30.3.11

MARIA

A Maria adorava reunir, convocava os colegas como quem envia convites para festas. Era um prazer encher a mesa de folhas, informar sobre aquilo que poderíamos ler em casa no e-mail, encetar diálogos vazios e fazer pouco mais que coisa nenhuma durante duas horas. Há muitos anos que eu conhecia a Maria e a sua obsessão por reuniões. Vivia sozinha num apartamento com quatro gatos e a sua vida era pouco mais que o emprego e as compras de super-mercado. Era uma mulher baixinha, sem pescoço, com o queixo ligeiramente curvado na direcção do nariz e uma capacidade de síntese igual à dos secretários de estado. Presidia às reuniões como quem preside a uma importante assembleia, com a seriedade posta no rosto, a responsabilidade em cima dos ombros e a postura cheia de uma importância que não existe, considerava o seu cargo parecido com o de um monarca que tem que tomar decisões sobre o futuro de um país.
Todos percebíamos a necessidade de afirmação da Maria, todos a ouvíamos com atenção, ela ficava contente quando as pessoas olhavam para o vazio das suas palavras. Em dias de reunião levava sempre o batom nos lábios e o colar no pescoço. Era espessa a expressão que fazia quando nos interpelava sobre questões pequenas.

20.3.11

COISAS QUE ME INQUIETAM (32)

Apaixonada por muitas coisas ao mesmo tempo não tenho espaço para as pessoas.

19.3.11

TERRA FIRME

Pai é estrutura de ferro e aço posta em cima de terra firme. Pai é coluna que não abana. Pai é presença eterna. E quando pensamos num pai que pode ir embora, a estrutura de ferro e aço treme, a coluna mexe e a presença fica escondida. Tenho pai. Lindo. Não quero que ele vá, por isso me seguro de todas as formas que encontro. Parabéns, pai.

18.3.11

A CASA DE TERESA

Há muitos anos que o mar era companheiro. Sentava-se no degrau perto da areia e inventava histórias de com o que via: algas, búzios e conchas eram os personagens que criava quando lhe apetecia imaginar. Sempre gostou mais da praia em frente da casa do que do jardim, a parte de traz trazia as lembranças de uma menina que cresceu sozinha. Há muito tempo que aquela casa era sua, a herança de uma avó bonita tinha-a posto ali, dona de uma propriedade, de um recanto, de muitas memórias.

Todos os dias de manhã, Teresa acordava com o ressoar das ondas. Há muito que estava habituada ao natural despertador que a avisava da madrugada. Vivia sozinha. Os filhos tinham partido para a cidade e o marido morrera muito novo. Teresa sabia a importância de uma casa de família e, por isso, mantinha-se nela sem que dúvidas a assaltassem. A cozinha era o lugar onde inventava sabores e a mesa grande da sala era o lugar dos visitantes que, de longe em longe, vinham provar iguarias.

Teresa gostava de receber bem, misturava os sabores com as histórias que imaginava sentada no degrau perto da areia. Os convidados vinham aos jantares de Teresa entusiasmados. Depois do jantar, onde os morangos e a poesia eram mistura perfeita, Teresa convidava a que se sentassem perto do patamar de pedra que dava para a duna. Nas cadeiras de vime pintadas de castanho, todos construíam histórias. Teresa tinha escolhido o vinho e o poema da noite. Depois, era preciso que convidados e parentes retribuíssem com o que tinham ou podiam.

Quase sempre a parte de cima da casa era ponto de partida para histórias incomuns. Com o copo na mão e muito riso, Teresa ouvia os contos e os poemas que os amigos lhe ofereciam. Fadas e duendes, anjos e demónios, vagueavam de quarto em quarto pousando em estantes e quadros, rindo de fotografias e peças de mobiliário encerado. Toda a noite era cheia de momentos e até os cães enchiam o ambiente quando, por causa das gargalhadas, ladravam contentes.

Teresa sabia que aquela casa era completa, tinha dela recordações de que não podia, nem queria fugir. Vivia com todos os que, com ela, queriam dividir poemas, por isso ali ficava, inventando na cozinha, compondo na sala e mostrando, perto da duna, tudo a que dava valor.

16.3.11

O frasco abriu-se? Caíram os títulos? Deixa-os espalhados, para quê empurra-los para o texto? Não fazem falta. Varre-os, enterra-os, come-os ou destrói-os dentro de um saco atrofiado até às pontas. Deixa-os postos ou ausentes, ninguém se importará. Fechaste a janela? Boa. Esqueceste as imagens? Os dias da forma virão, quando regressares do embalo.

