15.10.08

ABRAÇO


(Egon Shiele)

Porque, no acto, se transcendem os corpos. Porque o abraço é, sem mais, aquilo que o corpo transpira.

14.10.08

PRECIOSAS MEMÓRIAS


(Egon Shiele)

Tempo com os filhos. A maior fortuna. Memória que só morre quando o ar acaba.

13.10.08

DOBRAS E GRITOS (26)

16- EGON SHIELE



Nasceu a 12 de Junho de 1890 em Viena.
Pintor austríaco ligado ao movimento expressionista.
Em 1907, Schiele conheceu
Gustav Klimt
que, interessado no seu trabalho, fez dele o seu "protegido". Ajudou-o comprando-lhe trabalhos, apresentando-o a pessoas influentes e arranjando-lhe modelos.
Insatisfeito com o carácter conservador da academia, Schiele abandonou os estudos e criou o Grupo Nova Arte. Liberto do conservadorismo, começou a explorar a forma humana e a sexualidade.
Grande representante do expressionismo austríaco, os seus trabalhos representam seres humanos transfigurados por sentimentos fortes. Amantes revirados em lençóis brancos, mulheres e auto-retratos. Fez ainda algumas paisagens e residências burguesas, nas quais exibe um estilo cuidadoso e elegante, de traços bordados, com fortes contrastes entre ocres e cores primárias.
As suas obras encontram-se em museus de Viena e da Suíça assim como em importantes colecções particulares.
Morreu a
31 de Outubro de 1918
.

10.10.08

CRUA E FABULOSA


(Mário Cesariny)

Amor é quando a gente pensa que pode engolir a vida toda. Amor é quando a gente espreita pelo buraco da fechadura para ver outra nudez. Amor é quando a gente explica às amigas que respira mais fundo.
Amor é quando a gente abraça um filho e entende que o mundo é muito mais bonito do que julgávamos. Amor é quando a gente desmancha a cama inteira de cheiro e pensa que os próximos lençóis vão também cheirar assim. Amor é quando a gente sabe que o silêncio pode ser mais gordo que as palavras.
Amor é quando a gente calça os sapatos pretos e se transforma em mulher rainha. Amor é quando a gente se despe devagar e pede ao céu uma luz que grite o desejo. Amor é quando a gente chega a casa com o fôlego preparado para entregar tudo. Amor é quando a gente ensina a nossa filha a ser mulher, sem pressa de a tornar adulta. Amor é quando a gente telefona porque sim. Amor é quando a gente pensa, todos os dias, coisas surpreendentes. Amor é quando a gente abre um livro de histórias e julga que as letras são nossas. Amor é quando a gente explica aos alunos que existe paixão.
Amor é quando a gente fica com dor nas costas porque descuidou um só dia de respiração. Amor é quando a gente mata o ego e percebemos que ele existia só para dificultar. Amor é quando a gente principia fins que julgávamos terem ido embora. Amor é quando a gente estica os braços até ao que o outro não disse. Amor é quando a gente faz tudo com a carne de quem agarra a vida, crua e fabulosa.

9.10.08

A FERRO E FOGO


(Mário Cesariny)

Hoje voltei do nada. Regresso ao que sou, todos os dias, deixando os detalhes à porta. Tranco-me no espaço das essências encontradas a ferro e fogo.

7.10.08

SÁBIA PACIÊNCIA


(Mário Cesariny)

Na vida, é preciso esperar o momento de afirmar a existência com força. Esperar que os dias aconteçam, que o corpo se incline para o alto. Esperar que a alma berre a justiça. Depois, com a calma que vamos buscar ao instinto, percebemos sempre que valeu a pena estarmos atentos.

6.10.08

DEPOIS DO CANSAÇO


As coisas ficam mais brandas quando, sem medo, misturamos água com grito. Depois do cansaço, resulta manso, o abraço tranquilo.

3.10.08

MANIAS


Ter a mania que as pessoas devem ser perfeitas só porque as amamos, é pior que pensar que elas são mesmo perfeitas por causa do nosso amor.

