Se o relógio não existisse, podia contar os dias e as noites mas não podia contar as horas e isso alteraria toda a noção de realidade.
3.9.11
2.9.11
1.9.11
PICOS
Quando a sensibilidade se sobrepõe ao entendimento, as dúvidas transformam-se em descanso estendido em cima de um colchão com picos.
1.8.11
DEPOIS VOLTO
Quando o espaço é ocupado pelo tempo de férias, fica mais liso o entendimento e mais densa a sensação.
Depois é o corpo e o cheiro e a lua e o grito e o vento e o riso e o canto e o quente e o prato e o copo e a vida toda desperta.
26.7.11
25.7.11
A SUBIDA DA MATILDE
- Bom dia, Matilde.
- Desculpe professora, bom dia. Estou contente. Lembra-se de me perguntar se queria ver o fundo do mar e se queria voar?
- Lembro sim.
- Pois eu já fiz as duas coisas.
- A sério, Matilde?
- Já. Eu depois percebi o que me queria dizer. Cheguei a casa e sentei-me a pensar em tudo. Até chorei.
- Que bom. Chorar ajuda imenso. E que viste na subida?
- Vi todas as minhas dúvidas.
- E na descida?
- Na descida identifiquei angústias.
- Muito bem. E agora? Que vais fazer com o que descobriste?
- Ainda não sei. A professora ajuda-me?
24.7.11
NADAR E ENTENDER
- Tem que ir ao médico Dona Luísa.
- Já fui.
- E ele? Não lhe receitou nada?
- Não, mandou-me nadar.
- Então nade, ora essa. Mais vale nadar que querer entender as coisas não acha?
- Não, não acho.
23.7.11
O ESPANTO DA MATILDE
- Tens que subir, Matilde, deixar essa escuridão e esse comodismo fáceis, acreditar em ti e na possibilidade de encontrar um caminho. Não rejeites o desconhecido, podes ficar parada no espaço e no tempo, podes vir a tornar-te cega, podes não conseguir mais que uma vida à superfície. Não queres ver o fundo do mar? Não te apetece voar? Não te interessa perceber para além do que os teus olhos alcançam?
- Desculpe, professora Teresa, eu prometo que vou pensar nisso tudo mas por favor não me confunda ainda mais.
22.7.11
ILUMINAR A VERDADE
- Estão todos presentes?
- Não, falta o Luís.
- Posso? Desculpe o atraso. Posso acender professora?
- Não te chega a luz de cima, Luís? É preciso uma vela?
- Chega, mas como a aula passada tive dificuldade em ver a verdade, trouxe a vela para poder ilumina-la caso surja.
- E achas que a verdade se vê com a luz de uma vela em cima de uma mesa?
- Acho que é possível, sim, tudo dependerá da força com que a procuramos, professora.
21.7.11
ESPELHOS
Olhar pela janela faz-me construir a paisagem que todos os dias muda. Eu também mudo todos os dias. O espelho dá-me tantas imagens que me confundo quando as vejo. Também tenho um espelho dentro, vejo todos os sentimentos enquanto choro, grito, rio ou danço. É um espelho muito mais nítido e muito mais robusto porque, no corpo, se instalou desde que nasci.
20.7.11
LUZ E ABRAÇOS
Arruma-se a mesa para o jantar numa casa com cheiro a flores. Os livros à espera de um final estão perto dos passos na rua. O medo dos outros está lá e, por causa disso, as pernas levam-me até aos abraços.
Porque é urgente o descanso de uma luz permanente.
19.7.11
ADVERTÊNCIA
- Sou uma pessoa igual a ti, mas com vagina.
- Eu sei. Essa frase é de um filme.
- É, não a esqueci. Verdades não devem esquecer-se.
18.7.11
CONVITE
Quando recebi o convite para jantar fiquei tão surpreendida que disse que sim sem pensar. Era a hora de colocar o vestido preto e os sapatos abertos atrás, sempre arejava os calcanhares enquanto ouvia conversa morna.
17.7.11
MESA DA SALA
Quando entrei na sala estava uma mesa posta ao canto. A toalha de linho com renda à ponta era a prova de que a organização tradicional da Maria subsistira ao tempo.