15.3.11

Escreve frases sem título, inventa o que dizer, pronuncia nomes e veste fantasmas que voltam. Vai buscar o jarro com a água morna e enterra os pés em sal. Escreve e esquece-te de todas as imagens. Vagueia pelos poucos que te lêem e diz-lhes que estás cansada. Vai-te embora no dia do silêncio, quando as palavras te engasgarem e as frases te entupirem de tédio. Enfia todos os títulos num frasco transparente e coloca-o em cima do frigorífico. Escreve frases sem título e abre a janela. Volta para perto dos que sabem quem és.

14.3.11

“Liguem um qualquer canal de televisão e entrarão imediatamente no mundo dos semi-deuses e dos fantasmas esfomeados.”
Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da Morte.

13.3.11

“Quando muitos te cobrirem de louvores, verifica se ainda tens motivo de agrado ante ti próprio (…). Os teus autênticos bens são apenas do foro íntimo.”
Séneca; Cartas a Lucílio

12.3.11

“Ninguém nasce rico, no momento de vir à luz temos de contentar-nos com uma fralda e um pouco de leite: e é a partir de tais começos que chegamos a pensar que um reino é estreito para nós!...”
Séneca; Cartas a Lucílio

11.3.11

"O que preferes tu? Uma indigência que te sacia ou uma abundância que te deixa esfomeado?"
Séneca; Cartas a Lucílio

10.3.11

PIRILAU

Talvez o início da Quaresma não seja o tempo propício para falar de pirilaus, de qualquer forma arrisco. A escultura causou alguma indignação quando, na cidade de Lisboa, foi exposta por João Cutileiro. Confesso total ignorância quanto a motivações artísticas ou outras, confesso ainda completa preguiça para investigações sobre esculturas postas em parques.

O tema tem tanto interesse como qualquer outro a que se dedique alma atenta e empenhada. Não percebo o pudor dos que fogem ao assunto porque sei que são esses os que mais gostam do assunto. Às mulheres é vedada a palavra porque mal fica no vocabulário “de saias”, contudo, é-lhes pedido muito mais que silêncio em lugar quente e húmido. Hipocrisia? Com certeza.

Fala-se livre e publicamente de assassínios, guerra, fome e outras pornografias. Baixa-se o tom de voz quando o tema é pirilau. Vergonha do agradável e prazer na verborreia ensanguentada? O ser humano é demasiado estranho.

7.3.11

O TEMPO DA IDADE

Tinha dezoito anos e sabia tão pouco da vida que, de pensar nisso, fico com os pêlos dos braços em arrepio. Oscar wilde dizia que “o problema de uma mulher de 18 anos é, exactamente, ter dezoito anos.” Confirmo. Nada como deixar passar o tempo e sentir o peso dos dias para perceber o quanto se aprende com esse incessante movimento da consciência. O corpo envelhece. A arrogância e a energia da juventude vão-se. Ainda bem.
Chegada a Lisboa com a mania que era mulher, de pasta na mão a caminho da faculdade, pensava que a independência tinha chegado. Engano. Nem era independente nem era mulher. A experiência é a única coisa que não se ensina. O convencimento perdeu-se no dia em que entrei no mundo do trabalho e percebi que não era o canudo que valia, mas o saber fazer. Deixei a pasta encostada a uma parede vazia e comecei a andar com maior confiança, já não tropeçava naquele objecto duro com fecho dourado. Aquela coisa postiça deixava de me servir, de encaixar num lugar onde os trunfos eram outros.
Escrevia como quem não pensa. Hoje as palavras são outras, já não cabem na pasta da faculdade que ficou encostada à parede. Mudou o jogo. Há pessoas que me lêem e nunca lhes agradeci por isso. Que o enorme abraço chegue perto dos que, conhecendo-me ou não, me soletram com a energia que têm.
Um grande senhor do espectáculo ensinou-me: “não escrevas para ti, escreve para os que te lêem”.
Quando crescemos ouvimos os outros e percebemos que não somos o centro do mundo. É apenas uma das diferenças entre as meninas e as mulheres. Há outras.

6.3.11

VIDA AGRADÁVEL

“Se queres ter uma vida agradável deixa de preocupar-te com ela! Nenhum objecto dá bem-estar ao seu possuidor senão quando este está preparado para ficar sem ele; e nenhuma coisa mais facilmente podemos perder do que aquela que é irrecuperável depois de perdida”.
 Séneca; Cartas a Lucílio

5.3.11

A VIDA DAS HISTÓRIAS

Depois da história fica a vida. Inventam-se palavras, mastigam-se instantes de loucura encarnada. Os dedos descansam em cima da almofada branca, como se tudo pudesse acontecer ali, perto dos que nunca existiram porque nunca estiveram. Depois da história escrita em linhas pretas, a vida acontece depressa. O corpo estica-se e à cama se recolhe uma alma comprometida.