2.10.08

IMERSÃO ESPIRITUAL NA MATÉRIA


(Mário Cesariny)

Ando com um livro em mãos desde Agosto. Não me apetece lê-lo nem me apetece parar de o ler. Como se de um gelado se tratasse. Vai-se derretendo na mão e, ao mesmo tempo que sentimos o fresco pegajoso e doce a escorrer, temos a sensação de querer engoli-lo depressa. Coisa curiosa. Tarkovski em perspectiva no decorrer de muitas páginas sobre os seus filmes.
Coloca-se a questão da espiritualidade e da matéria no seio de uma teologia materialista. A pergunta insiste em ser feita: o sujeito entra no domínio do sonho e da espiritualidade quando perde o contacto com a realidade material que o rodeia ou, ao contrário, quando abandona o domínio do intelecto e se envolve numa relação intensa com a realidade material?
É possível atingir, através dos despertos e atentos sentidos, através do contacto profundo e intenso com a matéria, uma certa forma de transfiguração que propicia o encontro com uma paisagem onírica? Que postura espiritual profunda é essa que se busca no abandono do intelecto e na imersão à realidade material? Que tipo de espiritualidade se encontra quando, na terra dura e húmida, deposito todos os sentidos?
Na nossa tradição ideológica clássica, a aproximação ao espírito é vista como elevação, como um processo em que o corpo se desembaraça da força da gravidade que o prende à terra e levita, como se nada mais existisse além do sublime, além da alma que se livra do universo material para pairar em absoluto.
No universo de Tarkovski, penetramos na dimensão espiritual através do contacto directo e físico com o peso, a dureza e a humidade da terra que nos puxa, inevitavelmente, para um centro.
Ando com um livro em mãos desde Agosto. Sei que há a ilusão de um fluxo de tempo que resulta da estreiteza da nossa consciência mas, Einstein que me desculpe, por muito estreita que a minha consciência seja, há semanas que procuro a resposta a uma questão fundamental: a matéria é ou não é o oposto da espiritualidade?

1.10.08

PRIMEIRA E SEGUNDA


(Mário Cesariny)

Hoje sou duas. A primeira está entregue ao mundo que a absorve. Não sei se o tempo permitirá ir à procura da segunda, da que está inteiramente livre.

30.9.08

ANEDOTA


(Mário Cesariny)

Parece que a avaliação dos professores é anedota ainda maior do que se julgava. Professores de Filosofia avaliam pares de Geografia professores de Geografia avaliam disciplinas de que nunca ouviram falar por se tratar de matérias leccionadas à noite, cenário desconhecido para os professores do regime diurno. Tudo dentro da maior legalidade.
Se, um dia, for a uma consulta de ortopedia e o médico estiver a ser avaliado por um especialista em ginecologia, não me surpreenderá. Tudo é possível no país da ameijoa à Bolhão Pato.
A vontade de me rir ainda não parou. Preciso de químicos. JÁ.

29.9.08

15- MÁRIO CESARINY



Pintor e poeta português, natural de Lisboa, nasceu a 9 de Agosto de 1923.
A sua formação artística inclui o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudos na área de música, com Fernando Lopes Graça. Mais tarde, viria a frequentar a Academia de La Grande Chaumière, em Paris, cidade onde conheceu André Breton, em 1947. Rapidamente atraído pelas propostas do movimento surrealista francês, tornou-se um dos mais importantes defensores do movimento em Portugal. Ainda nesse ano, integrou o Grupo Surrealista de Lisboa.
Cesariny, figura sempre inquieta e questionadora, afastava-se assim, de maneira definitiva, do movimento neo-realista.
Dinamizador da prática surrealista em Lisboa, iria criar «antigrupos», com a mesma orientação mas questionando e procurando um grau extremo de espontaneidade, tentativa também visível na sua obra poética.
Morreu em Lisboa a 26 de Novembro de 2006.

25.9.08

TUDO RESOLVIDO


(E. Hopper)

Quando eu for mais crescida, quero sentar-me na varanda de uma casa imaginada e poder dizer que tudo o que fiz, valeu. Um dia, quando eu for mais crescida, quero uma casa com varanda, olhar para longe e perceber que, atrás de mim, está tudo resolvido.

24.9.08

FELIZ ANIVERSÁRIO

Ao Sem Pénis Nem Inveja, vida longa e bonita. Que permaneça uma referência na blogosfera e no quotidiano de quem gosta de ler a qualidade.
Feliz Aniversário, Teresa.

A SAUDADE MORREU


(E. Hopper)

Depois de muito tempo sem falarem, ela recebeu um e-mail. Tinha três linhas e duas intenções. Leu-o e colocou a mão no queixo de forma a que o tempo lhe sugerisse resposta. Enviou-lhe não mais que duas linhas e três intenções. Depois, quando a esplanada já não tinha sol e os dois não se entenderam, a vida ficou diferente, as costas de quem se deita menos curvas e cansadas. Porque tudo parece acabar quando a ausência supera a saudade e o sono aniquila a memória.

23.9.08

VIDA


A vida é uma peça, mas sem ensaios. Por essa razão, canta, dança, chora e ri intensamente, antes que o pano caia e a peça termine sem aplausos.



Charlie Chaplin