Mostrar mensagens com a etiqueta Luísa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luísa. Mostrar todas as mensagens

24.7.11

NADAR E ENTENDER

- Tem que ir ao médico Dona Luísa.
- Já fui.
- E ele? Não lhe receitou nada?
- Não, mandou-me nadar.
- Então nade, ora essa. Mais vale nadar que querer entender as coisas não acha?
- Não, não acho.

16.6.11

PODEM COMER-SE PALAVRAS

 Sem luz, grandiosos e serenos, os abraços do Afonso. Eu recebia-os calada. Porque palavras são molas a trincar sentimentos.

6.6.11

FLORES MORTAS

Levantei-me num pulo. As flores da jarra existiam mortas, o cinzeiro da cómoda estava com pó e o cheiro das velas, da canela e do café tinham desaparecido. O meu lugar do sono estava branco. Ri muito alto e corri para a janela. Havia barulho e as mães ralhavam com as crianças que não queriam entrar no carro.

27.5.11

DISPARATE

- Firme nesse olhar a estrada, Luísa.
- Estava a pensar. Quando chegar a casa, tenho que ir buscar a folha branca.
- Estás bem?
- Estou óptima.
- Depois do fim-de-semana voltas para perto de ti.
- Estou sempre perto de mim, Pedro.
- Mesmo quando viajas numa espécie de corda entre duas pontas que te assustam?
- Mesmo quando estou em cima da corda, estou perto de mim, acredita.
- Claro que acredito. Depois do cansaço, os olhos ficam mais lentos, não é Luísa?
- É. Estou cansada mas feliz.
- Devemos chegar dentro de meia hora.
- E continuo a ver muito pouco.
- Acreditar no que não se vê é sempre sinal de afecto, sabias?
- Ou de estupidez.
- Não achas que vale a pena olhar para o que não se vê?
- Acho. E também acho que a lucidez pode conduzir à loucura.
- Que disparate, minha querida, que disparate.

30.4.11

ALHEADO

Saiu com as calças pretas vestidas por baixo de uma camisa mais preta ainda. Trazia um livro bem encadernado debaixo do braço. Não vi o título, mas parece-me que A Psicopatologia da Vida Quotidiana de Freud lhe assentaria como uma luva. Podia ter-lhe perguntado porque razão se mantinha tão alheado do mundo quanto eu, mas sei que perguntas dessas não se fazem a ninguém.

29.4.11

ENCONTRO

- É tudo tão simples, Pedro. 
- É. Quando gritas e te encontras eu fico com essa certeza. 
- E tu? Encontras-te no silêncio? 
- Não se fazem perguntas para as quais se tem resposta, Luísa.

28.4.11

SIMPATIA

- Que simpático, Pedro.
- Simpatia é outra coisa.
- É?
- Sabes que sim.
- Olha que me vou enfiar dentro de um caixote com rodas e tampa.
- Para quê?
- Para tapar a minha timidez e descer a rua com ela.
- Deixa-te disso, Luísa.
- Não vale a pena perguntar para onde vamos pois não?
- Não.

5.3.11

A VIDA DAS HISTÓRIAS

Depois da história fica a vida. Inventam-se palavras, mastigam-se instantes de loucura encarnada. Os dedos descansam em cima da almofada branca, como se tudo pudesse acontecer ali, perto dos que nunca existiram porque nunca estiveram. Depois da história escrita em linhas pretas, a vida acontece depressa. O corpo estica-se e à cama se recolhe uma alma comprometida.

4.3.11

ABISMOS INSANOS

A mania de escrever o que não existe em cima do que acontece leva, algumas vezes, ao abismo insano. Há amores que se adiam. Há uma lição que nos é dada pela pessoa que será, talvez, a mais sensata numa das obras de Proust, uma certa Mme Leroi, à qual, quando lhe é pedida a sua visão sobre o amor, responde: “Amor? Faço-o muitas vezes, mas nunca falo sobre o assunto”. Talvez seja esse o erro, o de se querer falar sobre um assunto que não sustem as palavras. Persiste-se em erros e mantêm-se recusas. Olha-se para a parede branca. Supõe-se que estão lá letras azuis e fica-se com os olhos fixos em frases que não existem.

3.3.11

CANDEEIRO VELHO

Estou sentada, o candeeiro tem uma lâmpada pequena e eu faço um esforço para te escrever. Chove muito lá fora. Vim passar uns dias ao pé do mar mas acabei por ligar o aquecimento e a lâmpada de um candeeiro velho. Fiquei em casa a construir frases. O mar está azul demais para que o possa entender. As ondas desapareceram e eu não sei se alguém é meu vizinho. A avaliar pelo silêncio, julgo que apenas a poucos quilómetros poderia encontrar com quem jantar. Tenho medo de existir. Está frio e o meu nariz fica vermelho de raiva quando o vento e a maresia se misturam para uma visita.

2.3.11

DEIXAR SER

Era a época do encontro. Tinha entendido a importância de deixar ser no amor. Há alturas em que o amor se funde com a morte, como se as duas realidades não pudessem separar-se. Fundiu-se o desejo de música com o dia do seu fim. Entregou o disco. Ficou o registo dos sons depois de todo o ruído desaparecer. Ficou escrita a história e, por causa disso, o amor não acabou. Por causa disso foi para um lugar longe do tempo.

