9.3.13

Quando os pés não calçarem luvas

As meias horas cortadas em partes iguais de adiamento foram postas em suspenso. Quando a campainha tocar, quando o copo se encher, quando as mãos encontrarem as verdades postas debaixo do tempo, quando tudo parecer ainda mais nítido, quando os pássaros vierem dizer que pode ser dia, quando pensarmos que o dia é igual à noite, quando a vida tomar partido da lucidez que sustenta todas as ideias transformadas em pingos, quando a cama ficar cheia de lençóis e a sala ficar cheia de música, quando terminar a respiração adiada, quando tudo voltar ao agora, quando se entender a clareza com o gesto, quando os pés não calçarem luvas, quando as mãos afastarem as meias, quando o colo for suficiente.



Pés, luvas e quartos de hora

Água, sabonete, sais, gel, champô, perfume, creme, base, rímel, pente, escova. Música, toalha, pés, mãos, pernas, luvas, meias, saia e pouco soutien. Chaves, campainha, vinho, fumo, música, abraços e tudo o que as bocas não tinham dito em quartos de hora cortados em parte desiguais. E depois, o que se sentiu porque tinham sido muitas meias horas cortadas em partes iguais de adiamento.


3.3.13

Com ou sem óculos

Vinha a D. Aurora com grandes óculos de armações castanhas, espreitava por cima das lentes e gritava aos miúdos que jogavam à bola na rua. Ninguém a ouvia, e ela própria punha em dúvida a sua existência. A D. Aurora nunca percebeu se o mundo era como ela o via com óculos ou como ela não o via, sem óculos.
Um dia a D. Aurora percebeu que talvez o problema estivesse na sua incapacidade para perceber. Com ou sem óculos, o mundo estaria à sua disposição, mas ela virava-lhe as costas.


20.2.13

Dentro da mochila

Amanheceu. A lucidez ficou dentro da bolsa de fora de uma mochila cheia de esperança. O fecho abre-se todos os dias porque são todos, os dias da busca e do caminho. Não fossem as pernas falhar de vez em quando haveria sempre certeza. Que falhem, para que se entenda a importância do recomeço.


19.2.13

Escuro

O escuro lá fora tem a clareza da ideia, a solidez do conceito e a beleza do conhecimento. O escuro lá fora empurra sempre para a lucidez, por isso vou busca-la, antes que amanheça.

8.2.13

As três peneiras

"Um dia um discípulo foi ter com o seu mestre e confidenciou:
- Mestre, tens de saber o que andam a dizer de ti.
- Espera, interrompeu o mestre - passaste a mensagem pelas três peneiras?
- Três peneiras? perguntou o discípulo espantado.
Sim, três peneiras. Vejamos se o que me queres dizer pode passar pela primeira peneira: tens a certeza de que é verdadeiro?
-Ouvi dizer....
- Falemos então da segunda peneira. O que me queres contar, embora não seja propriamente verdadeiro, é qualquer coisa de bom?
- Não, parece-me que não é nada de bom para ti.
- Adiante. Usemos a terceira peneira e vejamos se é útil o que me queres contar.
- Útil? Sinceramente não sei.
- Então escuta - disse o mestre - se o que tens para me dizer não é verdadeiro, nem bom, nem útil, eu prefiro não o saber. E tu deves aprender a estar calado."

7.2.13

Céu

Olhar para o céu é uma forma de dizer à vida que os pés servem para percorrer o caminho, as mãos para agarrar o presente e a cabeça para ser inclinada para o alto. Olhar para o céu é uma forma de entender que, lá, pode estar todo o silêncio que o corpo não encontra com os olhos postos no chão.


6.2.13

Improváveis

A noite fria colocou a Susana em frente ao improvável. Se, no início, a conversa parecia cómica, no fim, a coisa caminhou para o ridículo. A Susana veio-se embora com os pés frios e a certeza de não querer voltar a um improvável paranóico. Para a psiquiatra que acredita em amores e vive-os como se o amanhã não existisse, a noite não foi senão uma forma de entender que há gente que não vale a pena, por isso, levantou-se para buscar a improbabilidade em lugares mais quentes.