4.3.11

ABISMOS INSANOS

A mania de escrever o que não existe em cima do que acontece leva, algumas vezes, ao abismo insano. Há amores que se adiam. Há uma lição que nos é dada pela pessoa que será, talvez, a mais sensata numa das obras de Proust, uma certa Mme Leroi, à qual, quando lhe é pedida a sua visão sobre o amor, responde: “Amor? Faço-o muitas vezes, mas nunca falo sobre o assunto”. Talvez seja esse o erro, o de se querer falar sobre um assunto que não sustem as palavras. Persiste-se em erros e mantêm-se recusas. Olha-se para a parede branca. Supõe-se que estão lá letras azuis e fica-se com os olhos fixos em frases que não existem.

3.3.11

CANDEEIRO VELHO

Estou sentada, o candeeiro tem uma lâmpada pequena e eu faço um esforço para te escrever. Chove muito lá fora. Vim passar uns dias ao pé do mar mas acabei por ligar o aquecimento e a lâmpada de um candeeiro velho. Fiquei em casa a construir frases. O mar está azul demais para que o possa entender. As ondas desapareceram e eu não sei se alguém é meu vizinho. A avaliar pelo silêncio, julgo que apenas a poucos quilómetros poderia encontrar com quem jantar. Tenho medo de existir. Está frio e o meu nariz fica vermelho de raiva quando o vento e a maresia se misturam para uma visita.

2.3.11

DEIXAR SER

Era a época do encontro. Tinha entendido a importância de deixar ser no amor. Há alturas em que o amor se funde com a morte, como se as duas realidades não pudessem separar-se. Fundiu-se o desejo de música com o dia do seu fim. Entregou o disco. Ficou o registo dos sons depois de todo o ruído desaparecer. Ficou escrita a história e, por causa disso, o amor não acabou. Por causa disso foi para um lugar longe do tempo.

1.3.11

CONTA PAGA

Levantou-se com a impressão de que o chá verde se tinha transformado em massa consistente no estômago. Tinha ouvido palavras. Todos os sons se transformavam em grito. As mãos eram garras prontas a deixarem-na sem ar. Levantou-se e deixou as flores em cima da mesa. Foi estúpida quando puxou a nota de vinte euros e disse: “pague tudo”. Idiota. Tinha de ter saído sem pagar nada. As palavras já lhe tinham feito mossa suficiente, não era preciso ficar sem a nota de vinte euros. Conduziu até casa com um disco gravado há muitos anos para o dia da sua morte. Mataram-na, deram tiros para o seu chão. E agora?

28.2.11

COISAS QUE ME INQUIETAM (31)

Não saber se posso vir cá depois de morrer. Tenho a impressão que me ia dar jeito.

25.2.11

VIAGEM

Para longe, em cima das rodas e olhos no horizonte. Para longe, com toda a vontade em cima das pernas.

24.2.11

AMIGAS


Eram amigas. Um dia perceberam que a vida as separaria caso não usassem a mesma linguagem.

23.2.11

OUTRA CASA

No dia em que chegou cedo, apontou para a porta. A chave cabia mal na ranhura. Fez força. Rodou a chave com dificuldade e entrou. Lá dentro, o escuro era longo e a luz estava longe demais. Pousou o saco e tacteou até à cozinha. Depois de abrir a janela percebeu que aquela não era a sua casa.

22.2.11

GRITOS EM MOLDURAS

Ir até ao fundo de uma solidão procurada. Respirar devagar. Perceber que se está em frente à alma com o corpo todo posto em cima de uma mesa. Olhar para as palavras e enfeita-las com o sentimento que se esconde porque é teimoso ou tímido. Voltar a respirar. Fumar um cigarro longo, sem mãos nem fumo nem objecto. Sentir as costas na cadeira e perceber a existência dentro de um escritório com livros e molduras. Emoldurar todos os gritos que, dentro, dançam com risos e lágrimas.

21.2.11

POUCA VIDA

Envelhecimento. Arroz doce ao Domingo. Tempo que passa devagar e gente que ri com esforço. Envelhecimento nas casas com portões e lareiras e quintais e cães e galinhas e limoeiros e macieiras e pereiras e figueiras. Envelhecimento perto da serra e do céu que se vê cinzento com água por baixo.

18.2.11

CAMINHO

O travão disparará. A descida vai parecer curta. A mente ficará lúcida. As pernas levantarão do chão duro. Os avanços do pensamento estarão perto do caminho que se fará para mais alto.

