5.11.08

O ENCUNICRADO


(Carruço)

A palavra é invenção. Não consta em nenhum dos dicionários cá de casa. Por trás das palavras que se inventam estão, muitas vezes, factos ou pessoas. O encunicrado é hoje objecto de referência. Estão em todo o lado, eles e elas, nascem como cogumelos e pairam sem que o rasto desapareça. Os encunicrados da vida subsistem com um objectivo: encunicrar a vida dos outros. Vejamos:
1 – O encunicrado nunca entende que a culpa pode estar nele, prefere apontar a pistola ao mundo a ter alguma capacidade de auto-análise.
2 – O encunicrado não toma banho todos os dias. É normalmente alguém que prefere viver com o prazer do cheiro alheio por isso, cola-se às pessoas para sugar, pelas ventas, o aroma que nunca consegue ter.
3 – O encunicrado fala sistematicamente do passado. Reclama, cobra, faz listas, refere inúmeras vezes a mesma ideia e afirma a sua auto-estima por via da força verbal bruta.
4 – O encunicrado adora tecnologias. Passa horas em frente ao computador e manda por e-mail todas as tretas que recebe mas que não têm interesse algum.
5 – O encunicrado é chato, liga para coisa nenhuma e usa muitas palavras para dizer sim e não.
6 – O encunicrado casa sempre com uma encunicrada, a menina do bairro cujos pais deixaram sair de casa aos 30 anos para casar de véu e grinalda, com sapatinho forrado a seda.
7 – A encunicrada dorme com o encunicrado e, aos sábados, vão ao Continente com a lista das compras para, durante duas horas, discutirem os preços e as marcas da mercearia.
8 – O encunicrado estaciona sempre o carro em lugares arejados, com vista para o horizonte e dianteira para a saída.
9 – Deve-se ao encunicrado, a invenção das reuniões para nada e o dossier para coisa de espécie alguma.
10 – É sempre, o encunicrado que lixa a vida ao parceiro porque, a sua existência, depende do mau humor que consegue propagar. Complicar é um meio de subsistência, de sobrevivência e de auto-afirmação. Nunca se assume nem sabe o que isso é.
As palavras que se inventam dão sempre imenso arranjo quando se tem que escrever uma crónica. As criaturas que a elas se ajustam, aparecem no momento do puro exercício de materialização do conceito.

1 comentário:

Anónimo disse...

"O encunicrado nunca entende que a culpa pode estar nele, prefere apontar a pistola ao mundo a ter alguma capacidade de auto-análise."
A Senhora Professora pede-me para vir visitar o seu blog e deixar um comentário. Faço como me pediu e deparo-me com esta bonita descrição citada acima. Quase que parecia ser dedicado a mim. Espero que não, até porque eu tomo banho todos os dias. E também tenho sempre razão.

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