17.4.08

NORMAIS ESCRAVOS


(Paula Rego)

Normal: o que é regular, frequente, aquilo que se considera prática da maioria dos seres humanos. Passa a ser normal o português cuspir para o chão quando, grande parte das pessoas o fazem. Se a maioria dos cidadãos decide calar-se face a uma fila de três horas na repartição de finanças, a normalidade assume dimensões desastrosas. Quando consideramos normal o filho responder de forma agressiva ao pai, o pai bater no filho, ou um idoso ser abandonado por não haver tempo para lhe oferecer, a sociedade adoeceu, sem remissão. Proporções assustadoras e, de alguma forma pornográficas, são as que permitem assumir a normalidade como aquilo que a maioria faz regularmente e, por isso, tem unânime aceitação. Se alguém esbarra na infeliz ideia de sair do trilho a ponto de reflectir sobre o comportamento impensado da maioria, será esse o anormal que ousa questionar aquilo que é engolido sem interrogações. Podemos correr riscos quando ousarmos manifestar desagrado frente ao que defende a imbecilidade de uma normalidade de plástico. Cuidado. Não ousemos ousar, nem pensar, nem perguntar coisa alguma que se defenda como instituída, sem mais. Fiquemos quietos quando nos apetece gritar de indignação, beijar com paixão, correr com energia, abraçar com força ou pôr em causa a normalidade que nos é ensinada por baixo do pano estragado de um bom-senso emprestado. Sejamos pacíficos, iguais a todos os outros. Estejamos quietos para que as represálias não aconteçam, para que o chefe não se zangue nem o pudor se manche.
Aristóteles defendia que todas as pessoas se devem esforçar por seguir o que está certo e não o que está estabelecido. Sabemos que, nos nossos dias, o que está estabelecido é, curiosamente, o que está certo.

16.4.08

PARA DENTRO


Sai de si e escorrega. O corpo em transe por segundos lentos. Há, entre o chão e o sofá já gasto dos gritos, a vida que procura. Fecha os olhos e as entranhas a tudo o que não é mundo e vai, para dentro. Agarra a força todos os dias. É mulher. No sofá onde desliza e se contenta, sabe que é o que o corpo sente, quando as ideias param por momentos.

15.4.08

SOMOS MUITOS


(Paula Rego)

Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colónia do nosso ser há gente de muitas espécies, pensando e sentindo diferentemente.

(Fernando Pessoa; Livro do Desassossego)

14.4.08

GRITO DA SEMANA


(Paula Rego)

Jean Paul Sartre. A existência precede qualquer tentativa de definição do eu. A existência que é, antes de qualquer explicação, o que me define, o que me proporciona ser. Desenho a minha vida, faço o meu retrato, construo-me enquanto existo, defino-me enquanto ajo. Não pode haver quietude. A única coisa que permite ao homem viver é o acto.

12.4.08

6 - PAULA REGO




Paula Figueiroa Rego nasceu em 1935 em Lisboa. Partiu em 1954 para frequentar a Slade School of Art em Londres. Casada com um inglês permaneceu em Inglaterra, onde fixou residência, desde 1976. As suas raízes trazem-na regularmente a Portugal onde exibe com frequência. Com um nome reconhecido em todo o mundo, é colocada entre os quatro melhores pintores vivos em Inglaterra.

11.4.08

VIAGENS DIONISÍACAS



Mark Rothko sai Da Dobra Do Grito. Bebeu em Baco a inspiração e encontrou-a em cada obra com a mesma facilidade que se encontra a alma, em viagens Dionisíacas.

10.4.08

DOBRAS E GRITOS (17)


(Rui Pelejão escreve sobre o futuro da velhice)

"UMA SEGUNDA JUVENTUDE"


(Rothko)

Aos 70 anos, 10 anos decorridos desde o seu último filme, Francis Ford Coppola, volta com uma odisseia espiritual retomando grandes temas filosóficos. Inspira-se na escrita de Mircea Eliade e sobra a reflexão sobre o tempo, a memória, a identidade e o conceito da vida como sonho.

A presença está marcada, em breve.