Copos de cristal com o pé alto e o lapidado complexo, pratos da vista alegre e a garrafa de vinho com um aventalinho de pano-cru, bem ao jeito dos anos oitenta.
16.7.11
ALGUMA LOUCURA
"E se em vez de poesia e de arte,
eu te falasse da inutilidade da filosofia,
tentando com isso persuadir-te que as palavras
têm apenas a função de dizer o que se não quer,
que a gramática da criação não suporta letras,
e que os únicos sons do amor são os que o corpo manifesta
e que a alma não consegue desaprovar.
Para que servem tantas – inúteis - filosofias
senão para preencher prateleiras ávidas de saber?
Se ao menos a filosofia fosse descartável,
poderíamos tirar algum prazer disso,
e depois ansiarmos pela próxima vez,
como se tivéssemos degustado um néctar dos deuses
ou vislumbrado uma verdade inabalável."
SILÊNCIOS
O teu silêncio é diferente do meu, é um espaço de compreensão igual à que se tem enquanto se saboreia uma manga madura. A certeza absoluta de um prazer interminável fica cá dentro para sempre.
15.7.11
FALSAS SENSAÇÕES
- Mesmo quando as horas passam certinhas, tu não consegues controlar nada.
- Mas tenho a sensação que controlo e isso é bom.
- Como é que uma mentira pode ser boa?
- Quando nos traz sensação de verdade.
-Queres ter falsas sensações?
- Não. Mas uso isso como truque para me sentir mais seguro.
- E sentes?
- Sinto, enquanto não penso. A segurança vem da vontade de não pensar, da insensatez escolhida por cobardia.
14.7.11
ENTENDIMENTO
Eu posso tudo porque percebes que esse tudo é a afirmação de um eu que não esbarra no desejo que tens fora das pestanas, que não empurra o teu mais tranquilo bem-estar.
13.7.11
SEM PRESSA
- Por favor, leve-nos ao Café Malaca.
- Onde fica?
- Numa casinha velha que espreita o rio com vergonha.
- Estão com pressa?
- Não. Acabámos de perceber a importância das noites que não se apressam.
12.7.11
TEMPO DAS PALAVRAS
Porque o tempo de dizer palavras é tempo escolhido por quem as diz, não por quem quer ouvi-las.
9.7.11
INDO
As árvores esperam, os pássaros já voaram e a estrada passa por baixo de mim à velocidade que eu quiser.
8.7.11
INVENTAR O MUNDO
A Infância é a fase em que o tempo passa devagar para os pequenos e depressa para os grandes. Os primeiros vêem o mundo muito lento. Os segundos vêem-no muito apressado.
Quando os grandes, e os grandes que foram pequenos se encontram no mundo, percebem que afinal o lugar onde vivem é o mesmo. Sentam-se à mesa e falam de todas as coisas que vêem.
Porque o mundo se inventa dentro do corpo que sente, aquilo que fazemos no mundo todos os dias serve para perceber que invenções são coisas bonitas, se as usarmos para respirar ar limpo.
7.7.11
MORRER DE PÉ
Mantêm o tronco e os ramos, abanam sem que o cair as convide, perdem folhas por natureza ou desgraça e morrem sempre de pé.
Não sei se é bom morrer de pé. O desconforto agudiza-se, a visão turva demais, o horizonte fica distante e não é certo que os olhos fechem enquanto as pernas não tremem.
As árvores não têm olhos nem pernas. Julgo eu.
6.7.11
SUGADORES
- Como?
- Sugadores daqueles que usamos para ler, por exemplo.
- Nunca ouvi falar em tal coisa, minha senhora.
- Mas sabe o que é o escuro?
- Sei.
- E também sabe o que é sugar?
- É pôr dentro de nós, inspirar, qualquer coisa desse tipo.
- E o que é que suga o escuro?
- Será alguma coisa que o faz desaparecer.
- Exactamente.
- Então a senhora deve querer uma lâmpada.
5.7.11
INTRANQUILIDADES
Não sei se escreva ou se me cale. Não sei se a água continua límpida, se o céu continua claro. Não sei se hoje existe mais luz por causa da esperança. Não sei se as mãos estão gastas por causa do silêncio.
