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24.1.13

Maria Francisca

A Maria Francisca não veio, não ouvi a campainha e não me levantei. Não dei o pulo, não fiz o chá e não calcei as botas. A Maria Francisca não veio porque o cansaço lhe disse que seria melhor ficar à procura de uma justificação. Não interessam as causas, quando os comportamentos iludem e as ausências comprovam tudo.


25.7.12

O amor também se come

O senhor José era o dono da mercearia mais chique do bairro. Tinha por hábito fazer panquecas para os vizinhos do prédio e dizia bom dia com todos os dentes que lhe restavam. O homem das colheres de prata dizia que o amor também se come e a Maria, no dia em que percebeu que não recebia as panquecas do Sr. José por sair sempre cedo de casa, ligou ao homem das colheres de prata para lhe ensinar a fazer o amor que também se come.

19.7.12

Amor não se pede


As pessoas têm manias esquisitas. Não sei ainda se, esquisitas são as manias ou as pessoas. Encontrei um marido a chorar porque a mulher o tinha abandonado e disse-lhe:
- Há abandonos que causam lágrimas definitivas, vai ver que essas são transitórias.
- As lágrimas?
- Sim, caem no chão e daqui a pouco estão secas.
- Mas o amor não seca.
- Quem lhe disse? Se o deixaram só, é porque o amor já secou. Levante-se e vá para a praia perceber que só o mar não seca.
- Quem está de fora tem sempre palavras, não é?
- Não, quem está de fora vê com maior nitidez.
- Eu amo-a, e já lhe pedi para ficar comigo.
- Ama-a? Então deixe-a ir para onde ela quiser, ou julga que amar é pedir?

18.7.12

Grito e silêncio


Foi-se embora no dia 1 de Abril, pareceu-me mentira. Não era. O dia 1 de Abril passou a ser o dia da maior verdade, o momento em que percebi a importância de uma mulher na vida de um homem. Nenhuma. Zero. Finito. Vazio.
A certeza do vazio finito adensou-se agora. Depois de tanto tempo ainda lembro os dias e as noites e os beijos e os gritos. Ela gritava muito enquanto eu lhe dava amor. Um dia disse-lhe que era melhor engolir o amor inteiro do que fazer aquele barulho ridículo. Respondeu-me com mais um grito e eu calei-me.

9.12.11

Compota

Morris Louis













Depois das personagens com destino incerto, resta a esperança de um sábado cheio de compota de morango em cima da fatia do pão quente.

6.12.11

Teresa

Morris Louis
















Estou cansada e tenho que começar. A Teresa nasceu e saiu daqui. Está à espera de quem lhe dê um destino. O futuro dos personagens depende sempre de quem não os criou. É injusto.

18.11.11

Ele foi com ela à missa

Ele sentou-se ao lado dos estranhos. Ouviu tudo o que, de dentro, podia ouvir. Percebeu que podia encontrar respostas. Não se incomodou. Ele não viu qualidades nem defeitos, olhou para o altar e conversou com Deus. Acreditou que naquele lugar podia encontrar-se, mesmo que as velas se apagassem e os estranhos fossem sacanas.

17.11.11

Ela foi à missa

Um dia ela foi à missa e encontrou estranhos. Estavam sentados, os olhos postos no infinito e os ouvidos ausentes. Ela sentou-se e viu. Viu o crente e o ateu, o honesto e o sacana, o homem e a mulher, o filho, o pai, a mãe, o vizinho, o amante e todos os que rezavam em silêncio. Encontrou estranhos com a convicção em cima dos ombros e acreditou que, ali, a verdade andava espalhada por cima de todas as dúvidas.

2.4.11

LUÍSA

Há muito tempo que existe. Tem um marcador neste blogue. Luísa experimentou quase tudo, é a personagem que vive no tempo dos silêncios falsos e das palavras frias. Eu não sou a Luísa, mas podia sê-lo, se quisesse!

1.4.11

ANA

Ana era uma mulher prática. Usava calças e saltos rasos para poder subir e descer com rapidez. Quem a conhecia sabia-a inteligente, quem não privava com ela, julgava-a mulher vazia. A Ana não se importava, estava tão habituada a que segredassem nas suas costas que se ria imenso. O sentido de humor era uma das suas armas fortes, usava-o todos os dias, apesar de ser entendida apenas por alguns. Às vezes diziam-lhe:
- Cuidado, essa ironia pode ser mal entendida…
- Que entendam o que quiserem.
Ana era tão determinada que rompia o ar enquanto andava. Amada por poucos, sabia-se inteira e isso era importante.

31.3.11

RUI

Sempre conheci o Rui com os colarinhos da camisa engomados, os botões pregados, as calças vincadas e as ideias em gavetas. Não consegue viver com um cabelo fora do lugar e isso traduz-se numa presença assídua, silenciosa e bem comportada. Penteado até às profundezas do crânio, é o tipo de homem de que todas as mulheres gostam mas nenhuma mulher quer.
No dia em que me conheceu, disponibilizou-se para ajudar no que precisasse. O Rui estava contente, havia uma colega a quem ele podia mostrar a sua bondade. Nunca duvidei da bondade do Rui e sempre lhe reconheci competência.

30.3.11

MARIA

A Maria adorava reunir, convocava os colegas como quem envia convites para festas. Era um prazer encher a mesa de folhas, informar sobre aquilo que poderíamos ler em casa no e-mail, encetar diálogos vazios e fazer pouco mais que coisa nenhuma durante duas horas. Há muitos anos que eu conhecia a Maria e a sua obsessão por reuniões. Vivia sozinha num apartamento com quatro gatos e a sua vida era pouco mais que o emprego e as compras de super-mercado. Era uma mulher baixinha, sem pescoço, com o queixo ligeiramente curvado na direcção do nariz e uma capacidade de síntese igual à dos secretários de estado. Presidia às reuniões como quem preside a uma importante assembleia, com a seriedade posta no rosto, a responsabilidade em cima dos ombros e a postura cheia de uma importância que não existe, considerava o seu cargo parecido com o de um monarca que tem que tomar decisões sobre o futuro de um país.
Todos percebíamos a necessidade de afirmação da Maria, todos a ouvíamos com atenção, ela ficava contente quando as pessoas olhavam para o vazio das suas palavras. Em dias de reunião levava sempre o batom nos lábios e o colar no pescoço. Era espessa a expressão que fazia quando nos interpelava sobre questões pequenas.