17.2.11

ANDAR LENTO

Bloqueio. Dias sem avanço no pensamento. Noites sem que ideias apareçam. Na antecâmara do sono, pouco antes da inconsciência, a luz parece acontecer mas já não há forças. Mais um dia para arrastar as pernas pesadas e o andar lento.

16.2.11

FORA DE MODA

Era uma vez um político com consciência. Era uma vez uma consciência política. Era uma vez um político fora de moda e uma consciência política deslocada da realidade.

15.2.11

DESEJO

"O desejo é uma vontade que não levamos demasiado  a sério."
Robert Musil

14.2.11

MÁ MEMÓRIA

Ela ia tão contente com o presente do dia dos namorados que nem se lembrou de telefonar ao marido.

COM AS MÃOS POSTAS NA BATINA

Tinha pouco mais de um metro de altura. Ia à igreja e ajoelhava-se com as mãos erguidas. O Padre ouvia-a com as mãos postas na batina preta. Tinha a paciência de um sacerdote habituado a crianças que acompanhava desde o baptismo.
Numa casa perto da Igreja Matriz discutia ideias e facultava livros sem preconceito ou escusa.
Atrás da porta do escritório, cadeira posta para quem entrava. Sem hora, ouvia as histórias de vida e opinava com inteligência. Sem censura.
Viveu e acompanhou vidas. Viajou num espaço e num tempo marcados por existências.

12.2.11

CARTA 1

“Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, te fugia das mãos. Convence-te que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente

Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo, aproveite bem o dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!
Procede, portanto, Caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando”

Séneca; Cartas a Lucílio

10.2.11

COISAS MOLHADAS


As esplanadas são lugares desejados quando o sol toma forma. Por que razão fecham quando chove? Estar na esplanada com o chapéu aberto, os pingos à volta da mesa e o olhar no fumo espesso do chá verde pode ser experiência necessária. Ficar à chuva na esplanada. O momento para reflectir sobre todas as coisas molhadas.

9.2.11

SENHOR DE PLÁSTICO


Tem a pose de “senhor”, daqueles que se fabricam com a ajuda de uma vida pouco difícil. Altivo, com a mania que é bom e um sorriso fabricado em frente ao espelho da casa de banho depois do duche cantado. Tem a pose de um “senhor” mas é homem que olha com desdém para os que sabem que, de senhor não tem mais que a sombra. Há uma sombra que persegue e não incorpora porque a atitude não é suficiente, não bebeu o chá necessário nem tem vocabulário que estruture a postura ensaiada todos os dias. Os pés pisam certezas e as mãos agarram preconceitos. Não sabe que é de plástico e é isso que faz dele um boneco.

3.2.11

TEMPERATURA


Quando a temperatura desce, as pernas entorpecem e a alma congela. Os dias são pequenos e o sol, em momentos felizes, aparece para que não nos esqueçamos dele. Quando a temperatura desce, as ideias ficam coladas umas às outras e separa-las é árdua tarefa. Desiste-se de quase tudo porque quase tudo parece difícil.
Não gosto de baixas temperaturas nem de ideias que se colam. Gosto de coisas difíceis. As pessoas estão cansadas. Os lugares estão cheios de peso e espessura densa. Não gosto do ar que se respira porque se respira devagar, como quem tem medo de agir. Quando a temperatura desce, vive-se mais devagar.

25.1.11

PEDRAS PESADAS


A mochila está pesada. Os pés estão cansados. As palavras estão no fundo, debaixo das pedras duras e frias.

19.1.11

NADA GIRA


Banco ocupado, roda que não gira, bicicleta que não anda, pés que não pisam, ideias que não há, imagens que não surgem e uma preguiça igual à do nevoeiro que já desapareceu mas do qual tenho saudades.

8.1.11

SEM PIPOCAS

Parece que há bons filmes para ver este fim-de-semana. Não consigo escrever e ver filmes ao mesmo tempo. Vou-me embora com o desejo da tela e do escuro. Sem pipocas.

7.1.11

DIAS DIFÍCEIS

Quando a chuva importuna, os lençóis convidam ao aconchego quente e seco. Há dias que passam e os comboios existem demais. Há horas molhadas de desconforto e dores que permanecem ali, antes de saltar para a carruagem. As pernas querem adormecer depressa dentro dos lençóis e os comboios vão-se embora. Ainda bem.

5.1.11

O QUE IMPORTA

Gerir horas com sabedoria é como sentar a uma mesa de costas direitas. O esforço de cada músculo compara-se ao encanto de cada minuto mastigado com a inteligência de um tempo vivido ao minuto. O orçamento emagrece por causa de senhores mal intencionados e com passado sujo. Que fique a atitude de quem percebe que, vivendo com menos, se vive. É isso que importa.

