem dúvida, importante e altamente desejável na formação de qualquer tipo de actividade, indispensável à formação de bons cidadãos capazes de participar com autonomia na vida do país. Estas são formas de alcançar outros fins, longe do que a filosofia pretende, ela não é bengala da moral nem instrumento da política.
O Homem interroga-se sobre a sua finitude, sobre uma situação que, a priori, é absurda e insuportável. Ao lado de concepções religiosas, “salvação” designa, antes de mais, “acto de ser salvo, de escapar a um grande perigo”. O perigo da morte a que as religiões nos ajudam a escapar por via da vida eterna é, para a filosofia, a interrogação essencial. Epicuro define a filosofia como a “medicina da alma” fazendo-nos entender que “a morte não é temível”; Montaigne declara que “filosofar é aprender a morrer”; Espinosa reflecte sobre o “sábio que morre menos do que o louco” e Kant questiona-se sobre “o que nos é permitido esperar”.
Aos olhos de alguns filósofos, o receio da morte impede-nos de viver bem, gera angústia. A irreversibilidade do curso das coisas ameaça arrastar-nos para uma dimensão do tempo que corrompe a existência.
As religiões prometem-nos a salvação por via da fé. Filosofar em vez de acreditar é, do ponto de vista dos filósofos não crentes, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé. A filosofia pretende uma salvação por meios próprios, pela via da racionalidade, uma busca de salvação sem Deus. A mortalidade e a consciência da finitude são sempre fonte de interrogação. A religião, como a filosofia, são caminhos de busca de salvação.
Entender a natureza do mundo que nos rodeia e do tempo que passa para poder desvendar enigmas humanos e outros, é preciso. Há, na filosofia, um caminho para o entendimento e para a sabedoria. Para além das considerações tomadas às ciências positivas, discernir a natureza do conhecimento enquanto tal, compreender os seus métodos e os seus limites são tarefas milenares e configuradas ao campo filosófico.
Desde os gregos que preocupações comuns embalam a humanidade. Depois do domínio dos grandes impérios, depois do cristianismo, depois do renascimento e da pós-modernidade, a partir da corrosiva lucidez de Nietzsche, a filosofia contemporânea pode também encaminhar-se para uma qualquer busca de salvação.
Qualquer grande filosofia resume a experiência fundamental da humanidade, como qualquer grande pintura ou obra literária que, traduzindo de forma mais sensível a existência e a atitude, denunciam a marca de quem pensou e sentiu o mundo e a história.

15.4.09

CONSEQUÊNCIA

De tanto ouvir a palavra crise passei a padecer dos ouvidos.

31 - CONCEIÇÃO RAMOS




Maria da Conceição Fernandes Ramos nasceu na Beira (Moçambique) em 1960, onde viveu até aos 15 anos de idade. Obteve a Licenciatura em Artes Plásticas - Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1985. Concluiu o Doutoramento em Educação Artística na Faculdade de Belas Artes de Barcelona em 2006. É Professora de Artes Visuais na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. Desenvolve uma carreira artística, tendo realizado diversas exposições individuais e colectivas desde 1992. Obteve o 1º Prémio na Bienal Cardoso Lopes em 1996 e uma Menção Honrosa em pintura no VIII Salão de Primavera da Galeria de Arte do Casino do Estoril. Realizou, por convite, os painéis alusivos à vida dos santos da Igreja de Massamá.Publicou em 2007, conjuntamente com Matilde Rosa Araújo, o livro “Nascer Mãe”.

Retirado de:
www.pnetartes.pt

13.4.09

O TEMPO QUE NÃO EXISTE


Lucien Freud

O passado, tempo que já não existe, pega-se a nós em jeito de nostalgia, remorso ou culpa. O futuro pega-se em jeito de esperança por um tempo que ainda não aconteceu. Como dizia Séneca, "enquanto esperamos viver a vida passa por nós."
O peso do passado e a miragem do futuro, os dois grandes males da existência.

11.4.09

A NORTE DE COIMBRA

Lucien Freud

A norte de Coimbra, o ar cheira a limpo, as pessoas passam devagar e o céu não consegue ver-se sem nuvens. É um lugar de sonhos adiados. Tudo parece ter parado no tempo de D. Sebastião, quando partiu sem regresso. As árvores contam-nos histórias compridas em frente à piscina de um hotel antigo. Espreguiço-me todas as manhãs sem mais nada para fazer. É o portátil que permite o contacto com o mundo lá fora, depois da estrada comprida de pedra escura que me trouxe ao meio do que não é ruído.

O pequeno-almoço serve-se em sala estendida no meio de um jardim repleto de heras, as que são verdes e trepam furiosamente em cima da pedra gasta da parede secular. São ideias as que voam de manhã, ao pé do riacho que faz um barulhinho meigo e me convida a molhar a cara com água gélida, mais transparente que a da torneira. As manhãs são compridas, como o resto dos dias. Três livros para ler. Ténis que acompanham caminhadas longas ao final da tarde, antes do sol se esconder para renascer em mais um dia sem barulho que não seja o das pessoas que me olham intrigadas. Converso pouco. Quase nada. Olham-me cheias de perguntas que guardam atenciosamente no bolso semi-aberto, à espera que lhes toque, para poderem fazer-mas, todas de uma vez.

