4.1.12

As letras grandes

“Se o mundo é absurdo – pelo menos opaco, indecifrável – há que escutar a voz daqueles cujo espírito é aparentemente desregrado. Talvez eles tenham mais sorte que nós (nós, os ‘normais’) em penetrar no matagal em que vivemos. Talvez tenham contacto direto com o nódulo obscuro das coisas.
Em todas as tradições – com alguma prudência e irrisão – o ´louco´foi sempre cuidadosamente escutado. Algumas das histórias que lhe são atribuídas podem surgir como as mais sensatas do mundo. E o mesmo quanto aos bêbados, até aos drogados, que perderam provisoriamente o espírito para nosso maior benefício.
Também aqui a lógica é afetada, as relações correntes são invertidas, acende-se uma outra luz.
Passa-se na corte do Japão. Um cortesão escreve uma carta e utiliza para tal caracteres enormes.
Passa um outro que estranha:
- É uma carta?
- Sim.
- Nunca tinhas visto letras tão grandes. Deve tratar-se de um assunto muito importante.
- Não é isso, estou a escrever a um surdo.”

Jean Claude Carrière; Tertúlia de Mentirosos.

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