9.4.08

SEXO NOS LIVROS DO VATICANO


(Rothko)

Li aqui que a biblioteca do Vaticano é, no mundo, a que mais livros tem sobre sexo.
O pensamento voou para corredores escuros, portas escondidas, batinas fantasiosas, proibidas trocas, secretos ensaios, tímidas luzes.
O meu pensamento nem sempre é prescritível, peço desculpa.

8.4.08

DOBRAS E GRITOS (16)

É a sensação de escrever para ninguém. Se, por um lado, fica o desprendimento cheio de tudo, por outro, o nada resta.

7.4.08

VERMELHO E ENCARNADO


(Rothko)

Sempre que o vermelho impera na pintura, na literatura, na vida, fico com a sensação de que alguma coisa boa sugere. Coisa quente, intensa e, ao mesmo tempo, terna e ténue. Já com o encarnado não tenho essa intuição, parece-me sempre que alguma tourada está prestes a acontecer.

4.4.08

PROCURA DE INQUIETUDE


(Rothko)

Avizinha-se fim de semana tranquilo. Quando a pintura desencadeia inquietude, sento-me num lugar onde possa vivê-la de perto.

3.4.08

APETITES


(Rothko)

Hoje apetece-me dizer não. Às vezes preciso de sentir o poder da negação.

2.4.08

FUGA



Quando o azul desaparece do céu inventado por mim, recebem palmas as gaivotas da praia deserta. Quando a areia molhada recebe pés que passam sob o azul do céu que eu invento, o dia começa no voo das gaivotas molhadas e nos passos de quem foge de si.

1.4.08

DOBRAS E GRITOS (15)

Parece que Moisés ouvia vozes...

O COLECCIONADOR DE SONS


(Rothko)

Um ídolo nunca ganha esta condição por si mesmo, mas pela adoração dos que o rodeiam. É a idolatria que faz o deus. Mas como pode haver adoração se o fetiche se ausenta do seu pedestal? Conheci mais o meu pai pelas conversas ouvidas à mesa e os quadros que as suas cartas descreviam que pelas horas que ele passou ao meu lado. Com efeito neste preciso momento deve estar a gastar os olhos em cima de um andaime, sob a luz ténue de alguma abóbada, a trabalhar num retábulo de igreja (...), ou sobre a tela de um dos retratos que os nobres ainda lhe encomendam. Foi talvez por isto que nunca quis ser pintor; tudo o que se interpõe entre um homem e os seus afectos causa grande aversão! (...) A negação dos sentimentos é uma garantia de sossego, mas é também o recurso dos cobardes.

Fernando Trías de Bes; O coleccionador de Sons (Porto Editora)

31.3.08

GRITO DA SEMANA


(Rothko)

Legislar asneiras. A culpa está no legislador, no governo ou no cidadão que cumpre cegamente as asneiras ditadas em lei?
A mediocridade está a tornar-se insistente, tenho medo que se eternize.

29.3.08

AS MÃOS


(Rothko)

Mãos. As que sentem o calor e a textura. Apertam. Mãos. As que agarram para não deixar cair. Acarinham. As que produzem coisas que embelezam. Trabalham. As mãos são, no corpo, o mesmo que as ideias são na alma.

28.3.08

GAJA


(Rothko)