1.3.11

CONTA PAGA

Levantou-se com a impressão de que o chá verde se tinha transformado em massa consistente no estômago. Tinha ouvido palavras. Todos os sons se transformavam em grito. As mãos eram garras prontas a deixarem-na sem ar. Levantou-se e deixou as flores em cima da mesa. Foi estúpida quando puxou a nota de vinte euros e disse: “pague tudo”. Idiota. Tinha de ter saído sem pagar nada. As palavras já lhe tinham feito mossa suficiente, não era preciso ficar sem a nota de vinte euros. Conduziu até casa com um disco gravado há muitos anos para o dia da sua morte. Mataram-na, deram tiros para o seu chão. E agora?

3.11.10

PORQUE SIM


Numa noite em que o calor tomava existência no escritório, Luísa encontrou um corpo por trás de um monitor rectangular e claro. Escrevia palavras com jeito.

Os parágrafos sucederam-se com conteúdo e forma. Bonitos. O interlocutor foi plano. Luísa arrepiou-se, colocou a sensibilidade acima do entendimento e a beleza das palavras aconteceu, a troca de experiências foi realidade. Os dois existiram enquanto foi possível a existência a quatro mãos. Depois, ficaram duas mãos de um lado e duas mãos do outro.
Quando um par de braços se afasta e as mãos se descolam de um teclado dividido em noites quentes, há gente a correr, com o grito calado, com uma indiferença ou uma qualquer indignação. Não tem importância, há relevância nos acontecimentos que encontram sentido numa relação directa de si para consigo. Luísa calou mas sabe, até hoje, que aquelas mãos tiveram forma no momento em que era urgente escrever e sentir.

Agora, enquanto escreve o passado, deseja um presente bonito para quem foi actor de uma história que resvalou no silêncio. E grita alto aos que a ouvem: as palavras não escritas são, muitas vezes, o desassossego, a respiração que se trava porque sim.

31.10.10

MARGARIDAS BRANCAS


Lembras-te da história que escrevi antes? Era a de uma mulher e de um homem com muitas coisas para contar. Viviam os dias cruzados por gestos e viajavam para sul quando o sol lhes indicava o caminho. Fechavam-se dentro de uma casa com paredes grossas e faziam a cama com lençóis de linho antigo. Abriam a janela para o canto dos pássaros poder entrar e colocavam na mesa margaridas brancas que retiravam do jardim.

30.10.10

OUTRA HISTÓRIA


Prefiro outra história. A história de quem oferece rosas brancas compradas na florista da Avenida de Roma e corre até ao Chiado para se sentar à mesa de um restaurante que existe desde os anos oitenta e continua lindo. A história de alguém que veste um blusão azul-escuro com pêlo por dentro e o despe para o pendurar na cadeira, antes de se sentar com o corpo e as flores no mesmo gesto.

27.10.10

PEQUENA MORTE


Os franceses chamam ao orgasmo la petite mort, já pensaste nisso? O momento de uma pequena morte é o momento do prazer superior. O instante absoluto da passagem é, com certeza, a libertação, o alívio, o caminho, a elevação, o prazer de outra forma, muito mais intensa, por certo. Morrer é um momento bonito. O sofrimento da partida confunde-se com o sentimento da elevação. O corpo desprende-se e a sensação deve assemelhar-se ao prazer sexual. É difícil definir a morte e o prazer. Já tiveste que explicar a uma criança todas estas coisas? Experimenta. Vais sentir a mesma dificuldade que eu. A analogia é o recurso, a metáfora é a ferramenta e, tudo o que usares para clarificar o conceito ou a sensação te parecerá limitado.

26.10.10

COM A MORTE DENTRO


Sabes o que penso? A vida tem a morte dentro dela. Todos os dias os nossos pés vão em direcção a um fim. Continuamos a percorrer a estrada, convencidos de que não vai acabar. É preciso que nos deitemos numa maca dura e fria a caminho do hospital para percebermos a impermanência e a finitude. É preciso que o peito expluda de dor para que nos lembremos de que vamos morrer. É preciso que o amor esbarre no abismo para percebermos que ele nunca existiu ou que subsistirá.

25.10.10

LONGE DAS GAIVOTAS


Desculpa. O mar continua azul demais e eu continuo sentada. Entre as palavras que lês tomei um duche, esfreguei o cabelo com força, pus creme gordo nas pernas e viajei. Sem maresia, o meu nariz mantém um aspecto mais saudável. Desculpa. Estava chuva demais para poder continuar a história que comecei perto das gaivotas. Voltei a casa porque não aguentei o voar delas. Apercebi-me que não tinha asas e acelerei em cima do alcatrão molhado até ao sítio dos humanos de pés no chão e olhar num horizonte que não conseguem perceber.

23.6.10

ATRÁS DA PORTA


Despe o casaco e respira fundo. O silêncio da casa é interrompido pela campainha da
porta. Espreita pelo óculo e vê uma mulher que sorri:
- Luísa?
- Como sabe?
- Pela forma como tocou à campainha.
- Vai abrir a porta?
- Vou. Quando encontrar um motivo.

19.6.10

PORQUE SIM


Numa noite em que o calor tomava existência no escritório, Luísa encontrou uma alma redonda e clara. Escrevia palavras com jeito.

Os parágrafos sucediam-se com conteúdo e forma. Bonitos. Luísa arrepiava-se, colocava a sensibilidade acima do entendimento e a beleza acontecia.

Depois ficavam as mãos e o grito. A ponte era percorrida.

Hoje, enquanto escreve, pensa num presente bonito. E grita alto aos que a ouvem: as palavras não escritas são, muitas vezes, o desassossego e a respiração que se trava porque sim.