2.1.11

SAUDADE DAS CONSOANTES MUDAS


Não sei como escrever em 2011. Custa-me tirar o ´c´ ao ator e o ´p´ à exceção. Preciso de tempo para me habituar porque tenho dúvidas e não consigo raciocinar sem consoantes mudas.

31.12.10

COISAS BOAS


Bonitas cores, bons sabores, belos aromas, brancas melodias e brandas texturas.
Feliz Ano Novo.

29.12.10

COISAS QUE ME INQUIETAM (30)


A marca do tempo não está no calendário, vejo-a todos os dias como vinco que não se desfaz nem quando se grita. E a dobra persiste. É a vida? Não, sou eu.

27.12.10

"A PROMISCUIDADE TIRA A VONTADE"


"O que é a experiência? Nada. É o número dos donos que se teve. Cada amante é uma coronhada. São mais mil no conta-quilómetros. A experiência é uma coisa que amarga e atrapalha. Não é um motivo de orgulho. É uma coisa que se desculpa. A experiência é um erro repetido e re-repetido até à exaustão. Se é difícil amar um enganador, mais difícil ainda é amar um enganado.
Desengane-se de vez a rapaziada. Nenhuma mulher gosta de um homem «experiente». O número de amantes anteriores é uma coisa que faz um bocadinho de nojo e um bocadinho de ciúme. O pudor que se exige às mulheres não é um conceito ultrapassado — é uma excelente ideia. Só que também se devia aplicar aos homens. O pudor valoriza. 0 sexo é uma coisa trivial. É por isso que temos de torná-lo especial. Ir para a cama com toda a gente é pouco higiénico e dispersa as energias. Os seres castos, que se reprimem e se guardam, tornam-se tigres quando se libertam. E só se libertam quando vale a pena. A castidade é que é «sexy». Nos homens como nas mulheres. A promiscuidade tira a vontade.


Uma mulher gosta de conquistar não o homem que já todas conquistaram, saquearam e pilharam, mas aquele que ainda nenhuma conseguiu tocar. O que é erótico é a resistência, a dificuldade e a raridade. Não é a «liberdade», a facilidade e a vulgaridade. Isto parece óbvio, mas é o contrário do que se faz e do que se diz. Porque será escandaloso dizer, numa época hippificada em que a virgindade é vergonhosa e o amor é bom por ser «livre», que as mulheres querem dos homens aquilo que os homens querem das mulheres? Ser conquistador é ser conquistado. Ninguém gosta de um ser conquistado. O que é preciso conquistar é a castidade. "

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa.

26.12.10

VEJO-TE

Do lugar onde me sento, vejo-te. No azul me recosto. Céu e árvore e norte. Estás a norte. No lugar onde me sento, lembro-te. Vejo para lá do prédio alto. Tu estás depois do prédio alto.
Daqui vejo céu e árvore e tu. Hoje é um dia de Dezembro. Há uma festa. Estás depois do que eu olho e está frio.

Fumo longo. O encanto de teres sido. Fumam-se coisas em cima de partes do tempo. Alegrias são postas aqui.

Vens com o fumo que inspiro. Ficas dentro porque és norte. A estrada existe e estou. É o entendimento do fumo que me engoliu. Em frente às palavras desenho-te. Envio.
Estou como estou e é muito bom.

14.12.10

A MERCEARIA DO MEU PASSADO

A minha avó Ana era uma mulher marcada por recordações difíceis. A mercearia no centro da vila era um mundo de sabores improváveis. Aspecto duro e magro, vestida de preto e com o cabelo apanhado em carrapito branco luzidio, tinha o amor escondido debaixo do colchão porque a vida lhe ensinara a não o oferecer todo de uma vez.

A minha avó Ana tinha os olhos postos num tempo que já não existia. Vivera-o duramente e queria, todos os dias, escondê-lo dos filhos e dos netos. Pegava na vida com os dois braços e não desistia dela, nem por um segundo.



De manhã, abria as portas altas de madeira grossa e escrevia no livro dos calotes, as contas em atraso. Os fregueses agradeciam-lhe a tolerância e a bondade. Numa das prateleiras do balcão guardava o papel pardo e a caixa dos escudos para fazer os trocos. Nunca me pediu ajuda, a falta de jeito para contas era tão nítida que preferia oferecer-me um bombom enrolado em papel dourado e tão redondo quanto o gesto. Eu sabia que o chocolate era meu, estava dentro de um frasco grande na prateleira mais alta da loja. Em bicos de pés, colocava o dedo pequeno no vidro para escolher a cor do papel que, desembrulhado, me daria todo o sabor.