Não sei se fique aqui, a escrever para os que não conheço. Não sei de nada enquanto existir intranquila.
Certezas são jarros de vinho tinto à espera dos convidados. Não conheço quem vem beber nem sei se o vinho é bom para o jantar.
2.7.11
TER
Se eu for prisioneira de tudo o que não tenho viverei aflita. O desassossego será imenso. O sono vai-se embora de mãos dadas com o medo de não vir a possuir.
Depois possuo. Tenho. O sono regressa e tudo volta ao princípio.
É eterno o desassossego, enquanto eu pensar que quero ter alguma coisa.
1.7.11
DIABO ESCONDIDO
As pessoas arranjam-se para ir à missa. Deus observa-as atento. A roupa bonita que sai ao
Domingo para ver Deus tem que arejar do mofo de um diabo escondido nas gavetas.
30.6.11
O REGRESSO DO CORPO
Depois vem o sol aquecer os corpos, dilata-los e fazê-los vermelhos. Depois vem o mar pôr o sal em cima da pele que seca debaixo do sol.
Depois de tudo o que molha e queima, vem o trabalho esquecido em cima da pedra e da areia. Regressa o corpo ao estado de normalidade ausente.
29.6.11
ALERTA SILENCIOSO
Vigiar um exame é ter de permanecer inerte durante 150 minutos. Só os olhos podem afirmar existência. Produz-se vigia.
Um estado de falsa embriaguez aparece ao fim de 60 minutos de alerta silencioso. Depois boceja-se e pede-se que o tempo ultrapasse a consciência numa urgente corrida para fora dali.
23.6.11
MOLHADAS PELO TEJO
Amarradas às cadeiras, as palavras ficaram molhadas. O Tejo veio salpicar o chão de uma esplanada em Santa Catarina. Tirei-as dali depois de beber a sangria. Agora não sei como as seco, não sei como as digo nem como as escrevo.
19.6.11
18.6.11
FUNDAS MARCAS
Fundas podem ser as rugas de quem viveu acima ou abaixo das possibilidades emocionais ou físicas. É preciso aceitar algumas marcas. Questão de equilíbrio e saúde mental.
17.6.11
NA CAMA
Na cama só se pensa enquanto não se dorme e, enquanto se dorme, o sonho pode ser sinal de um tipo de pensamento desfocado das verdades que temos longe.
16.6.11
PODEM COMER-SE PALAVRAS
Sem luz, grandiosos e serenos, os abraços do Afonso. Eu recebia-os calada. Porque palavras são molas a trincar sentimentos.
15.6.11
SEM ESPERA
Encontrar certezas pode ser embaraçoso. Certezas são tabuleiros cheios de maçãs prontas a comer. Não há espera nem tentação.
14.6.11
FERRUGEM
Mãos enferrujadas não escrevem, não falam nem gritam. Mãos enferrujadas são troncos quietos e silenciosos.
10.6.11
6.6.11
FLORES MORTAS
Levantei-me num pulo. As flores da jarra existiam mortas, o cinzeiro da cómoda estava com pó e o cheiro das velas, da canela e do café tinham desaparecido. O meu lugar do sono estava branco. Ri muito alto e corri para a janela. Havia barulho e as mães ralhavam com as crianças que não queriam entrar no carro.
3.6.11
2.6.11
COISAS QUE ME INQUIETAM (34)
Pai, mãe, filha adolescente e criança pequena. Quatro sentados numa mesa de café. A mãe não tirou os olhos do IPad, o pai esmurrou o nariz no portátil, a adolescente depositou as hormonas na PlayStation e o pequeno adormeceu no carrinho. Família moderna? Tenho dúvidas. A certeza do silêncio familiar a tarde inteira.
1.6.11
PROMESSA
Quando percebeu que a criança tinha crescido, decidiu presenteá-la sempre. Todos os anos neste dia. Até que a morte venha dizer que acabou.
30.5.11
INCÓMODO
Era uma vez uma mulher que convivia muito bem com a verdade. Viu que todos se afastavam e percebeu o incómodo. Depois não chorou nem voltou para trás.