(...) Ser gaja não é para todas. Só quem passa por testes sucessivos de vida pode merecer um nome macio e sedoso. A gaja é sempre a mulher que está perto, a amiga íntima ou a companheira de viagem. É, também, aquela que confidencia e ouve confidências, a que fala a noite inteira antes do sono anunciado e, sempre adiado. A gaja com quem se vai ao cinema, com quem se divide o gelado, passeia de mão dada na marginal ou com quem se dorme, porque dormir com a gaja é a tradução física de cumplicidades trocadas todos os dias. A gaja está sempre lá, atende o telefone a qualquer hora e ouve palavras sem tempo marcado. É preciso, para ser gaja, estar e ser disponível. Anos a fio de saídas, jantares, segredos, vidas trocadas, lençóis mudados, canções ouvidas, suor dividido, concertos sem hora para acabar. O gajo, o que oferece o nome à gaja, existe desde que ela entrou na escola e dividiu a carteira com ele, a borracha emprestada, o afia lápis no estojo alheio, a aula de Educação Física em que as cavalitas de um são as do outro, os abdominais que se dividem sob o disfarce de esforço solicitado. A gaja e o gajo estão lá, na estrada longa da vida, lado a lado. Às vezes ficam quietos, calados, olham um para o outro como se soubessem tudo. Nada para dizer para além dos olhares quase adivinhados. Eles sabem o que querem, o que pensam, o que não desejam e para onde vão. São os gajos mais porreiros da escola e ninguém os vê separados. As noites de estudo são rotina, o café feito antes do sol nascer, Elis Regina no gravador pequeno trazido de Andorra e muitas palavras escritas nos cadernos da faculdade.Para se ser gaja tem de se ser história na vida do gajo e, só para ele, o nome se aplica. Qualquer “transeunte” que pense apelidar a menina com o exclusivo nome que o gajo lhe ofereceu, pode ser levado tão a peito que, deslize para a mais ténue das indiferenças.

27.3.08

5 - MARK ROTHKO


(Rothko)

Mark Rothko nasceu a 25 de Setembro de 1903, em Dvinsk, Rússia (agora Letónia). No início dos anos 40, trabalhou em estreita colaboração com Gottlieb, desenvolvendo um estilo de pintura com conteúdo mitológico, simples formas planas e imagens inspiradas pela arte primitiva. Entre 1940 e início dos anos 50, assistiu-se ao aparecimento de Rothko em maduro estilo, frontal, luminosos rectângulos parecem pairar sobre a lona superfície. Completou murais para Harvard University, em 1962 e em 1964. Morreu a 25 de Fevereiro de 1970.

O Rothko Chapel, fundada por John e Dominique de Menil, foi consagrada em 1971 como um santuário íntimo disponível para pessoas de todas as crenças. Acolhe milhares de visitantes todos os anos de todas as partes do mundo.

26.3.08

SEM LIMITE


É um Senhor. Simpático. Bem Humorado. Recebe divinamente e tem sempre à mão uma história para contar. Júlio Pomar é, depois dos setenta, o homem que percebe que a vida só chega a um limite se o buscarmos ou o recebermos. Obrigada Júlio.

25.3.08

BLOG TRISTE


(Pomar)

Ouvi dizer que tinha um blog triste, sério, cinzento. Precisava de alegrar as palavras e as ideias. Não sei quem disse. Sei que o farei, no dia em que me apetecer ficar ao longe, a olhar para as ideias que mais ninguém quer, a sentir as imagens que mais ninguém vê e a construir as cores que mais ninguém ouve. Eu já tive um blog popular, visitado por muita gente, pessoas que queriam espreitar emoções vividas ou inventadas. Era o tempo das fotografias de homens bonitos e mulheres elegantes, palavras que me saíam dos dedos porque as vivia ou imaginava. Agora tenho um blog triste. Eu sei. As coisas constroem-se quando fazem sentido. Não sou de ficar no mesmo sítio quando uma espécie de vida já me mandou embora. Aqui espera-me a outra vida, a que depende apenas da minha imaginação.

20.3.08

PÁSCOA FELIZ


(Pomar)

A Páscoa é sempre no primeiro Domingo depois da primeira lua cheia, depois do equinócio da Primavera (20 de Março). Esta data baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual é uma festa móvel no calendário romano. Este ano a Páscoa acontece cedo (23 De Março). Apenas daqui a 220 anos, em 2228, a Páscoa voltará a celebrar-se neste dia.

Voltarei depois do dia da ressurreição, dos ovos de chocolate, das amêndoas e das Boas Festas.

19.3.08

PARABÉNS


Aos pais que amam, sofrem, cuidam, beijam, abraçam, acompanham, alimentam e se entregam. Parabéns!

18.3.08

NÃO VOU


(Pomar)

Não vou. Prefiro ficar quieta. Debaixo da mesa. Estico as pernas e não me mexo. Não vou. Prefiro que o tempo se pendure. Fecho-me no riso que não solto e no silêncio em que me mexo. Não vou. Prefiro que o mundo desabe enquanto reflicto no que não fiz e no que não pensei. Não vou até que chegue o dia em que possa mudar a mesa de sítio e o corpo de condição.