Mulher firme. A mercearia era o seu sustento e o deleite dos netos que lhe pediam apenas o que ela podia dar. Conheciam-lhe a firmeza dos hábitos: um para cada um – dizia - e estava arrumado o desejo. Lembro-me da canja que fazia depois de depenar as galinhas que guardava no quintal. O fogão em cima da chaminé alta fazia com que cozinhasse como quem espreita. O carrapito branco que compunha enquanto nos dava um beijo era a imagem de uma mulher pouco preocupada com a estética. Encerava a casa com a energia que ia buscar aos afectos reprimidos, e o chão que luzia debaixo dos nossos pés era o reflexo de tudo o que não podia oferecer mas que, ali, se mantinha visível e sem palavras. Julgo que as palavras incomodavam a minha avó Ana.



Acredito que a mulher que guardou o amor debaixo do colchão o fez por saber que, esbanjando-o, correria riscos. Não quis. Viveu a vida oferecendo bombons e anotando adiamentos no livro da bondade.

13.12.10

A ESCOLA ESTÁ A MORRER


As ideias que se têm às três horas da manhã não entram na sala de aula no dia seguinte porque, disciplinas, programas e avaliações têm importância maior. A educação pública exerce enorme pressão sobre alunos e professores. É preciso que todos se conformem, que todos organizem o seu dia em unidades padronizadas de tempo e delimitadas pelo toque da campainha. À semelhança de uma unidade fabril, os operários picam o ponto ao som de um ruído agudo que percorre corredores e corações. Os exames são estandardizados, as aulas são iguais todos os dias, os alunos bocejam, os professores querem fugir para casa cedo e, aquela ínfima parte da humanidade espera que o tempo passe.

O sistema educativo precisa de ser transformado, os bons professores, que vêem a sua criatividade suprimida todos os dias, começam a abandonar o sistema. Interiormente, as aulas e a escola são motivo de enfado e cansaço. A uniformização da educação destrói qualquer sistema com múltiplas e ineficazes reformas. Enquanto os professores não forem livres para trabalhar, descobrindo os talentos e fomentando a imaginação, o tempo dispendido é inútil. Perguntemos a qualquer adolescente o que aprendeu nas mais diversas disciplinas de um currículo sobrecarregado de informação e não obteremos resposta satisfatória. Direccione-se a pergunta para aquilo que, na escola, mais lhes interessa e a resposta será rápida: nada do que se passa nas aulas é estimulante.

Os professores precisam de ensinar aquilo que os alunos precisam de aprender, aquilo que cada um deles tem dentro, o currículo que se enquadra na essência de um grupo de gente que se senta para ouvir, falar e agir. O verdadeiro poder desta abordagem passaria por uma profunda transformação de todo o sistema educativo, por um profundo questionamento do que se entende por inteligência e por uma urgente reflexão sobre a importância da criatividade. É preciso produzir algo de original, na escola e na vida. A produção de ideias originais e valiosas levou-nos, ao longo da história da música, da literatura, da pintura, à descoberta de génios que, com certeza, não começaram o seu trabalho criativo dentro de quatro paredes com muros altos e campainhas a tocar de hora a hora.

Enquanto a escola for um espaço fabril com carácter obrigatório, não existirá lugar para a criatividade. Enquanto os alunos forem para a escola sem entusiasmo e os professores abrirem a porta da sala de aula esperando o toque de saída, não existirá futuro. Enquanto os programas, desadequados da realidade, forem imposição sem critério, todo o sistema ruirá, porque não há inteligência que sobreviva a tanta mediocridade.


11.12.10

FILÓSOFOS DESAJEITADOS?

Usar as palavras deste post de Gonçalo Pistacchini Moita ,pô-las nos braços, nas pernas e no contentamento. Questão de treino e um risco: a solidão oferecida por uma sociedade virada para os pés. Vantagem: a lucidez que vem do céu. E agora? Ando só, ou paro no meio da multidão?

10.12.10

9.12.10

DOBRAS E GRITOS (50)

Dia depois do feriado. As bolachas de manteiga que se colocam dentro do forno ficam estaladiças e loiras. Porque Dezembro é o mês dos doces e porque não há nada na rua que possa ser vivido.

8.12.10

7.12.10

DOBRAS E GRITOS (48)

Uma das mentiras que a humanidade prega a si mesma, toma forma no mês de Dezembro. Todos acreditam que se amam, todos se empenham nos sorrisos, todos são solidários e todos se unem à volta de uma mesa com a toalha encarnada e a cera a derreter. Depois os papéis rasgados ficam no chão e, um ano depois, a memória reaparece.