28.5.11
É PRECISO SABER FAZER COISAS
A máquina do grito, os clássicos gregos, os fab labs e a importância de saber fazer coisas.
27.5.11
DISPARATE
- Firme nesse olhar a estrada, Luísa.
- Estava a pensar. Quando chegar a casa, tenho que ir buscar a folha branca.
- Estás bem?
- Estou óptima.
- Depois do fim-de-semana voltas para perto de ti.
- Estou sempre perto de mim, Pedro.
- Mesmo quando viajas numa espécie de corda entre duas pontas que te assustam?
- Mesmo quando estou em cima da corda, estou perto de mim, acredita.
- Claro que acredito. Depois do cansaço, os olhos ficam mais lentos, não é Luísa?
- É. Estou cansada mas feliz.
- Devemos chegar dentro de meia hora.
- E continuo a ver muito pouco.
- Acreditar no que não se vê é sempre sinal de afecto, sabias?
- Ou de estupidez.
- Não achas que vale a pena olhar para o que não se vê?
- Acho. E também acho que a lucidez pode conduzir à loucura.
- Que disparate, minha querida, que disparate.
26.5.11
HÁ DIAS ONDE A ALMA NÃO CABE
"Há dias abri um livro que não era para mim. Não é um costume meu ler um livro que não me apetece. Não naquele dia. Aliás acho mesmo um hábito detestável, esse de nos metermos nos livros alheios sem vontade própria. Mas ele estava ali parado a sorrir para mim a parecer dizer - “Come-me”. Não resisti “Comi”. A expectativa justificou-se plenamente.
Inspirada pelas memórias do quotidiano, a autora conduziu-me numa viagem poética onde o corpo e alma são protagonistas, em busca de uma reconciliação. O que à partida pode ser banal torna-se depois em algo que o distingue. A autora recorda com um olhar apaixonado, desiludido, solitário mas também critico, reduzidos, mas grandes pedaços da sua vida e partilha-os connosco.
Quem sabe uma autobiografia, ou uma viagem em busca de uma satisfação para uma desilusão por vezes constante que se prende a tudo. A ter e não ter. Acreditar ou não acreditar. Sentir que nunca nada está completo. Que nunca tempo algum é suficiente, e que a verdade é algo que nos pertence ou não. Falta-lhe tempo. Quer mais. Quer gente verdadeira e quer corresponder. Quer pertencer inteiramente a cada lugar e melhorar todos os lugares. Quer ser feliz. No meio de tanta coisa, deseja ser feliz.
Ingeri palavra a palavra com a abundância de sabores que o livro evidencia e descobri que uma palavra só, não é por vezes mais que solidão até se descobrir com outras palavras.
Agora em discurso directo: - Recorda-te do que a folha seca diz ao grão de areia”Quem vive modifica-se, não tenhas medo de descobrir novos rumos”. É urgente descobrires que verdade é a tua, porque a verdade que me resiste, é que enquanto existires como autora, eu estarei no lugar que sempre me pertenceu, a de leitor. Saboreei uma verdade que não pode ser adiada , onde a essência de um poeta só é captável por meio de uma metáfora. A tua essência reside magnificamente nesta viagem e de forma singular em “Meu Momento”.
Parabéns! Beijos molhados deste leitor abusado e amigo.
Jorge Parente
Obrigada, Jorge. Grande beijo.
25.5.11
GLORIFICAÇÃO DA DÚVIDA
“A nossa educação contemporânea doutrina-nos na glorificação das dúvidas, e de facto criou o que quase poderia ser denominado ‘teologia da dúvida’, na qual, para parecermos inteligentes, temos que mostrar que duvidamos de tudo, apontar sempre o que é errado e nunca, ou só muito raramente perguntar o que está certo ou o que é bom, denegrindo cinicamente todos os ideais e filosofias herdadas, bem como tudo o que seja feito por simples boa vontade e com o coração inocente”.
Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da morte.
24.5.11
TURISTAS ESPIRITUAIS
“Quando passamos a vida a procurar, essa busca torna-se, em si mesma, uma obsessão e começa a dominar-nos. Transformamo-nos em turistas espirituais, saltando de um lado para o outro sem chegarmos a lado nenhum”.