16.3.08

GRITO ANTECIPADO


(Pomar)

O grito antecipou-se. Domingo. Dia das tolices, dos absurdos, do tempo gasto na cama até tarde, do passeio higiénico, das eventuais compras da semana, da família dentro do carro a caminho do almoço em Cascais. Dia que nem é fim nem princípio. Domingo é um dia abominável. Acontece tudo menos o que se deseja. Acontece a inércia idiota e tola que, todas as semanas, se repete como se não conseguíssemos fazer de um simples dia, um acontecimento inenarrável. Repetir a mesma tolice Domingo após Domingo é sinal de alguma demência camuflada. Hoje não vou a Cascais nem fico em Lisboa, nem durmo até tarde nem faço compras. Este Domingo passará a ser um Sábado, o dia em que as emoções se levantam cedo.

15.3.08

POUSAR A PASTA


(Pomar)

Quando se pousa a pasta e se olha pela janela, o mundo fica com mais textura. O trabalho espera-nos passados dois dias mas, achamos sempre maneira de pensar o contrário.

13.3.08

ESQUINAS DA VIDA


(Pomar)

Quem, nas esquinas da vida, segue no erro do grito calado, da fala muda, da cama fria, do prato vazio. Quem, nas esquinas do dia, segue na ausência de gente, de beijo, de abraço, de sorriso e de pranto, pode, quem sabe, dobrar qualquer rua íngreme, fria, triste, escorregadia, que lhe surja no espaço e no tempo sempre adiados.

12.3.08

A NÓS



Espreguicemo-nos no manto da acalmia e da solidão encontrada a custo. Fiquemos fechados sobre as ideias que são nossas. Porque, aos outros, devemos o bom senso. A nós, devemos tudo, até a quietude ociosa que pouco produz.

10.3.08

GRITO DA SEMANA


(Pomar)

Porque hoje é segunda feira, a semana começa com um grito. A beleza que nos causa o prazer que os sentidos agarram com força não é a perfeição, essa, sabemos que não existe. É a beleza que agarramos nos instantes em que, paralisados, olhamos, ouvimos ou estamos. Como se não fosse possível a mobilidade perante o indizível. A beleza não se verbaliza porque se desfaz a seguir. Dizer os prazeres belos é, normalmente, cair no desprazer inquieto das palavras evitáveis.

7.3.08

MANCHA?


(Pomar)

Se quisermos vemos mancha, se não, vemos a força que se move em direcção a um objectivo. Escuro. Poderoso. Permanente. Se quisermos vemos preto, se não, vemos o salto de alguém que procura verdades que lhe fogem, como se fosse possível agarrá-las com a força de alguma eternidade.

6.3.08

4 - JÚLIO POMAR




Nasceu em 1926, em Lisboa, e instalou-se em Paris em 1963. Actualmente vive e trabalha em Paris e Lisboa. Dedicou-se especialmente à pintura, mas o seu trabalho inclui também obras de desenho, gravura, escultura, ilustração, cerâmica, tapeçaria e cenografia para teatro. Realizou obras de decoração mural em azulejo para a Estação Alto dos Moinhos do Metropolitano de Lisboa, (1983-84).
A Fundação Gulbenkian organizou em 1978 a primeira retrospectiva da sua obra, que foi exibida em Lisboa, Porto e Bruxelas. Em 1986, uma nova exposição retrospectiva foi apresentada pela Fundação Gulbenkian em museus de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e também na sua sede, em Lisboa.
Publicou, em 2002, o volume de ensaios «Então e a Pintura?» e em 2003, o poema «TRATAdoDITOeFeito».
Em 2004, o CCB expôs uma antologia de obras recentes intitulada «Comédia Humana».

4.3.08

PROTECÇÃO DE ECRÃ


(Miró)

Proteger o monitor do seu computador com esta imagem, é o mesmo que olhar para a manhã, todos os dias, com a sensação de que a tarde não chegará.