6.12.10

DOBRAS E GRITOS (47)

Quando a esperança engordava, o sol de Dezembro voltava para me avisar que, uma noite de velas acesas, casa quente, sorrisos abertos, e muitos papéis para rasgar, ia acontecer.

5.12.10

DOBRAS E GRITOS (46)


Nasci numa rua quase íngreme. Em Dezembro o sol escondia-se todos os dias. O meu quarto tinha uma cama de ferro e uma cómoda de madeira. Lembro-me que, em Dezembro, os lugares para as bonecas ficavam mais vazios, porque a esperança era maior e mais gorda.

4.12.10

DOBRAS E GRITOS (45)

O tempo acontece depressa quando todos correm. Viram-se para o sol com os olhos abertos e cegam. Vão pela rua íngreme e cansam-se. Carregam sacos pesados e lamentam todo o tempo gasto em amores de plástico.

3.12.10

O BUCHMANN, OS JOSÉS E OS ANTÓNIOS

O prémio para o melhor livro estrangeiro publicado em França.
Parabéns, Gonçalo M. Tavares.

DOBRAS E GRITOS (44)

Os objectos que as pessoas transportam cheiram a cera. Dezembro é o mês da cera sólida e da cera líquida. O mês em que o tempo acontece depressa. Todos estão ocupados a pensar numa família que existe o ano inteiro. Agora ela é importante.

2.12.10

DOBRAS E GRITOS (43)

O cansaço que acontece em Dezembro é um cansaço tranquilo. Olham-se as luzes e as pessoas e julgam-se puras as palavras. Depois chega-se a casa e pensa-se que tudo o que acontece em Dezembro é fruto de uma humanidade atenta. Mentira.

1.12.10

DOBRAS E GRITOS (42)

Dezembro é o mês do desencanto. As imagens soam-me a falso, as palavras são magras e as pessoas andam cheias de objectos. Viver em Dezembro é cansativo.

30.11.10

NOTA

Não é meu hábito apagar o que aqui publico. Acontece que, algumas fotografias publicadas e identificadas com o nome do respectivo autor foram alvo, por parte do mesmo, de alguma irritação e descontentamento. Depois de me informar sobre a legitimidade ou não do meu procedimento, verifiquei que não incorri em nenhum acto/crime, apesar de reconhecer que deveria ter informado o autor antes da respectiva publicação. Pelo silêncio antes do acto, ficam as desculpas.

23.11.10

LIVROS GENIAIS


Paul Klee

“Há sons que saem dos actos de amor”. Bloom continua de Viagem, até à Índia. Eu continuo de boca aberta e respiração quase parada. As páginas são brancas e a capa que se esconde por baixo de um vermelho de sangue é de uma brancura irritante. Um senhor que escreve até aos limites do entendimento faz com que a inteligência rebente para dentro de um balde cheio de vontades. Não há nenhuma obra de Gonçalo M. Tavares que possa pôr-se na estante atrás da porta. Todas precisam de ocupar um lugar ao nível dos olhos e das mãos. É preciso comer palavras em dias espessos, porque há sons que saem de livros geniais.

22.11.10

ALÍNEA DA SABEDORIA


Paul Klee

“A sabedoria é um conjunto de habilidades que se exerce na relação com o mundo, em pleno isolamento, e mesmo em plena fuga. Saber como fugir, eis uma alínea da sabedoria."
Gonçalo M. Tavares; Viagem à Índia.

19.11.10

SER OUTRA (8)


Ser outra é, também, engolir a paisagem e sentir que toda a realidade se digere quando o corpo vive e a atenção faz cócegas na consciência.

18.11.10

SER OUTRA (7)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Agarrar-me ao volante e sair de mim. Passar pelas árvores e dizer bom dia; olhar para a estrada e perceber que, percorrida, fica com aspecto mais duro, porque por ela passam todos os medos.

17.11.10

SER OUTRA (6)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Um dia, quando a minha experiência encontrar lugar, sou eu que vou responder, em frente a um espelho quadrado com moldura grossa. Um dia, quando eu experimentar a ser outra, vou chegar mais perto do espelho que escondi atrás da porta e colocá-lo mesmo em frente à vida.

16.11.10

SER OUTRA (5)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Viro-me para o lado esquerdo e digo tudo o que sinto, porque dizer o que penso faz-me deixar de sentir... e isso dói muito.

15.11.10

SER OUTRA (4)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Saio à rua na hora do sol nascente e levanto os braços ao céu. Grito a todos quantos me olham e fujo para debaixo das mesas. Depois, vêm buscar-me cedo, antes do sol-posto, para que vizinhos e amigos se despeçam com todas as mãos que têm.

