14.5.09

ROUBAR MATÉRIA AO MUNDO


Cargaleiro


A estética como tema. Catorze alunos presentes. Carteiras pretas. Sala nova. Computador. Internet. Quadro interactivo. Início da aula e a frase dita pela Catarina, depois do dedo no ar: o mundo tem muitas coisas feias, talvez os artistas tenham surgido para lhe dar beleza.

Eu tinha o livro do Gonçalo M. Tavares em cima da mesa e o plano era tudo menos o texto escrito no quadro:
“No início o mundo era repleto de matéria. Matéria compacta, espessa. A violência – ou seja – a criação – passou por retirar fatias. A escultura - e todo o ser vivo é uma escultura – não é assunto de acrescentar ou acumular, mas sim assunto de retirar, esburacar. Qualquer criador não traz matéria para acrescentar ao mundo, rouba-a, faz as fendas certas, inventa as ausências intensas, percebe onde os intervalos podem ser mais profundos.” (Gonçalo M. Tavares; A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil.)

Foi pedido um comentário. Olhem para o que está escrito, discutam a ideia, clarifiquem-na e escrevam. É precisa a solitária reflexão sobre a questão da matéria roubada ao mundo, as fatias que se retiram à pedra, ao barro, à madeira. O roubo que se faz porque a beleza o exige ou porque é preciso expressar qualquer coisa. A violência exercida no acto de criar, a necessidade da matéria do mundo para que a criação aconteça e o acrescentar, ou não, alguma coisa a um mundo de matéria espessa.

À minha frente, a Inês acaba primeiro e pergunta-me:
- Posso ler? Faço-lhe sinal para que espere pelos colegas.
O tempo decorre em algum silêncio interrompido pelo João: esculpir é uma coisa, moldar é outra. Mesmo quando se molda já se roubou matéria ao mundo.
A Cláudia intervém: é como se os artistas não roubassem propriamente mas dessem ao mundo uma forma nova, uma reconstrução onde os desperdícios são postos fora de jogo.

A Catarina leu o texto em voz alta: a preocupação centra-se na matéria humana, não na matéria do mundo. A primeira também é roubada, quando a dignidade é posta em causa, por exemplo.

A Ana pede-me para ler o que fez: somos todos escultores de um mundo que transformamos, de certa forma os pássaros, não sendo artistas, também roubam alimento ao mundo sem que haja criação artística.

Ao canto, de cabelo a tapar um olhar atento, o Frederico não se mexe: não executo o trabalho porque não tenho material de escrita – o costume!

A Marta ri alto e pensa da mesma maneira, não teve tempo para acabar, foi com o caderno debaixo do braço e a mala na mão. Em jeito de “tia” por crescer disse-me:
- Trago na próxima aula, professora, prometo.

Saíram. Contentes. Despediram-se afavelmente, como todos os dias.
Vou deixá-los, vou-me embora porque quero, porque preciso, porque a vida é assim. Tenho pena. Pelo Alim que ri sincero, Pelo Fred que não executa quase nada mas pensa bem, Pelo Miguel que fala baixinho, pelo Rodrigo que é rapaz feliz, pelo Paulo de atacadores diferentes e estilo descontraído. Já tenho saudades de todas as Anas, da Patrícia que gosta de falar para o lado e da Cátia que dá beijinhos à chegada.

Tenho saudades porque, poucas turmas nos entram no coração. Gente boa que, para lá de um trabalho sério, desenvolve afectos. Com eles trabalha-se melhor. Todos sabemos disso.

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