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2.11.09

MONÓLOGO JUNTO À MINA


António Eça de Queiroz

Um amigo do Norte, companheiro de palavras publicadas, cúmplice em almoços com gente gira, fez o favor de aceitar um convite: escrever na Dobra Do Grito, com pintura incluída. Obrigada, António.

Bom, vejo que finalmente a encontraste – um bocado à sorte, diga-se de passagem...E que vais fazer agora, pode-se saber? Ou não saberás ainda?...
Não sei, não. Realmente não sei. Pergunto-me se valerá a pena – aliás pergunto-me mesmo se algo vale a pena. Já pensei em fazer aqui uma horta e montar guarda.
Como um cão?!... Essa é boa! Andaste anos ao acaso das passagens em redor da entrada, fizeste cálculos de pêndulo e astrolábio, correste perigos, rugiste de ira no breve desalento, uivaste de alegria na falsa descoberta... E agora que te falta um passo, um único, não vais entrar?... Não te move sequer um pouco de curiosidade? – se esconde tesouros, ou até segredos caros ao universo? Se assim é para quê avançar tanto no caminho, tão cheio da segura insegurança que anima a alma dos aventureiros? Porque não fizeste logo a tua horta e por lá não te ficaste, junto aos teus amigos pássaros, à salsa e à hortelã? Ninguém te empurrou de lá para fora!...
Tive de facto curiosidade. E o acaso, dizem os que crêem, é uma das divinas manhas...
E agora...
É.
Enganaste-te outra vez, meu caro: não é.

António Eça de Queiroz

16.5.08

A SÉTIMA CURVA

À sétima curva, ouviu os pneus do carro derraparem no asfalto. Sentiu os músculos das mãos rígidos, como que absolutamente imersos em goma-laca. Viu-se incapaz de controlar o volante girando entre os dedos. O som da borracha a derrapar no alcatrão ensurdeceu-a. Bateu com a cabeça no tejadilho, o cinto de segurança começou a asfixiá-la. O corpo sacudia-se ao ritmo das voltas que o carro dava. À sétima curva despistou-se.Não soube contar o tempo até que parou, mas contou cada um dos rodopios. Um, dois, três, quatro. Ouviu o pára-brisas quebrar-se. Susteve a respiração o mais que pôde. O sangue começou a escorrer-lhe do nariz, quente, pastoso. Pensou que partira um braço, talvez uma perna, talvez as duas. Os pedais enredaram-se-lhe nos pés. Achou-se presa numa gaiola de lata e fumo.Nos minutos que se seguiram ao embate lembrou-se de todas as pessoas a quem já não via há muitos anos. Pensou como o tempo e a distância, por muito curtos que sejam, podem divorciar-nos uns dos outros. Tanta gente do outro lado da cidade, apenas a meia dúzia de passos, e há tanto tempo se não viam. O turbilhão das manhãs de trânsito, o frio da neve a entranhar-se nos ossos, o cansaço dos dias de trabalho a acumular-se sobre o casacão pesado. Tantos e tão genuínos motivos para regressar rapidamente a casa e adiar uma, outra, todas as vezes o cruzar de olhos com tanta gente de quem, desfalecendo naquele carro, sentiu repentinamente saudades.Moscovo parecia-lhe sempre povoada de fantasmas, gente muito magra ou muito gorda, muito bela ou muito feia, muito jovem ou muito velha, mas toda ela desconhecida, gente que deslizava sobre as calçadas escorregadias, gente que mais não era do que manchas na paisagem, que mais não era do que a fumaça que lhe saía das bocas e rasgava o ar frio.O corpo, dentro do carro, enregelava lentamente. À sétima curva, nem vivalma. Por aquela estrada não passava ninguém. Deixou-se ceder e afogar no sangue que lhe encharcava as roupas. A vista da cidade emoldurava-lhe o rosto maltratado pelo embate. Ao fundo,o turbilhão daquela manhã de trânsito, o frio da neve a entranhar-se nos ossos, o cansaço dos dias de trabalho a acumular-se sobre muitos casacões pesados. À sétima curva, enfim, adormeceu e com ela levou Moscovo inteira na memória.


(Moscou-Kandinsky)

Marta Botelho - Viagens Interditas.

A propósito deste convite.

10.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Teresa C.)


(Moscou)

Alcandorados, descem ao rio. Quando o há. No âmago das cidades, sendo planura o chão, os telhados ge(r)minam aboletados. Resguardam o casario e as gentes que dele fazem casa ou sítio de labor pago. Circula sangue vivo nas ruas cavadas pelos fossos entre telhados.
Amanhecem tranquilas as cidades. Enganador o vazio do alcatrão e das calçadas – no descompasso da hora que rege de cada um o dia, chegam caminhos apressados e a cacofonia. Pelo movimento do sol – porque assim percepciona quem, pregado ao chão, o vê acordar e morrer pela tardinha – chega a obscenidade dos roncos motorizados e dos guinchos das buzinas. Abafados, ficam sons outros que às cidades pertencem e dão vida: o saudável vozear dos humanos que entre si estabelecem pontes, a música tocada pelas folhagens ou o linguajar próprio dos cães e aves.
E, quando a cidade esgota pelo cansaço quem nela habita, fica por conta dos morcegos e daqueles para quem o dia é turno da noite. Nas horas de todas as sombras, as catacumbas sobem à superfície.

