2.10.08

IMERSÃO ESPIRITUAL NA MATÉRIA


(Mário Cesariny)

Ando com um livro em mãos desde Agosto. Não me apetece lê-lo nem me apetece parar de o ler. Como se de um gelado se tratasse. Vai-se derretendo na mão e, ao mesmo tempo que sentimos o fresco pegajoso e doce a escorrer, temos a sensação de querer engoli-lo depressa. Coisa curiosa. Tarkovski em perspectiva no decorrer de muitas páginas sobre os seus filmes.
Coloca-se a questão da espiritualidade e da matéria no seio de uma teologia materialista. A pergunta insiste em ser feita: o sujeito entra no domínio do sonho e da espiritualidade quando perde o contacto com a realidade material que o rodeia ou, ao contrário, quando abandona o domínio do intelecto e se envolve numa relação intensa com a realidade material?
É possível atingir, através dos despertos e atentos sentidos, através do contacto profundo e intenso com a matéria, uma certa forma de transfiguração que propicia o encontro com uma paisagem onírica? Que postura espiritual profunda é essa que se busca no abandono do intelecto e na imersão à realidade material? Que tipo de espiritualidade se encontra quando, na terra dura e húmida, deposito todos os sentidos?
Na nossa tradição ideológica clássica, a aproximação ao espírito é vista como elevação, como um processo em que o corpo se desembaraça da força da gravidade que o prende à terra e levita, como se nada mais existisse além do sublime, além da alma que se livra do universo material para pairar em absoluto.
No universo de Tarkovski, penetramos na dimensão espiritual através do contacto directo e físico com o peso, a dureza e a humidade da terra que nos puxa, inevitavelmente, para um centro.
Ando com um livro em mãos desde Agosto. Sei que há a ilusão de um fluxo de tempo que resulta da estreiteza da nossa consciência mas, Einstein que me desculpe, por muito estreita que a minha consciência seja, há semanas que procuro a resposta a uma questão fundamental: a matéria é ou não é o oposto da espiritualidade?

1 comentário:

alf disse...

Interessante questão! Vou perder algum tempo a pensar nisso... para já, está a ocorrer-me o seguinte:

- embora a generalidade das pessoas não tenha consciência disso, tudo se passa como se nós tivessemos duas cabeças: uma gera o pensamento consciente que identificamos com «nós», a outra funciona por mecanismos que não «vemos», decide por razões que desconhecemos, coloca a sua decisão no «consciente» que, normalmente, se apressa a inventar argumentos para justificar essa decisão e a dar-lhe execução.

Temos assim uma cabeça «consciente» e uma cabeça «inconsciente».

Quando procuramos distância aos sentidos, estamos a concentrar-nos na cabeça «consciente» - chamamos a isso «espiritualidade»; mas podemos fazer exactamente o oposto, concentrarmo-nos na cabeça «inconciente»; que é a cabeça que realmente nos comanda.

Estas duas cabeças conflituam, pois a inconsciente tem um modelo de realidade construido de maneira diferente da «consciente»; quando nos concentramos só numa eliminamos esse conflito interno e isso dá-nos uma sensação rara de «paz», de «elevação».

Por isso, poderemos chegar à mesma sensação tanto pela distanciação aos sentidos como pela imersão neles.

Bem, isto foi só uma teoria... afinal um ET como eu ainda está só a começar a compreender os humanos...

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