DOBRAS E GRITOS(13)

Manhã. Poderoso período do dia. Deveria ser dedicado à contemplação do que existe. Dentro e fora de nós.

3.3.08

GRITO DA SEMANA


(Miró)

Deveria ser interdita a entrada no bosque a quem não soubesse inalar, de olhos fechados, todos os odores que acompanham os sons e as cores.

1.3.08

A ESTRANHEZA DO SILÊNCIO


O espaço era pequeno e despojado de coisas. Sentei-me. Eram poucos bancos, espalhados ao acaso. As paredes estavam nuas. Não existiam sons e havia poucas cores. Fechei os olhos. Alguma coisa transcendente ao tempo e ao espaço invadiu o momento. Senti tudo de muito perto. Quieta. As pessoas tinham ido embora. O espaço parecia agarrar-me com força, não permitia o movimento do olhar, nem do pensamento. Sabia que o tempo passava à minha volta. Não ousei mexer os braços nem as pernas. Continuei de olhos fechados. Alguém me tocou no braço devagar:
- Desculpe, não pode estar aqui, estão a chegar os convidados.
- Que convidados? – Questionei.
- As pessoas que chegam todos os dias à mesma hora para festejar.
- Festejar?
- Sim, juntam-se para conversar e beber. Reúnem-se de porta fechada, a festa é privada. Gente exigente, não há permissão para deixar ficar estranhos.
- Não entendi.
- Não precisa de entender, só de sair.
Pensei que podia não estar no lugar certo. Saí devagar e andei pela rua, sem destino. Abri os braços ao rio e gritei, gritei muito. Depois daquela pausa no tempo, percebi que a festa privada não era, de facto, minha. A estranheza do silêncio não cabia naquele tempo de pessoas, nem no espaço inteiro da minha ausência.

29.2.08

AVÔ


(Miró)

Hoje era o dia do aniversário do avô. Tenho a memória da lareira antiga e alta onde me proibia de mexer no lume. Eu acreditava que, se mexesse, podia fazer xixi na cama de noite.

28.2.08

FACE OCULTA (3)




Depois vieram os olhos de quem considerou que, a vida ultrapassa as imagens e o amor permite a abundância do sol e do vento.

27.2.08

FACE OCULTA (2)



Houve ainda alguém que, considerou importante dizer a si próprio, que o vento pode pintar-se.

26.2.08

FACE OCULTA (1)


A representação do amor ainda é o coração vermelho. Parece-me ideia de quem, um dia, considerou importante dizer a si próprio que, o que verdadeiramente interessa, não é visível.

25.2.08

GRITO DA SEMANA


(Miró)

Porque hoje é segunda-feira, a semana começa com um grito, o de Oscar Wilde.
A questão prende-se com a mulher que tem a consciência entupida de ideias contrárias às que, intimamente, deseja que se materializem. A que se prende de braços e pernas aos ideais mal herdados, sem que possa, por uma vez na vida, ser o que sente. O rosto do politicamente correcto enche-lhe os sentidos, proporciona-lhe o vómito escondido e mudo que, sem pensar, transforma em moralidades que o corpo não aceita e a alma teima em defender, porque sim. É esta consciência inconsciente, a vontade plastificada do feminino mal vivido que ainda persiste. É preciso parecer bem comportada, ser o que as entranhas não pedem, assumir a postura da boazinha, para que não pareça indecoroso ser mulher, com tudo o que isso implica.

24.2.08

LETRA P


(Miró)

Poderosa, Pertinente, Prodigiosa, Ponderada, Proficiente, Primordial. Com a letra P Pensamos e Prosseguimos. Pacientemente. Letra da Proeza e do Prodígio.

22.2.08

DOBRAS E GRITOS (12)


(Miró)

Que dancem os corpos e cantem as almas. Que se festeje, mesmo quando o motivo é, explicitamente, nenhum.

