Pode haver paraíso no olhar.
Quando ainda se acredita que a vida nos surpreende, quando as mãos de
quem fala encontram palavras mudas que dizem mais que sílabas no meio de um ruído. Não componho mais que um conjunto de cigarros fumados a uma janela
distante de todas as certezas. Há passos inseguros, e depois? Que se façam... até
a música acabar.
13.10.12
11.10.12
10.10.12
Certezas perigosas
A
incapacidade de olhar para trás dos próprios ombros, para além dos próprios olhos
e para depois do próprio mundo, sempre me causou aflição. Encerrados na verdade
rugosa que a pouca vida lhes ofereceu, os estúpidos são os que encarnam a
sabedoria de plástico e a consideram universal, impõem-na como única, e
vivem-na como exclusiva. Longe da sabedoria dos ignorantes, dos que reconhecem
a necessidade e a importância do saber, os estúpidos param no tempo das
certezas que agarram com força, por causa da insegurança do corpo e da alma que
os atormenta até às entranhas.
Não
fosse, a estupidez, mais perigosa que um terramoto, e era bonito sentá-los em frente a si mesmos, fazer-lhes um teste sobre si próprios e ensinar-lhes
que o mundo é muito maior do que imaginam. O problema é que não se sentam, não
se olham e não se conseguem ensinar. O estúpido não colabora, persiste no erro
encarado como certo porque pensa que o certo é apenas ele mesmo.
3.10.12
2.10.12
Os professores estão doentes
O ano letivo começou com a tristeza e a desmotivação.
Semanas antes de conhecerem os alunos, os professores tiveram overdose de reuniões que se assemelharam
a números de circo de terceira categoria. Corpos pouco bronzeados por fora e
estragados por dentro, cheios de alma nenhuma, chegaram à escola e não sorriram.
As medidas economicistas do governo e os estados mentais dos docentes estragaram
as parcas férias que tinham gozado. Mentes sem esperança foram para a sala de
aula deixando para trás a vontade retirada das malas cansadas. Sorrisos
esconderam-se e mãos ficaram sem nada. A escola passou a ser lugar de
cumprimento obrigatório das horas e dos dias de trabalho sem sentido. O ano
letivo começou e, com ele, a sensação de incapacidade face a um trabalho pouco
estimulante porque nada reconhecido.
As pessoas são muito mais responsáveis pelo ambiente onde
trabalham que qualquer ministro que debite leis risíveis. Os professores estão
doentes, deixaram-se invadir pela falta de criatividade e entregaram-se aos
papéis e aos diálogos vazios. Já não há ideias, os textos debitados para as
atas são um complexo enredo de palavras técnicas desprovidas de humanidade, as
reuniões são um saco cheio de nada e os corredores são um espaço onde circulam não pessoas, autómatos programados para
agir porque sim. Quem tem iniciativa torna-se ameaça porque a vontade de criar
faz comichão aos egos inchados de pseudopoder. A lei é interpretada para o que
convém e os dias são vividos ao sabor do desalento.
As caras e os corpos dos alunos ainda podem ser um resíduo
de motivação para uma classe que adoeceu. Acordem os que querem da vida, mais
que uma escola burocrática e desumana. Fiquem atentos os que podem e sabem
trabalhar com vontade, peguem na mala cansada e deitem-na fora, é preciso
comprar uma nova, com urgência.
1.10.12
Disse
Lúcido é o que fica sozinho e cansado no meio de uma multidão entupida de cataclismos mentais.
26.9.12
Sem fios
Era
uma vez uma marioneta descontente. As mãos que a comandavam não estavam à altura
dos seus movimentos porque eram pouco sábias. Com todo o instinto da força
posto em gestos descoordenados e feios, a marioneta fazia o que os donos das
mãos queriam que fizesse. Um dia, consciente de um comando incompetente, cortou
os fios com os dentes e percebeu que, sozinha, podia resistir. Acordou com a
leveza das decisões difíceis e o descontentamento transformou-se em grito
dobrado e aceso.
16.9.12
Vento que vem de dentro
E agora vou ali respirar, como se faz quando se está calado por
força de circunstâncias. Respirar bem alto, para que muitos oiçam o vento que
vem de dentro e sintam o grito que não se deu. Vou ali respirar para não
esquecer que estou viva.
9.9.12
6.9.12
Branco ou um dia não teremos uma história para contar
E se um dia descobrir que a vida que tem não lhe agrada? E se um dia
pensar sair de um casamento morto por dentro e cheio de nadas por fora?
Tem coragem para começar tudo de novo, ou nada de novo haverá para
descobrir?
Texto e encenação: Mariana Rosário.
Interpretação: João Abel e Maia Ornelas.
Estreia dia 13 de Setembro no Teatro da Comuna em Lisboa.
Eu vou sentar-me
numa cadeirinha, lá bem no fundo da imaginação de um homem que recorda
afectos maternais.
2.9.12
Queixa que não é queixa
Ainda
não me apetece. Porque a vontade ficou debaixo das ondas com espuma branca.
Ainda percebo o som das gaivotas enquanto, na cama, tentei dormir o sono dos
que estão longe. Ficar perto de quem nos faz coisas boas é bom. Amanhã é dia de
coisas más, porque más são as coisas que vivemos ao contrário da vontade. As
palavras podem soar a injustiça ou cheirar a arrogância. Temos vontades
trocadas e, quase sempre, o que aos outros acontece supera o que a nós calha.
Sempre assim, porque sempre insatisfeitos e estupidamente queixosos.
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