7.6.08

VALSA, VINHO, VELUDO E SEDA



Naquela semana o texto estava escrito. A sua editora não podia reclamar. Eficiência garantida. Desta vez, encostou-se no sofá, de frente para a prateleira de livros antigos, enfileirados por épocas e autores. Olhava-os como se lesse, todos os dias, uma história diferente. Inventava, com o cigarro de enrolar entre os dedos, os episódios mais sublimes que alguma vez supusera. Viagem a Veneza na época das caras pintadas e dos corpos vestidos de outrem.

Não quis fechar os olhos às palavras e abriu um dos volumes empoeirados. Página 50: Sim, poucos seres tem havido mais naturais do que eu. O meu acordo com a vida era total, eu aderia ao que ela era, de alto a baixo, sem nada recusar das suas ironias, da sua grandeza, nem das suas servidões (Albert Camus; A Queda). Agora as palavras seguiam, rumo à Praça de S. Marcos. Gordas. Viscosas. Empacotadas em máscaras.

Continuava a vida na sala pouco iluminada que se enchia de fumo. Não podia evitar fechar os olhos, de novo.A casa tinha-os acolhido num fim-de-semana em Veneza. O lugar onde os corpos se encontraram pela segunda vez. Espelhos altos, molduras douradas e Frescos de Miguel Ângelo. Ninguém era, naquela noite, mais que máscara polida pelas luzes dos castiçais. Olharam-se por detrás das caras coladas a si e, deixaram que a noite existisse. O vinho era presença nas mesas baixas e os tecidos mexiam-se com a aragem vinda das janelas abertas para a Praça de S. Marcos. A sabedoria acompanhava-os desde a primeira noite em Montmartre, quando todos pareciam ter conhecido a nudez do tango.

Respiraram tudo o que o Carnaval oferece e a valsa presenteia. Elegância. Sensualidade. No lugar do piano, os punhos brancos e os dedos compridos de quem tocava Gymnopédie No.1 - Erik Satie.
No momento de acabar a história, o livro caiu-lhe das mãos. Acordou do sono inventado por instantes. Tinha aderido, de alto a baixo, à vida e às suas ironias, suas servidões e seus prazeres.

A noite em Veneza acabou com o derradeiro beijo feito em texto, mexido com as mãos que lêem e os ouvidos atentos à obra.
Os Frescos continuavam pendurados no lugar das fantasias, encontradas no meio do cigarro feito com os dedos.

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