21.2.08

"PATERNIDADE DOMÉSTICA"


(Miró)

Li, num Jornal daqueles que chega a nossa casa sem que tivéssemos pedido nada, a seguinte manchete: há homens portugueses que abdicam da carreira para ficar em casa com os filhos. Lavam, passam, limpam, trocam fraldas, enfim, dedicam-se às tarefas domésticas do quotidiano, as que um homem casado e pai de filhos deve fazer de forma igual à mulher com quem vive, com quem se casou e com quem teve filhos. Não entendi muito bem porque razão esta é uma noticia de jornal, seja ele qual for. Mas pronto, isto sou eu, com o meu mau feitio, a considerar que os portugueses deviam ser e estar de forma mais esclarecida. Não estão, é um facto, já perdi a esperança e tenho pena.

20.2.08

LONGE DE MIM


(Miró)

Não gosto de gatos. Inspiram-me desconfiança, desalento, arrepio, traição. Ainda não percebi se o problema está nos gatos ou em mim. Ainda nem percebi se este é um problema.

19.2.08

DOZE PALAVRAS


Respondendo à proposta da Teresa C., penso e repenso doze palavras preferidas:

Menina – a inocência.
Devaneio – a imaginação.
Calma – a pausa.
Música – o despertar dos sentidos.
Fêmea – a mulher inteira.
Clima – o que se respira.
Paixão – o corpo inteiro e a alma nua.
Vontade – o que permite a vida bonita.
Força – a sobrevivência valente.
Corpo – uma forma de existência.
Alma – a existência completa.
Abraço – o amor verdadeiro.

18.2.08

VAZIO


(Miró)

Se não fosse a chuva intensa, se não tivesse regressado a casa a tremer de medo, não haveria post hoje. Assim, mesmo sem nada para dizer, ficam as palavras vãs de quem, a salvo de inundações, se permite a vazios como este.

16.2.08

A INTELIGÊNCIA DO RISO


(Miró)

Perder o sentido de humor é não conseguir ver, com os olhos da inteligência, para lá do que acontece. Perder a capacidade de rir é não conseguir perceber, para lá do que acontece, que nem tudo pode ser levado a sério. Perder o sorriso é, para lá de tudo, ficar sem alma. Não ter sentido de humor, nem riso nem sorriso é existir sem ter vida.

15.2.08

OLHARES


(Miró)

Diz o povo: os olhos são o espelho da alma. Há que submeter ao domínio da crítica alguns lugares comuns. Este, parece-me resistir ao filtro pensado de uma conduta racional lógica. Os olhos não espelham a alma, é o olhar que a denuncia. Se a alma for a essência que encerra todo o ser que sente, o olhar é, sem dúvida, o espelho do que acontece cá dentro. Há olhares vazios, penetrantes, desafiadores, perigosos, desagradáveis, amorosos, agressivos. Algumas vezes os olhares parecem não fazer parte dos olhos nem da cara, como se o gesto saísse, por momentos, do corpo que o produz.

DOBRAS E GRITOS (11)

Sempre me disseram que tinha um olhar incomodativo. Não me incomoda.

14.2.08

O LUGAR DOS DESENHOS


(Miró)

Numa mesa de madeira antiga, a minha mãe deixava-me entregue à imaginação. Eu era muito nova, pequena demais para chegar com os pés ao chão. Tinha nas mãos a perspectiva do mundo e nas cores as ideias postas. Depois, quando a mesa foi trocada por uma nova, os desenhos foram ficando diferentes, não por eu ter deitado fora a imaginação, mas porque o espaço já não era o mesmo.

13.2.08

RODRIGO


(Miró)

Sempre que oiço Rodrigo Leão, lembro-me da época em que tinha esperanças vãs. Daquelas que se constroem devagar, enquanto o tempo não se vive.

12.2.08

3 - JOAN MIRÓ



Joan Miró nasceu em Barcelona a 20 de Abril de 1893. Apesar da insistência do pai em vê-lo graduado, não completou os estudos. Frequentou uma escola comercial e trabalhou num escritório por dois anos até sofrer um esgotamento nervoso. Em 1912, seus pais consentiram que ingressasse numa escola de arte em Barcelona. Estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris e lhe transmitiu a sua paixão pelos frescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha.
A partir de 1948, Miro dividiu o seu tempo entre Espanha e Paris. Iniciou uma série de trabalhos de intenso conteúdo poético cujos temas são variações sobre a mulher, o pássaro e a estrela. Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe a técnica altamente elaborada. Tornou-se mundialmente famoso e expôs os seus trabalhos em vários países.
Em 1954 ganhou o prémio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris, ganhou o Prémio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris, realizou uma exposição de toda a sua obra.
Joan Miró morreu em Palma de Maiorca a 25 de Dezembro de 1983.

