30.4.12

O lado esquerdo da dor


Os passos marcavam o chão com certeza. Andou depressa em cima das vontades adiadas. Não lhe apetecia que chovesse. Saiu de casa com os lábios cerrados. O vento fez com que andasse até às árvores nuas. Dia frio, como a alma de quem se levanta tarde. Os passos marcavam todos os quarteirões, contados do lado esquerdo da dor. 

Não queria que o tempo ficasse escuro, mas a manhã já tinha prometido uma certa não simpatia. Chegou às árvores e parou. A chuva tinha vindo cheia de raiva. Esperou que o molhado da fúria passasse e seguiu, com os pés a marcar a marcha, agora molhada e infinitamente reconhecida. 

Abriu a porta de casa e esticou os músculos que traziam vontades perdidas. Recuperou o corpo esquecido e, as pernas saltaram para dentro da banheira. Era a hora do almoço.

2 comentários:

ana s. pinheiro disse...

As palavras que nunca conseguirei escrever, assim,mas que consegues fazer minhas e, por certo,de tantos outros leitores. A isso chama-se literatura. A ti já não chamo autora, mas escritora.:))bjs

Dobra disse...

Oh rapariga, não me envergonhes.

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