Sogyal Rinpoche; O Livro Tibetano da Vida e da morte.
23.5.11
SIMPATIA PORNOGRÁFICA
(…) Era importante que tivéssemos tido a coragem de dizer que as luzes da noite estavam apagadas por causa da claridade vinda da rua, que estávamos todos cansados de fingir, que a vida profissional não tem que ser misturada com bacalhau e vinho branco, que tudo o que estávamos ali a fazer era de uma simpatia tão pornográfica quanto pornográfico é o acto contrário à vontade (…).
22.5.11
COISAS QUE ME INQUIETAM (33)
Viver um domingo com o sono herdado da noite anterior e perceber que a véspera é coisa não recuperável.
21.5.11
DOBRAS E GRITOS (52)
Não entendo as afirmações masculinas: "levantei a mesa" e "mudei a fralda ao meu filho".
Serão actos heróicos de ajuda doméstica?
Dá-me vontade de rebolar no chão e rir até à inconsciência.
20.5.11
19.5.11
APAGAR A LUZ À POLÍTICA
Não quero escrever sobre política. Ficam os dedos a doer e os braços a dormir. A política tem, sobre o meu corpo, poderes estranhos. Começo a ficar mal disposta e, quando insisto, chego a desmaiar de náusea. É complicado escrever sobre assunto que cheira mal e tem espessura viscosa.
Nos regimes democráticos, a política é, ou melhor, deveria ser, uma actividade de cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos. É aí que reside o nojo e a aversão: porque a política é uma actividade de cidadãos que se ocupam dos assuntos privados deixando o bem comum no fundo da gaveta esquecida do armário de canto, chego à conclusão que os cidadãos não o são e os assuntos públicos são coisa de nenhuma importância.
Depois começam os formigueiros nas pernas e a vontade de fugir. Depois os vómitos e a vontade de apagar a luz.
18.5.11
ENGOLIR A VIDA
Era uma vez uma mulher. Tinha nas mãos o abandono e nas pernas a vida toda. Enquanto falava, usava a mão esquerda e tinha nas pernas a inquietude. A mão direita servia para guardar o barulho do telemóvel e o silêncio das chaves de casa. Era uma mulher contente porque pensava que podia engolir a vida. Percebeu que a vida se engole, que as mãos agarram quando querem, e que as pernas levam a vontade muito longe. Um dia perdeu as chaves de casa, pegou no telemóvel para pedir ajuda e encontrou-a muito perto.
17.5.11
COMER O MUNDO
Era uma vez um homem. Tinha nas mãos a arrogância e nas pernas o medo inteiro. Enquanto falava, usava a mão direita e tinha sempre as pernas quietas. A mão esquerda servia para segurar o silêncio do telemóvel e o barulho das chaves do carro. Era um homem triste porque pensava que podia comer o mundo. Nunca percebeu que o mundo não se come, que as mãos não agarram nada que se não veja e que as pernas quietas levam a lugar nenhum. Um dia perdeu as chaves do carro, ligou o telemóvel para pedir ajuda mas ninguém o atendeu.
16.5.11
IR E VOLTAR
O dia em que me vou embora é o dia dos passos para fora do lugar. A vontade é posta longe do que costumo viver. O dia do regresso é o dia dos braços em cima da mesa e da vontade inteira dentro de uma casa com pessoas e coisas e sons e medos e prantos e gritos e cheiros e risos.
13.5.11
CONSOLO IRRITANTE
Desembrulha as palavras à minha frente e põe todas as coisas nuas. Puxa a corda com força. Desembrulha tudo outra vez e diz-me que há verdades escondidas. Pega na corda e guarda-a. Irrita-me e consola-me. É preciso.
12.5.11
NOITE MENTIROSA
Tive a certeza de uma semana ao contrário, a luz substituía o escuro e eu teria que deitar-me na noite mentirosa. O desencontro entre as horas marcadas no relógio e a claridade do tempo tomava-me o espanto todo.