Ontem, um cavalheiro de meia-idade olhou de relance para o que estava a escrever, sorriu e sentou-se na poltrona atrás de mim. Não sei se queria espreitar as letras no monitor ou a parte de trás da minha t-shirt que dizia: Sorry, I’m Busy. Hoje ainda não o vi, suponho que saiu com as calças pretas vestidas por baixo da camisa mais preta ainda. Os olhos estão postos longe do espaço que ocupa, traz um livro bem encadernado debaixo do braço. Não sei o título mas parece-me que a Psicopatologia da Vida Quotidiana de Freud lhe assentaria como uma luva. Amanhã, quando vestir a t-shirt que não tem letras nas costas, talvez lhe pergunte o que faz aqui, tão alheado do mundo quanto eu. Sei que não me responderá. Porque perguntas dessas não se fazem a ninguém.

3.4.09

MEIA DÚZIA DE MANIAS


Lucien Freud


1 – Deitar tarde é hábito antigo.
2 – Nunca usar brincos com óculos.
3 – Ler em silêncio.
4 – Usar a música como companhia de odiáveis limpezas caseiras.
5 – Abraçar sempre os amigos à chegada e à partida.
6 – Viajar com caneta e papel, mesmo quando o destino é perto de casa.

I HAD A DREAM



Era uma vivenda num bairro ajardinado e limpo. A entrada dava acesso a uma sala em tons de encarnado esmorecido, mais ou menos velho. Poltronas de veludo gasto e bonito, enormes bancos rente ao chão convidavam quem chegava a sentar-se confortavelmente. A dona da casa distribuía elegância e bom senso. Palavras ditas em inglês que eu ia percebendo mal. O marido, homem bonito e com classe, convidava-me a sentar num gesto amigável e quente. Parecia que nos conhecíamos há muito. Visita regular da casa, eu era recebida em jeito informal, como se não fosse preciso muito tempo para entender a amizade que nos unia. As filhas estavam de férias com os avós, a minha e as do casal. Três meninas que conviviam como irmãs e que, muitas vezes, partilhavam os mesmos brinquedos.

Sentei-me na poltrona que me reservavam e fiquei em frente ao dono da casa. Tentei falar um inglês compreensível de modo a ser entendida. Ele ria das minhas “concordâncias gramaticais” e afirmava perceber-me, ao mesmo tempo que ia pronunciando lentas palavras em português. Dizia que tinha aprendido em pequeno, com amigos filhos de emigrantes que, na escola, lhe tinham ensinado “pois”, “claro”, “com certeza”, “obrigado” e “boa noite”.

Assim nos íamos entendendo enquanto a senhora mandava preparar um chá verde sabendo-me apreciadora do líquido quente e desintoxicante. Os três em frente a uma lareira alta que iluminava a noite desenrolávamos ideias em cima do riso. Ele, alto, bonito e inteligente, fazia-me sentir a urgência da reflexão sobre o mundo, sobre a economia, a fome, a guerra e o desenvolvimento sustentável. Ela, mulher de elevada classe, fazia-me entender que as escadas se devem subir devagar, desde o primeiro degrau, sem pressa de chegar ao cimo porque, de lá, se podem sentir vertigens.



O serão atravessou horas de beleza e tranquilidade. A dada altura, o dono da casa pediu para sair, tinha que retomar um trabalho importante no escritório do primeiro andar onde se recolhia sempre que compromissos políticos o chamavam. Ela ficou, mastigando bolinhos de areia comigo, cúmplices, amigas e mulheres. Continuei sentada a conversar com Michelle, enquanto Barack Obama cumpria, no andar de cima de uma casa que não era branca, compromissos oficiais importantes.

2.4.09

30 - LUCIEN FREUD




Nascido em Berlim em 8 de Dezembro de 1922, Lucien Freud, neto de Sigmund Freud, foi para Inglaterra, juntamente com a sua família, em 1931, tornando-se cidadão inglês em 1939. Desde muito jovem teve uma tendência enorme para o desenho. Tornou-se artista a tempo inteiro e como profissional depois de ficar inválido num ataque a um navio da Marinha Mercante onde trabalhava. Em 1951, o seu quadro "Interior at Paddington" (Walker Art Gallery, Liverpool) ganhou o primeiro prémio no festivalde Arte Britânica e, desde netão, ganhou uma reputação enorme como um dos principais pintores de arte figurativa contemporânea. Retratos e nus são a sua especialidade, vistos muitas vezes como chocantes. As suas primeiras obras eram meticulosamente pintadas. Ele próprio as classificava como "realistas ou Superrealistas. Mais tarde, adptou uma atitude mais visceral. Substituindo os pincéis de zibelina pelos de pêlo de porco, menos bons e precisos, Freud começou a esculpir com a tinta, alarganda o observação meticulosa a novos horizontes. O sua obra tem sido alvo de numerosas retrospectivas por todo o mundo. Lucien Freud nasceu em Berlim em 1922 e está naturalizado inglês.

Retirado de: www.oseculoprodigioso.blogspot.com

1.4.09

DOBRAS E GRITOS (33)


A solidão encerra-nos no silêncio purificador, retira-nos de exteriores poluídos e fornece-nos energias alternativas.