7.11.08
CAROLINA (2)
Na noite em que o malmequer morreu, Carolina estava só. Tinha bebido uísque sem cigarro. Carregou no botão do On perto de si e ouviu os sons do descontentamento.
6.11.08
CAROLINA (1)
A noite estava fria. Carolina vestiu a T-Shirt do malmequer já morto. Sentiu frio. Enrolou-se no passado e adormeceu. Quieta.
5.11.08
O ENCUNICRADO
(Carruço)
A palavra é invenção. Não consta em nenhum dos dicionários cá de casa. Por trás das palavras que se inventam estão, muitas vezes, factos ou pessoas. O encunicrado é hoje objecto de referência. Estão em todo o lado, eles e elas, nascem como cogumelos e pairam sem que o rasto desapareça. Os encunicrados da vida subsistem com um objectivo: encunicrar a vida dos outros. Vejamos:
1 – O encunicrado nunca entende que a culpa pode estar nele, prefere apontar a pistola ao mundo a ter alguma capacidade de auto-análise.
2 – O encunicrado não toma banho todos os dias. É normalmente alguém que prefere viver com o prazer do cheiro alheio por isso, cola-se às pessoas para sugar, pelas ventas, o aroma que nunca consegue ter.
3 – O encunicrado fala sistematicamente do passado. Reclama, cobra, faz listas, refere inúmeras vezes a mesma ideia e afirma a sua auto-estima por via da força verbal bruta.
4 – O encunicrado adora tecnologias. Passa horas em frente ao computador e manda por e-mail todas as tretas que recebe mas que não têm interesse algum.
5 – O encunicrado é chato, liga para coisa nenhuma e usa muitas palavras para dizer sim e não.
6 – O encunicrado casa sempre com uma encunicrada, a menina do bairro cujos pais deixaram sair de casa aos 30 anos para casar de véu e grinalda, com sapatinho forrado a seda.
7 – A encunicrada dorme com o encunicrado e, aos sábados, vão ao Continente com a lista das compras para, durante duas horas, discutirem os preços e as marcas da mercearia.
8 – O encunicrado estaciona sempre o carro em lugares arejados, com vista para o horizonte e dianteira para a saída.
9 – Deve-se ao encunicrado, a invenção das reuniões para nada e o dossier para coisa de espécie alguma.
10 – É sempre, o encunicrado que lixa a vida ao parceiro porque, a sua existência, depende do mau humor que consegue propagar. Complicar é um meio de subsistência, de sobrevivência e de auto-afirmação. Nunca se assume nem sabe o que isso é.
As palavras que se inventam dão sempre imenso arranjo quando se tem que escrever uma crónica. As criaturas que a elas se ajustam, aparecem no momento do puro exercício de materialização do conceito.
4.11.08
CONTENTES
O destaque pela positiva, no meio da maior menoridade, leva a preço muito alto: o do rótulo da arrogância. Ainda não entendi se, de facto, há arrogância na postura positiva e humorada face à vida. Talvez distraídos, os mais sorridentes, comandam uma certa forma de vida. Assumida ou distraidamente elevada.
3.11.08
17 - CARRUÇO

Nasceu na década de setenta em Lisboa. Segue uma vida académica ligada às Ciências Exactas, até decidir unir esta paixão à Arte, mais concretamente à pintura. Aceita encarar a pintura como actividade organizada em 2002. Em 2003, frequenta o Curso de Gravura da Cooperativa de Gravadores Portugueses e frequenta o atelier do artista plástico António Sem. Em 2004, inscreve-se e conclui o curso de Técnicas de Pintura Renascentistas da Angel Academy of Arts de Florença.
A sua produção artística espraia-se por diferentes estilos, orientados na busca de uma voz original no mundo da Arte. Essa voz está a chegar com uma nova corrente que designou de sinuosismo, inspirada nos saberes científicos do espaço curvo, do movimento perpétuo e outras inspirações da área da física.
1.11.08
"BATALHA CAMPAL"
Os Antónios escreveram um livro sobre as duas cidades mais cobiçadas do país. Parabéns, companheiros.
31.10.08
30.10.08
29.10.08
DEPOIS
28.10.08
ANTES
Antes do dia da inteireza. Antes do grito. Antes do aperto de peito . Antes da vida. Antes de tudo.
27.10.08
ESQUECIMENTOS
Vou à procura dos beijos que ficaram longe, das palavras que não disse e da consciência que deixei sozinha.
26.10.08
LUX FRÁGIL
As pernas estavam abertas. Todos entramos pela enorme vagina. Lá dentro havia gente e música. Havia homens a conversar com homens, camas com corpos deitados e copos com lágrimas contentes. As mulheres estavam despertas. Em frente ao rio, dentro daquela vagina, todos éramos quase iguais.