11.5.11
CARTA À LUISA
“Luísa, ainda bem que ficou a construir frases. Não tenha medo de existir... peça à Dobra que a deixe sair...Que tal continuar a construir frases? Depois, bem, depois - quando a tempestade acalmar - procure no silêncio o barulho de alguém... Ainda que esse alguém esteja a ‘poucos quilómetros’ de distância.
Ó Dobra deixe a moça viver! Faça lá esse favorzito!”
Beijinhos
Cara leitora;
Devo agradecer as palavras. Vou coloca-las frente ao espelho. Luísa é uma mulher corajosa, só tem medo de existir nos dias curtos de Inverno, depois avança para o mundo com o sol e o vento. Um dia correu muito depressa e magoou o braço direito mas percebeu que podia cura-lo com o esquerdo, foi o que fez. “Procurar no silêncio o barulho de alguém” é muito bonito. Deixe-me dizer-lhe uma coisa importante: os barulhos que encontramos em cartas como esta são sementes que precisamos colocar na terra para que floresçam. Agradeço-lhe tanto que lhe deixo um presente. Espero que goste. Beijinhos.
8.5.11
7.5.11
OBJECTO IMPORTANTE
O volante é um objecto que serve para por à frente da vontade. O volante é tão importante quanto as pernas, mas precisa das veias e dos músculos dos braços.
6.5.11
COM PERGUNTAS NÃO SE DANÇA
Não há resposta quando a pergunta traz consigo o pressuposto retirado de uma realidade que se inventa. Quando a pergunta se ajeita, quando se dança com as palavras para encontrar a resposta que se imaginou, é melhor não fazer a pergunta.
5.5.11
PULO
Olhei em volta, apeteceu-me falar com a menina que puxava a mão da mãe para a rua, com o senhor idoso que se encolhia num canto cheio de medo, com a porteira do prédio que comia o croissant com os olhos abertos de espanto. Apetecia-me dizer a todos que rissem, que dessem um pulo e fossem trabalhar com a música dentro da carteira.
4.5.11
2.5.11
DOBRAS E GRITOS (51)
1.5.11
30.4.11
ALHEADO
29.4.11
ENCONTRO
- É. Quando gritas e te encontras eu fico com essa certeza.
- E tu? Encontras-te no silêncio?
- Não se fazem perguntas para as quais se tem resposta, Luísa.
28.4.11
SIMPATIA
- Simpatia é outra coisa.
- É?
- Sabes que sim.
- Olha que me vou enfiar dentro de um caixote com rodas e tampa.
- Para quê?
- Para tapar a minha timidez e descer a rua com ela.
- Deixa-te disso, Luísa.
- Não vale a pena perguntar para onde vamos pois não?
- Não.
26.4.11
ILUDIDOS
O photoshop é um programa informático usado pelos que ainda acreditam que a perfeição existe.
23.4.11
CADEIRAS VAZIAS
Quando encontramos o canto, os pássaros voam alto e deixam cadeiras vazias. Depois vêm as gentes, os corpos que ocupam terreno, os corpos que mexem perto de nós como que a pedir que os olhemos. Em dia de aniversário, as cadeiras estão cheias de gente contente e, nem os corpos nem as almas pedem olhares atentos. Hoje é dia de beijos por isso as cadeiras estão cheias e ocupam o espaço inteiro.
22.4.11
A PORTA
A porta na cidade estava aberta, pronta para passagens. Dia claro e céu azul. A porta na cidade serve para que, passando, encontremos o ar e os pássaros. Sentados do lado de fora, podemos entender a porta como caminho, ecomo encontro ou despedida.
18.4.11
"Salmão Amizade"
Entre palavras e risos e corpos e mesas e sons e luzes e portas e cheiros e pessoas. Entre mensagens trocadas e cigarros por fumar. Entre cores que se misturam em vidas e palavras. Entre ideias em livros, duas mulheres encontram cor:
“(…) misturados bem os tons
na paleta da verdade
nasceu a mais perfeita cor
a de salmão amizade (…).”
A cor é da Ana. A Ana escreveu um livro que é preciso ler, escreveu o poema incompleto que acima cito e escreve todas as noites como se não houvesse amanhã. A Ana é mulher que põe palavras em cima de branco. Todas merecem ser lidas.