QUANDO EU ME FOR EMBORA


(Resende)

A reflexão sobre a nossa morte é sempre difícil de construir. Imaginamos o corpo deitado, hirto e gélido, as mãos postas sobre o peito e um monte de gente que nos olha com a tristeza da perda. Colocamos enfeites no nosso funeral, flores, música. Há, na nossa imaginação, pessoas engasgadas com a dor. Afiguramos todo o cenário de fim.
Reflectir sobre a morte só faz sentido porque estamos vivos e isso impossibilita-nos a clareza de uma não existência imaginada. Mas insistimos no "filme". Imaginamos os filhos sem nós, os amantes, os amigos e a família, como se a nossa partida fosse transformar a vida de todos os que vivem. Não percebemos que, quando morrermos, nada do que fica nos incomodará, nem mesmo a nossa ausência.

11.2.08

EM ENTREVISTA


(Resende)

Júlio Resende, em entrevista na revista Pública de ontem, afirma que não sabe o que procura, só sabe que procura. Começa sempre a trabalhar sem saber muito bem aquilo que vai fazer. Uma pessoa quando sabe exactamente aquilo que vai fazer, deixa de o fazer, diz. Afirma gostar muito das coisas que não se vêem todas, que não são totalmente perceptíveis. Aos 90 anos considera que há coisas que o querer não pode. Quando a pergunta versa sobre a morte responde:
- É verdade que a morte cada vez me preocupa menos, mas não digo que a deseje. O que desejo é que as coisas se façam como deve ser e como estava previsto.

9.2.08

NÃO EXISTIR


(Resende)

Os fins de semana são bocados de tempo em que, às vezes, apetece não existir. Não aparecer, não escrever no blog, não atender telefones, não fazer refeições, não cumprir horário, não trabalhar, não sair do lugar a que pertencemos por natureza.

8.2.08

FÊMEA


(Resende)

Mulher. A que sabe sentar-se devagar e, com a saia comprida, esconder a fêmea resguardada. Porque ser Mulher é, também, assumir que todo o desejo pode ser entregue, como uma delícia rara. A delícia que só alguns acolhem, os que sabem receber da fêmea, o suco do corpo e da alma.

6.2.08

SER É SENTIR


(Resende)

Fui tomando consciência, ao longo da vida, que não há conceitos que substituam sensações, nem sentimentos que possam submeter-se a palavras retiradas do filtro frio e seco da capacidade aglutinadora do pensar. O homem continua a ser racional e é isso que lhe permite progredir, construir uma linguagem, comunicar. Tem sido essa exclusiva capacidade que o tem empurrado para o progresso científico e tecnológico e, para o mais profundo dos erros cometidos no que diz respeito às relações humanas. Se pararmos para sentir o que somos, teremos, com certeza, sensações mais nítidas do que os conceitos que as segregam. SER não se resume a um aglomerado de especulações filosóficas. SER é sinónimo de sentir, se assim não fosse estaríamos a manipular, por via da razão, aquilo que alimenta toda a alma.

5.2.08

DE VOLTA À MESA


(Resende)

Desta feita, a sala de jantar toma posição de festa. Velas e pessoas. Há, em Lisboa, boas companhias e boas refeições. Em casa, o sabor olhado de frente é, também, uma forma de comunicação.

4.2.08

A CAMINHO


(Resende)

Manhã. Dia inteiro para o caminho. Solto o cabelo. Vou. Com o contentamento posto num velho par de sapatos e numa mochila azul escura.

2.2.08

À MESA


(Resende)

Sentar à mesa. Noite. Prato redondo. Comida quente. Lisboa tem bons restaurantes. Eu tenho óptimas companhias.