Teresa C. - Sem Pénis Nem Inveja

9.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Leonor Barros)

O Homem e a Cidade

O homem não inventou a cidade; a cidade é que criou o homem e os seus costumes.
Guillermo Cabrera Infante

A frase paira no confronto com a urbe. O homem ou a cidade, quem criou quem? Uma questão que se me põe quando, de cachecol e luvas, atravesso a cidade quase despida, uns farrapos de neve sobre o casaco negro, o frio cortante como nunca antes se sentiu. Dor. O frio dói, e, contudo, é bela a cidade. E a frase volta quando ziguezagueando desemboco no Canal Grande e ouço o vociferar dos gondoleiros na manhã ensolarada. Está sol e o sol não dói. A cidade não dói. Quem te criou assim, cidade? Ouço-a de novo no miradouro de Santa Luzia, o casario como um tapete bordado até ao Tejo, palavras de poeta amancebadas com a cidade lá em baixo. Foste tu, poeta, que criaste esta cidade que ouço? E regressa sempre a frase, eterno enigma, que resolvo na tela colorida. Aquela não é a cidade. Não a que vi. Outra cidade, vibrante, um turbilhão cromático, e bela, igualmente sedutora. Foi o homem que inventou aquela cidade.

Leonor Barros - Geração Rasca

8.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Alba)



A Cantora


Esta é a minha última actuação.
Fui interprete dos sonhos e das palavras dos outros durante muito tempo.
Alimentei-me de palmas que ouvia e de rosas e poemas que recebia.
E fui tantas mulheres em tantas vidas.
No palco era fácil apartar-me de mim e ser outra, em outra vida diferente.
E cantei-(te) os gritos de mulheres alucinadas de paixão, os lamentos dos amantes que se perderam e a dor de um homem que não sabia amar.
Fui feliz, cantando o cansaço das noites brancas e a alegria dos dias rubros.
Entoei palavras novas, de tão usadas por outros antes de mim, mas sempre verdadeiras porque vestiam o encanto dos acordes do teu piano, que eu escutava nas minhas veias.
Tu, o gémeo dos meus segredos, tu que acariciavas o meu rosto no teu
regaço, tão suave, onde eu amanhecia nessas nossas alvoradas de todos os prodígios.
Tu que, noite após noite, transformavas a minha mágoa em música, porque
cada acorde do teu piano, me devolvia o raio de sol que iluminava o jardim encantado da minha infância.
E a partir de agora, meu amor, só quero despir-me de todos os adornos e véus que usei e ouvir-te murnurar o meu verdadeiro nome.
Porque tu sabes, tu és o único homem que conhece o meu verdadeiro nome.

Alba - A Clareira

7.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Titeo)

A Cantora

a sonoridade azul despe-me da seda selvagem onde me envolvo. alastro-me no rio leitoso das palavras molhadas no som do teu piano e os fios do timbre dedilham-me o corpo. vazei o medo no cálice do meu punho. permaneço indiferente à plateia que não vejo. pressinto-a. uma verticalidade de sonho integra-me. misteriosa. deslizo no teu palco de ilusões. serei musa no teu peito. inatingível. gritante. serei puta no teu leito. serei assombro e amante. serei tudo o que quiseres quando me olhas. fascínio. diva das noites do sul. sopro de vento em delírio. nesta calmaria aparente serei mulher. mas diferente. longínqua do teu domínio. clama pela imaginação a minha voz que te estremece. sente no sangue que corre as histórias dos teus amores. abraça de volta a loucura. lambe as lágrimas. solta as dores. repara como eu mudo a cada improvisação. sou a tua voz num palco. sou a arte. serenata. sou a tua alma insensata. sou o teu mundo com uma rosa na mão.

Titeo - Entre o sol e as Brumas

6.5.08

BLOGGERS ESCREVEM KANDINSKY (Manuel S. Fonseca)

“A Cantora”, de Kandisnky

Se me disserem que é azul, eu digo que mentem. Há um silêncio roxo ou púrpura que esmaga a cantora (ou é uma noiva?) geométrica e branca. Ao fundo, o pianista dissonante poderia ser, como Kandinsky que o pintou, um notário.
Não tenho a certeza de gostar de Kandinsky. E ele ralado... Seja como for, as “Composições” de Kandinsky – ao contrário desta “Cantora” de 1903 – são, quanto mais abstractas, mais vibrantes e tão musicais como ele achava que toda a pintura deveria ser.
“A cor é como as teclas, os olhos são as harmonias, a alma é um piano de múltiplas cordas”. Palpita-me que Kandinsky terá dito isto alguns anos depois de ter pintado “A Cantora”, o mais silencioso dos quadros. Um silêncio em roxo e púrpura. Igual, e também foi o russo pintor que o disse, “ao silêncio do corpo depois da morte”.

Manuel S. Fonseca - Geração de 60

5.5.08

KANDINSKY PROVOCA BLOGGERS


(Moscou I)

Dois quadros, alguns textos.


(The Singer)

Foi simpática a resposta de alguns bloggers ao meu convite: escrever a partir de um quadro de Kandinsky.
O meu sincero agradecimento ao Manuel S. Fonseca, Leonor Barros, Titeo, Teresa C. , Marta Botelho e Alba.
A partir de amanhã serão publicados os textos que gentilmente me enviaram. Bem Hajam.