24.10.08
QUE IMPORTA?
Que importam os dias se os troco pelos beijos, as horas pelas palavras e o tempo pela consciência?
23.10.08
22.10.08
OS BRAÇOS DOS DIAS QUE NÃO VIERAM
Brandi Carlile - The Story
Hoje deveria estar em frente ao mar, olhar para as algas verdes com a ilusão de um encarnado de sangue. Hoje deveria estar em pé, em frente ao vento cortante, com a ilusão de um cheiro longínquo. O dia do começo, do grito, da força, das pernas em arco, da vida pequena, da fragilidade a prometer força, da família reunida à volta do berço, da avó que ri e pega ao colo, da mãe com lágrimas salgadas e da irmã menina com medo dos beijos que podem fugir.
Hoje deveria estar quieta, com o pensamento a nascer, de novo, como se fosse possível voltar ao dia em que vi a luz e chorei. Julgo que foi um dia de sol, entre ruas estreitas espreitei quem, em mim, operou algum destino. Entre pedras de calçada gasta, vim ao mundo nua, suja, cheia de sangue e calor. O meu pai pôs em mim o riso e a minha mãe, o pranto desmanchado e quente. Os vizinhos correram a levar a nova a amigos próximos e conhecidos íntimos. Julgo que foi um dia de sol, entre a cama castanha e a cómoda com gavetas arrumadas. A parteira não se cansou, foi limpo, como quando se quer tirar do forno o cabrito pronto. Parece-me que ninguém se queimou, não houve reclamação de que era gorda, magra, feia ou bonita. Nasci com a calma de um meio-dia em ponto, marcada a hora de respirar, sem água.
Hoje deveria estar perto do mar, a lembrar-me do dia em que me puxaram para fora e me ensinaram a comer, a lembrar as primeiras horas de sono em lençol e o primeiro banho de sabonete cor-de-rosa que a minha mãe comprava na mercearia de uma avó austera com sorriso sofrido.
Hoje, no dia em que continuo viva, vou estender-me na relva a olhar para a finitude do que já experimentei. Depois correr, correr para os braços da história que ainda falta contar!
In: PnetMulher
21.10.08
CERTEZAS
Tenho a certeza que a história que falta contar tem braços longos, macios e muito distantes do tempo que se foi embora.
20.10.08
IMPRESSÕES
18.10.08
MAU USO DE FERRAMENTAS
Gostava muito que se fizesse uma avaliação séria e rigorosa ao desempenho dos nossos governantes. Exigir, como ponto prévio ao processo, uma espécie de triagem que possibilitasse a clarificação dos motivos que suportam as atitudes e as decisões.
A possibilidade de uma terapia aplicada a cada pessoa que tem nas mãos o poder, seria uma das soluções.
É imprescindível que os portugueses entendam que, por trás de uma má utilização de ferramentas políticas, pode estar uma má gestão de ferramentas do foro pessoal e íntimo.
17.10.08
16.10.08
BillTracking

(Egon Shiele)
O Bill Tracker é o indivíduo que, mediante registo num site da Internet, se dedica a seguir o rasto das notas de euro em todo o mundo. Dizem que é divertido. Registam, numa base de dados, o número de série das suas notas, e podem conseguir saber onde estiveram os preciosos papelinhos numa determinada data, o caminho que a nota percorreu, o país onde foi impressa, o país onde começou a circular, enfim… a história de um percurso por esse mundo fora.
Parece que Portugal está em sétimo lugar na lista dos países mais utilizadores da prática. Trata-se de um hobby e não só, há já uma espécie de “comunidade europeia de seguidores de notas de euro”.
Eu acho muito interessante. Considero de importância crucial sabermos a “vida” das notas que pela nossa carteira passam. Ler a entrevista feita a um Bill Tracker foi, para mim, experiência digna de registo. O senhor estava, de facto, empenhado no percurso da nota, já tinha registado mais de mil números de série e todos os dias ia vasculhar os caminhos das ditas por essa Europa fora. Era um cidadão empenhado, com objectivos na vida, sabia-se integrado num grupo de investigação importante e, dizia, ser o seu passatempo de eleição.
Suponho que passa horas em frente ao mapa da Europa a olhar para as linhas de percurso das notas e a transpirar de satisfação pelo facto de ter, em sua posse, a verdade da “vida” das ditas.
Entre Lisboa, Covilhã, Sevilha, Salamanca, Paris, Bruxelas, Génova e Nápoles, a nota que se teve em mãos, chegou à Islândia, irá ser trocada por coroa. Já tinha passado em Oslo sem paragem nem câmbio. Fabuloso! É, por certo, uma sensação estrondosa, comparável à satisfação que se tem quando, de um filho, se recebe o telefonema de férias a dizer que está bem, em Skaftafell, a olhar para a finitude das bétulas.
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