14.11.10

SER OUTRA (3)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Fico em casa, fechada por dentro e tapada com uma manta vermelha. Vou buscar os óculos de sol para poder ver a claridade. Depois, adormeço no escuro, que é a claridade em dia de zanga.

13.11.10

SER OUTRA (2)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Experimentarei todos os prazeres, sem me preocupar com o que persiste, porque isso, fica tão dentro da caixa que não quero chegar lá.

12.11.10

SER OUTRA (1)


Um dia poderei experimentar a ser outra. Experimentarei todos os prazeres, sem me preocupar com o que acontece na parte de cima da realidade.

11.11.10

CASTANHAS

Hoje toda a gente publica informações sobre castanhas e água-pé. Hoje todos comem castanhas e bebem água-pé. Há gente que escreve posts sobre o que os outros publicam, o que os outros comem e o que os outros bebem. Hoje, há gente que não arranja assunto e prefere sugar o assunto dos outros.

10.11.10

FALTA DE IMAGEM

Não se encontram imagens que façam arrepiar mortais, por isso, escrevem-se palavras sem conteúdo.

8.11.10

ESPAÇOS


Juarez Machado

Fechou os olhos devagar. As pálpebras tocaram no fundo de si. Gemeu. Ficou quieta à espera de poder sentir tudo. O silêncio era imperativo. As mãos enrolaram todos os sentidos e o corpo curvou-se para dizer Sim. Ao mesmo tempo que a porta se fechou, os olhos abriram-se para o espaço que estava em cima da mesa. Pegou nos ombros e na cabeça e ergueu-se. O silêncio tinha deixado de existir.

5.11.10

BALEIA ABSURDA


Kurt Schitters

"Não é por acaso que não consegues, por mais que tentes,
atingir em cheio o dia – qualquer que ele seja –
como se faz às baleias com um arpão.
Os dias têm um invólucro espesso,
uma armadura do material mais espesso que existe:
tudo aquilo de que não se sabe onde está o centro
está seguro.
Assim são os nossos dias que bem queríamos aniquilar
com um arpão. Baleia absurda, sem corpo,
o tempo."

Gonçalo M. Tavares; Uma Viagem à Índia. Canto I


4.11.10

MONÓLOGO FEITO DE BARRO


Não me vês? Já te disse que estou aqui. Parece que fazes de propósito e te escondes para me ver. Eu sei que estás aí. No dia em que desapareceste eu senti mais ainda a tua presença, como se corresses para debaixo da mesa, com o tampo em cima das costas e o medo em cima da alma. No dia em que fugiste, ficaste tão perto que me sufocaste.

Debaixo desse tampo que não te tapa nem te protege, pareces um molde de barro, uma espécie de pessoa que se enrola na massa densa que não materializa coisa nenhuma. O tampo da mesa é duro, mas tu não. Tu és uma qualquer moldura que procura o quadro. Tu és uma pessoa que fugiu para debaixo de uma mesa.

3.11.10

PORQUE SIM


Numa noite em que o calor tomava existência no escritório, Luísa encontrou um corpo por trás de um monitor rectangular e claro. Escrevia palavras com jeito.

Os parágrafos sucederam-se com conteúdo e forma. Bonitos. O interlocutor foi plano. Luísa arrepiou-se, colocou a sensibilidade acima do entendimento e a beleza das palavras aconteceu, a troca de experiências foi realidade. Os dois existiram enquanto foi possível a existência a quatro mãos. Depois, ficaram duas mãos de um lado e duas mãos do outro.
Quando um par de braços se afasta e as mãos se descolam de um teclado dividido em noites quentes, há gente a correr, com o grito calado, com uma indiferença ou uma qualquer indignação. Não tem importância, há relevância nos acontecimentos que encontram sentido numa relação directa de si para consigo. Luísa calou mas sabe, até hoje, que aquelas mãos tiveram forma no momento em que era urgente escrever e sentir.

Agora, enquanto escreve o passado, deseja um presente bonito para quem foi actor de uma história que resvalou no silêncio. E grita alto aos que a ouvem: as palavras não escritas são, muitas vezes, o desassossego, a respiração que se trava porque sim.

1.11.10

DIA DO BOLINHO


Georges Seurat

Com um saco na mão e muita esperança. Reunidos à porta de uma vizinha, íamos contentes, encher o saco de rebuçados, moedas e bolos. No fim do dia era despejado em cima de uma arca. Separavam-se as iguarias do dinheiro e soltava-se o riso. Dia feito.