11.4.11
BOTÕES
- Bom dia! Quero propor-lhe uma coisa. Desenvolva. Não deixe os leitores com água na boca. Mexa nas perguntas, suba-lhes a temperatura!
- A temperatura das palavras?
- Sim, e eleve as ideias até o forno ficar bem quente.
- Vou mexer nos botões.
- Mexa, rode todos para a direita e, quando os desligar, não se esqueça do amanhã.
10.4.11
NOITE
Duas e meia da manhã. Vidros embaciados. Segunda circular sem trânsito. Zero Seven- Simple Things (faixa 6). 80 Km à hora. Nada para dizer. O radar confirmou a sua existência. Calma. Carro na garagem. Boa noite ao homem que varre as folhas secas do chão da minha rua. Entrada em casa. Desmaquilhante. Escova de dentes. Pijama. Na secretária e, de novo, Zero Seven (faixa 7).
8.4.11
CLASSES
“Só existem duas classes de pessoas realmente fascinantes, as que sabem absolutamente tudo e as que não sabem absolutamente nada”
Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray
7.4.11
PERSPECTIVA
“- Eu nunca aprovo nem reprovo coisa nenhuma. É uma forma absurda de encarar a vida. Nós não viemos ao mundo para exercitar os nossos preconceitos morais. Eu nunca presto atenção ao que dizem as pessoas vulgares, nem nunca interfiro com o que fazem as pessoas fascinantes.”
Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray
6.4.11
PAIXÃO ETERNA
“- Sempre! Que palavra terrível. Estremeço de cada vez que a ouço. As mulheres gostam tanto de a usar. Estragam o romance com a teima de que deve durar para sempre. E além disso é uma palavra que não significa nada. A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura mais tempo.”
Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray
5.4.11
PECADOS
“Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe. Se lhe resistirmos a nossa alma adoece com o anseio das coisas que se proibiu, com o desejo daquilo que as suas monstruosas leis tornaram monstruoso e ilegal. Já se disse que os grandes acontecimentos ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e apenas neste, que ocorrem os grandes pecados do mundo.”
Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray
4.4.11
ARTISTAS
- Detesto-os por isso mesmo – indignou-se Hallward.
- Um artista deve criar coisas belas, mas não deve imiscuir nelas a própria vida. Vivemos numa época em que os homens tratam a arte como se fosse uma forma de auto-biografia. Perdemos o conceito abstracto de beleza."
Oscar Wilde; O Retrato de Dorian Gray
3.4.11
2.4.11
LUÍSA
Há muito tempo que existe. Tem um marcador neste blogue. Luísa experimentou quase tudo, é a personagem que vive no tempo dos silêncios falsos e das palavras frias. Eu não sou a Luísa, mas podia sê-lo, se quisesse!
1.4.11
ANA
Ana era uma mulher prática. Usava calças e saltos rasos para poder subir e descer com rapidez. Quem a conhecia sabia-a inteligente, quem não privava com ela, julgava-a mulher vazia. A Ana não se importava, estava tão habituada a que segredassem nas suas costas que se ria imenso. O sentido de humor era uma das suas armas fortes, usava-o todos os dias, apesar de ser entendida apenas por alguns. Às vezes diziam-lhe:
- Cuidado, essa ironia pode ser mal entendida…
- Que entendam o que quiserem.
Ana era tão determinada que rompia o ar enquanto andava. Amada por poucos, sabia-se inteira e isso era importante.
31.3.11
RUI
Sempre conheci o Rui com os colarinhos da camisa engomados, os botões pregados, as calças vincadas e as ideias em gavetas. Não consegue viver com um cabelo fora do lugar e isso traduz-se numa presença assídua, silenciosa e bem comportada. Penteado até às profundezas do crânio, é o tipo de homem de que todas as mulheres gostam mas nenhuma mulher quer.
No dia em que me conheceu, disponibilizou-se para ajudar no que precisasse. O Rui estava contente, havia uma colega a quem ele podia mostrar a sua bondade. Nunca duvidei da bondade do Rui e sempre lhe reconheci competência.
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